sexta-feira, 29 de outubro de 2021

 




Um Sonho Impossível.



Sonhar o sonho impossível

Combater o inimigo imbatível

Suportar uma dor insuportável

Ir aonde os corajosos não se atrevem ir


Corrigir o erro incorrigível

Ser muito melhor do que se é

Tentar com os braços exaustos

Alcançar a estrela inalcançável


Esta é minha busca, seguir aquela estrela

Não importa quão sem esperança

Não importa quão distante

Lutar pelo que é certo

Sem questionar ou repousar

………………………………..

O mundo será melhor por isto!

Elvis Presley



Não consigo ouvir esta canção sublime sem pensar nos grandes desafios das nossas vidas. Inspiro-me nela para os casos pessoais, profissionais e especialmente no do meu país. Afastando-me do pessoal, ela coloca- me diante do desafio da maioria dos  inconformados com a miséria de muitos de nossos concidadãos-irmãos. Inconformismo legítimo tendo em conta termos sido abençoados com as  melhores condições de território, clima, povo…para o desenvolvimento econômico. Só temos, como paralelo para comparação, o país mais poderoso do mundo - os Estados Unidos da América. Então o que tem feito o nosso  desejo legítimo de sermos uma nação próspera parecer um sonho impossível?


A nossa economia não cresce há duas décadas. A renda per capita é inferior à da decadente  Argentina. Os nossos assalariados disputam remunerações miseráveis. Temos a pior das desigualdades: salários, vantagens e regalias à nomenclatura e miséria à camada menos favorecida. O mérito, que deveria ser o critério de premiação, está desvirtuado. Não se premia  o  espírito empreendedor, talento inventivo, esforço físico, mas os  “amigos do rei”. Em consequência, nestas décadas, o que prosperou foi o tamanho do governo. Desde a proclamação da República ( 1889 )  o custo do governo subiu de 7% do PIB para estimados 50% ( incluindo déficit público e inflação) * . Destes  97% são desperdiçados com o custeio da máquina e uma migalha com gastos sociais. O resultado, sem ter investimentos,  é a atual estagnação da economia. A qualidade de vida da maioria não melhorou e a infraestrutura deixa a desejar.


Porém, a coisa poderia ser menos ruim. Um governo sem recursos para investir poderia ter como compensação investimentos da iniciativa privada, que tem sido a salvação da “ lavoura “ , mas esta está castrada pela burocracia, insegurança jurídica e instabilidade política. Chegamos, assim, a inviabilizar a economia mais propícia de ser viabilizada - a do Brasil. A tal ponto chegamos que os brasileiros atravessam o deserto do México para ser trabalhadores clandestinos nos Estados Unidos e outros  têm depositados US $400 bilhões  no exterior, que poderiam estar investidos aqui para dar emprego àqueles que emigram.


O Brasil se tornou, politicamente falando, um travesti. Nem é uma administração centralizada e nem é o  modelo de  federação, que copiamos dos americanos. Em uma federação  os estados têm autonomia e o governo central cuida das funções básicas, respeitando a independência dos estados. Mas, no nosso caso, fazemos um jogo duplo: a União duplica todas as funções existentes nos estados. Não só duplicam-se os custos como multiplica-se a burocracia estatizante. O ideal do modelo federativo, o princípio da subsidiariedade,  é a descentralização tendo em conta  o respeito às características regionais. Nem sempre o que é bom para um estado é bom para os  demais. O poder de decidir é mais eficaz quanto mais perto está do fato. E os fatos acontecem nos municípios, estados e só depois na União. Este modelo surgiu nos Estados Unidos , como diz  o próprio nome, por terem se formado da união de estados independentes , 13 no início, mas foi deformado aqui por termos  surgido de uma monarquia sobre um território único. No modelo travesti  o país do futuro está inviável!



Um sonho impossível seria voltarmos à ideia original republicana de  sermos realmente uma Federação. Neste sonho,  Brasília teria no máximo 6 ministérios, Defesa, Economia, Relações Exteriores,  Higiene e Saúde, Meio Ambiente e Casa Civiil, que coordenariam as ações de carácter nacional, mas respeitando a independência dos secretários estaduais de cada função. Brasília , em vez de 3,1 milhões de habitantes, teria a população de Washington  ( capital do mundo ) de 690 mil. Com a redução do patrimonialismo, da burocracia e da corrupção o governo seria o mínimo desejável. A arrecadação federal poderia ser reduzida tornando a economia competitiva - o que hoje não o é em termos internacionais. Esta deve ser  a  nossa busca : “ sonhar o sonho impossível… seguir aquela  estrela, não importa quão sem esperança, não importa quão distante, mas lutar pelo que é certo… O mundo será melhor por isto! “


São Paulo, 29 de outubro de 2021.

Jorge Wilson Simeira Jacob


* “Há um século, a renda per capita argentina era superior a quase todos os países europeus. Mas os gastos públicos, que nos anos 40 correspondiam a 10% do PIB, chegaram a 30% nos anos 70 e em 2015 atingiram 46%”

 . 

O Brasil copia o modelo que inviabilizou a Argentina.

Fonte: O Estado de São Paulo, A14, 17 de novembro de 2021.


quinta-feira, 21 de outubro de 2021

 A Cognição.


A cognição é a capacidade do cérebro perceber, raciocinar e armazenar as informações captadas pelos sentidos.

Dicionário Oxford Languages


Um dos maiores desafios da humanidade é a transmissão do conhecimento. A cognição é um processo lento, sujeito a interpretações e a enorme resistência. Uma parte da humanidade, uma elite, tem a compreensão dos fatos significativos da vida, outra,  os medianos, tem o entendimento, e uma grande massa vive alienada. A elite tem a clareza das causas mais profundas. Ela vai à raiz dos fatos, domina  os conceitos. Os outros entendem as causas primeiras, superficiais, mas não apreendem os conceitos básicos. Já a grande massa  é motivada pelas emoções, sobrevivendo na ignorância.

Desconhecem as razões por não terem sido educadas, mas  condicionadas. Agem intuitivamente por mimetismo ou reflexo. Estas são constatações e não discriminação, pois limitam-se a identificar as diversas reações frente às provocações cognitivas.


Por necessidade de  obter resultados, os responsáveis pelo ensino, pais, mestres, líderes, simplificam a transmissão do conhecimento. Não se ensina a pensar, a refletir e a  questionar. Em casa e nas escolas  ensina-se a obediência, a disciplina e a memorização. Em vez de estimular a compreensão,  limitam-se a fazer entender ou apelam para os sentimentos. É mais fácil fazer sentir o calor de uma chama do que que explicar os efeitos do calor. Demanda esforço, tempo e talento desenvolver o gosto pelo domínio dos conceitos para compreender o entendido. Frente a uma frase em grego, um néscio nada sente, os medianos entendem, mas é  a elite, que  ao dominar o idioma, apreende a mensagem e os seus desdobramentos.


Como desde o nascimento estamos todos em processo de aprendizado, somente avançam intelectualmente, sobressaindo da grande massa, os atentos às causas dos efeitos.  Newton, dizem, não se limitou a ver a maçã cair, viu a causa da queda e deduziu a lei da gravidade.  A ele e a muitos outros, a humanidade deve a sua  sobrevivência na face da terra, por não terem se  limitado a sentir a maçã na cabeça, a entender o fato, mas ao ter dominado a causa da queda.


A natureza foi pródiga com os humanos ao nos dotar, além da razão e do sistema nervoso, de cinco sentidos ( seis se considerarmos a intuição).  Se não tivéssemos estes recursos,  não teríamos sobrevivido como espécie. De todos os instrumentos de transmissão do conhecimento, sao as sensações os mais eficazes, principalmente as que nos causam gosto, desgosto, prazer, tristeza, euforia ou dor. As massas entendem mais por estas  emoções do que pela razão. Ainda que as emoções não levem à compreensão. Uma foto diz mais que mil palavras; um exemplo influencia do mais do que uma aula; e uma derrota ensina mais do que um treinamento. Está assim exemplificado um processo cognitivo.



Se a natureza nos propiciou elementos para a nossa sobrevivência, coube às sociedades criar   instrumentos para transmissão das nossas descobertas.  O uso da razão, incentivando a observação, análise e conclusão, é um recurso limitado a uma elite intelectual. A necessidade de motivar  as camadas não pensantes nos levaram a desenvolver uma arte de comunicação. Surge assim o teatro , a literatura, a pintura, o discurso político… A arte complementou a razão. Todos nós somos influenciados por algum tipo de arte. É maior a  probabilidade de uma ideia ser transmitida por um artista , um líder carismático, do que por um gênio intelectual. Este, ao tentar transmitir um conceito básico, uma teoria, não atinge o emocional … e se o homem comum não se emociona,  ele não se motiva. As grandes ideias necessitam de ser   traduzidas em forma que sensibilizem as massas - só assim caminha a humanidade. E é aproveitando disto que vivem  os demagogos e os demais artistas!


São Paulo, 20 de outubro de 2021.

Jorge Wilson Simeira Jacob




sexta-feira, 15 de outubro de 2021

 O Concorde


O consórcio Airbus lançou com grande alarido o Concorde. O primeiro avião  supersônico a voar.   O entusiasmo com as promessas de fazer o breakfast em Londres e almoçar em Nova York eram manchetes nos jornais. Finalmente superar a velocidade do som tornou-se viável. A realidade, porém, mostrou-se perversa. Ainda que viável tecnicamente, a inovação mostrou-se inviável comercialmente. O consumo  exigia estoque tal de combustível, que limitava a carga ( passageiros e bagagem ) e o tempo de voo. Mal dava para movimentar a carcaça . Uma década decorrida e o sonho do mais veloz que o som aterrizou para não mais voar.  


Restou dessa aventura a informação de ser possível voar-se superando a barreira do som, mas também que, ainda que tecnicamente viável, é inviável algo em que a produtividade está perto de negativa. O supersônico, como operação comercial, mostrou-se  inviável. A sua ressureição, se um dia acontecer,  dependerá da melhoria da equação: menor consumo por quilômetro/carga voada. É um desafio à produtividade.


O Brasil viveu um sonho semelhante, ser um êmulo da riqueza e poderio da América do Norte. Um sonho que fazia manchetes nos jornais. Tecnicamente, pensando em termos de território, população, clima…, tudo corroborava com esse sonho. Pudemos sonhar crescer em velocidade supersônica. O que aconteceu até duas décadas atrás. Mas, a nossa estrutura administrativa tornou-se altamente improdutiva. O potencial de riqueza  brasileiro, ainda que favorecido por Deus,  foi estragado pelo homem. Como o Concorde, no Brasil o   consumo de combustível é gasto só para impulsionar a máquina e assim mesmo para voos de galinha. Não sobra espaço para carga, passageiros e nem autonomia econômica de voo. O resultado é, economicamente e politicamente falando, ter se tornado uma operação inviável.


A sabedoria popular sabe que o primeiro passo para a solução de um problema é reconhecer a sua existência. Não serão os visionários/otimistas que apostam em suposta proteção divina e nem os que se satisfazem com pequenas conquistas, ainda que significativas,  que farão o Brasil realizar o seu potencial. Foram eles, que ignorando a produtividade, fizeram voar o Concorde e provocaram um rombo gigantesco nas contas da Airbus. São eles que nos farão perder tempo, satisfazendo-se com eventos que, ainda que positivos, não resolvem um problema estrutural. Uma maquiagem encobre as rugas, mas não as elimina. Ou o Brasil melhora a produtividade da sua administração ou terá o destino do Concorde.


Infelizmente, nem todos os problemas têm solução, e este será um deles,  se não se descobrir como desmontar uma máquina que consome todo o combustível consigo mesma. Onde quer que se olhe, a improdutividade é uma marca nacional, nos três poderes. Por isto, o Brasil está inviável…mesmo sendo muito viável.




São Paulo, 15 de outubro de 2021.


Jorge Wilson Simeira Jacob

domingo, 3 de outubro de 2021

 Educação e cultura.



Sem a mínima possibilidade de serem contestados, os defensores dos investimentos em educação podem defendê-la como um elemento importante para o desenvolvimento pessoal e nacional. Uma nação ou indivíduo sem boa educação  levará desvantagem diante de outros com melhor nível. Tanto a educação formal, acadêmica,  como a social adquirida na vivência, têm valores incontestáveis. O melhor investimento de um país ou de uma família é o destinado à educarão. Não só em termos de retorno, mas principalmente por ser o único patrimônio que, nos possíveis azares da vida, não se perde. Ninguém tira o que se sabe ! Nada é mais eloquente para mostrar a consciência do valor da educação no desenvolvimento do que o sacrifício pessoal de uma  multidão de estudantes, que trabalham de dia e estudam de noite. Este é um heroísmo que só se justifica pela importante contribuição dela para  forjar o futuro.


Entretanto, a educação por si só não é garantia de resultados. Basta olhar ao redor e ver exemplos de homens, em todas as profissões, com elevado nível educacional e  rica vivência, que não exibem sucesso econômico; e países, como o Brasil, que investiram em educação, mas  perderam a pujança. Nas últimas décadas, o país  passou a fazer companhia à Argentina, que é mais educada hoje, mas menos próspera do que antigamente. Ambos os países copiaram modelos educacionais  incompletos para satisfazer o   esnobismo  dos novos ricos, dos imigrantes pobres, de dar um  título de doutor para os filhos, em busca da ascensão social. Ao contrário da Alemanha, que a par dos cursos de excelência para uma elite, generalizou  cursos profissionalizantes para uma mão de obra com vocação ao trabalho. Esta deu ensejo a uma próspera  economia de pequenas empresas, melhorando a distribuição de renda e sendo o sustentáculo do poderio desenvolvimentista alemão. Na Alemanha, a erudição caminhou, passo a passo, com o  conhecimento prático. Nela, os seus usos e costumes privilegiam uma cultura que gera o progresso. No Brasil o ensino profissionalizante não está generalizado, limita-se ao Sesc,  Senai e ao treinamento nas empresas. 


Se a educação é importante para o desenvolvimento, a cultura é fundamental. Cultura no sentido de usos e costumes, de valores éticos e morais. Sem uma ordem de valores que privilegie o trabalho, a poupança e o investimento; sem  uma ética de respeito ao mérito; e sem o respeito à moralidade, nem o indivíduo e nem a  nação prosperam. A confiança nas leis e na ordem é elemento fundamental para o desenvolvimento de um país.


O Brasil era predominantemente uma economia agrícola até o fim da Segunda Guerra

 Mundial.  O café representava setenta por cento das nossas exportações . As nossas importações iam desde de trigo, arroz,  frutas argentinas a produtos básicos industrializados. A nossa agricultura e indústria era minimamente diversificadas. Durante a guerra havia racionamento de sal, açúcar, trigo… Após, o  governo Dutra deu uma abertura na economia, a que se seguiu um “porre” de importações, devido a um câmbio artificialmente baixo, mas deu início à industrialização. Com esta,  as cidades cresceram explosivamente, esvaziando os campos. O crescimento demográfico e a explosão da migração do campo para as cidade constituem-se em caso único no mundo. O Brasil fez a proeza de acolher nas zonas urbanas 158 milhões de habitantes* em poucos anos. Um fenômeno migratório inédito no mundo, cujo ônus foram as favelas e a  deterioração dos serviços públicos. Esta transição ocorreu sob a cultura de uma ética capitalista, onde imperou a meritocracia. O Brasil  prosperou!  Depois, na sequência, transitando para a ética do populismo-estatizante de inspiração  peronista, do reino da mediocracia, do assistencialismo social, o Brasil estagnou. Com o governo inchado, esterilizando algo como metade do PIB, agravou-se a qualidade de vida. Não foi, porém, um brasileiro menos educado o responsável pela perda do dinamismo da nossa economia, mas a cultura socialista. O Brasil melhorou com o cultivo da  meritocracia e está decadente com a cultura da mediocracia**. 



  • Segundo o Censo, em 1940 a população brasileira era de 40 milhões, sendo 31% nas cidades. Em 2020, estima-se um total de 212 milhões, sendo 41 milhões no campo e 170 milhões nas cidades. Entre 1940 e 2020 as cidades absorveram aproximadamente 158 milhões de habitantes. População maior do que a Rússia e o México em 2020.


    Ano                   população           urbana                           rural.                ( todos números arredondados )

    1940.                40 milhões.         12 milhões  ( 31% )        28 milhões 

    2020                213 milhões.       170 milhões ( 80%)         40 milhões 

    Acréscimos.    173 milhões.       158 milhões.                    12 milhoes


Fontes: Embrapa,  IBGE e Intercultural. O 


** Mediocracia , de medíocres. Governo dos medíocres. 


São Paulo, 02 de outubro de 2021. Milhões 

Jorge Wilson Simeira Jacob 

terça-feira, 14 de setembro de 2021

                                                                                           Mudanças.


 Na carroceria do caminhão, estão,

Em mudança para um novo casebre,

Todas as tralhas de uma casa pobre.

Só falta um vira-latas, um magro cão,

Aquele  que, no meio do caminho, caiu

E agora vaga sem destino e sem alento,

Andando de lá pra cá, sem se achar,

Grunhindo de tristeza e desalento

Sem saber que destino tomar.

Dos anos de felicidade e festanças 

Guarda saudades de doces lembranças :

Das  tristezas da casa que morou,

Das alegrias  que participou,

Da dor por cada um que partiu

Da grande alegria por quem  retornou, 

Dos anos de guarda e de fidelidade.

Agora, como cão perdido, sem dono,

Sem destino, vaga de beco em beco.

Enfrentando a triste e dura realidade,

No descaminho do  lar perdido.



Na carroceria do caminhão da vida,

Faltam outros cães, caídos das mudanças,

Desorientados, perdidos sem rumo.

Como vira-latas vagam sem alento,

Andando de lá pra cá, sem se achar,

Grunhindo de tristeza e desalento

Sem saber que destino tomar.

Dos anos de felicidade e festanças, 

Guardam saudades de doces lembranças:

Dos desafios das causas que lutaram,

Da dor por cada um dos que partiram,

Da grande alegria pelos que retornaram, 

Dos anos de guarda e de fidelidade.

Agora, como cães perdidos, sem dono,

Que, no descaminho do fim de vida,

 uma aposentadoria relegou à inutilidade.

Tendo n’alma um imenso vazio, 

Sem destino, vão, de beco em beco, a vagar

Enfrentando a triste e dura realidade,

Olhando o céu, esperando o tempo passar.


São Paulo, 14 de setembro de 2021.

Jorge Wilson Simeira Jacob

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

 


Caros leitores 


Tomo a liberdade de transcrever a minha tradução do artigo de capa da The Economist, desta semana. Justifico esta publicação pela importância do texto, que aponta o liberalismo  estar sob seria ameaça, pela ignorância dos que desconhecem a sua essência e por muitos dos seus adeptos, que duvidam da sua sobrevivência.


Mais uma vez, abuso da paciência dos leitores deste blog com um texto longo. Perdoem esta quebra do padrão de textos curtos, mas não resisto deixar de divulgar essa conclamação aos liberais.


Jorge




The Economist 


Pensamento político

 A ameaça da esquerda iliberal

 Não subestime o perigo da política de identidade de esquerda


 Algo deu muito errado com o liberalismo ocidental.  Em seu cerne, o liberalismo clássico acredita que o progresso humano é gerado pelo debate e pela reforma.  A melhor maneira de navegar por mudanças perturbadoras em um mundo dividido é por meio de um compromisso universal com a dignidade individual, mercados abertos e governo limitado.  No entanto, uma China ressurgente zomba do liberalismo por ser egoísta, decadente e instável.  Em casa, populistas de direita e esquerda se enfurecem com o liberalismo por seu suposto elitismo e privilégio.


 Nos últimos 250 anos, o liberalismo clássico ajudou a trazer um progresso sem paralelo.  Não vai desaparecer em uma nuvem de fumaça.  Mas está passando por um teste severo, assim como aconteceu há um século, quando os cânceres do bolchevismo e do fascismo começaram a devorar a Europa liberal por dentro.  É hora de os liberais entenderem contra o que estão lutando e contra-atacar.


 Em nenhum lugar a luta é mais feroz do que na América, onde nesta semana a Suprema Corte decidiu não derrubar uma lei anti-aborto draconiana e bizarra (veja a seção dos Estados Unidos).  A ameaça mais perigosa no lar espiritual do liberalismo vem da direita trumpiana.  Os populistas denegrem os edifícios liberais, como a ciência e o império da lei, como fachadas de uma conspiração do estado profundo contra o povo.  Eles subordinam os fatos e a razão à emoção tribal.  A persistente falsidade de que a eleição presidencial de 2020 foi roubada aponta para onde esses impulsos nos levam.  Se as pessoas não conseguem resolver suas diferenças por meio do debate e de instituições confiáveis, elas recorrem à força.


 O ataque da esquerda é mais difícil de entender, em parte porque na América o “liberal” passou a incluir uma esquerda iliberal.  Descrevemos esta semana como um novo estilo de política se espalhou recentemente a partir de departamentos universitários de elite.  À medida que jovens formados conseguiram empregos na mídia de luxo e na política, negócios e educação, eles trouxeram com eles o horror de se sentirem “inseguros” e uma agenda obcecada por uma visão estreita de obter justiça para grupos de identidade oprimidos.  Eles também trouxeram táticas para reforçar a pureza ideológica, sem plataforma para seus inimigos e cancelando aliados que transgrediram - com ecos do estado confessional que dominou a Europa antes do liberalismo clássico criar raízes no final do século 18 (ver Briefing).


 Superficialmente, a esquerda iliberal e os liberais clássicos como The Economist desejam muitas das mesmas coisas.  Ambos acreditam que as pessoas devem ser capazes de florescer independentemente de sua sexualidade ou raça.  Eles compartilham uma suspeita de autoridade e interesses arraigados.  Eles acreditam na conveniência da mudança.


 No entanto, os liberais clássicos e os progressistas não liberais dificilmente poderiam discordar mais sobre como realizar essas coisas.  Para os liberais clássicos, a direção precisa do progresso é desconhecida.  Deve ser espontâneo e de baixo para cima - e depende da separação de poderes, para que ninguém ou qualquer grupo seja capaz de exercer um controle duradouro.  Em contraste, a esquerda iliberal coloca seu próprio poder no centro das coisas, porque tem certeza de que o progresso real só é possível depois de ter verificado que as hierarquias racial, sexual e outras são desmanteladas.


 Essa diferença de método tem implicações profundas.  Os liberais clássicos acreditam em estabelecer condições iniciais justas e permitir que os eventos se desenrolem por meio da competição - por exemplo, eliminando monopólios corporativos, abrindo guildas, reformando radicalmente a tributação e tornando a educação acessível com vouchers.  Os progressistas vêem o laissez-faire como um pretexto que poderosos interesses investidos usam para preservar o status quo.  Em vez disso, eles acreditam na imposição de “equidade” - os resultados que consideram justos.  Por exemplo, Ibram X. Kendi, um ativista acadêmico, afirma que qualquer política daltônica, incluindo o teste padronizado de crianças, é racista se acabar aumentando os diferenciais raciais médios, por mais iluminadas que sejam as intenções por trás disso.


 Kendi tem razão em querer uma política anti-racista que funcione.  Mas sua abordagem bacamarte corre o risco de negar a algumas crianças carentes a ajuda de que precisam e a outras a chance de desenvolver seus talentos.  Os indivíduos, não apenas os grupos, devem ser tratados com justiça para que a sociedade floresça.  Além disso, a sociedade tem muitos objetivos.  As pessoas se preocupam com o crescimento econômico, o bem-estar, o crime, o meio ambiente e a segurança nacional, e as políticas não podem ser julgadas simplesmente pelo fato de promoverem um determinado grupo.  Os liberais clássicos usam o debate para definir prioridades e compensações em uma sociedade pluralista e, em seguida, usam as eleições para definir um curso.  A esquerda iliberal acredita que o mercado de idéias é manipulado como todos os outros.  O que se mascara de evidência e argumento, eles dizem, é realmente mais uma afirmação de poder bruto por parte da elite.


 Os progressistas da velha escola continuam a ser campeões da liberdade de expressão.  Mas os progressistas não liberais pensam que a equidade exige que o campo se incline contra aqueles que são privilegiados e reacionários.  Isso significa restringir sua liberdade de expressão, usando um sistema de castas de vitimização em que aqueles que estão no topo devem submeter-se àqueles com maior direito à justiça restaurativa.  Implica também dar exemplo aos supostos reacionários, punindo-os quando dizem algo que pretende fazer alguém menos privilegiado se sentir inseguro.  Os resultados são chamada, cancelamento e sem plataforma.


 Milton Friedman disse uma vez que “a sociedade que coloca igualdade antes da liberdade terminará sem nenhuma”.  Ele estava certo.  Os progressistas iliberais pensam que têm um plano para libertar grupos oprimidos.  Na realidade, a fórmula deles é para a opressão dos indivíduos - e, nisso, não é muito diferente dos planos da direita populista.  De maneiras diferentes, ambos os extremos colocam o poder antes do processo, os fins antes dos meios e os interesses do grupo antes da liberdade do indivíduo.


 Países governados por homens fortes que os populistas admiram, como a Hungria de Viktor Orban e a Rússia de Vladimir Putin, mostram que o poder sem controle é uma base ruim para um bom governo.  Utopias como Cuba e Venezuela mostram que fins não justificam meios.  E em nenhum lugar os indivíduos se conformam voluntariamente com os estereótipos raciais e econômicos impostos pelo estado.


 Quando os populistas colocam o partidarismo antes da verdade, eles sabotam o bom governo.  Quando os progressistas dividem as pessoas em castas concorrentes, eles voltam a nação contra si mesma.  Ambos diminuem as instituições que resolvem o conflito social.  Por isso, muitas vezes recorrem à coerção, por mais que gostem de falar sobre justiça.


 Se o liberalismo clássico é muito melhor do que as alternativas, por que está lutando em todo o mundo?  Um dos motivos é que populistas e progressistas se alimentam patologicamente.  O ódio que cada campo sente pelo outro inflama seus próprios apoiadores - para o benefício de ambos.  Criticar os excessos de sua própria tribo parece traição.  Nessas condições, o debate liberal carece de oxigênio.  Basta olhar para a Grã-Bretanha, onde a política nos últimos anos foi consumida pelas brigas entre os intransigentes Tory Brexiteers e o Partido Trabalhista de Jeremy Corbyn.


 Aspectos do liberalismo vão contra a natureza humana.  Requer que você defenda o direito de falar de seus oponentes, mesmo quando você sabe que eles estão errados.  Você deve estar disposto a questionar suas crenças mais profundas.  As empresas não devem ser protegidas dos vendavais da destruição criativa.  Seus entes queridos devem progredir somente com base no mérito, mesmo que todos os seus instintos sejam para quebrar as regras por eles.  Você deve aceitar a vitória de seus inimigos nas urnas, mesmo se achar que eles levarão o país à ruína.


 Em suma, é difícil ser um liberal genuíno.  Após o colapso da União Soviética, quando seu último desafiante ideológico pareceu desmoronar, as elites arrogantes perderam o contato com a humildade e a insegurança do liberalismo.  Eles adquiriram o hábito de acreditar que sempre estavam certos.  Eles arquitetaram a meritocracia da América para favorecer pessoas como eles.  Após a crise financeira, eles supervisionaram uma economia que crescia muito lentamente para que as pessoas se sentissem prósperas.  Longe de tratar os críticos brancos da classe trabalhadora com dignidade, eles zombaram de sua suposta falta de sofisticação.


 Essa complacência permitiu que os oponentes culpassem o liberalismo por imperfeições duradouras - e, por causa do tratamento dado à raça na América, insistir que o país inteiro estava podre desde o início.  Diante da persistente desigualdade e racismo, os liberais clássicos podem lembrar às pessoas que a mudança leva tempo.  Mas Washington está quebrado, a China está avançando como um furacão e as pessoas estão inquietas.


 Uma falta liberal de convicção

 A complacência final seria para os liberais clássicos subestimar a ameaça.  Muitos liberais de direita tendem a escolher um desavergonhado casamento de conveniência com os populistas.  Muitos liberais de esquerda se concentram em como eles também desejam justiça social.  Eles se consolam com o pensamento de que o mais intolerante iliberalismo pertence a uma franja.  Não se preocupe, eles dizem, a intolerância faz parte do mecanismo de mudança: ao se concentrar na injustiça, eles mudam o terreno central.  No entanto, é precisamente combatendo as forças que impelem as pessoas aos extremos que os liberais clássicos impedem que os extremos se fortaleçam.  Ao aplicar os princípios liberais, eles ajudam a resolver os muitos problemas da sociedade sem que ninguém recorra à coerção.  Apenas os liberais apreciam a diversidade em todas as suas formas e sabem como torná-la uma força.  Só eles podem lidar de forma justa com tudo, desde a educação ao planejamento e política externa, de modo a liberar as energias criativas das pessoas.  Os liberais clássicos devem redescobrir seu espírito de luta.  Eles devem enfrentar os agressores e os excluídos .  O liberalismo ainda é o melhor motor para um progresso equitativo.  Os liberais devem ter a coragem de o dizer.

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

 




O velho lobo do mar.


A piada é antiga e mesmo sendo muito boa não justifica repetí-la pelo humor, mas sim para ilustrar uma situação. Vamos à parábola : A caravela  aporta. Os marinheiros depois de meses no mar, com o recebimento dos soldos, correm para os bordeis do porto para saciar as necessidades. O velho lobo do mar, adianta-se aos marujos e comanda com autoridade: para lá,  a primeira garota é minha! Todos cedem a vez. O velho lobo do mar despe-se, deita-se com a companheira, mas a ereção não acontece. Ele não tem dúvidas. Está faltando o balanço do mar, afinal a terra firme o afeta. Manda que a garota balance com força a cama . Nada acontece. Também faltam os assobios dos ventos. A garota, além de balançar a cama, imita os fortes ventos nas velas. Sem alteração, manda que ela entre as carícias , os assobios, o balançar da cama, emita  os rugidos das madeiras. Fracasso total. Levanta-se, xinga a mãe da prostituta, dá-lhe  um bofetão e berra: também com uma zorra desta quem é que pode exibir a virilidade?


Não só do mar  aportam os velhos lobos . Podem vir de toda parte e muitos da política. A nossa história recente nos lembra de alguns. Jânio Quadros, aos desembarcar da caravela no Porto de Brasília, depois de uma eleição em que prometeu mundos e fundos, como fazem todos os candidatos, frustrou-se com os resultados. Pois, a  sua presidência perdeu-se em coisas miúdas, como  proibir biquínis nas praias, fechar as rinhas de galos e multar motoristas nas ruas. Sem outro projeto que não fosse uma ditadura, transferiu às forças ocultas as causas da sua impotência… e renunciou. Lulla, em arroubos megalomaníacos, gabava-se da sua ignorância, da sua pureza  e atribuía aselites os  seus fracassos. Fernando Henrique não teve pudor de comprar a reeleição, que agora renega, com o despudor de não ter tido tempo suficiente para realizar o seu programa socialista, que deixou incompleto. E agora, o Bolsonaro, cujo único projeto é a  reeleição, como o velho lobo do mar, atribui  a responsabilidade da sua inoperância aos outros poderes do estado. Mas, apesar de reconhecer que não consegue governar, por culpa das outros, pleiteia um novo mandato. Seria como se o velho lobo do mar, trocando de quarto, ou de companheira, ganhasse a virilidade perdida. Alegar que haverá melhoria no judiciário e no legislativo, com a nova eleição,  é um me engane que eu gosto. Os eleitores e as suas aspirações não mudarão e os togados e os seus interesses também não . Será mais do mesmo!


Uma reeleição só servirá para retardar o acerto de contas com a realidade. Se as causas das causas, que é a cultura populista-socialista,  não forem extirpadas da sociedade, não mudaremos a tendência declinante do nosso desenvolvimento. Só os de pouca  ambição, os de visão curta,  acreditam que os biquínis, as rinhas de  galo, o covid 19 , são suficientes para salvar um governo. Uma reeleição só servirá para que os satisfeitos com o jogo miúdo deste governo durmam tranquilos mais alguns anos, para acordarem daqui a pouco,  na mesma. É uma ilusão a de que fazer alguma coisa nos faz mudar para melhor. Os socialistas e os nazistas nunca foram acusados de omissos, pelo contrário, foram muito laboriosos. Eles são criticados  por terem trilhado o caminho errado. Pior do que andar devagar na direção certa, é ir  acelerado na direção errada. Insistir nas soluções paliativas, sem concentrar-se na causa das causas, é perder tempo precioso. Ou temos um candidato capaz  de enfrentar o desafio de provocar  um choque cultural ou é melhor deixar que a natureza siga o seu curso *. Será o que Deus quiser!




* Nota - respeito a clássica decisão de alguns de votar no menos ruim dos atuais candidatos, desde que com a consciência de que não será a salvação, mas tão somente protelar a solução das nossas mazelas.




São Paulo, 27 de agosto de 2021.

Jorge Wilson Simeira Jacob



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