sábado, 8 de agosto de 2026

 Paraíso Perdido

Um dos maiores desafios da humanidade talvez tenha nascido com o próprio homem: prever o futuro. Não fazemos isso apenas para satisfazer a curiosidade natural. Saber onde estão os perigos e as oportunidades sempre foi uma questão de conveniência e, sobretudo, de sobrevivência.

Na época das cavernas, sair para a selva significava enfrentar feras e inúmeros riscos físicos. Hoje, embora as ameaças sejam diferentes, elas se multiplicaram com o crescimento populacional e a complexidade da vida em sociedade. Os alimentos já não estão ao alcance das mãos, a violência urbana tornou-se uma realidade e a sobrevivência — a mais poderosa das motivações humanas — exige trabalho, planejamento e capacidade de antecipar os acontecimentos.

Ao longo da história, o homem respondeu a esses desafios pelo desenvolvimento do conhecimento. Criou a agricultura, domesticou animais, desenvolveu a meteorologia para prever o tempo, a medicina para prevenir doenças e inúmeras outras ciências que ampliaram sua capacidade de compreender e controlar a natureza. A ciência foi substituindo os pajés, os oráculos e as cartomantes por métodos baseados na observação, na experimentação e na razão.

Os resultados estão estampados na própria história da humanidade. A expectativa de vida praticamente dobrou em grande parte do mundo, a mortalidade infantil despencou e a qualidade de vida alcançou níveis inimagináveis para nossos antepassados.

A evolução do conhecimento lembra um antigo paradoxo das brincadeiras infantis.

Pergunta: “O que é que, quanto mais se tira, maior fica?”

Resposta: Um buraco.

Com o conhecimento acontece algo semelhante. Quanto mais aprendemos, maior se torna a consciência daquilo que ainda ignoramos. Cada descoberta abre caminho para novas perguntas.

Nem todos somos privilegiados com uma mente visionária como a de Elon Musk. Em entrevistas recentes, ele tem feito previsões ousadas sobre um futuro capaz de transformar profundamente a civilização. A autoridade de suas palavras decorre não apenas de sua imaginação, mas também de um histórico de realizações extraordinárias: redes de satélites que levam comunicação aos lugares mais remotos do planeta, foguetes reutilizáveis, veículos elétricos e avanços nas interfaces entre cérebro e computador.

Segundo Musk, a Inteligência Artificial poderá, em poucos anos, produzir uma abundância de bens e serviços jamais vista. Grande parte do trabalho hoje executado pelos homens será realizada por robôs, libertando as pessoas das tarefas repetitivas e ampliando enormemente a produtividade.

Se essas previsões vierem a se concretizar, estaremos recuperando, por meio da tecnologia, o Paraíso Perdido: um mundo de abundância, onde a escassez deixará de existir e a sobrevivência deixará de ser a maior preocupação humana. Não haverá mais ricos nem pobres, porque a prosperidade estará ao alcance de todos.

Em um mundo assim, perderia força um dos principais argumentos em favor do socialismo: a necessidade de redistribuir bens escassos. Se a escassez desaparecesse, também diminuiria o espaço para discursos políticos alimentados pelo conflito permanente entre ricos e pobres.

Talvez o maior desafio da humanidade deixasse então de ser produzir riqueza para aprender a conviver com a abundância.

E, desta vez, com uma vantagem sobre o relato bíblico: não será preciso sacrificar uma costela para que surja uma nova Eva.

surja uma nova Eva.


São Paulo, 28 de julho de 2026,