sábado, 29 de agosto de 2026

 O CANÁRIO NA MINA

A conhecida expressão “canário na mina de carvão” é usada para designar alguém ou alguma coisa capaz de detectar antecipadamente um perigo ou problema.

Nas antigas minas de carvão, os mineiros levavam canários para dentro das galerias. Extremamente sensíveis a gases tóxicos, especialmente ao monóxido de carbono, essas pequenas aves apresentavam sinais de intoxicação — e muitas vezes morriam — antes que os homens percebessem que o ambiente havia se tornado perigoso.

O canário era, portanto, um sinalizador de perigo.

Na economia de um país, o varejo exerce papel semelhante. Por estar na ponta da cadeia, em contato direto com o consumidor, é frequentemente um dos primeiros setores a perceber quando alguma coisa começa a dar errado.

O varejo é uma atividade particularmente vulnerável. Com algumas exceções, poucas empresas conseguem oferecer produtos ou serviços realmente diferenciados. A maioria trabalha com margens estreitas e enfrenta competição intensa.

A barreira à entrada também é relativamente baixa. Não é necessário um capital extraordinário para abrir uma loja ou iniciar uma operação comercial. Isso atrai continuamente novos concorrentes, aumentando a disputa pelos consumidores.

E, quando o produto é pouco diferenciado, muitas vezes resta ao comerciante uma única arma para vender: reduzir a margem de lucro.

O problema é que margens reduzidas, combinadas com custos fixos elevados, tornam a empresa extremamente dependente do volume de vendas. Uma pequena queda na demanda pode transformar rapidamente um lucro modesto em prejuízo.

Há ainda outro fator de fragilidade: a elevada alavancagem. Em muitas operações de varejo, o capital próprio é pequeno em relação ao volume movimentado. Uma redução persistente nas vendas pode, em pouco tempo, consumir o capital da empresa.

Não é por acaso, portanto, que o varejo costuma ser o primeiro a “abrir o bico”, como o canário das minas, quando a economia começa a perder oxigênio.

E, se o próprio negócio já é vulnerável, imagine o que acontece quando está inserido em uma economia instável, na qual as crises se sucedem com frequência.

A economia brasileira conhece bem esse ciclo.

Nos períodos de prosperidade, o consumidor se endivida, o crédito cresce, as vendas aumentam e os varejistas abrem novas lojas. A sensação é de que o crescimento veio para ficar.

Mas, quando chega a fase ruim, a conta aparece.

O consumidor endividado reduz as compras. As parcelas continuam vencendo. A inadimplência cresce. As vendas caem. As empresas, que haviam se expandido apoiadas no aumento do consumo, passam a carregar estruturas maiores justamente quando o faturamento diminui.

E o que antes parecia alavancagem para o crescimento transforma-se em alavancagem para a queda.

Os sinais de perigo estão à vista.

Os balanços de muitas empresas mostram prejuízos preocupantes. A inadimplência alcança níveis elevados. E chama a atenção o lucro extraordinário apresentado pelos bancos — mas é preciso lembrar que eles estão, em grande medida, do outro lado dessa equação: são os credores de quem está endividado.

Enquanto alguns preferem ignorar os sinais e acreditar que o endividamento pode continuar indefinidamente, a realidade econômica costuma ser menos complacente.

Na mina, quando os canários começam a morrer, ninguém discute se o ar ainda está suficientemente bom.

Os mineiros saem.

Quanto mais tempo permanecem dentro da mina, maior o risco.

O mesmo acontece com o endividamento. Quanto mais tempo uma economia permanece dependente do crédito para sustentar um consumo que já não consegue pagar, mais doloroso será o ajuste.

O varejo está na ponta.

É o canário.

E, quando ao canário começa a faltar ar, talvez seja prudente prestar atenção antes que falte ar também aos mineiros.

O canário anuncia o ar contaminado.
O varejo anuncia a economia doente.

Nota de rodapé

A atual crise do varejo pode ser equivocadamente atribuída à internet ou à queda da receita proveniente do crediário. Amazon e Mercado Livre são frequentemente apresentados como substitutos do varejo físico. Essa interpretação, porém, simplifica excessivamente a realidade.

Amazon e Mercado Livre são, em grande medida, plataformas de marketplace — verdadeiros “shoppings virtuais” nos quais milhares de varejistas e outros vendedores operam. Também possuem operações próprias de venda, mas seu papel como plataformas ampliou radicalmente a concorrência no comércio.

A internet mudou profundamente a forma de vender, mas não eliminou o varejo. Ao contrário: tornou a concorrência muito mais ampla e intensa.

As redes de supermercados, por exemplo, também enfrentam dificuldades e não foram simplesmente substituídas pela concorrência da internet. Tampouco dependiam, como outros segmentos do comércio, da receita financeira proporcionada pelas vendas a prazo.

A expansão das vendas pela internet ampliou a competição e pressionou ainda mais as margens, obrigando o comércio a disputar preços, conveniência e consumidores em um mercado cada vez mais competitivo.

Já o crediário é uma moeda de duas faces. Em uma economia favorável, o financiamento das vendas pode representar uma importante fonte de receita. Em uma economia desfavorável, porém, transforma-se em inadimplência, reduzindo justamente a receita que antes ajudava a sustentar o negócio.

A crise do varejo, portanto, não pode ser explicada por um único fator. A internet e a mudança no crédito fazem parte da transformação, mas podem ser mais sintomas e amplificadores da crise do que sua causa fundamental.

São Paulo, agosto de 2026.

sábado, 22 de agosto de 2026

 A Gravidade dos Vínculos

Duas necessidades são indispensáveis à existência humana. A primeira é física: sem a gravidade, a vida na Terra seria impossível. Flutuaríamos como os astronautas em órbita, incapazes de manter o controle sobre nossos movimentos, nossos bens e, em última análise, sobre a própria vida. Tudo escaparia ao nosso domínio.


A segunda necessidade é psicológica. Também ela exige uma forma de gravidade: o vínculo. O ser humano não consegue viver sem sentir que pertence a algo maior do que si mesmo. Nossa ligação com os mais diversos grupos — religiosos, políticos, esportivos, familiares ou culturais — acompanha a humanidade desde os seus primórdios.


A força desses vínculos frequentemente se sobrepõe à nossa própria vontade. Renunciamos a conveniências e, muitas vezes, até a convicções pessoais para nos entregar aos ideais do grupo ao qual escolhemos pertencer. 


Quanto menor a autonomia intelectual de um indivíduo, maior tende a ser sua identificação com as ideias que abraça. O fanatismo representa o ponto máximo dessa entrega ao sentimento de pertencimento.


Ao longo da história, porém, a evolução do conhecimento e os avanços tecnológicos vêm transformando profundamente a natureza desses vínculos. A ciência ofereceu novas explicações para questões antes exclusivas da religião; a Revolução Industrial criou uma nova organização social; a imprensa democratizou o conhecimento; e, mais recentemente, a internet passou a substituir parte significativa do contato presencial pelas relações virtuais. 


Cada uma dessas mudanças exigiu do ser humano uma profunda adaptação.

Se antes essas transformações ocorriam ao longo de séculos ou décadas, hoje acontecem em ritmo vertiginoso. As pessoas se conhecem pela internet, e não mais nos tradicionais locais de convivência. O calor humano, que durante milênios fortaleceu nossos vínculos, vem sendo gradualmente substituído pela frieza das interações virtuais.


Como se essas mudanças já não fossem suficientemente profundas, surge agora um novo desafio: a inteligência artificial. Alguns dos principais especialistas e visionários da área, entre eles Elon Musk, preveem um futuro em que robôs substituirão os seres humanos não apenas nas tarefas repetitivas, mas também em atividades intelectuais e criativas, criando uma sociedade em que o trabalho humano deixará de ser essencial.


As previsões mais ousadas falam em uma produção abundante, realizada a custos ínfimos, tornando o dinheiro cada vez menos necessário e fazendo com que bens e serviços se tornem amplamente acessíveis. Se esse cenário vier a se concretizar, as relações humanas poderão sofrer uma transformação ainda mais profunda. 


Paralelamente, emerge outro risco silencioso: o esvaziamento das relações estáveis e o aumento da dependência institucional. Em um mundo de abundância e conexões instantâneas, cresce a tendência do “só ficar”, da substituição do compromisso pela experimentação contínua, da permanência pelo transitório. Relações tornam-se mais leves, porém também mais frágeis, menos enraizadas e mais facilmente descartáveis. O vínculo, antes construído no tempo e na convivência, passa a competir com a lógica da substituição imediata.

Quando deixarmos de depender uns dos outros para produzir, trabalhar ou sobreviver, o que acontecerá com os vínculos que sempre deram sentido à nossa existência?

Talvez esse seja o maior desafio da humanidade. Assim como o universo se tornaria caótico sem a gravidade, o ser humano poderá perder seu equilíbrio se os vínculos que o unem aos outros desaparecerem. A gravidade sustenta os corpos; os vínculos sustentam a alma.


São Paulo, 27 de julho de 2026.

domingo, 16 de agosto de 2026

 Absenteísmo racional

Os seres pensantes estão perplexos com o futuro da humanidade. O decréscimo populacional, inimaginável para Mao Tsé-Tung, que matou milhões para conter o crescimento populacional na China; a inteligência artificial que, segundo entrevista à revista The Economist do  Elon Musk, vai nos fazer parecer chimpanzés comendo bananas; haverá uma abundância de bens e serviços que poderá fazer o dinheiro desaparecer por inútil; terá  fim as desigualdades sociais e econômicas, que poderá produzir, pela tecnologia, a revolução pela igualdade que o socialismo não conseguiu; e a colonização de Marte, como último refúgio dos sobreviventes do planeta Terra.

Os únicos tranquilos diante dessas ameaças são os absenteístas: aqueles indiferentes, por ignorância ou por imediatismo. Uns não entendem as consequências socioeconômicas e políticas; outros não costumam preocupar-se, vivendo apenas o dia a dia.

Uma ruptura dessa dimensão talvez não tenha ocorrido desde o surgimento do homem na Terra. A The Economist, uma das mais intelectualizadas representantes da imprensa mundial, que há 150 anos se aprofunda nos grandes temas universais, provavelmente nunca terá gasto tanta tinta quanto agora com o porvir da humanidade.

Se no Gênesis, em uma noite, o Criador dobrou a humanidade com Eva, certamente a equivalente da The Economist daquele tempo gastaria a mesma quantidade de tinta. Dobrar a população seria o prenúncio do surgimento dos piores vícios humanos: guerras, inveja, ciúme, traição, corrupção.

O fato é que, existindo apenas os relatos bíblicos, eivados de narrativas não confiáveis e de fontes suspeitas, fica marcada a situação atual como uma das maiores ameaças já enfrentadas pela humanidade. Um desafio que pode ser colocado ao lado da ameaça bíblica do Apocalipse, que marcaria o fim do mundo.

Um fim do mundo não teria, por óbvio, a análise da inglesa The Economist. Ela estaria entre os tragados pela tragédia. Deveriam, portanto, seus redatores, que se destacam pela profundidade com que analisam os fatos, temer menos o desafio atual, pois, se a humanidade sobreviver, eles também sobreviverão. Da ameaça bíblica, porém, não escapariam.

A nós, que temos a pretensão de tentar adivinhar o futuro, resta reconhecer que somos herdeiros: não contribuímos para nada da atual disrupção mundial e pouco podemos fazer para alterá-la.

Talvez nos reste seguir o conselho do sábio rei Salomão e, por absenteísmo racional, aceitar a nossa impotência diante da realidade.

Olhar os lírios do campo.

E tentar ser feliz enquanto dá.

São Paulo, 8 de agosto de 2026.

sábado, 8 de agosto de 2026

 Paraíso Perdido

Um dos maiores desafios da humanidade talvez tenha nascido com o próprio homem: prever o futuro. Não fazemos isso apenas para satisfazer a curiosidade natural. Saber onde estão os perigos e as oportunidades sempre foi uma questão de conveniência e, sobretudo, de sobrevivência.

Na época das cavernas, sair para a selva significava enfrentar feras e inúmeros riscos físicos. Hoje, embora as ameaças sejam diferentes, elas se multiplicaram com o crescimento populacional e a complexidade da vida em sociedade. Os alimentos já não estão ao alcance das mãos, a violência urbana tornou-se uma realidade e a sobrevivência — a mais poderosa das motivações humanas — exige trabalho, planejamento e capacidade de antecipar os acontecimentos.

Ao longo da história, o homem respondeu a esses desafios pelo desenvolvimento do conhecimento. Criou a agricultura, domesticou animais, desenvolveu a meteorologia para prever o tempo, a medicina para prevenir doenças e inúmeras outras ciências que ampliaram sua capacidade de compreender e controlar a natureza. A ciência foi substituindo os pajés, os oráculos e as cartomantes por métodos baseados na observação, na experimentação e na razão.

Os resultados estão estampados na própria história da humanidade. A expectativa de vida praticamente dobrou em grande parte do mundo, a mortalidade infantil despencou e a qualidade de vida alcançou níveis inimagináveis para nossos antepassados.

A evolução do conhecimento lembra um antigo paradoxo das brincadeiras infantis.

Pergunta: “O que é que, quanto mais se tira, maior fica?”

Resposta: Um buraco.

Com o conhecimento acontece algo semelhante. Quanto mais aprendemos, maior se torna a consciência daquilo que ainda ignoramos. Cada descoberta abre caminho para novas perguntas.

Nem todos somos privilegiados com uma mente visionária como a de Elon Musk. Em entrevistas recentes, ele tem feito previsões ousadas sobre um futuro capaz de transformar profundamente a civilização. A autoridade de suas palavras decorre não apenas de sua imaginação, mas também de um histórico de realizações extraordinárias: redes de satélites que levam comunicação aos lugares mais remotos do planeta, foguetes reutilizáveis, veículos elétricos e avanços nas interfaces entre cérebro e computador.

Segundo Musk, a Inteligência Artificial poderá, em poucos anos, produzir uma abundância de bens e serviços jamais vista. Grande parte do trabalho hoje executado pelos homens será realizada por robôs, libertando as pessoas das tarefas repetitivas e ampliando enormemente a produtividade.

Se essas previsões vierem a se concretizar, estaremos recuperando, por meio da tecnologia, o Paraíso Perdido: um mundo de abundância, onde a escassez deixará de existir e a sobrevivência deixará de ser a maior preocupação humana. Não haverá mais ricos nem pobres, porque a prosperidade estará ao alcance de todos.

Em um mundo assim, perderia força um dos principais argumentos em favor do socialismo: a necessidade de redistribuir bens escassos. Se a escassez desaparecesse, também diminuiria o espaço para discursos políticos alimentados pelo conflito permanente entre ricos e pobres.

Talvez o maior desafio da humanidade deixasse então de ser produzir riqueza para aprender a conviver com a abundância.

E, desta vez, com uma vantagem sobre o relato bíblico: não será preciso sacrificar uma costela para que surja uma nova Eva.

surja uma nova Eva.


São Paulo, 28 de julho de 2026,