domingo, 16 de agosto de 2026

 Absenteísmo racional

Os seres pensantes estão perplexos com o futuro da humanidade. O decréscimo populacional, inimaginável para Mao Tsé-Tung, que matou milhões para conter o crescimento populacional na China; a inteligência artificial que, segundo entrevista à revista The Economist do  Elon Musk, vai nos fazer parecer chimpanzés comendo bananas; haverá uma abundância de bens e serviços que poderá fazer o dinheiro desaparecer por inútil; terá  fim as desigualdades sociais e econômicas, que poderá produzir, pela tecnologia, a revolução pela igualdade que o socialismo não conseguiu; e a colonização de Marte, como último refúgio dos sobreviventes do planeta Terra.

Os únicos tranquilos diante dessas ameaças são os absenteístas: aqueles indiferentes, por ignorância ou por imediatismo. Uns não entendem as consequências socioeconômicas e políticas; outros não costumam preocupar-se, vivendo apenas o dia a dia.

Uma ruptura dessa dimensão talvez não tenha ocorrido desde o surgimento do homem na Terra. A The Economist, uma das mais intelectualizadas representantes da imprensa mundial, que há 150 anos se aprofunda nos grandes temas universais, provavelmente nunca terá gasto tanta tinta quanto agora com o porvir da humanidade.

Se no Gênesis, em uma noite, o Criador dobrou a humanidade com Eva, certamente a equivalente da The Economist daquele tempo gastaria a mesma quantidade de tinta. Dobrar a população seria o prenúncio do surgimento dos piores vícios humanos: guerras, inveja, ciúme, traição, corrupção.

O fato é que, existindo apenas os relatos bíblicos, eivados de narrativas não confiáveis e de fontes suspeitas, fica marcada a situação atual como uma das maiores ameaças já enfrentadas pela humanidade. Um desafio que pode ser colocado ao lado da ameaça bíblica do Apocalipse, que marcaria o fim do mundo.

Um fim do mundo não teria, por óbvio, a análise da inglesa The Economist. Ela estaria entre os tragados pela tragédia. Deveriam, portanto, seus redatores, que se destacam pela profundidade com que analisam os fatos, temer menos o desafio atual, pois, se a humanidade sobreviver, eles também sobreviverão. Da ameaça bíblica, porém, não escapariam.

A nós, que temos a pretensão de tentar adivinhar o futuro, resta reconhecer que somos herdeiros: não contribuímos para nada da atual disrupção mundial e pouco podemos fazer para alterá-la.

Talvez nos reste seguir o conselho do sábio rei Salomão e, por absenteísmo racional, aceitar a nossa impotência diante da realidade.

Olhar os lírios do campo.

E tentar ser feliz enquanto dá.

São Paulo, 8 de agosto de 2026.

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