sábado, 25 de abril de 2026

 


A classe média também existe



Entre promessas aos mais pobres e acenos aos mais ricos, o debate público ignora quem sustenta boa parte da estrutura econômica e social do país


Em toda eleição no Brasil, repete-se o mesmo roteiro: discursos voltados aos mais pobres, pelos seus votos, e promessas calibradas para os mais ricos, pelo apoio financeiro. No meio, a classe média parece não existir.


Mas existe. E sustenta boa parte do país.

A classe média brasileira pode ser entendida como o grupo de renda intermediária que vive do próprio trabalho, sustenta-se sem depender de assistência estatal, mas ainda precisa converter renda em acesso a serviços essenciais, assumindo custos que, em muitos casos, deveriam ser coletivos.


A classe média não é homogênea, mas tem traços em comum: trabalha, paga impostos elevados, busca educação para os filhos e tenta construir alguma segurança ao longo da vida. Não pede privilégios. Pede apenas não ser ignorada.


O combate à pobreza é necessário e urgente — não há dúvida. Quem passa necessidade não pode esperar. Mas um país não se sustenta apenas com políticas emergenciais. Precisa também de uma base estável, capaz de investir, consumir e planejar o longo prazo. Essa base é, em grande medida, a classe média.


Hoje, o que se vê é um desequilíbrio. A classe média paga uma carga tributária relevante e, ainda assim, recorre a serviços privados de saúde, educação e segurança. Paga duas vezes: primeiro nos impostos, depois no setor privado. Vive a sensação constante de financiar um sistema que não retorna na mesma medida.

Ao mesmo tempo, enfrenta a corrosão da inflação, a insegurança econômica, a corrupção institucional, a criminalidade e o desafio crescente de manter o padrão de vida — ou de oferecer aos filhos oportunidades melhores do que teve.


Nada incomoda mais a classe média do que a perda da esperança no futuro do Brasil.


Há também um ponto pouco dito: a classe média conhece a pobreza de perto. Em muitos casos, veio dela. Sabe o que está em jogo. Por isso, não rejeita políticas sociais — mas espera que sejam responsáveis, eficazes e capazes de gerar autonomia, não dependência permanente.


Ignorar esse grupo é um erro — não apenas político, mas estrutural.


Esse apagamento não é casual. Em certos círculos intelectuais e políticos, a classe média já foi tratada de forma abertamente depreciativa — como nas declarações de ódio à classe média da filósofa Marilena Chaui, que encontrou eco em setores do Partido dos Trabalhadores. Esse tipo de visão não contribui para o debate público; apenas aprofunda divisões.”


Sociedades equilibradas não se constroem enfraquecendo sua classe média. Ao contrário: fortalecem-na. É ali que está o amortecedor social — o espaço onde se cruzam esforço, aspiração e estabilidade.


A classe média não quer protagonismo exclusivo. Quer reconhecimento. Quer previsibilidade. Quer um país em que o esforço valha a pena — e em que a esperança seja possível.


E, sobretudo, não aceita mais ser tratada como invisível.


São Paulo, 9 de abril de 2026.

Jorge Wilson Simeira Jacob




sábado, 18 de abril de 2026

 Da liberdade



Segundo as Sagradas Escrituras, São Tomé duvidou da ressurreição de Cristo. Foi necessário  tocar na chaga de Jesus para convencer-se do milagre.


Ver para crer tornou-se um fato corriqueiro  em nossa vida. Mas nem todos veem assim. Somos mais complexos do que isto. Os humanos, neste aspecto, podem  ser classificados entre três tipos:

  • os que não acreditam nem no que veem, são os cegos mentais; 
  • os que só acreditam quando veem , como São Tomé
  •  e os que acreditam sem ver, como os gênios que enxergam alvos não vistos por ninguém.


Enxergar o que ninguém viu é a distinção entre os gênios e os medíocres, que nada veem. O medíocre não vê ou  não acredita nem no que vê; o talentoso acerta no alvo que vê. Mas o genial acerta no alvo que ninguém viu, dominam o pensamento abstrato.


Enfrentar o desafio de enxergar  algo concreto  é acessível à maioria. Só uma minoria enxerga um alvo abstrato . Ela  exige um intelecto superior, o que não é o caso da maioria. Todos veem a  impossibilidade de caminhar de um paralítico. É um fato concreto.  Só um cego ou idiota não vê . Mas não é perceptível avaliar a olho nu o nível de inteligência alheia. Este  é um desafio abstrato.


A mesma dificuldade existe em identificar as virtudes de uma outra abstração — a  liberdade individual. Aos  medíocres não é acessível perceber as vantagens de deixar o homem livre  até o limite da liberdade dos outros. 


Por natureza tendemos a acreditar que só o autoritarismo enseja resultados. Só os que foram educados em clima de liberdade, propiciam aos filhos um ambiente sem imposições e castigos e administram um povo com um mínimo de leis e regulamentos.


Só a liberdade assegura  ao individuo a possibilidade de defender a sua dignidade. Como sem dignidade não vale a pena viver, a liberdade deve ser a primeira das nossas prioridades. Vindo em seguida o fato comprovado de ser a liberdade o que dá ao homem a flexibilidade para adaptar-se ás constantes  mudanças da vida para construir a felicidade à sua maneira.


Darwin foi feliz ao definir que: “as especies que sobrevivem não são as mais fortes, mas a que se adaptam”. Os dinossauros não se adaptaram por isto não sobreviveram, por  mais fortes que fossem. Por isto, para sobreviver, necessitamos da liberdade para nos adaptar.




Foram as épocas de maior liberdade econômica e política que, praticadas  nos últimos duzentos anos, mudaram para melhor a qualidade de vida da humanidade. A servidão antes vigente só gerou miséria e sofrimento. 


O mesmo se repetiu nos regimes  onde maior foi a limitação à liberdade, como nos países socialistas e populistas. Presentes a testemunhar são os casos de Cuba, Albania, Coreia do Norte e, perto de nós, a America Latina.









Uma flexibilidade máxima  não pode ser conseguida com limitações à liberdade. Como  a existência da flexibilidade é indispensável para enfrentamento dos desafios à sobrevivência,  e como a capacidade humana não conhece limites, a solução é deixar a cada um a escolha da felicidade à sua maneira. 


Um caniço nos dá uma lição concreta: verga para sobreviver a um temporal, ao contrário de uma poderosa seringueira que cai por sua rigidez. Uma democracia liberal, cujas ideias estão baseadas na liberdade individual, é o regime que tem na flexibilidade o seu poder de superar pacificamente as crises.


Infelizmente a liberdade é uma abstração não acessível à base da pirâmide social.Esta maioria  não acredita nem no que vê.   E os que só valorizam o que veem, optam por propostas concretas dos populistas-socialistas. Ora é uma bolsa qualquer, outra é uma promessa de lanche grátis. E está   opção pelo imediato e concreto que condena o homem à servidão. 


São Paulo, 12 de abril de 2025.

Jorge Wilson Simeira Jacob


sábado, 11 de abril de 2026

 


O voo da galinha

Sobre a ilusão de voar sem asas


Cansados de ciscar com poucos resultados, os animais reuniram-se para ver até onde cada um podia chegar, num terreiro onde muito se prometia e pouco se mudava. Falava-se em novos horizontes, em voos mais altos.

O clima era de insatisfação com os resultados pífios do terreiro em comparação com os vizinhos.


O leão, soberano atento, aprovou uma competição para escolher o melhor para dirigir os destinos do terreiro.

— Vamos escolher aquele que consegue  alcançar maior altura e distância.


Marcou-se uma grande disputa entre as aves.


Águias e falcões prepararam-se em silêncio. Conheciam o ar.


Mas, entre comentários e curiosidade, uma galinha ganhou destaque. Prometia alturas nunca vistas, dizia que o céu era questão de vontade.


— Eu irei mais alto do que pensam — afirmou.


Um macaco acreditou. Um porco velho, não.


— Querer não alonga asas — murmurou.


No dia marcado, os papagaios anunciaram a partida.


As aves de rapina subiram firmes, dominando o vento. Outras as seguiram como puderam.


A galinha correu com vigor, bateu as asas com convicção, ergueu-se por um instante… e caiu.


Houve silêncio.


Ninguém riu. Ninguém falou.


Apenas se percebeu que, sem mudança estrutural, o voo da galinha não ganha altura — e o terreiro não sai do chão.


São Paulo, 28 de março de 2026.

Jorge Wilson Simeira Jacob



domingo, 5 de abril de 2026

 A deseconomia de escala


A economia de escala refere-se à redução do custo médio de produção à medida que a quantidade de bens ou serviços produzidos aumenta, resultando em maior eficiência e competitividade. 


Adam Smith, com a sua proposta da especialização, deu impulso a busca do aumento da produtividade (  economia de escala )  em todas as atividades humanas. 


Ainda que a indicação original objetivasse as atividades econômicas, a ideia universalizou-se. A medicina, por exemplo,  a  levou  ao limite segmentando os profissionais em partes do corpo humano ou da mente. 


A disseminação da ideia fez o  mundo reordenar todas atividades econômicas priorizando as vantagens competitivas decorrentes das vocações regionais, o que resultou na globalização.



 A globalização tornou-se  um novo modus operandi, que revolucionou as relações entre nações e empresas. Produção, transporte e distribuição foram influenciadas pelas vantagens comparativas. 


A concentração das atividades, segundo as   vocações regionais ou humanas, trouxe como resultado produtos e serviços de melhor qualidade e menor preço, beneficiando o consumidor e gerando oportunidades.


O terroir francês permite uma qualidade de vinho a um preço inferior ao produzido na Inglaterra ou Suíça. É mais econômico comprar vinho da França  e vender a ela o que ela não produz.  As  vantagens são tão evidentes a ponto de superar o sentimento bairrista e as ideias ultrapassadas da fase do Mercantilismo.


Por uma generosidade da natureza, a grande maioria das regiões do mundo  tem uma vocação a ser explorada. O deserto de Nevada, nos Estados Unidos, descobriu ser a liberdade geral a sua vocação, que resultou nas Las Vegas, a maior renda per capita do país.


Ignorar as vantagens comparativas  é nadar contra a correnteza. É desperdício econômico.


Como nenhuma região é autossuficiente , vivemos das trocas. Estas ensejaram a concentração das populações nas cidades. Quanto maior a população, maior a oportunidade de intercambio entre os seus habitantes. Mas, assim como os medicamentos tem efeitos colaterais, também a  tem o   crescimento populacional.


A deseconomia de escala



Enquanto, na fase inicial os  benefícios da   economia de escala beneficiaram os consumidores,  dando às populações produtos à preços acessíveis, a  evolução da medicina aumentou o tempo de vida. O resultado foi  a explosão populacional, que  concentrou-se  em  grandes metrópoles.



A população mundial , desde a revolução industrial, vem crescendo em alta velocidade. Países como China e India têm 1,5 bilhão de habitantes, cidades de milhões de habitantes  há a  centenas mundo afora. Esta superpopulação está cobrando a sua conta: 1 -  às pessoas — a queda da qualidade de vida pelo aumento da violência, trânsito congestionado, poluição geral e insociabilidade; e 2 - às empresas — escassez de insumos como água, energia, transporte e custo da mão de obra


A especialização e o  consequente aumento da produção, como a mudança do campo para as cidades, foram importantes conquistas, enquanto houve economia de escala. Depois de certo ponto, quando os custos aumentam mais  com a maior produção , há uma  deseconomia de escala.  


Os produtos ficam piores e mais caros; as cidades, enfrentam a deterioração das condições de vida: transito emperrado, pavimentação esburacada, custo elevado dos imóveis,  violência, poluição do ar, da agua e das áreas publicas.


Se as deseconomias de escala nas atividades empresariais  encontra solução na transferência para outro endereço, outra região, na super população, a solução é um decréscimo populacional. A atual tendência da queda da natalidade poderá ser o fim da atual deterioração da qualidade de vida nas cidades.


O preço a ser pago para a desejada melhoria da qualidade de vida, ensejada pela mudança demográfica,  será o custo do fim da atual bicicleta,  que gasta com a previdência hoje por conta do crescimento populacional. 


Thomas Malthus * ( 1766-1834 ) tinha parcialmente razão, o aumento demográfico seria o fim da humanidade, não por falta de alimentos como ele profetizava, mas por uma superpopulação, uma deseconomia de escala,  que faria a vida inviável. 


A atual deseconomia de escala sinaliza estar no fim a aposta no crescimento populacional. 



*A teoria de Malthus, também conhecida como Malthusianismo, é uma teoria demográfica que postula que o crescimento da população humana tende a ser maior do que o crescimento da produção de alimentos



Sao Paulo, 28 de abril de 2025

Jorge Wilson Simeira Jacob