sábado, 11 de abril de 2026

 


O voo da galinha

Sobre a ilusão de voar sem asas


Cansados de ciscar com poucos resultados, os animais reuniram-se para ver até onde cada um podia chegar, num terreiro onde muito se prometia e pouco se mudava. Falava-se em novos horizontes, em voos mais altos.

O clima era de insatisfação com os resultados pífios do terreiro em comparação com os vizinhos.


O leão, soberano atento, aprovou uma competição para escolher o melhor para dirigir os destinos do terreiro.

— Vamos escolher aquele que consegue  alcançar maior altura e distância.


Marcou-se uma grande disputa entre as aves.


Águias e falcões prepararam-se em silêncio. Conheciam o ar.


Mas, entre comentários e curiosidade, uma galinha ganhou destaque. Prometia alturas nunca vistas, dizia que o céu era questão de vontade.


— Eu irei mais alto do que pensam — afirmou.


Um macaco acreditou. Um porco velho, não.


— Querer não alonga asas — murmurou.


No dia marcado, os papagaios anunciaram a partida.


As aves de rapina subiram firmes, dominando o vento. Outras as seguiram como puderam.


A galinha correu com vigor, bateu as asas com convicção, ergueu-se por um instante… e caiu.


Houve silêncio.


Ninguém riu. Ninguém falou.


Apenas se percebeu que, sem mudança estrutural, o voo da galinha não ganha altura — e o terreiro não sai do chão.


São Paulo, 28 de março de 2026.

Jorge Wilson Simeira Jacob



Nenhum comentário:

Postar um comentário