O voo da galinha
Sobre a ilusão de voar sem asas
Cansados de ciscar com poucos resultados, os animais reuniram-se para ver até onde cada um podia chegar, num terreiro onde muito se prometia e pouco se mudava. Falava-se em novos horizontes, em voos mais altos.
O clima era de insatisfação com os resultados pífios do terreiro em comparação com os vizinhos.
O leão, soberano atento, aprovou uma competição para escolher o melhor para dirigir os destinos do terreiro.
— Vamos escolher aquele que consegue alcançar maior altura e distância.
Marcou-se uma grande disputa entre as aves.
Águias e falcões prepararam-se em silêncio. Conheciam o ar.
Mas, entre comentários e curiosidade, uma galinha ganhou destaque. Prometia alturas nunca vistas, dizia que o céu era questão de vontade.
— Eu irei mais alto do que pensam — afirmou.
Um macaco acreditou. Um porco velho, não.
— Querer não alonga asas — murmurou.
No dia marcado, os papagaios anunciaram a partida.
As aves de rapina subiram firmes, dominando o vento. Outras as seguiram como puderam.
A galinha correu com vigor, bateu as asas com convicção, ergueu-se por um instante… e caiu.
Houve silêncio.
Ninguém riu. Ninguém falou.
Apenas se percebeu que, sem mudança estrutural, o voo da galinha não ganha altura — e o terreiro não sai do chão.
São Paulo, 28 de março de 2026.
Jorge Wilson Simeira Jacob
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