sábado, 16 de maio de 2026

 O melhor lance

Um dos filmes mais interessantes é O melhor  lance de Giuseppe Tornatore . Em resumo, conta a história do  leiloeiro,  Virgil Oldman, que manipulava os lances em benefício próprio e termina vítima da própria inexperiência na vida amorosa — a única área onde não conseguia fraudar o resultado.

A nossa vida econômica também determina decisões em um leilão ampliado. Na economia de mercado, a preferência na aquisição de bens é determinada pelo preço. Na economia de comando, é a fila. Em um caso, leva quem paga mais; no outro, quem suporta esperar mais — às vezes, indefinidamente.

De todos os leilões, porém, o maior de todos atinge seu ápice com o domínio do populismo nas democracias: vence quem faz os maiores lances, ainda que não tenha a menor intenção de honrá-los ou descompromisso com as consequências.

A oferta de promessas exige uma combinação de criatividade e irresponsabilidade. As ideias sobre o que prometer aos eleitores são abundantes: basta aumentar os lances para superar os concorrentes — e reduzir o compromisso com a realidade.

A carreira política nunca me atraiu. Nem a vaidade do poder, nem os aspectos lúdicos do jogo político me motivaram, ainda que eu tenha tido oportunidades de me candidatar. Sempre me pareceu um jogo caro demais para ser pago por terceiros.

Agora, no fim da vida, quando a idade avançada me lançou ao desemprego, vendo tanta nulidade ser eleita sem constrangimento, decidi me candidatar à presidência do Brasil.

Estou convencido de ter imaginação suficiente para apresentar o maior lance de ofertas. E, como tenho poucos anos pela frente, minha ousadia não terá de conviver com as consequências. Quando a bomba estourar, já terei encerrado meu mandato — ou minha biografia.

Apresento uma pequena amostra da minha plataforma eleitoral:

  • Salário mínimo nacional de 2 mil dólares, mensal, inclusive para empregados domésticos
  • Carga horária máxima de 24 horas semanais
  • Bolsa de mil dólares mensal para cada brasileiro, empregado ou não, em todas as idades
  • Dívidas prescrevem seis meses após o vencimento; nenhum título não pago poderá ser executado
  • Empréstimos não terão juros nem prazo de vencimento
  • Casais com filhos terão todo o tempo necessário para cuidar da família, sem prejuízo do salário
  • Não haverá nenhum tipo de tributação . Os impostos serão abolidos. A manutenção do governo será paga de acordo com a sua consciência de cada um.
  • A felicidade de cada brasileiro é responsabilidade do estado. Vou criar o Ministério da Felicidade para as Leis atenderem aos desejos de todos.


Ao final dos primeiros cem dias, novas listas de benefícios serão publicadas para atender às demandas crescentes da população. O objetivo será sempre superar os lances anteriores — meus ou de eventuais adversários, numa competição em que perder o limite é condição para vencer.

Meu governo será voltado para o social. Será dever do Estado usar as leis para atender ao cidadão, e não usar o cidadão para satisfazer as leis — ainda que, para isso, as leis precisem perder qualquer relação com a realidade.

E, como Deus é brasileiro, caberá a Ele cobrir os rombos desse novo populismo.

Se não cobrir, sempre restará a solução clássica:
culpar o governo anterior — ou eleger outro leiloeiro.

São Paulo, 5 de maio de 2026.

Jorge Wilson Simeira Jacob

sábado, 9 de maio de 2026

 




Gasto é vida?

A chamada Lei de Say, formulada por Jean-Baptiste Say, sustenta que a oferta cria sua própria demanda. Em termos simples: ao produzir bens e serviços, geram-se rendas — salários e lucros — que permitem a compra de outros bens. Assim, em tese, não haveria crise generalizada por falta de demanda.

Essa formulação clássica, no entanto, difere profundamente das políticas econômicas que hoje justificam o aumento contínuo do gasto público sob o argumento implícito de que “gasto é vida”. Aqui não se trata de uma economia movida pela produção eficiente, mas pela expansão artificial da demanda via gasto público.

A confusão não é trivial. Enquanto a tradição clássica enfatiza a produção como fonte de riqueza, políticas contemporâneas frequentemente apostam no gasto como motor do crescimento — independentemente da qualidade desse gasto.

O problema não está apenas no gasto em si, mas na sua eficácia. Para que o investimento público faça sentido econômico, algumas condições mínimas são necessárias:

  • deve haver poupança que o sustente;
  • o risco deve ser compatível com o retorno esperado;
  • o retorno deve superar o custo do capital.

Fora dessas condições, o que se observa não é investimento, mas desperdício — ainda que travestido de estratégia.

A experiência brasileira recente é ilustrativa. Projetos anunciados como estratégicos acabaram se revelando exemplos clássicos de má alocação de recursos: a usina nuclear de Angra, a refinaria Abreu e Lima, entre outros empreendimentos marcados por custos elevados, atrasos e retorno questionável. Em vez de impulsionar o crescimento, contribuíram para o aumento da dívida pública e para a deterioração das contas fiscais.

O resultado está à vista. O gasto público cresceu de forma significativa nas últimas décadas, e o desempenho do PIB per capita brasileiro tem sido modesto quando comparado a outras economias emergentes. Não se trata de teoria, mas de evidência empírica.

Ainda assim, persiste no discurso político a defesa de mais gasto como solução universal. Não faltam líderes dispostos a expandir despesas — desde que o ônus recaia difusamente sobre a sociedade. Ajustes, quando necessários, tendem a ser sempre “para os outros”.

Há, portanto, um descompasso entre incentivo político e responsabilidade fiscal. Ganhar eleições exige habilidade; gerir recursos escassos exige competência — e as duas qualidades nem sempre coexistem.

Se gasto fosse sinônimo de prosperidade, bastaria gastar mais para crescer. A realidade, porém, é menos indulgente: contas públicas, como qualquer outra, têm limite — e, cedo ou tarde, ele se impõe.

São Paulo, 16 de abril de 2026.
Jorge Wilson Simeira Jacob


sábado, 2 de maio de 2026

A mulher madura está na moda

  • Mudanças na moda e no comportamento apontam para a valorização da experiência e da autonomia feminina



A edição deste mês da Vogue — a mais prestigiosa revista de moda do mundo — traz na capa quinze modelos da terceira idade, duas delas com 76 anos. A pergunta que estampa a revista é provocativa: “Por que a moda repentinamente ama a mulher mais velha?”

Ao ignorar a barreira da idade, a própria Vogue busca estar na moda. A idade, agora, conta como vantagem. Não apenas pelo valor simbólico, mas pelo poder econômico: mais de 70% da riqueza nos Estados Unidos está concentrada nas pessoas com mais de 55 anos.

Durante décadas, economistas falaram no poder do silver dollar, enquanto a moda insistia no culto à juventude. A mudança atual, porém, parece mais profunda. Não se trata apenas de mercado, mas de cultura.

Na mesma direção, o New York Times publicou, em 16 de abril de 2026, um artigo de título chamativo: “As mulheres mais velhas estão sendo demandadas por homens mais jovens”.

O fenômeno revela uma inflexão nas relações contemporâneas. Homens jovens passam a buscar mulheres mais velhas — não só por estabilidade econômica ou aparência preservada pelos avanços da medicina estética, mas pela maturidade emocional. Elas oferecem experiência, segurança e autonomia.

A independência conquistada pela mulher — fruto do acesso à educação, ao trabalho e ao controle da própria vida — ampliou seu poder de escolha. Hoje, pode decidir inclusive por parceiros mais jovens, em busca de satisfação afetiva e sexual.

O que se desenha é uma mudança no eixo do poder. Ao longo da história, a força física sustentou a predominância masculina. Agora, cede espaço à experiência, à inteligência e à autonomia.

A mulher madura está na moda porque o mundo mudou — e com ele, as relações entre homens e mulheres.

São Paulo, 24 de abril de 2026.
Jorge Wilson Simeira Jacob