Gasto é vida?
A chamada Lei de Say, formulada por Jean-Baptiste Say, sustenta que a oferta cria sua própria demanda. Em termos simples: ao produzir bens e serviços, geram-se rendas — salários e lucros — que permitem a compra de outros bens. Assim, em tese, não haveria crise generalizada por falta de demanda.
Essa formulação clássica, no entanto, difere profundamente das políticas econômicas que hoje justificam o aumento contínuo do gasto público sob o argumento implícito de que “gasto é vida”. Aqui não se trata de uma economia movida pela produção eficiente, mas pela expansão artificial da demanda via gasto público.
A confusão não é trivial. Enquanto a tradição clássica enfatiza a produção como fonte de riqueza, políticas contemporâneas frequentemente apostam no gasto como motor do crescimento — independentemente da qualidade desse gasto.
O problema não está apenas no gasto em si, mas na sua eficácia. Para que o investimento público faça sentido econômico, algumas condições mínimas são necessárias:
- deve haver poupança que o sustente;
- o risco deve ser compatível com o retorno esperado;
- o retorno deve superar o custo do capital.
Fora dessas condições, o que se observa não é investimento, mas desperdício — ainda que travestido de estratégia.
A experiência brasileira recente é ilustrativa. Projetos anunciados como estratégicos acabaram se revelando exemplos clássicos de má alocação de recursos: a usina nuclear de Angra, a refinaria Abreu e Lima, entre outros empreendimentos marcados por custos elevados, atrasos e retorno questionável. Em vez de impulsionar o crescimento, contribuíram para o aumento da dívida pública e para a deterioração das contas fiscais.
O resultado está à vista. O gasto público cresceu de forma significativa nas últimas décadas, e o desempenho do PIB per capita brasileiro tem sido modesto quando comparado a outras economias emergentes. Não se trata de teoria, mas de evidência empírica.
Ainda assim, persiste no discurso político a defesa de mais gasto como solução universal. Não faltam líderes dispostos a expandir despesas — desde que o ônus recaia difusamente sobre a sociedade. Ajustes, quando necessários, tendem a ser sempre “para os outros”.
Há, portanto, um descompasso entre incentivo político e responsabilidade fiscal. Ganhar eleições exige habilidade; gerir recursos escassos exige competência — e as duas qualidades nem sempre coexistem.
Se gasto fosse sinônimo de prosperidade, bastaria gastar mais para crescer. A realidade, porém, é menos indulgente: contas públicas, como qualquer outra, têm limite — e, cedo ou tarde, ele se impõe.
São Paulo, 16 de abril de 2026.
Jorge Wilson Simeira Jacob
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