sábado, 31 de outubro de 2020

                                                                    O Valor Da Semântica.



“O que chamamos de coisas  é onde traçamos a linha entre uma classe de coisas e outra depende dos interesses que temos e dos propósitos da classificação.  Por exemplo, os animais são classificados de uma forma pela indústria da carne, de outra forma pela indústria do couro, de outra forma pela indústria de peles e de outra forma ainda pelo biólogo.  Nenhuma dessas classificações é mais final do que qualquer uma das outras;  cada uma  delas é útil para seu propósito.

Language in Thought and Action,  Samuel Ichiye Hayakawa, (1)


A semântica é tão importante quanto ignorada no uso da linguagem. Hayakawa, em seu livro O Pensamento Na Linguagem E  Na Ação, desqualificava  as palavras como instrumento de precisão, por não  terem peso, cor ou medida. Elas podem significar uma coisa para quem fala ou escreve e outra para o ouvinte ou leitor. Para ganharem precisão as palavras necessitam da ajuda de um ou mais  adjetivos ou , como os exemplos acima, ter os interlocutores  em  sintonia com o significado, como um quadro negro que é verde; pois não, como concordância;  obrigado como recusa; o boi que no açougue vira vaca....  Significados alterados em  consequência do fato da língua  ter vida . Ela está em constante mutação no seu significado e até pronuncia. Nas diversas regiões do país muitos vocábulos ganharam ou perderam sentido. O que conta  é que cada um de o mesmo significado ao verbete, caso contrário não há entendimento.


Um purista da língua tem a obrigação de olhar com lentes de aumento cada letra de um texto. Seria o ideal se todos os que escrevem, inclusive este rabiscador, nunca caíssem na imprecisão decorrente da ignorância, generalização ou  simplificação. Aplicar as palavras com exatidão é atributo dos clássicos  da língua - uma minoria! A  deturpação semântica segue com a história. Tente ler um texto em português arcaico. Para não ir tão longe, ficando nos primórdios do Brasil, os descobridores que desbravavam os   sertões em busca de riquesas, eram chamados de bandeirantes. Nos meados do século passado, Assis Chateaubriand (2), denominava genericamente todos os homens de negócios  como Capitães Da Indústria , mesmo  não tendo  sido os descobridores das oportunidades,  bastava o envolvimento com uma empresa. A generalização foi ao ponto de aplicar a expressão a um indivíduo cujo único negócio eram milhares de pés de café. 


Na  economia, há não muitos anos, intelectuais como   Frank Knight, Peter Drucker,  Schumpeter,  Kirshner (3), reclassificaram  as funções dos homens de empresa,  fazendo uma distinção entre os que descobrem uma oportunidade e os que os sucedem administrando-as. Israel Kirshner(4) pontuava que a diferença entre um empreendedor ( entrepreneur ) e um  administrador( manager ) é a descoberta da oportunidade -  é o estado de alertness . Uma habilidade que não pode ser ensinada, ela é natural da pessoa.Todas as outras condições, segundo ele:  podem  ser compradas, emprestadas ou copiadas. Na prática o rigor semântico não é fácil de ser seguido. Bill Gates inventou a Microsoft, portanto, foi um empreendedor, mas a geriu por bom tempo, então, foi  um administrador. Hoje é um acionista. Como deve ser nominado? Amador Aguiar (4) era um bancário, no início da carreira, como diretor do Bradesco deveria ser considerado um empresário até que assumiu o poder na organização e revolucionou o sistema bancário, seria então um empreendedor. Um (Gates) começou em uma ponta extrema e o outro ( Amador ) na outra. Como devemos nos referir a eles?



Realmente a comunicação é uma arte, principalmente porque as palavras não quantificam e nem qualificam de per si, portanto o entendimento depende  da sintonia dos interlocutores. Como  era mais simples, ainda que menos precisa, quando não existiam classificações!  Eram bandeirantes por ter bandeira, capitães por analogia ao comando de um batalhão militar, empresário por ter vínculos com a empresa e empreendedor por ter o dom de criar riqueza. Como diria Hayakawa: nenhuma destas classificações é final, cada uma tem a ver com a  sua época e propósito. Este é o valor da semântica.


                                                                       As Minhas Reflexões.

Jorge Wilson Simeira Jacob

30 de outubro de 2020.



(1) Samuel Ichiye Hayakawa foi um acadêmico e político estadunidense. Foi educado nas escolas públicas de Calgary e Winnipeg, no Canadá. Recebeu a sua licenciatura na Universidade de Manitoba, em 1927; e graduação em Inglês pela Universidade McGill, em 1928, e pela Universidade de Wisconsin-Madison, em 1935. Nascimento: 18 de julho de 1906, Vancouver, Canadá


(2) Assis Chateaubriand 

Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, mais conhecido como Assis Chateaubriand ou Chatô, foi um jornalista, escritor, advogado, professor de direito, empresário, mecenas e político brasileiro. Destacou-se como um dos homens públicos mais influentes do Brasil entre as décadas de 1940 e 1960. Wikipédia


(4) Frank Knight (1967) e Peter Drucker (1970), o empreendedorismo refere-se a assumir riscos. Schumpeter amplia o conceito, afirmando que "o empreendedor é a pessoa que destrói a ordem econômica existente graças à introdução no mercado de novos produtos/serviços, pela criação de novas formas de gestão ou pela exploração de novos recursos, materiais e tecnologia". Assim, os empreendedores "não são simplesmente provedores de mercadorias ou de serviços, mas fontes de energia que assumem riscos em uma economia em constante transformação e crescimento." 


(4) Israel Kirshner - Competição E Espirito Empresarial . Entrepreneur é o que descobre a oportunidade.

Entrepreneurship is the alertness to and foresight of market conditions; it must necessarily precede actions taken in accordance with that alertness."


 (5) Amador Aguiar publicamente e em particular recusava ser classificado como banqueiro. Queria ser considerado bancário, que foi a sua origem. 








quinta-feira, 29 de outubro de 2020

 Caros leitores 


Transcrevo, com a devida vênia, o depoimento/desabafo do meu filho, cidadão naturalizado americano, que reagiu a um texto do Jeffrey Sacks, recentemente publicado. Esta é a opinião de um observador que escolheu os  Estados Unidos para criar a sua família por ser  uma nação onde prevalece a liberdade individual em vez da   tutela do governo. Ele faz parte do eleitorado  que tem uma visão  dos governantes e candidatos  não  acessível à maioria dos  estrangeiros. A importância para o mundo e em particular para nós brasileiros dessa eleição merece que não se fie no jogo da mídia e dos arautos dos partidos  - sempre tendenciosos - e conheçam a outra versão da história, de pessoas  honestas, que vivenciam a realidade do país, antes de julgar.


Espero que este texto, independente de agradar ou não , seja  esclarecedor. Está é a intenção.


Jorge



God Save America!


Li o artigo que me foi enviado. Antes de posicionar-me devo,  por honestidade intelectual,  esclarecer ter tido e ter do  Presidente Trump a pior das impressões. As razões são conhecidas e podem ser resumidas em poucas letras -  é um mal caracter - tendo como estrutura de personalidade a total falta de escrúpulos e respeito humano. Apesar da minha antipatia pessoal - votarei nele. Vou tapar o nariz e , contragosto, o farei por ser impossível engolir , mesmo tapando as narinas ,os  candidatos democratas - Biden e Kamala Harris. A minha opção baseia-se em ser insano   alimentar-se o atual crescimento do socialismo na terra da liberdade. Tenho como prioridade a escolha da organização do  Estado antes da dos indivíduos. Os Trumps passam e o regime político em que viverei com minha família poderá ser perene. Escolhi adotar a cidadania americana para ter respeitada a minha liberdade individual e não a servidão a  governo nenhum.


Estou vendo fantasmas? Não. O crescimento do socialismo radical nos EUA é  alarmante. Obama, com a sua simpatia, maneiras educadas, empatia com os afro-americanos  e boa dose de carisma, implantou na mente das massas a ideia dos direitos sem deveres - coisa inédita na cultura local. Ele  que deveria ter sido um catalisador de  união das raças, foi o patrocinador da divisão que vemos atualmente. Os afro-americanos, ao contrário do que muitos pensam, regrediram  50 anos nesta luta. Não há , como são levados a acreditar,  a  existência de  um racismo sistêmico - argumento usado pelos democratas-socialistas para cooptá-los. Nem  existem mais   leis de segregação ou racistas. A única lei racista neste país é a “affirmative action”, que dá aos afro descendentes prioridade em igualdade de condições em relação aos brancos. Uma lei que, essa sim, é racismo sistêmico.



Os fantasmas ganham corpo  se analisarmos os principais políticos democratas americanos de hoje. Todos intervencionistas, populistas e demagogos:   AOC, Bernie Sanders, Kamala Harris, Walters, Pelosi, Schiff.... Uma  lista que inclui quase todos os congressistas democratas. Dar o poder a estes pode ser o tiro de misericórdia no que esta nação tem de encantador - o respeito ao indivíduo, à meritocracia, o governo da lei e da ordem. Entendo ser mais fácil livrar-nos do fantasma Trump, que terá prazo de quatro anos de validade,  do que reverter a corrupção dos costumes.Pela primeira vez na historia do pais a tão venerada e respeitada Constituição está sob ataque. 


O  artigo do Jeffrey Sacks,  acima citado, que ensejou este meu posicionamento, é tendencioso. Ele é parte da propaganda engendrada pela máquina  dos democratas, liderada pela CNN. Não passa de  propaganda enganosa! Foca nos  erros do Trump - que são muitos -  mas ignora o principal que é a escolha entre um regime capitalista, que fez a prosperidade da nação,  e o populismo-socialista que detém o recorde de miséria e de violência  à dignidade dos cidadãos.


A Nação americana tem uma história de apego incondicional à liberdade. É isto que me faz orgulhoso da minha nova  nacionalidade e que desejo deixar como herança para os meus descendentes. Fomos na nossa história à  guerra pela liberdade. Iremos, meus amigos e eu, às urnas pela mesma causa.


God Save America! Liberdade ou Servidão, that’s the question!


Rubens Simeira Jacob


As Minhas Reflexões 

Jorge Wilson Simeira Jacob

29 de outubro de 2020.

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

 



Por Que  Sumiram Os Empresários?




Na famosa torre de TV , em Toronto , uma das maiores do mundo, de onde se tem a melhor vista  panorâmica da região,  o SKY Terrace está decorado com fotos de construtores de impérios econômicos, líderes empresariais que foram dínamos da prosperidade do Canadá. Também nos  Estados Unidos, por toda parte,  incentiva-se  o espírito empreendedor. Não só cultuam a memória  dos grandes empreendedores, Thomás Édson, Ford, Rockefeller, Carnegie..., como mantém em destaque uma nova geração, Bill Gates, Steve Jobs, Jeff Bezos ... . Muitos outros países seguem o exemplo de incentivo a novos empreendedores para que, com o seu talento de descobrir oportunidades e disposição para correr riscos, transformem  o patrimônio material e humano em riqueza.  Reconhecem que uma economia sem empresários é como um carro sem dínamo.


Na fase de ouro brasileira , quando a economia crescia em ritmo acelerado, coincidência ou não,  os heróis nacionais eram empresários, como Antônio Ermírio de Morais, Roberto Konder Bornhausen,  Olavo Setúbal, Jacy de Souza Mendonça, Mário Amato...e mais uma infinidade de nomes  que estavam sempre em destaque , secundando os políticos . As suas opiniões  sobre os desafios nacionais eram respeitadas, como cidadãos e empresários. Passado o tempo , ao contrário das economias desenvolvidas,  as  lideranças empresariais, aqui,  sumiram de vista. Não que não existam, simplesmente perderam o podium. As exceções  são poucas e geralmente apresentam-se, como fofoca,  listados pela Forbes entre os mais ricos do mundo; e/ou em manifestações de alinhamento ao politicamente correto, de clara orientação das assessorias de relações públicas. Nada a ver com o interesse nacional.


 As  massas necessitam de guias, de opinião e de exemplos. A Igreja tem santos, as nações , heróis. A ausência na mídia de empresários nacionais ética e moralmente inatacáveis deixa órfã a economia de mercado e por consequência a liberdade individual. Inadvertidamente estamos chocando o ovo da serpente. O vácuo  foi preenchido pelo judiciário. A troca é sintomática, pois demonstra o quanto a sociedade preocupa-se com a atual insegurança jurídica e subestima a função do empresário na sociedade. A preponderância do judiciário  pode ser comprovada  em  uma pesquisa de conhecimento espontâneo dos homens públicos, que, excluídos os políticos e os bandidos, os mais lembrados serão juízes da Lava-Jato e do Supremo Tribunal Federal.  Estas constatações colocam-nos a perguntar: estão certos os americanos, canadenses, japoneses enaltecendo os  que criaram riqueza? Ou nós dando visibilidade pessoal aos membros do judiciário ? Os quais tem importante papel como um dos três poderes da nação, mas, vitalícios,  não necessitam e nem devem ser celebridades populares.   Estas opções não são excludentes, estão simplesmente com sinais trocados. Ambos são valiosos,  pois - sem segurança jurídica não há Governo; e sem espírito empresarial não há desenvolvimento. Exatamente o contrário do que temos hoje!


A questão   que exige reflexão mais profunda  é - por que sumiram os empresários?




As Minhas Reflexões.

Jorge Wilson Simeira Jacob

26 de outubro de 2020.


sábado, 24 de outubro de 2020

 A Guerra Das Ideias.


Não se preocupem, com essas ideias que andam por aí,  

não corremos  o mínimo risco do Brasil dar certo!

Roberto Oliveira Campos


O artigo Gramsci - A Hegemonia  Esquerdista No Brasil, de autoria do exSenador Irapuan da Costa Jr., que divulguei neste blogue, teve importante repercussão. Em uma delas, um leitor, discordando do texto, assumiu uma postura crítica ao comportamento aético  e amoral da maioria dos brasileiros. Quase um grito  de desesperança. A mensagem dele, um altruísta combativo, por oportuna, merece resposta a ser compartilhada neste blogue. Ela, a resposta , enseja a oportunidade de por o dedo na ferida fazendo a distinção entre os idealistas - que colocam as suas  esperanças em salvadores da pátria e  os realistas - que, descrentes em milagres, aceitam como inevitável vencer a guerra intelectual declarada pelos socialistas com contundente êxito.  Os idealistas ao sonhar com um ser humano altruísta, generoso, alimentam  o mesmo ideal utópico dos marxistas à criação do  Novo Homem, que purificado  ensejaria uma sociedade  comunista. Os realistas, ao contrário,  acreditam que as nações são produto da cultura do seu povo e  que são as ideias, crenças e valores que diferenciam uma das outras.


A  citada desesperança, que  surge da constatação de que os brasileiros  só cuidam de encher as tripas,  não é um vício limitado ao  lumpemproletariado. Viceja também entre muitos bem aquinhoados. O imediatismo  e o egoísmo fazem parte da natureza humana. Mas podemos alimentar a  esperança  na  leitura do  Gustavo Lebon, na sua A Psicologia das Multidões, onde  demonstra  que as massas são capazes de  agir motivada por sentimentos nobres e que a soma dos nossos vícios não necessariamente corresponde ao produto final. Os  movimentos provocados pela Lava-Jato mostraram, enquanto massa,  uma sociedade desejosa de moralidade , o que nos colocou bem  até sob os  olhares éticos escandinavos e anglo-saxões. 


Além destas considerações e  a constatação de ter o teatro de guerra sido  deslocado  para outra arena , onde a disputa dar-se-ia no campo intelectual ,  alguns cidadãos uniram-se na década de 1980 ,  ao Instituto Liberal,  para enfrentar as forças do mal. Este  grupo*, do qual tive a honra de participar, assumiu como objetivo enfrentar a doutrinação dos formadores de opinião pelos socialistas, mostrando a superioridade de uma  sociedade organizada com base na liberdade individual como única garantia para assegurar a dignidade humana. 


O acerto da decisão estava do nosso lado. Mas a vitoria ficou nas mãos dos adversários, que, permeando  a cultura  nacional com investimentos maiores e o engajamento de muitos setores da sociedade - igreja católica, sindicatos, escolas ... e a indiferença da sociedade livre levaram ao poder  políticos de mentalidade socialista.  Eles , ao vencer a batalha das ideias,  deram   prova de que  o curso da história não é desviado pelos homens, mas pelas suas ideias. Portanto, não basta, como pensam os idealistas,  mudar os atores se as ideias forem as mesmas. A hegemonia socialista, portanto, só será quebrada  se nas batalhas seguintes,  tivermos a adesão dos  formadores de opinião. A eles cabe traduzir ideias abstratas para o homem simples  em linguagem popular para que se alinhem  aos realistas liberais na  guerra das ideias.



As Minhas Reflexões.

Jorge Wilson Simeira Jacob

23 de outubro de 2020.

*

Lideranças do Instituto Liberal na sua estruturação - Donald Stuart,  Jorge Gerdau Johampeter,  Jorge Wilson Simeira Jacob e Roberto Konder Bornhausen .



terça-feira, 20 de outubro de 2020

 Meus Caros. 


Os brasileiros  bem intencionados, e são muitos, patinam em busca de propostas para tirar o Brasil das mãos dos socialistas, os mesmos que  arruinaram todos os países que governaram. Porém são poucos os que, em vez de apostar em indivíduos, entendem serem as  ideias que farão a diferença. Gramsci , pensando na conversão ( perversão ) do mundo foi um destes. Ele entendeu como ninguém a importância da cultura ( ideias, crenças e valores ) para modelar perenemente  uma nação. No seu livro Cadernos do Cárcere deu  lições apreendidas pelos socialistas, mas ignoradas pelos adversários desta ideologia. Uma exceção tem sido o trabalho do Instituto Liberal para fazer um contraponto ao proselitismo dos socialistas, populistas e demagogos em geral.


Sobre a visão estratégica de Gramsci muito escreveu-se, li muitas, mas impressionou-me sobremaneira a que transcrevo em seguida a este texto, autorizado pelo autor, o meu particular amigo Irapuan da Costa Junior. É uma análise sintética, sobretudo lúcida e eloquente, da evolução do socialismo desde Karl Marx, Lenin até Gramsci. Pela importância do texto entendi que deveria compartilha-lo, fui levado pelo impulso natural de indicar um bom filme, um livro... e tudo o que nos motiva.


Leiam o texto e certamente a sua visão de como transformar o Brasil nunca mais será a mesma.


Abraços


Jorge Wilson Simeira Jacob

20 de outubro de 2020.





Gramsci e a hegemonia esquerdista no Brasil

Jornal Opção - domingo 18 outubro 2020 *


 Por Irapuan Costa Junior 


Antonio Gramsci era o que se podia chamar de “estrategista do mal”, pois sua concepção de tomada do poder pelo partido comunista, chamada concepção hegemonista, era muito mais lúcida do que a concepção de Karl Marx, chamada “economicista”, e do que a concepção do russo Vladimir Lênin, chamada “mecanicista”. Gramsci era, no meu entender, o maior filósofo comunista até então, pois mostrara mais acertos do que Marx, Engels e Lênin ao formular uma teoria viável para o comunismo chegar ao poder.


Enquanto Marx afirmava que o comunismo ascenderia pela crise do capitalismo, com patrões cada vez mais ricos e operários cada vez mais pobres, até uma revolta proletária, e Lênin acreditava na tomada do poder pelas armas, coisas que não aconteceriam, Gramsci afirmava que a chegada ao poder teria que se dar por uma mudança profunda na cultura social, colocando em jogo as crenças e tradições existentes nas sociedades democráticas (capitalistas, dizia ele), desestabilizando essas sociedades, de modo a introduzir nelas uma nova cultura, ditada pelo partido comunista, permitindo que ele passasse a ser, pela opinião dominante (hegemonia) o novo dirigente social (novo bloco histórico), no lugar do governo burguês (antigo bloco histórico), com uma sociedade civil já conformada, agora dominada pela crença partidária comunista.

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Antonio Gramsci: filósofo italiano | Foto: Reprodução


Gramsci analisava que a tomada de poder dar-se-ia em três fases, uma econômico-corporativa, em que o partido comunista, travestido de democrático faria alianças com outros partidos e ocuparia os postos que pudesse em todas as esferas da sociedade (legislativo, judiciário, executivo, sindicatos, igreja, meio acadêmico, meio artístico, imprensa e etc.). Seguir-se-ia a fase hegemônica, em que deveria existir um intenso trabalho de doutrinação, usando os postos ocupados, para modificar moral e culturalmente a sociedade, desagregando a crença burguesa, fazendo que novos comportamentos e nova maneira de existir acabassem aceitos pela sociedade, de tal modo que, na terceira fase, a fase estatal, se desse uma tomada de poder pelo partido sem maiores reações dessa mesma sociedade.

Gramsci não falou do exercício do poder, uma vez conquistado, e tendo lançado no papel suas ideias nas décadas de 1920 e 1930, não poderia prever o fracasso econômico e político do comunismo, que de certa forma esteve presente em mais de quarenta países e em nenhum só conseguiu o sucesso prometido por seus profetas. Foi escorraçado em todos os lugares onde a sociedade se sentiu forte o bastante para expulsá-lo. Persiste numa Cuba miserável, numa Venezuela destroçada, numa Coreia do Norte faminta, no Vietnã e no Laos estagnados e numa China com economia inteiramente capitalista, embora politicamente seja comunista, e com mão de ferro.

O Brasil teve a infelicidade de ser um dos países onde os ensinamentos de Gramsci chegaram em primeiro lugar.

Suas obras foram traduzidas por intelectuais comunistas no exílio e publicadas no Brasil já em 1966, em pleno regime militar, pelo editor comunista Ênio Silveira (Editora Civilização Brasileira). Logo se difundiram pelos intelectuais clássicos da esquerda brasileira, que aqui permaneciam, ou que, exilados, voltariam na década de 1970.

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Como o regime militar brasileiro foi brando, o avanço das esquerdas, principalmente na mídia, nas universidades e na Igreja Católica, se deu já nas décadas de 1960, 1970 e 1980. Na década de 1990, com a coordenação do Foro de São Paulo e o governo Fernando Henrique, e na década seguinte, com os governos petistas, a ocupação se estendeu ao legislativo, ao executivo e ao judiciário, inclusive aos tribunais superiores.

Em 2013, quando proferida a palestra, na época do governo Dilma Rousseff, fui inquirido em que fase estávamos, no cronograma gramsciano. Disse que os comunistas (ou socialistas, seu eufemismo para se livrar do estigma stalinista) haviam chegado ao governo, mas não ao poder, mas que sem dúvida haviam superado a primeira fase e já estávamos em plena fase da hegemonia. Comprovava essa afirmação a penetração esquerdista na imprensa, na universidade e em outros setores da sociedade, onde os efeitos das ações gramcistas se faziam sentir cada vez mais perturbadoras.

Tudo aquilo que se acreditava ser bom, belo e verdadeiro em nossa sociedade tradicional estava sob ataque. A marginalidade seria considerada vítima da sociedade. O aparato policial, truculento e servidor das elites. A infância, sexualizada e confundida. A juventude inimputável, mesmo que cometesse os piores crimes. O encarceramento deveria ser minimizado e bandidos libertados. A religião, distorcida e ridicularizada, quando não pudesse ser ideologizada. A família tradicional, para os seguidores de Gramsci, teria que desaparecer.

Um deputado do PC do B chegou a propor projeto de lei considerando família qualquer associação de pessoas, inclusive as incestuosas. Pregava-se a liberação total das drogas, e a licenciosidade e pornografia nos espetáculos dito artísticos. A desobediência aos pais se institucionalizava, e as correções paterna e materna dos filhos eram todas criminalizadas. A educação dos filhos passava a ser responsabilidade do estado e sua instrução passava a ser predominantemente ideológica, não profissional, mormente nas faculdades. Em particular, como reflexo dessas ações, a Educação brasileira despencava, nos três níveis de ensino, o que teria reflexos graves no futuro. Como a sociedade brasileira na média era conservadora, eu previa (em 2013) que teríamos num horizonte não muito distante, embates sérios no campo político, não descartando incidentes mais graves. Estes felizmente não ocorreram, mas ocorreu uma reação social que elegeu um governo conservador, contra toda expectativa da esquerda, que já se julgava tocando o poder. E a esquerda ainda não absorveu essa derrota, tentou uma impugnação eleitoral não sucedida e utiliza a desinformação, uma das ferramentas mais poderosas de que dispõe, para contestá-la. Sem falar numa tentativa de assassinato do candidato conservador, na reta final de campanha, até hoje não perfeitamente esclarecida.

O aparelhamento da imprensa, da universidade, do meio artístico e até de franjas do judiciário tem funcionado como obstáculo para o governo no campo da ação e da opinião. As esquerdas só não conseguem uma desestabilidade do executivo por ter exagerado na dose, ocasionando uma percepção social de que fazem oposição a todo custo, inclusive no campo internacional. Mas os partidos de base marxista se apoiam no judiciário, de modo a criar embaraços na ação de governo, numa tentativa de engessar suas ações. Em exemplos recentes, o Presidente foi impedido de exercer ações de controle da pandemia do coronavírus, que por decisão judicial foram transferidas para estados e municípios, não pode exercer sua atribuição constitucional de nomear um auxiliar na Polícia Federal e se viu obrigado, na nomeação de reitor para universidade federal em lista tríplice, a escolher o primeiro colocado, como se a lista fosse uninominal.

Os “intelectuais orgânicos” de que fala Gramsci (qualquer ignorante, mas capaz de um pensamento ou ação que contribua para modificar a sociedade no sentido desejado pelas esquerdas) pululam por todo lado. Toda cultura tradicional está sob censura, seja no que diz respeito à composição familiar, seja na prática religiosa, seja na cultura artística, seja na educação infantil (onde já se quer até propor o ensino de práticas sexuais não ortodoxas) ou na educação universitária. Corrigir essas distorções vai demandar paciência e um enorme trabalho de reversão da deterioração educacional praticada nos últimos trinta anos. Chegaremos um dia à terceira fase gramsciana, a da tomada do poder total, como na Venezuela? Esperamos que não. Lutemos para que não.


No ano de 2013, convidado pela Associação dos Diplomados pela Escola Superior de Guerra (Adesg), proferi uma palestra sobre o filósofo comunista italiano Antônio Gramsci (1891-1937 — viveu 46 anos) e sua influência na política brasileira recente. Resumo da conferência para os leitores do Jornal Opção: