A Maratona
Os espectadores acomodam-se em suas poltronas logo após soar o sinal de início da sessão.
Um apresentador sobe ao palco, dá as boas-vindas ao público e anuncia:
— A peça que será apresentada é baseada em fatos reais. Qualquer semelhança com pessoas, lugares ou acontecimentos não será mera coincidência. Será a própria realidade.
Abrem-se as cortinas.
O cenário revela atletas alinhados para a disputa de uma maratona. São 181 competidores, representantes de praticamente todos os países do mundo.
Alguns destacam-se pela excelente compleição física. Um deles, porém, chama imediatamente a atenção. É maior, mais forte e aparenta possuir todas as qualidades necessárias para vencer.
Na camiseta está escrito apenas um nome: Braz.
As casas de apostas analisam não apenas o porte físico dos corredores, mas também seu histórico de competições, a disciplina nos treinamentos e os cuidados com a saúde.
Nesse ponto, Braz decepciona.
Embora impressione pela aparência, seu passado é marcado por resultados medíocres. Tem fama de viver de forma desregrada, treinar pouco e acreditar que é possível colher sem plantar. Muitos apostadores, por isso, recusam-se a apostar nele.
É dada a largada.
Nos primeiros metros, Braz acompanha o pelotão da frente. Cerca de dez atletas assumem a liderança e ele permanece entre eles. Ainda assim, os observadores mais experientes comentam:
— Não chega ao fim da prova.
O boletim médico da organização revela um dado preocupante. Braz corre febril, acometido por uma grave infecção generalizada — uma septicemia. Para continuar na disputa, depende de medicamentos que apenas mascaram os sintomas e adiam uma crise anunciada.
Milagres não fazem parte do regulamento.
À medida que a corrida avança, prevalecem a preparação, a disciplina e a resistência. O atleta de físico privilegiado começa a perder posições. Competidores muito menores, sem sua musculatura e sem seu porte impressionante, ultrapassam-no com facilidade.
A expectativa dos apostadores é unânime: apesar da simpatia da torcida, Braz terminará a corrida em colapso, não no pódio.
Nesse momento, a cena é interrompida.
O apresentador retorna ao palco e dirige-se à plateia:
— Não pensem apenas nos bilhetes premiados. O verdadeiro desafio desta peça é descobrir quem inspira o personagem principal.
E sugere a troca de alguns nomes:
Braz por Brasil.
Histórico de competições por qualidade da gestão pública.
Septicemia por déficit público crônico.
Medicamentos por gastança governamental financiada por dívida.
Treinamento por produtividade, educação e trabalho.
Feitas as substituições, o enredo permanece rigorosamente o mesmo.
Nenhum atleta, por mais privilegiado que seja, sobe ao pódio vivendo de aparência, improviso e estimulantes. Na maratona das nações, como na dos homens, vencem aqueles que se preparam, poupam energia, treinam com disciplina e respeitam os limites da realidade.
Sao Paulo, 6 de junho de 2026.
Jorge Wilson Simeira Jacob