domingo, 5 de abril de 2026

 A deseconomia de escala


A economia de escala refere-se à redução do custo médio de produção à medida que a quantidade de bens ou serviços produzidos aumenta, resultando em maior eficiência e competitividade. 


Adam Smith, com a sua proposta da especialização, deu impulso a busca do aumento da produtividade (  economia de escala )  em todas as atividades humanas. 


Ainda que a indicação original objetivasse as atividades econômicas, a ideia universalizou-se. A medicina, por exemplo,  a  levou  ao limite segmentando os profissionais em partes do corpo humano ou da mente. 


A disseminação da ideia fez o  mundo reordenar todas atividades econômicas priorizando as vantagens competitivas decorrentes das vocações regionais, o que resultou na globalização.



 A globalização tornou-se  um novo modus operandi, que revolucionou as relações entre nações e empresas. Produção, transporte e distribuição foram influenciadas pelas vantagens comparativas. 


A concentração das atividades, segundo as   vocações regionais ou humanas, trouxe como resultado produtos e serviços de melhor qualidade e menor preço, beneficiando o consumidor e gerando oportunidades.


O terroir francês permite uma qualidade de vinho a um preço inferior ao produzido na Inglaterra ou Suíça. É mais econômico comprar vinho da França  e vender a ela o que ela não produz.  As  vantagens são tão evidentes a ponto de superar o sentimento bairrista e as ideias ultrapassadas da fase do Mercantilismo.


Por uma generosidade da natureza, a grande maioria das regiões do mundo  tem uma vocação a ser explorada. O deserto de Nevada, nos Estados Unidos, descobriu ser a liberdade geral a sua vocação, que resultou nas Las Vegas, a maior renda per capita do país.


Ignorar as vantagens comparativas  é nadar contra a correnteza. É desperdício econômico.


Como nenhuma região é autossuficiente , vivemos das trocas. Estas ensejaram a concentração das populações nas cidades. Quanto maior a população, maior a oportunidade de intercambio entre os seus habitantes. Mas, assim como os medicamentos tem efeitos colaterais, também a  tem o   crescimento populacional.


A deseconomia de escala



Enquanto, na fase inicial os  benefícios da   economia de escala beneficiaram os consumidores,  dando às populações produtos à preços acessíveis, a  evolução da medicina aumentou o tempo de vida. O resultado foi  a explosão populacional, que  concentrou-se  em  grandes metrópoles.



A população mundial , desde a revolução industrial, vem crescendo em alta velocidade. Países como China e India têm 1,5 bilhão de habitantes, cidades de milhões de habitantes  há a  centenas mundo afora. Esta superpopulação está cobrando a sua conta: 1 -  às pessoas — a queda da qualidade de vida pelo aumento da violência, trânsito congestionado, poluição geral e insociabilidade; e 2 - às empresas — escassez de insumos como água, energia, transporte e custo da mão de obra


A especialização e o  consequente aumento da produção, como a mudança do campo para as cidades, foram importantes conquistas, enquanto houve economia de escala. Depois de certo ponto, quando os custos aumentam mais  com a maior produção , há uma  deseconomia de escala.  


Os produtos ficam piores e mais caros; as cidades, enfrentam a deterioração das condições de vida: transito emperrado, pavimentação esburacada, custo elevado dos imóveis,  violência, poluição do ar, da agua e das áreas publicas.


Se as deseconomias de escala nas atividades empresariais  encontra solução na transferência para outro endereço, outra região, na super população, a solução é um decréscimo populacional. A atual tendência da queda da natalidade poderá ser o fim da atual deterioração da qualidade de vida nas cidades.


O preço a ser pago para a desejada melhoria da qualidade de vida, ensejada pela mudança demográfica,  será o custo do fim da atual bicicleta,  que gasta com a previdência hoje por conta do crescimento populacional. 


Thomas Malthus * ( 1766-1834 ) tinha parcialmente razão, o aumento demográfico seria o fim da humanidade, não por falta de alimentos como ele profetizava, mas por uma superpopulação, uma deseconomia de escala,  que faria a vida inviável. 


A atual deseconomia de escala sinaliza estar no fim a aposta no crescimento populacional. 



*A teoria de Malthus, também conhecida como Malthusianismo, é uma teoria demográfica que postula que o crescimento da população humana tende a ser maior do que o crescimento da produção de alimentos



Sao Paulo, 28 de abril de 2025

Jorge Wilson Simeira Jacob 

























sábado, 28 de março de 2026

 O desenvolvimento não é uma fatalidade


Até a Revolução  Industrial, há 200 anos, a sociedade estava estratificada entre uma massa de  pobres camponeses, uns poucos  artesãos residentes nos burgos  e a nobreza nos seus castelos. A vida girava em torno da nobreza, a quem os camponeses  pagavam tributos e os burgueses serviam.


A atividade econômica dependia da agricultura e do artesanato, que não ocupava toda a mão de obra disponível. A um  “exercito de reserva”, subempregados  necessitados de ganhar a vida, só restavam outras duas oportunidades: o serviço militar e o sacerdócio religioso. 


De um lado, a oferta de jovens dispostos ao serviço militar  era um incentivo às  guerras — dispêndio de trabalho em atividade não produtiva. De outro os candidatos ao sacerdócio ensejavam a proliferação de catedrais e conventos — desvio das poupanças dos investimentos econômicos.


Na sociedade feudal não havia a possibilidade de ascensão socioeconômica. Quem nascia pobre morria pobre. Não havia a esperança de dias melhores, que é  uma valiosa válvula de escape para a pressão social.


A Revolução Industrial, quebrou esse paradigma.   Uma indústria nascente criou empregos,  multiplicando as oportunidades. Passou a valer , não mais o nascimento, a posição eclesiástica,  o talento militar, e as relações políticas. 


Foi valorizado no novo modelo o espírito empreendedor,  a criatividade, a iniciativa, a poupança e o investimento. O mérito passou a ser o critério de reconhecimento e recompensa.


Keynes definiu este impulso como um “ espírito animal”, que leva o empreender a agir e tomar riscos. 

O capitalismo liberou esse “ espírito animal” , essa disposição ao risco, a ambição de resultados, que, nestes duzentos anos, gerou  um desenvolvimento sem igual na história. O resultado foi a redução dramática do número de miseráveis, aumento de impérios empresariais e melhoria na qualidade de vida. 

O homem passou a viver mais e melhor. As guerras e o sacerdócio deixaram de ser as únicas saídas do desemprego. O mundo tornou-se menos beligerante; a religião cedeu espaço à razão.

Com o inicio do capitalismo moderno, as disputas por vantagens deixaram os teatros de guerra para o mercado. Esta entidade abstrata onde os interesses se encontram para trocas voluntarias, que só acontecem se forem boas para ambas as partes.

Não há mercado se não houver trocas. Sem trocas não se viabiliza a produção industrializada. É o comercio entre as partes que gera riqueza. O comercio é, portanto,  um incentivo à paz entre as nações: “ bons negócios fazem bons amigos”.


O mercado, em regime de legitima competição pela preferência do consumidor, reconhece e premia os que oferecem os melhores produtos ou serviços pelo menor preço.


A Revolução Social - a criação da classe média 


Uma outra mudança radical — uma  revolução social — aconteceu como consequência do capitalismo.  A nobreza ociosa foi substituída por um empresariado dinâmico. Criou-se uma classe média de administradores, então inexistente, e operários substituindo os sacerdotes, guerreiros e os escravos que foram sendo libertados mundo à fora.


Os duzentos anos de progresso continuo desde a revolução industrial e seus desdobramentos implantaram nas mentes a ideia de que o amanhã sempre será melhor do que o hoje. 


Os fatos não alimentam essa crença. O desenvolvimento não é uma fatalidade. O populismo-socializante vem destruindo as conquistas do capitalismo. Muitos países abraçaram o demônio socialista  e estão enfrentando a decadência.


Um caso que deveria servir como lição  é a história da Argentina. Um território privilegiado , uma economia entre as  mais ricas e uma população das mais educadas do mundo,  vai do apogeu à pobreza em poucas décadas. 


O que se passou?


A Argentina abandonou com Peron, nos anos de 1940, a constituição liberal implantada por Sarmiento * em 1853, que fez o país rico. O peronismo propunha dar aos “descamisados” uma política de distribuição das riquezas e vantagens laborais. Com a  proposta socialista não se premiava o mérito, mas a necessidade — o que dá votos a curto prazo, mas   castra o espírito empreendedor.


A “esmola” vicia e não se satisfaz, sempre pede mais. O fim foi o previsível  — a decadência, como sentenciava a filosofa russa Ayn Rand: “Não se faz uma nação prospera dando benefícios aos que nada produzem e punindo com impostos os que criam riqueza”.


* A Constituição da Argentina de 1853 foi escrita tendo como referência os trabalhos do jurista liberal argentino Juan Bautista Alberdi e implantada no governo do Presidente Sarmiento. 


Sao Paulo, 21 de maio de 2025

Jorge Wilson Simeira Jacob












sábado, 21 de março de 2026

 


A ortodoxia necessária

Faz parte da crença comum a ideia de que tudo na vida evolui, melhora e cresce. Não faltam exemplos concretos para sustentar essa convicção.


As mudanças são palpáveis. Em quase todos os campos do conhecimento houve aumento de qualidade e produtividade. Nos últimos duzentos anos, com a consolidação do capitalismo, o homem comum passou a desfrutar de condições de vida que fariam inveja ao Rei Sol.


Uma nova classe socioeconômica surgiu. A miséria, que durante séculos foi a condição da imensa maioria da população mundial, vem sendo reduzida de forma significativa. Basta lembrar o caso da China que, após as reformas promovidas por Deng Xiaoping e a adoção de práticas de economia de mercado, retirou centenas de milhões de pessoas da pobreza extrema.


Os avanços da medicina, para limitar os exemplos, não apenas curaram doenças que por séculos maltrataram suas vítimas, como também estenderam a expectativa de vida humana.


De tanto observar melhorias ao nosso redor, por que não ousar também a crença de que a própria aritmética pode evoluir? Por que permanecer prisioneiros da sua exatidão? Por que dois mais dois haveria de ser sempre quatro?


Não são os conservadores nem os ortodoxos que fazem o mundo avançar — dizem — mas aqueles que ousam pensar fora da caixa. Os gênios acertam alvos invisíveis aos homens comuns.


Entre as inovações pretendidas por esses espíritos ousados estaria a ideia de libertar a soma dos algarismos de uma tabela fixa. Em vez de dois mais dois ter de ser quatro, propõem que possa ser cinco, seis ou qualquer outro número conveniente.


Felizmente, tais heterodoxos não costumam calcular o concreto das pontes e dos edifícios. E quando algum deles violentou a ortodoxia aritmética, os resultados foram igualmente concretos: as construções não permaneceram de pé.


Outros inovadores, porém, têm mais sorte. Ousam subverter a lógica em campos como a economia e as ciências sociais. Como lidam com abstrações e variáveis vivas, mutáveis e difíceis de isolar, seus erros não são testados em laboratório. Os efeitos se diluem no tempo, mascarados por circunstâncias, discursos e justificativas morais.


Uma visão ortodoxa das relações econômicas leva à crença de que só se pode dispor daquilo que foi produzido; que só se pode investir o que foi previamente poupado; que só pode existir emprego onde exista empregador.


Já uma visão heterodoxa, dita moderna, acredita na alquimia de transformar vontade em renda, lei em produto e distribuição em justiça.


Enquanto a economia clássica, na pena de Adam Smith, via no estímulo ao lucro a satisfação do consumidor e o salário do trabalhador, certas correntes da economia moderna afirmam enxergar alvos invisíveis aos clássicos — e aspiram ao Nobel com propostas como a chamada Nova Matriz Econômica.


Resumidamente, trata-se da ideia de que gastar é vida: um conjunto de políticas baseado no aumento do gasto público e do crédito para estimular o crescimento, na redução de impostos setoriais, na expansão do crédito via bancos públicos e na manutenção artificial de juros baixos para incentivar consumo e investimento.


Os resultados foram aqueles previstos pelos economistas clássicos: inflação, perda do poder aquisitivo, desemprego e desequilíbrio das contas públicas. No campo político, culminaram no impedimento da presidente, após a progressiva desmoralização do governo.


Se engenheiros que ignoram a ortodoxia da matemática derrubam pontes e edifícios, engenheiros sociais descolados da realidade derrubam governos, renda e o futuro de um país.

A lógica como a aritmética tem leis próprias  que não se subordinam à vontade politica. 

São Paulo, 15 de dezembro de 2025

Jorge Wilson Simeira Jacob

sábado, 14 de março de 2026

 



 A Redescoberta do Brasil



No ano de 1500 da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, o rei de Portugal escolheu o melhor almirante do reino para descobrir o Brasil. Pedro Álvares Cabral foi designado a comandar uma frota  singrando o Atlântico na direção ao sudoeste seguindo as pegadas de Colombo.


A descoberta da América pela coroa espanhola ferira os brios portugueses. A rivalidade entre as duas monarquias exigia resposta à altura. Algum território que ampliasse fronteiras tornara-se imperativo para recuperar um prestígio ameaçado.


Em dia ensolarado, clima ameno e águas calmas, Pedro lançou ao mar suas naves. Como tudo estava previsto, a viagem correu tranquila, sem revoltas a bordo nem ansiedade quanto aos resultados. O escrivão Pero Vaz de Caminha mantinha os diários de bordo, minuciosa e pontualmente registrados.


No prazo previsto, o marinheiro no alto do mastro  anunciou: terra à vista. A tripulação apressou-se para o desembarque, previsto para ser em um porto seguro. Um imprevisto, porém, exigiu rápida e competente decisão do comandante. Tinham ancorado em porto inseguro: ondas fortes sacudiam violentamente os navios; o baixo calado os mantinha longe da costa; e indígenas à espreita desaconselhavam qualquer aproximação.


Pero Vaz de Caminha, sem perda de tempo, atento às oportunidades — como convém aos servidores da coroa — escreveu ao rei. Na carta, obviamente adulatória, elogiou-lhe a visão estratégica e a coragem que ensejaram a descoberta de novas terras para honra e glória do reino: um pedaço de paraíso onde, plantando-se, tudo dá. Feitas as mesuras preparatórias, pediu que familiares seus fossem nomeados a cargos de governo.


Apesar dos obstáculos, houve o desembarque. As ondas e o baixo calado foram superados pela destreza dos marinheiros, e os indígenas, subornados com bugigangas e balangandãs. Todos ficaram satisfeitos: os locais com os presentes e os recém-chegados com a hospitalidade.


Pedro Álvares Cabral já antecipava, como prêmio pela missão exitosa, um título de nobreza na corte e um bom dote em ouro. Pero Vaz de Caminha acalentava ser agraciado, assim como seus familiares, com o melhor que os governos têm a oferecer: cargos públicos ricos em regalias e estabilidade.


Como prova da conquista, alguns “índios” foram enviados à corte, causando grande comoção no reino. A versão fantasiosa da descoberta por acaso foi mantida para evitar contestações espanholas: ventos desviaram a frota a caminho da Índia; os nativos foram chamados de índios; e o primeiro ato oficial na nova terra foi uma missa, garantindo o beneplácito do Vaticano — interessado em conquistar almas antes de colonizar corpos.


Em 1889, ano da graça do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Brasil foi redescoberto. A República foi proclamada substituindo a monarquia. Um imperador lúcido e patriota foi deposto e deportado para viver modestamente em Paris. Os republicanos também desembarcaram em porto inseguro, com ondas fortes, baixo calado e índios à espreita.


As consequências de uma abolição sem condições mínimas de sobrevivência lotaram de miséria os arredores da capital. Lutas políticas e rivalidades regionais deixaram o país à deriva. A democracia tornou-se, não a escolha dos melhores, mas um leilão populista de compra de eleitores.


 Se Pero Vaz de Caminha, em nossos dias,  tivesse acabado de desembarcar, talvez escrevesse ao rei:


“Aqui tudo há para plantar e colher, mas a vocação dos índios locais é colher sem plantar. As  missas aqui  reforçam  a ideia de direitos sem responsabilidades. Os caciques só  cuidam da próxima eleição que vencem oferecendo bugigangas e balangandãs. A lei e a ordem não é praticada por   convicção, mas por  conveniência.


E concluiria:


“Vossa Majestade — com o devido respeito — o único sentimento verdadeiramente preservado nesta terra, fora a luxúria, é a ambição por um emprego público rico em penduricalhos e estabilidade.”

 

São Paulo, 09 de janeiro de 2026.

Jorge Wilson Simeira Jacob


Leia também O Roubo intelectual do século.