O tarifaço e o jiu-jítsu
O pouco que sei sobre a arte marcial japonesa do jiu-jítsu é suficiente para compreender sua lógica. Em vez de responder à força com mais força, ela ensina a utilizar o impulso do adversário contra ele próprio. O golpe não é enfrentado frontalmente; é absorvido, redirecionado e transformado em vantagem.
Essa estratégia nasceu da necessidade. Os japoneses desenvolveram uma técnica que lhes permitisse enfrentar adversários fisicamente mais fortes, compensando a inferioridade de força com habilidade, velocidade e inteligência. O jiu-jítsu ensina que, diante de um oponente superior, a pior resposta é disputar o jogo que ele escolheu.
É exatamente essa a situação criada pela política comercial de Donald Trump.
Ao substituir a diplomacia pela pressão tarifária, Trump procura impor sua vontade pela demonstração de força. Em vez da negociação, utiliza tarifas como instrumento de coerção econômica. A lógica deixa de ser a do entendimento entre parceiros comerciais e passa a ser a da imposição.
A China, pelo tamanho de sua economia e capacidade de reação, possui condições de enfrentar esse desafio em pé de igualdade. A maioria dos demais países, porém, não dispõe da mesma musculatura. Restam-lhes duas alternativas: ceder às exigências americanas ou responder com inteligência, recusando-se a lutar a luta escolhida por Washington.
A Argentina optou por um caminho próprio. Alinhou-se politicamente aos Estados Unidos e obteve condições comerciais mais favoráveis em diversos setores. Pode-se discutir os riscos dessa estratégia, mas ela revela pragmatismo ao colocar os interesses econômicos nacionais acima das disputas ideológicas.
O Brasil parece seguir o caminho oposto. Ao transformar uma negociação comercial em confronto político, concentra suas energias em responder às provocações de Trump e em invocar a defesa da soberania nacional. Embora a soberania seja um valor inegociável, ela não elimina a necessidade de proteger os interesses econômicos do país. O objetivo central deveria ser preservar a competitividade das empresas brasileiras e ampliar seus mercados.
A estratégia do jiu-jítsu sugeriria outra resposta.
Se os Estados Unidos impõem uma tarifa elevada sobre um produto brasileiro, como o alumínio, não faz sentido tentar compensar essa perda reduzindo o preço para o mercado americano. A resposta inteligente seria reduzir a carga tributária incidente sobre o produto destinado aos demais mercados internacionais.
Com isso, o alumínio brasileiro chegaria mais barato à Europa, à Ásia, ao Oriente Médio, à África e aos países latino-americanos. O Brasil conquistaria novos clientes, reduziria sua dependência do mercado americano e manteria sua produção em pleno funcionamento.
Mas o efeito mais interessante seria outro.
Ao fornecer insumos mais baratos aos demais países, estaríamos reduzindo seus custos de produção e aumentando sua competitividade internacional. Empresas europeias, chinesas, indianas ou sul-coreanas passariam a competir em melhores condições com as empresas americanas, graças, em parte, ao menor custo dos insumos brasileiros.
Em outras palavras, a tarifa criada para proteger a indústria dos Estados Unidos acabaria fortalecendo seus concorrentes. O golpe desferido por Trump retornaria contra os próprios interesses americanos.
É exatamente essa a lógica do jiu-jítsu. Não se enfrenta um adversário mais forte tentando superá-lo na força. Aproveita-se o impulso do ataque para fazê-lo perder o equilíbrio. Em uma guerra comercial, talvez a inteligência estratégica produza resultados muito superiores ao simples confronto. Afinal, a melhor resposta ao boxe nem sempre é outro soco. Às vezes, basta um bom golpe de jiu-jítsu.
São Paulo, 18 de julho de 2026