Cem anos de solidão
Os animais estão permanentemente ameaçados por agentes que atacam o seu organismo: vírus, bactérias, fungos e parasitas. A sobrevivência depende de um sistema imunológico capaz de reagir e defender o corpo. Quando ele falha, o risco de morte é inevitável.
Assim também é a democracia.
Ela sobrevive não por ser perfeita, mas porque os outros sistemas são piores. E não lhe faltam inimigos: a usurpação do poder, a corrupção, a criminalidade e a demagogia. Agravam esse quadro o abuso dos detentores do poder, o desperdício de recursos públicos em benefício próprio, a manipulação de políticas sociais com fins eleitorais e a leniência com o crime.
Se, na saúde, a sobrevivência depende do sistema imunológico, na democracia ela depende de suas instituições.
No passado, em diversas ocasiões, quando crises econômicas, políticas ou sociais ameaçaram a nação brasileira, esse “sistema de defesa” foi acionado. Ainda que de forma imperfeita, houve reação.
É de se lamentar que essas experiências não tenham sido suficientes para evitar a repetição dos mesmos erros.
Hoje, os sinais de deterioração são evidentes. O déficit público é crescente; empresas estatais e o sistema previdenciário acumulam prejuízos relevantes; a inflação é contida à custa de juros elevados; os benefícios sociais frequentemente ultrapassam sua função essencial e assumem contornos eleitorais; o sistema tributário tornou-se mais complexo; e reformas políticas e administrativas seguem fora da agenda.
O país passa a viver no curto prazo, como alguém que sobrevive ao dia de hoje sem condições de planejar o amanhã.
As expectativas de futuro se deterioram. Muitos jovens já não veem no Brasil um horizonte promissor. Emigrar torna-se uma alternativa cada vez mais presente. O país, antes associado ao potencial, passa a ser percebido pela insegurança.
A violência se incorporou ao cotidiano. O medo limita a liberdade: nas ruas, nas casas, na rotina. A insegurança deixou de ser exceção para se tornar regra.
Diante desse quadro, impõe-se uma pergunta: onde estão as instituições?
Nos três poderes, a percepção recorrente é de distanciamento em relação às demandas reais da sociedade. Falta senso de urgência diante da deterioração dos fundamentos que sustentam a vida pública: responsabilidade fiscal, segurança jurídica, previsibilidade e compromisso com o interesse coletivo.
Quando as instituições deixam de cumprir seu papel, instala-se a anomia — a ausência prática de regras efetivas. E, nesse ambiente, abrem-se dois caminhos conhecidos: a desordem ou a busca por soluções autoritárias.
Essa é a grande ameaça.
Nos indivíduos, a falha do sistema imunológico compromete a sobrevivência. Nas nações, a omissão das instituições compromete o futuro.
Quando isso ocorre, repete-se o destino de Macondo, descrito por Gabriel García Márquez em Cem Anos de Solidão: uma sucessão de eventos que se repetem ao longo do tempo, sem avanço real — apenas a ilusão de movimento.
Essa é a sina das sociedades em que o “sistema imunológico” deixa de funcionar.
São Paulo, 16 de junho de 2025.
Jorge Wilson Simeira Jacob