sábado, 21 de fevereiro de 2026

 


Cabo de Guerra: o Peso dos Inativos 



Imagine um cabo de guerra entre dois grupos. As condições físicas são semelhantes, o terreno é o mesmo, e não há truques. A diferença decisiva não está na técnica, mas no número de pessoas puxando de cada lado. Quanto maior o grupo de um lado da corda, maior o esforço exigido do outro.


Essa imagem ajuda a compreender um dos principais entraves ao crescimento brasileiro: o aumento do peso dos inativos sobre um contingente relativamente pequeno de ativos.


De um lado estão os ativos — trabalhadores formais e informais, empreendedores e empresas que geram valor, renda, impostos e poupança. Do outro, os inativos econômicos — aposentados, pensionistas, beneficiários permanentes de transferências, desempregados de longa duração e um Estado cujo gasto cresce mais rapidamente do que a base produtiva que o financia.


O resultado desse desequilíbrio aparece de forma objetiva na renda per capita, especialmente quando ajustada pela Paridade de Poder de Compra (PPP), indicador que permite comparar o poder de compra médio entre países.


Os números são claros. No ano 2000, a renda per capita do Brasil em PPP era de aproximadamente US$ 14 mil, contra cerca de US$ 18,5 mil na Coreia do Sul. A diferença existia, mas era relativamente modesta. Em 2024, o Brasil alcança cerca de US$ 19,6 mil, enquanto a Coreia do Sul ultrapassa US$ 55 mil. O poder de compra médio do sul-coreano é hoje quase três vezes maior que o do brasileiro.


Em termos absolutos, o Brasil avançou pouco. Em termos relativos, perdeu posição. No início dos anos 2000, o país ocupava uma colocação intermediária no ranking mundial de renda per capita em PPP. Por volta de 2019, havia caído para cerca da 86ª posição, recuperando-se apenas marginalmente para algo entre a 80ª e a 81ª posição em 2024.


Por trás desse desempenho está um dado estrutural frequentemente ignorado: a relação entre ativos e inativos. Ver gráfico no início do texto.


No Brasil, segundo o gráfico no início deste texto, os ativos representam  38,2% . O restante são  pessoas economicamente inativas ou dependentes, considerando aposentados, pensionistas, beneficiários permanentes de transferências e população fora da força de trabalho. No início dos anos 2000, essa relação era mais favorável, girando em torno de 60 dependentes para cada 100 ativos.


Já a Coreia do Sul, apesar do envelhecimento acelerado da população, compensou o aumento de inativos com forte elevação da produtividade, alta taxa de participação no mercado de trabalho e crescimento do valor agregado por trabalhador. Em outras palavras, mesmo com mais peso do outro lado da corda, cada ativo passou a puxar muito mais forte.


O Brasil seguiu caminho distinto. Ampliou o contingente de inativos — por demografia, informalidade persistente e expansão contínua do gasto público — sem elevar proporcionalmente a produtividade dos ativos. O resultado é conhecido:


  • maior carga tributária sobre quem produz;
  • menor investimento privado;
  • estagnação da produtividade;
  • e crescimento medíocre da renda per capita.



Não se trata de juízo moral sobre aposentados ou beneficiários de políticas sociais. Trata-se de aritmética econômica. Nenhuma sociedade sustenta convergência com países mais ricos quando o número de pessoas que vivem da produção alheia cresce mais rápido do que a capacidade de produzir.


No cabo de guerra do desenvolvimento, é possível fortalecer os participantes — com educação, tecnologia, instituições previsíveis e um ambiente de negócios favorável. Mas quando a escolha é empilhar peso de um lado da corda e desestimular quem puxa do outro, o desfecho é previsível.


Se o registro histórico serve de guia, a manutenção da atual trajetória — mais inativos, baixa produtividade e políticas pouco amigáveis à produção — levará o Brasil a um destino claro: não necessariamente mais pobre em termos absolutos, mas progressivamente mais pobre em relação ao mundo.


Enquanto a proporção entre quem puxa e quem é puxado não for corrigida, o cabo de guerra continuará desfavorável — e a renda média do país seguirá perdendo força.


São Paulo, 20 de janeiro de 2026.

Jorge Wilson Simeira Jacob


sábado, 14 de fevereiro de 2026

Da Caridade à Servidão

Como o Estado paternalista enfraqueceu a responsabilidade individual e a solidariedade espontânea



Diz o aforismo que “o diabo não sabe mais por sabedoria,

mas por experiência: é velho”. A frase, provocativa, aponta

para uma verdade elementar: o tempo vivido acumula

experiências, ainda que a sensibilidade para absorvê-las

varie de pessoa para pessoa.

Uma vida longa atravessa transformações profundas — não

apenas físicas, mas mentais e culturais. O homem muda, e

muda também o mundo que o cerca: a natureza, a sociedade

e, sobretudo, a cultura. Envelhecer, como sugerem diversos

filósofos, assemelha-se a subir uma montanha: perde-se

vigor, mas ganha-se visão histórica.

Por isso, o idoso frequentemente é tratado como peça de

museu. A idade desperta curiosidade, especialmente quando

acompanhada de autonomia. Pergunta-se pelo “segredo”,

como se existisse uma fórmula oculta. Não surpreende,

assim, a profusão de livros, reportagens e estudos dedicados

ao chamado envelhecimento saudável.

A medicina atribui à genética um papel relevante na

longevidade, embora reconheça que seus efeitos podem ser

ampliados ou reduzidos pelas condições de vida. Higiene,

alimentação equilibrada, atividade física e estímulo

intelectual não apenas prolongam a existência, mas

qualificam a vida. A biologia ensina que a função preservao órgão: viver exige movimento. Como uma bicicleta, parar

é cair.

Evitar desafios cotidianos — físicos ou intelectuais —

cobra seu preço. Subir escadas, caminhar, ler, aprender algo

novo, enfrentar problemas: tudo isso sustenta a vitalidade.

O envelhecer é mais rápido se há desistência de lutar.

Mas o declínio humano não é apenas biológico. É

preocupante se for também cultural. O indivíduo pode

preservar o corpo, mas pode definhar como sujeito moral

se o ambiente em que vive o dispensa do esforço de agir,

escolher e responder.

O ser humano não vive isolado. Assim como o peixe

depende da água, nós dependemos da cultura em que

estamos inseridos. Cultura não é apenas ir à ópera ou a

museus. Como observa David Brooks, trata-se de um modo

de vida compartilhado: hábitos, rituais, histórias, valores,

percepções e desejos. É a atmosfera moral em que todos

respiramos.

Edmund Burke já advertia que os costumes são mais

importantes do que as leis. Estas nos tocam ocasionalmente;

aqueles nos moldam continuamente. São eles que refinam

ou degradam, elevam ou corrompem, quase sem que

percebamos.Na transição do século XX para o XXI, a cultura brasileira

sofreu uma inflexão decisiva com a expansão do Estado

paternalista. Parte da responsabilidade social, antes

sustentada pelos costumes e pelas relações comunitárias, foi

transferida ao poder público. A caridade, outrora prática

cultural viva — hospitais beneficentes, asilos, ajuda direta

aos necessitados — foi institucionalizada. A caridade foi

estatizada.

Houve ganhos materiais e ampliação de serviços. Mas o

custo foi alto: ao assumir a tutela do bem-estar dos

cidadãos, o Estado reduziu o espaço da responsabilidade

individual. O auxílio deixou de ser virtude; tornou-se

função administrativa.

No cume da montanha, após quase um

século de ascensão, a paisagem é clara.

Ao estatizar a caridade, o Estado

paternalista não apenas organizou a

ajuda: ele a esvaziou de sentido moral.

Onde antes havia virtude, surgiu

procedimento; onde havia

responsabilidade, instalou-se tutela. O

cidadão deixou de agir por dever e

passou a aguardar por direito.Não foi por sabedoria, mas por ter vivido

o suficiente para testemunhar essa

revolução silenciosa, que se percebe o

custo oculto do Estado protetor. Ao

prometer amparo permanente, ele

enfraqueceu a solidariedade

espontânea, corroeu a responsabilidade

individual e reduziu a liberdade a

conforto administrado. A servidão

moderna já não se impõe pela força —

ela se oferece como proteção .

São Paulo, 02 de fevereiro de 2026

Jorge Wilson Simeira Jacob


sábado, 7 de fevereiro de 2026


Por que elegemos os piores?

A diferença entre os homens e os animais é que os animais nunca escolhem os piores para governá-los.”

Atribuída a Winston Churchill


Há que se fazer justiça aos homens: a eleição de um, na selva, é um processo simples. A escolha é limitada a critérios físicos — força, resistência,aptidão — e esses sinais são imediatamente visíveis. Já entre os homens, o processo se complica pelapresença do componente psicológico, muito mais fácil de camuflar.


A frase em epígrafe é, ao que tudo indica, atribuída a

Churchill. Mas se ele não a formulou, faltou-lhe apenas oportunidade. A ideia é perfeitamente compatível com a sua visão crítica da política e com a verve irônica tão característica do humor inglês.


A genialidade de Churchill está, sobretudo, na sua

extraordinária capacidade de analisar a psicologia humana— uma condição que, infelizmente, falta à maioria dos eleitores. Em geral, deixamo-nos impressionar pelas aparências; julgamos discursos, poses e gestos, quando deveríamos examinar caráter, integridade e motivação.


Se tivéssemos a acuidade psicológica de um Churchill para

identificar os traços de personalidade dos candidatos,faríamos como os animais: não escolheríamos os piores para nos governar — como frequentemente temos feito.


É preciso reconhecer que o eleitor enfrenta uma dificuldade

real ao tentar diagnosticar o caráter dos candidatos. No

esforço pela conquista do voto, eles escondem suas

fraquezas com perícia. Seus discursos são sempre altruístas,

generosos, bem-intencionados. Na retórica, todos são

estadistas; na prática, poucos resistem ao teste da vida real.


Com frequência, quem sobrevive na selva política é o

indivíduo menos comprometido com a ética e a moral. Na

disputa eleitoral, candidatos com falhas de caráter dispõem

de um arsenal mais vasto: manipulação, dissimulação,

promessas impossíveis, ataques pessoais. Trata-se de uma

competição desigual entre integridade e malícia.


Nenhum ser humano é puro — nem física nem

psicologicamente. Somos combinações complexas de

virtudes e fraquezas, com características dominantes e

secundárias. Mas, neste texto, interessam-nos

especialmente os candidatos de má formação de caráter:

narcisistas, amorais, imorais — cada qual com sua própria

“dosagem” de falta de escrúpulos.


Como identificá-los?


1. Pela moral instrumental

Indivíduos inescrupulosos operam segundo uma moralidade

funcional:

• o certo é o que funciona;

• o errado é o que falha.

Não possuem um sistema ético interno; possuem um

cálculo de custo-benefício.

Podemos defini-los como:

• amorais, porque não reconhecem valor intrínseco nas

ações;

• egocêntricos, porque tudo é decidido em função de si

mesmos;

pragmatistas extremos, porque a eficácia substitui a

moral.


2. Pelo narcisismo

O narcisista acredita que merece privilégios e não deve

satisfações.

A opinião alheia só o preocupa quando ameaça sua imagem

— nunca por convicção moral.

3. Pela falta de escrúpulos no exercício do poder

Quando eleitos, esses indivíduos revelam-se rapidamente:

• decidem em função de interesses pessoais;

• tratam o Estado como extensão de seus próprios

negócios;

• não têm pudor em se beneficiar do cargo;

• atribuem sempre a terceiros a responsabilidade por

seus erros.

Em suas narrativas, aparecem invariavelmente como:

• vítimas injustiçadas,• heróis incompreendidos,

• ou gênios sabotados.

Nunca admitem responsabilidade; a culpa é sempre dos

outros.


4. Pelo limite da ciência e da psicologia

Ainda que os profissionais contem com teorias

psicológicas capazes de mapear falhas permanentes de

caráter, não é acessível às massas um método infalível para

distinguir impostores de estadistas antes da posse. Os

candidatos jamais expõem suas fraquezas.


5. Pelo único filtro eficaz: o tempo

A verdadeira defesa do sistema democrático é o tempo.

É no exercício do poder que o caráter se revela por

completo. E é nas eleições que o cidadão pode — e deve —

corrigir o erro, removendo do poder aqueles cujadeformação de caráter se tornou evidente. Só assim

deixaremos de ser governados pelos piores.


A tragédia acontece quando a  moral do eleitor é igual a dos piores candidatos.



São Paulo, 16 de novembro de 2025.

Jorge Wilson Simeira Jacob