segunda-feira, 2 de março de 2026

  Carnaval como catarse coletiva

 Os imperadores romanos desenvolveram a política de pão e circo para governar as massas. Fidel Castro, segundo relato crítico de cubanos, aboliu o pão, mas manteve o circo. A cada constatação de aumento da insatisfação, ele decretava “Días de Fiestas”, um feriado regado a música e bebida gratuita. Com isso, mantinha as massas submissas à sua ditadura.


O circo funcionava como uma válvula de escape para reduzir a pressão. O Brasil tem no Carnaval os seus “Días de Fiestas”. Se antes se limitavam a três dias, hoje ultrapassam uma semana. Seria esse aumento do período de “Días de Fiestas” a sinalização de maior insatisfação a exigir mais tempo de descompressão?


A história registra que a diversão social dissipa tensões, mas não elimina as causas. Um dia, a conta chega. Nesse dia, as reformas necessárias serão exigidas. Mas o amanhã será outro dia.


O Carnaval, como catarse coletiva, surgiu como uma despedida que antecede a Quaresma. Esta era, em sua origem, uma suspensão  das restrições antes do ciclo de penitência cristã. Era o excesso antes do limite. Licença antes da norma. Contudo, o que era rito episódico tornou-se fenômeno permanente de evasão simbólica.


Enquanto a realidade cotidiana se deteriora — insegurança pública crescente, institucionalização da corrupção, estagnação econômica e frustração social difusa — a explosão festiva oferece um curto-circuito psicológico: a suspensão provisória da angústia social. Não se elimina o problema; neutraliza-se o seu impacto emocional.


O Carnaval, celebrado como “o maior espetáculo da Terra”, cumpre, assim, uma função que vai além da cultura e do turismo. Opera como fantasia social organizada: um território simbólico onde se pode, por alguns dias, ser outro — rei, celebridade, corpo idealizado, identidade reinventada. A máscara não oculta apenas o rosto; anestesia a realidade.


Exibem-se as carnes, a volúpia sexual transborda, a norma que reprime é ignorada, consome-se o prazer que a rotina nega, encena-se uma liberdade que, estruturalmente, permanece inacessível. A transgressão é permitida, desde que temporária.


Paradoxalmente, um país que protagoniza a maior catarse coletiva do mundo não figura entre as nações mais infelizes nos rankings internacionais de bem-estar. Esse dado não nega a existência de uma insatisfação estrutural, mas pode indicar um sofisticado mecanismo cultural de compensação simbólica: sofre-se muito, mas celebra-se intensamente.


Nesse contexto, o Carnaval deixa de ser apenas festa e passa a ser função social. Não como conspiração organizada, mas como dinâmica cultural espontânea: quanto maior a pressão da realidade, maior a necessidade de fuga coletiva.


A encenação  do “faz de conta” não é ingenuidade; é estratégia psíquica. Faz-se de conta que se é ou o que se gostaria de ser; que o indesejado pode ser debochado; que o sonho pode ser realizado. A encenação alimenta as ilusões.


Terminada a festa, a realidade retorna intacta, mas amortecida na consciência coletiva como realidade indesejada. A catarse coletiva, em escala massificada, pacifica os ânimos.


Assim, o Carnaval não é somente celebração cultural. É, sobretudo, um sofisticado ritual de compensação social: uma explosão periódica de euforia que anestesia a sociedade diante da deterioração dos costumes, do populismo inconsequente, da pobreza persistente, da violência generalizada e da desesperança quanto ao futuro., 


Na quarta-feira, terminado o Carnaval, nos resta como cinzas a sensação de as nossas  frustrações não serão corrigidas por melhor governo, mas compensadas por mais Carnaval.

São Paulo, 18 de fevereiro de 2026

Jorge Wilson Simeira Jacob 


sábado, 21 de fevereiro de 2026

 


Cabo de Guerra: o Peso dos Inativos 



Imagine um cabo de guerra entre dois grupos. As condições físicas são semelhantes, o terreno é o mesmo, e não há truques. A diferença decisiva não está na técnica, mas no número de pessoas puxando de cada lado. Quanto maior o grupo de um lado da corda, maior o esforço exigido do outro.


Essa imagem ajuda a compreender um dos principais entraves ao crescimento brasileiro: o aumento do peso dos inativos sobre um contingente relativamente pequeno de ativos.


De um lado estão os ativos — trabalhadores formais e informais, empreendedores e empresas que geram valor, renda, impostos e poupança. Do outro, os inativos econômicos — aposentados, pensionistas, beneficiários permanentes de transferências, desempregados de longa duração e um Estado cujo gasto cresce mais rapidamente do que a base produtiva que o financia.


O resultado desse desequilíbrio aparece de forma objetiva na renda per capita, especialmente quando ajustada pela Paridade de Poder de Compra (PPP), indicador que permite comparar o poder de compra médio entre países.


Os números são claros. No ano 2000, a renda per capita do Brasil em PPP era de aproximadamente US$ 14 mil, contra cerca de US$ 18,5 mil na Coreia do Sul. A diferença existia, mas era relativamente modesta. Em 2024, o Brasil alcança cerca de US$ 19,6 mil, enquanto a Coreia do Sul ultrapassa US$ 55 mil. O poder de compra médio do sul-coreano é hoje quase três vezes maior que o do brasileiro.


Em termos absolutos, o Brasil avançou pouco. Em termos relativos, perdeu posição. No início dos anos 2000, o país ocupava uma colocação intermediária no ranking mundial de renda per capita em PPP. Por volta de 2019, havia caído para cerca da 86ª posição, recuperando-se apenas marginalmente para algo entre a 80ª e a 81ª posição em 2024.


Por trás desse desempenho está um dado estrutural frequentemente ignorado: a relação entre ativos e inativos. Ver gráfico no início do texto.


No Brasil, segundo o gráfico no início deste texto, os ativos representam  38,2% . O restante são  pessoas economicamente inativas ou dependentes, considerando aposentados, pensionistas, beneficiários permanentes de transferências e população fora da força de trabalho. No início dos anos 2000, essa relação era mais favorável, girando em torno de 60 dependentes para cada 100 ativos.


Já a Coreia do Sul, apesar do envelhecimento acelerado da população, compensou o aumento de inativos com forte elevação da produtividade, alta taxa de participação no mercado de trabalho e crescimento do valor agregado por trabalhador. Em outras palavras, mesmo com mais peso do outro lado da corda, cada ativo passou a puxar muito mais forte.


O Brasil seguiu caminho distinto. Ampliou o contingente de inativos — por demografia, informalidade persistente e expansão contínua do gasto público — sem elevar proporcionalmente a produtividade dos ativos. O resultado é conhecido:


  • maior carga tributária sobre quem produz;
  • menor investimento privado;
  • estagnação da produtividade;
  • e crescimento medíocre da renda per capita.



Não se trata de juízo moral sobre aposentados ou beneficiários de políticas sociais. Trata-se de aritmética econômica. Nenhuma sociedade sustenta convergência com países mais ricos quando o número de pessoas que vivem da produção alheia cresce mais rápido do que a capacidade de produzir.


No cabo de guerra do desenvolvimento, é possível fortalecer os participantes — com educação, tecnologia, instituições previsíveis e um ambiente de negócios favorável. Mas quando a escolha é empilhar peso de um lado da corda e desestimular quem puxa do outro, o desfecho é previsível.


Se o registro histórico serve de guia, a manutenção da atual trajetória — mais inativos, baixa produtividade e políticas pouco amigáveis à produção — levará o Brasil a um destino claro: não necessariamente mais pobre em termos absolutos, mas progressivamente mais pobre em relação ao mundo.


Enquanto a proporção entre quem puxa e quem é puxado não for corrigida, o cabo de guerra continuará desfavorável — e a renda média do país seguirá perdendo força.


São Paulo, 20 de janeiro de 2026.

Jorge Wilson Simeira Jacob


sábado, 14 de fevereiro de 2026

Da Caridade à Servidão

Como o Estado paternalista enfraqueceu a responsabilidade individual e a solidariedade espontânea



Diz o aforismo que “o diabo não sabe mais por sabedoria,

mas por experiência: é velho”. A frase, provocativa, aponta

para uma verdade elementar: o tempo vivido acumula

experiências, ainda que a sensibilidade para absorvê-las

varie de pessoa para pessoa.

Uma vida longa atravessa transformações profundas — não

apenas físicas, mas mentais e culturais. O homem muda, e

muda também o mundo que o cerca: a natureza, a sociedade

e, sobretudo, a cultura. Envelhecer, como sugerem diversos

filósofos, assemelha-se a subir uma montanha: perde-se

vigor, mas ganha-se visão histórica.

Por isso, o idoso frequentemente é tratado como peça de

museu. A idade desperta curiosidade, especialmente quando

acompanhada de autonomia. Pergunta-se pelo “segredo”,

como se existisse uma fórmula oculta. Não surpreende,

assim, a profusão de livros, reportagens e estudos dedicados

ao chamado envelhecimento saudável.

A medicina atribui à genética um papel relevante na

longevidade, embora reconheça que seus efeitos podem ser

ampliados ou reduzidos pelas condições de vida. Higiene,

alimentação equilibrada, atividade física e estímulo

intelectual não apenas prolongam a existência, mas

qualificam a vida. A biologia ensina que a função preservao órgão: viver exige movimento. Como uma bicicleta, parar

é cair.

Evitar desafios cotidianos — físicos ou intelectuais —

cobra seu preço. Subir escadas, caminhar, ler, aprender algo

novo, enfrentar problemas: tudo isso sustenta a vitalidade.

O envelhecer é mais rápido se há desistência de lutar.

Mas o declínio humano não é apenas biológico. É

preocupante se for também cultural. O indivíduo pode

preservar o corpo, mas pode definhar como sujeito moral

se o ambiente em que vive o dispensa do esforço de agir,

escolher e responder.

O ser humano não vive isolado. Assim como o peixe

depende da água, nós dependemos da cultura em que

estamos inseridos. Cultura não é apenas ir à ópera ou a

museus. Como observa David Brooks, trata-se de um modo

de vida compartilhado: hábitos, rituais, histórias, valores,

percepções e desejos. É a atmosfera moral em que todos

respiramos.

Edmund Burke já advertia que os costumes são mais

importantes do que as leis. Estas nos tocam ocasionalmente;

aqueles nos moldam continuamente. São eles que refinam

ou degradam, elevam ou corrompem, quase sem que

percebamos.Na transição do século XX para o XXI, a cultura brasileira

sofreu uma inflexão decisiva com a expansão do Estado

paternalista. Parte da responsabilidade social, antes

sustentada pelos costumes e pelas relações comunitárias, foi

transferida ao poder público. A caridade, outrora prática

cultural viva — hospitais beneficentes, asilos, ajuda direta

aos necessitados — foi institucionalizada. A caridade foi

estatizada.

Houve ganhos materiais e ampliação de serviços. Mas o

custo foi alto: ao assumir a tutela do bem-estar dos

cidadãos, o Estado reduziu o espaço da responsabilidade

individual. O auxílio deixou de ser virtude; tornou-se

função administrativa.

No cume da montanha, após quase um

século de ascensão, a paisagem é clara.

Ao estatizar a caridade, o Estado

paternalista não apenas organizou a

ajuda: ele a esvaziou de sentido moral.

Onde antes havia virtude, surgiu

procedimento; onde havia

responsabilidade, instalou-se tutela. O

cidadão deixou de agir por dever e

passou a aguardar por direito.Não foi por sabedoria, mas por ter vivido

o suficiente para testemunhar essa

revolução silenciosa, que se percebe o

custo oculto do Estado protetor. Ao

prometer amparo permanente, ele

enfraqueceu a solidariedade

espontânea, corroeu a responsabilidade

individual e reduziu a liberdade a

conforto administrado. A servidão

moderna já não se impõe pela força —

ela se oferece como proteção .

São Paulo, 02 de fevereiro de 2026

Jorge Wilson Simeira Jacob


sábado, 7 de fevereiro de 2026


Por que elegemos os piores?

A diferença entre os homens e os animais é que os animais nunca escolhem os piores para governá-los.”

Atribuída a Winston Churchill


Há que se fazer justiça aos homens: a eleição de um, na selva, é um processo simples. A escolha é limitada a critérios físicos — força, resistência,aptidão — e esses sinais são imediatamente visíveis. Já entre os homens, o processo se complica pelapresença do componente psicológico, muito mais fácil de camuflar.


A frase em epígrafe é, ao que tudo indica, atribuída a

Churchill. Mas se ele não a formulou, faltou-lhe apenas oportunidade. A ideia é perfeitamente compatível com a sua visão crítica da política e com a verve irônica tão característica do humor inglês.


A genialidade de Churchill está, sobretudo, na sua

extraordinária capacidade de analisar a psicologia humana— uma condição que, infelizmente, falta à maioria dos eleitores. Em geral, deixamo-nos impressionar pelas aparências; julgamos discursos, poses e gestos, quando deveríamos examinar caráter, integridade e motivação.


Se tivéssemos a acuidade psicológica de um Churchill para

identificar os traços de personalidade dos candidatos,faríamos como os animais: não escolheríamos os piores para nos governar — como frequentemente temos feito.


É preciso reconhecer que o eleitor enfrenta uma dificuldade

real ao tentar diagnosticar o caráter dos candidatos. No

esforço pela conquista do voto, eles escondem suas

fraquezas com perícia. Seus discursos são sempre altruístas,

generosos, bem-intencionados. Na retórica, todos são

estadistas; na prática, poucos resistem ao teste da vida real.


Com frequência, quem sobrevive na selva política é o

indivíduo menos comprometido com a ética e a moral. Na

disputa eleitoral, candidatos com falhas de caráter dispõem

de um arsenal mais vasto: manipulação, dissimulação,

promessas impossíveis, ataques pessoais. Trata-se de uma

competição desigual entre integridade e malícia.


Nenhum ser humano é puro — nem física nem

psicologicamente. Somos combinações complexas de

virtudes e fraquezas, com características dominantes e

secundárias. Mas, neste texto, interessam-nos

especialmente os candidatos de má formação de caráter:

narcisistas, amorais, imorais — cada qual com sua própria

“dosagem” de falta de escrúpulos.


Como identificá-los?


1. Pela moral instrumental

Indivíduos inescrupulosos operam segundo uma moralidade

funcional:

• o certo é o que funciona;

• o errado é o que falha.

Não possuem um sistema ético interno; possuem um

cálculo de custo-benefício.

Podemos defini-los como:

• amorais, porque não reconhecem valor intrínseco nas

ações;

• egocêntricos, porque tudo é decidido em função de si

mesmos;

pragmatistas extremos, porque a eficácia substitui a

moral.


2. Pelo narcisismo

O narcisista acredita que merece privilégios e não deve

satisfações.

A opinião alheia só o preocupa quando ameaça sua imagem

— nunca por convicção moral.

3. Pela falta de escrúpulos no exercício do poder

Quando eleitos, esses indivíduos revelam-se rapidamente:

• decidem em função de interesses pessoais;

• tratam o Estado como extensão de seus próprios

negócios;

• não têm pudor em se beneficiar do cargo;

• atribuem sempre a terceiros a responsabilidade por

seus erros.

Em suas narrativas, aparecem invariavelmente como:

• vítimas injustiçadas,• heróis incompreendidos,

• ou gênios sabotados.

Nunca admitem responsabilidade; a culpa é sempre dos

outros.


4. Pelo limite da ciência e da psicologia

Ainda que os profissionais contem com teorias

psicológicas capazes de mapear falhas permanentes de

caráter, não é acessível às massas um método infalível para

distinguir impostores de estadistas antes da posse. Os

candidatos jamais expõem suas fraquezas.


5. Pelo único filtro eficaz: o tempo

A verdadeira defesa do sistema democrático é o tempo.

É no exercício do poder que o caráter se revela por

completo. E é nas eleições que o cidadão pode — e deve —

corrigir o erro, removendo do poder aqueles cujadeformação de caráter se tornou evidente. Só assim

deixaremos de ser governados pelos piores.


A tragédia acontece quando a  moral do eleitor é igual a dos piores candidatos.



São Paulo, 16 de novembro de 2025.

Jorge Wilson Simeira Jacob