Jorge Wilson Simeira Jacob
sábado, 28 de fevereiro de 2026
sábado, 21 de fevereiro de 2026
Cabo de Guerra: o Peso dos Inativos
Imagine um cabo de guerra entre dois grupos. As condições físicas são semelhantes, o terreno é o mesmo, e não há truques. A diferença decisiva não está na técnica, mas no número de pessoas puxando de cada lado. Quanto maior o grupo de um lado da corda, maior o esforço exigido do outro.
Essa imagem ajuda a compreender um dos principais entraves ao crescimento brasileiro: o aumento do peso dos inativos sobre um contingente relativamente pequeno de ativos.
De um lado estão os ativos — trabalhadores formais e informais, empreendedores e empresas que geram valor, renda, impostos e poupança. Do outro, os inativos econômicos — aposentados, pensionistas, beneficiários permanentes de transferências, desempregados de longa duração e um Estado cujo gasto cresce mais rapidamente do que a base produtiva que o financia.
O resultado desse desequilíbrio aparece de forma objetiva na renda per capita, especialmente quando ajustada pela Paridade de Poder de Compra (PPP), indicador que permite comparar o poder de compra médio entre países.
Os números são claros. No ano 2000, a renda per capita do Brasil em PPP era de aproximadamente US$ 14 mil, contra cerca de US$ 18,5 mil na Coreia do Sul. A diferença existia, mas era relativamente modesta. Em 2024, o Brasil alcança cerca de US$ 19,6 mil, enquanto a Coreia do Sul ultrapassa US$ 55 mil. O poder de compra médio do sul-coreano é hoje quase três vezes maior que o do brasileiro.
Em termos absolutos, o Brasil avançou pouco. Em termos relativos, perdeu posição. No início dos anos 2000, o país ocupava uma colocação intermediária no ranking mundial de renda per capita em PPP. Por volta de 2019, havia caído para cerca da 86ª posição, recuperando-se apenas marginalmente para algo entre a 80ª e a 81ª posição em 2024.
Por trás desse desempenho está um dado estrutural frequentemente ignorado: a relação entre ativos e inativos. Ver gráfico no início do texto.
No Brasil, segundo o gráfico no início deste texto, os ativos representam 38,2% . O restante são pessoas economicamente inativas ou dependentes, considerando aposentados, pensionistas, beneficiários permanentes de transferências e população fora da força de trabalho. No início dos anos 2000, essa relação era mais favorável, girando em torno de 60 dependentes para cada 100 ativos.
Já a Coreia do Sul, apesar do envelhecimento acelerado da população, compensou o aumento de inativos com forte elevação da produtividade, alta taxa de participação no mercado de trabalho e crescimento do valor agregado por trabalhador. Em outras palavras, mesmo com mais peso do outro lado da corda, cada ativo passou a puxar muito mais forte.
O Brasil seguiu caminho distinto. Ampliou o contingente de inativos — por demografia, informalidade persistente e expansão contínua do gasto público — sem elevar proporcionalmente a produtividade dos ativos. O resultado é conhecido:
- maior carga tributária sobre quem produz;
- menor investimento privado;
- estagnação da produtividade;
- e crescimento medíocre da renda per capita.
Não se trata de juízo moral sobre aposentados ou beneficiários de políticas sociais. Trata-se de aritmética econômica. Nenhuma sociedade sustenta convergência com países mais ricos quando o número de pessoas que vivem da produção alheia cresce mais rápido do que a capacidade de produzir.
No cabo de guerra do desenvolvimento, é possível fortalecer os participantes — com educação, tecnologia, instituições previsíveis e um ambiente de negócios favorável. Mas quando a escolha é empilhar peso de um lado da corda e desestimular quem puxa do outro, o desfecho é previsível.
Se o registro histórico serve de guia, a manutenção da atual trajetória — mais inativos, baixa produtividade e políticas pouco amigáveis à produção — levará o Brasil a um destino claro: não necessariamente mais pobre em termos absolutos, mas progressivamente mais pobre em relação ao mundo.
Enquanto a proporção entre quem puxa e quem é puxado não for corrigida, o cabo de guerra continuará desfavorável — e a renda média do país seguirá perdendo força.
São Paulo, 20 de janeiro de 2026.
Jorge Wilson Simeira Jacob
sábado, 14 de fevereiro de 2026
Da Caridade à Servidão
Como o Estado paternalista enfraqueceu a responsabilidade individual e a solidariedade espontânea
Diz o aforismo que “o diabo não sabe mais por sabedoria,
mas por experiência: é velho”. A frase, provocativa, aponta
para uma verdade elementar: o tempo vivido acumula
experiências, ainda que a sensibilidade para absorvê-las
varie de pessoa para pessoa.
Uma vida longa atravessa transformações profundas — não
apenas físicas, mas mentais e culturais. O homem muda, e
muda também o mundo que o cerca: a natureza, a sociedade
e, sobretudo, a cultura. Envelhecer, como sugerem diversos
filósofos, assemelha-se a subir uma montanha: perde-se
vigor, mas ganha-se visão histórica.
Por isso, o idoso frequentemente é tratado como peça de
museu. A idade desperta curiosidade, especialmente quando
acompanhada de autonomia. Pergunta-se pelo “segredo”,
como se existisse uma fórmula oculta. Não surpreende,
assim, a profusão de livros, reportagens e estudos dedicados
ao chamado envelhecimento saudável.
A medicina atribui à genética um papel relevante na
longevidade, embora reconheça que seus efeitos podem ser
ampliados ou reduzidos pelas condições de vida. Higiene,
alimentação equilibrada, atividade física e estímulo
intelectual não apenas prolongam a existência, mas
qualificam a vida. A biologia ensina que a função preservao órgão: viver exige movimento. Como uma bicicleta, parar
é cair.
Evitar desafios cotidianos — físicos ou intelectuais —
cobra seu preço. Subir escadas, caminhar, ler, aprender algo
novo, enfrentar problemas: tudo isso sustenta a vitalidade.
O envelhecer é mais rápido se há desistência de lutar.
Mas o declínio humano não é apenas biológico. É
preocupante se for também cultural. O indivíduo pode
preservar o corpo, mas pode definhar como sujeito moral
se o ambiente em que vive o dispensa do esforço de agir,
escolher e responder.
O ser humano não vive isolado. Assim como o peixe
depende da água, nós dependemos da cultura em que
estamos inseridos. Cultura não é apenas ir à ópera ou a
museus. Como observa David Brooks, trata-se de um modo
de vida compartilhado: hábitos, rituais, histórias, valores,
percepções e desejos. É a atmosfera moral em que todos
respiramos.
Edmund Burke já advertia que os costumes são mais
importantes do que as leis. Estas nos tocam ocasionalmente;
aqueles nos moldam continuamente. São eles que refinam
ou degradam, elevam ou corrompem, quase sem que
percebamos.Na transição do século XX para o XXI, a cultura brasileira
sofreu uma inflexão decisiva com a expansão do Estado
paternalista. Parte da responsabilidade social, antes
sustentada pelos costumes e pelas relações comunitárias, foi
transferida ao poder público. A caridade, outrora prática
cultural viva — hospitais beneficentes, asilos, ajuda direta
aos necessitados — foi institucionalizada. A caridade foi
estatizada.
Houve ganhos materiais e ampliação de serviços. Mas o
custo foi alto: ao assumir a tutela do bem-estar dos
cidadãos, o Estado reduziu o espaço da responsabilidade
individual. O auxílio deixou de ser virtude; tornou-se
função administrativa.
No cume da montanha, após quase um
século de ascensão, a paisagem é clara.
Ao estatizar a caridade, o Estado
paternalista não apenas organizou a
ajuda: ele a esvaziou de sentido moral.
Onde antes havia virtude, surgiu
procedimento; onde havia
responsabilidade, instalou-se tutela. O
cidadão deixou de agir por dever e
passou a aguardar por direito.Não foi por sabedoria, mas por ter vivido
o suficiente para testemunhar essa
revolução silenciosa, que se percebe o
custo oculto do Estado protetor. Ao
prometer amparo permanente, ele
enfraqueceu a solidariedade
espontânea, corroeu a responsabilidade
individual e reduziu a liberdade a
conforto administrado. A servidão
moderna já não se impõe pela força —
ela se oferece como proteção .
São Paulo, 02 de fevereiro de 2026
Jorge Wilson Simeira Jacob
sábado, 7 de fevereiro de 2026
Por que elegemos os piores?
A diferença entre os homens e os animais é que os animais nunca escolhem os piores para governá-los.”
Atribuída a Winston Churchill
Há que se fazer justiça aos homens: a eleição de um, na selva, é um processo simples. A escolha é limitada a critérios físicos — força, resistência,aptidão — e esses sinais são imediatamente visíveis. Já entre os homens, o processo se complica pelapresença do componente psicológico, muito mais fácil de camuflar.
A frase em epígrafe é, ao que tudo indica, atribuída a
Churchill. Mas se ele não a formulou, faltou-lhe apenas oportunidade. A ideia é perfeitamente compatível com a sua visão crítica da política e com a verve irônica tão característica do humor inglês.
A genialidade de Churchill está, sobretudo, na sua
extraordinária capacidade de analisar a psicologia humana— uma condição que, infelizmente, falta à maioria dos eleitores. Em geral, deixamo-nos impressionar pelas aparências; julgamos discursos, poses e gestos, quando deveríamos examinar caráter, integridade e motivação.
Se tivéssemos a acuidade psicológica de um Churchill para
identificar os traços de personalidade dos candidatos,faríamos como os animais: não escolheríamos os piores para nos governar — como frequentemente temos feito.
É preciso reconhecer que o eleitor enfrenta uma dificuldade
real ao tentar diagnosticar o caráter dos candidatos. No
esforço pela conquista do voto, eles escondem suas
fraquezas com perícia. Seus discursos são sempre altruístas,
generosos, bem-intencionados. Na retórica, todos são
estadistas; na prática, poucos resistem ao teste da vida real.
Com frequência, quem sobrevive na selva política é o
indivíduo menos comprometido com a ética e a moral. Na
disputa eleitoral, candidatos com falhas de caráter dispõem
de um arsenal mais vasto: manipulação, dissimulação,
promessas impossíveis, ataques pessoais. Trata-se de uma
competição desigual entre integridade e malícia.
Nenhum ser humano é puro — nem física nem
psicologicamente. Somos combinações complexas de
virtudes e fraquezas, com características dominantes e
secundárias. Mas, neste texto, interessam-nos
especialmente os candidatos de má formação de caráter:
narcisistas, amorais, imorais — cada qual com sua própria
“dosagem” de falta de escrúpulos.
Como identificá-los?
1. Pela moral instrumental
Indivíduos inescrupulosos operam segundo uma moralidade
funcional:
• o certo é o que funciona;
• o errado é o que falha.
Não possuem um sistema ético interno; possuem um
cálculo de custo-benefício.
Podemos defini-los como:
• amorais, porque não reconhecem valor intrínseco nas
ações;
• egocêntricos, porque tudo é decidido em função de si
mesmos;
• pragmatistas extremos, porque a eficácia substitui a
moral.
2. Pelo narcisismo
O narcisista acredita que merece privilégios e não deve
satisfações.
A opinião alheia só o preocupa quando ameaça sua imagem
— nunca por convicção moral.
3. Pela falta de escrúpulos no exercício do poder
Quando eleitos, esses indivíduos revelam-se rapidamente:
• decidem em função de interesses pessoais;
• tratam o Estado como extensão de seus próprios
negócios;
• não têm pudor em se beneficiar do cargo;
• atribuem sempre a terceiros a responsabilidade por
seus erros.
Em suas narrativas, aparecem invariavelmente como:
• vítimas injustiçadas,• heróis incompreendidos,
• ou gênios sabotados.
Nunca admitem responsabilidade; a culpa é sempre dos
outros.
4. Pelo limite da ciência e da psicologia
Ainda que os profissionais contem com teorias
psicológicas capazes de mapear falhas permanentes de
caráter, não é acessível às massas um método infalível para
distinguir impostores de estadistas antes da posse. Os
candidatos jamais expõem suas fraquezas.
5. Pelo único filtro eficaz: o tempo
A verdadeira defesa do sistema democrático é o tempo.
É no exercício do poder que o caráter se revela por
completo. E é nas eleições que o cidadão pode — e deve —
corrigir o erro, removendo do poder aqueles cujadeformação de caráter se tornou evidente. Só assim
deixaremos de ser governados pelos piores.
A tragédia acontece quando a moral do eleitor é igual a dos piores candidatos.
São Paulo, 16 de novembro de 2025.
