sábado, 31 de janeiro de 2026

 


Sem freios e Sem Contrapesos

O risco da substituição das instituições pela vontade pessoal



Montesquieu, em O Espírito das Leis, formulou um dos pilares da modernidade política ao defender a divisão do poder em três instâncias — Executivo, Legislativo e Judiciário. Não se tratava apenas de repartir funções, mas de impedir a concentração de poder por meio de freios e contrapesos. A razão era simples e realista: os homens não são plenamente confiáveis; tornam-se ainda menos confiáveis quando acumulam poder.


A mesma desconfiança estrutural foi expressa por Lord Acton na célebre advertência de que o poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente. Essa compreensão levou o Império Britânico a organizar sua vida política não em torno de homens providenciais, mas de instituições duradouras, regidas pelo direito e pela previsibilidade.


As instituições inglesas consolidaram-se justamente por essa consistência. No mundo político e econômico, criou-se a expectativa de que decisões seriam tomadas com base em regras estáveis, e não em humores pessoais. O respeito ao direito fortaleceu tais instituições e serviu de base para um desenvolvimento civilizatório amplo — social, político e econômico.


Os Estados Unidos, herdeiros diretos da tradição política britânica, adotaram desde sua fundação o princípio do governo das instituições. Ao longo de cerca de 250 anos, a república americana demonstrou que a alternância no poder — tão temida pelos monarquistas do século XVIII — não era sinal de fraqueza, mas de vitalidade institucional.8


Isso não significa ausência de desvios. Governantes erraram, abusaram ou ultrapassaram limites. O caso Nixon é exemplar: diante da iminência de um impeachment, o presidente renunciou, confirmando a prevalência das instituições sobre a vontade individual. O sistema funcionou porque ninguém estava acima da lei.


Entretanto, como tudo o que é vivo, as instituições podem se degradar. Nos últimos anos, a presidência de Donald Trump representou um desafio direto a essa tradição. Em diversas ocasiões, decisões de grande impacto foram justificadas não por critérios institucionais, jurídicos ou estratégicos, mas por preferências pessoais explicitadas sem constrangimento: “não gosto dele”.

Um retrato de corpo inteiro do Presidente Trump foi mostrado na entrevista de 7 de janeiro passado aos repórteres do Times em que perguntado se existiam limites no seu poder global. Ele respondeu:” Sim, existe uma coisa. Minha própria moralidade. Minha própria mente. Esta é a única coisa que pode me conter.  Eu não necessito de leis internacionais”.

Hitler não pensaria diferente. 

Esse deslocamento — do interesse público para a vontade individual — sinaliza uma inversão perigosa da ordem política. Quando o exercício do poder deixa de se orientar por regras e consensos e passa a refletir impulsos pessoais, o governo das leis cede espaço ao governo dos homens.


A ordem internacional construída no pós-guerra baseou-se, com todas as suas imperfeições, no direito, na previsibilidade e em acordos multilaterais. A substituição desse modelo por decisões unilaterais, personalistas e frequentemente sustentadas pela força não é apenas uma mudança de estilo: é uma regressão institucional.


Não surpreende, como previu Lord Acton, que o poder tenda a corromper a vontade de quem o exerce. O que causa perplexidade é o silêncio — ou a reação insuficiente — das próprias instituições americanas que deveriam  conter abusos. Legislativo e Judiciário, pilares do equilíbrio montesquiano, não se mostraram para conter os excessos do executivo. 

A pergunta que se impõe, portanto, não é apenas sobre um governo ou um homem, mas sobre um modelo de civilização política: estaríamos assistindo ao enfraquecimento do governo baseado em instituições e ao retorno da supremacia da vontade pessoal, do governo sem freios, sem contrapeso, tão comum em capítulos sombrios da história?


A resposta a essa pergunta  definirá não apenas o futuro de uma nação, mas o destino do próprio Estado de Direito no mundo contemporâneo. 

São Paulo, 13 de janeiro de 2026.

Jorge Wilson Simeira Jacob


sábado, 24 de janeiro de 2026

 


Entre a razão e a indignação



Há acontecimentos que ultrapassam o nosso treino de analisar os fatos com racionalidade. Não se trata apenas da conhecida supremacia das emoções sobre a razão; quando as nossas paixões são diretamente ameaçadas, a racionalidade tende a ocupar um papel secundário.


A recente ameaça de Donald Trump de anexar a Groenlândia — “pelo caminho fácil ou pelo difícil” — viola frontalmente a soberania de um aliado histórico como a Dinamarca e fere princípios elementares do convívio entre nações civilizadas. Trata-se de uma declaração que causa perplexidade e indignação em qualquer pessoa que ainda leve a sério o direito internacional e a ética diplomática.


No meu caso, a reação não é apenas política, mas também pessoal. Tenho laços familiares profundos com a Dinamarca. A mãe dos meus filhos é filha de dinamarqueses, e parte da nossa família vive naquele país. As frequentes visitas ao longo dos anos consolidaram em mim uma admiração sincera pela cultura escandinava.


Nem o clima rigoroso diminui o encanto da civilidade, das lindas cidades, da culinária refinada, do elevado nível educacional da população e da divina beleza das mulheres. O que mais impressiona, no entanto, é a honestidade cotidiana, incorporada de forma quase natural ao modo de viver do povo dinamarquês.


Meu sogro, após décadas vivendo no Brasil, jamais conseguiu compreender o que aqui se convencionou chamar de “flexibilidade moral”. Morreu sem entender como alguém poderia tentar se aproveitar do outro. A chamada “Lei de Gérson” simplesmente não encontra abrigo na Dinamarca.


Guardo um episódio emblemático dessa retidão moral. Ao comprar um canivete, o vendedor pediu um preço inferior ao que ele havia visto no dia anterior em outra loja. Sua reação imediata foi questionar se aquele valor estava correto, pois não desejava se beneficiar de um possível erro. O que a muitos poderia parecer ingenuidade, para ele era apenas a obrigação ética de não tirar vantagem indevida.


Não por acaso, a Dinamarca figura consistentemente o primeiro lugar entre os países mais bem colocados no Índice de Percepção da Corrupção (CPI), publicado anualmente pela Transparency International, sendo reconhecida mundialmente pela integridade de suas instituições públicas.



Na Dinamarca, até mesmo o welfare state funciona como deveria: o abuso de benefícios sociais é moralmente reprovado pela própria sociedade. Diante disso, soa quase ofensiva qualquer tentativa de equiparar a organização política, econômica e institucional dinamarquesa à de países marcados por fragilidades estruturais e tolerância histórica com desvios éticos.


A honestidade e a solidariedade humana parecem fazer parte do DNA coletivo daquele povo. Durante a ocupação nazista, os dinamarqueses protegeram seus cidadãos judeus de forma exemplar, protagonizando uma das mais notáveis ações humanitárias da Europa na Segunda Guerra Mundial, ao se recusarem a colaborar com a perseguição e ao resgatarem a imensa maioria da população judaica para a segurança da Suécia.


Também não é incomum ver membros da família real dinamarquesa circulando de bicicleta pelas ruas de Copenhague, indo ao mercado ou cumprindo compromissos cotidianos. Vivem com a simplicidade de uma classe média brasileira — e, longe de críticas, despertam admiração e respeito.


É de se esperar que a comunidade judaica, em reconhecimento à coragem moral e à dignidade histórica do povo dinamarquês, levante alto a bandeira da Dinamarca para demonstrar ter  merecido o ter sido salva dos nazistas.


É por tudo isso que a ameaça à soberania dinamarquesa não pode ser tratada como mera bravata retórica. Quando a força tenta se impor sobre o direito, não é apenas um território que está em jogo, mas valores fundamentais da civilização.


Os dinamarqueses, por sua história, merecem ser tratados com respeito. Enfrentaram o barbarismo nazista e honraram princípios universais de humanidade. Está na hora de o mundo, por razão e por indignação, levantar-se em defesa da soberania da Dinamarca.


São Paulo, 17 de janeiro de 2026

Jorge Wilson Simeira Jacob



sábado, 17 de janeiro de 2026

 Ideias certas não morrem


Entre as fragilidades humanas destaca-se a nossa vulnerabilidade diante de movimentos envolventes. Eles se apresentam como ondas: as do mar, dos ciclones… e das modas. Independentemente de sua qualidade — favorável ou desfavorável — espalham-se como pragas. Basta observar as tatuagens: uma moda de mau gosto que poupa poucos e heroicos resistentes.


As ondas manifestam-se ao longo da história não apenas como movimentos físicos ou de costumes, mas sobretudo como fenômenos culturais. Estes talvez sejam os mais penetrantes e duradouros. A virgindade feminina, por exemplo, transformou-se em tabu aceito até mesmo pelas vítimas — as próprias mulheres. As ideologias, por sua vez, tomaram conta de milhões, que sofreram com o comunismo, o nazismo, o fascismo.


Passado o tempo — e ponha-se tempo em algumas ondas — a consciência do absurdo surpreende até as vítimas. Com o predomínio de uma visão crítica, a reação costuma ser a perplexidade: como um povo civilizado, culto e politicamente engajado pôde permitir as loucuras de Hitler?


A resposta encontra-se na onda cultural. São ideias disseminadas com eloquência, revestidas de lógica aparente e coerência interna, propagadas por líderes carismáticos que atraem as massas. O homem comum raramente pensa por si mesmo; consome o prato pronto. Sair de uma onda cultural é quase um milagre. É mais natural ceder à moda da tatuagem do que resistir à regressão simbólica aos tempos primitivos.


As ideias que mais profundamente penetram na psique humana são aquelas que atendem às nossas conveniências. São as que respondem aos nossos anseios, medos e esperanças. O medo da morte alimenta as religiões que dão sentido à vida; a inveja e a insegurança num mundo competitivo alimentam o socialismo, que substitui a figura paterna; o esnobismo (do italiano sensa nobilità) concede um status social pretendido que eleva a autoestima . Assim se formam crenças que perduram até que uma força maior se imponha.


A força das ideias desencadeadas por lideranças carismáticas molda o mundo. Cristo, com sua pregação em favor dos pobres, da caridade e da fraternidade, atravessa dois mil anos — mesmo tendo seus ideais sido frequentemente abandonados por seus seguidores. Sua mensagem sobreviveu aos escândalos dos Bórgias, à Inquisição e até à institucionalização da pedofilia. Uma crença cujo prestação de contas se realiza após a morte tem longa vida: ninguém retorna para desmenti-la.


Já as crenças cujos resultados podem ser comprovados no plano terreno, como o socialismo ou o populismo peronista, não sobreviveram a um século sem desgaste. Nada indica que ressuscitarão como as tatuagens,   uma onda passageira  estas limitada à aparência e à autoestima. O socialismo, ao contrário, matando  nas prisões e pela fome acabou  desmoralizado, sobrevivendo só dos seus beneficiados.


Os resultados demoram, mas se impõem. O capitalismo, desenvolvido na Holanda no século XVIII, impulsionou a revolução cultural do Iluminismo, criou a classe média e tornou poderosas nações como Inglaterra e Estados Unidos. Por suprema ironia, enriquece hoje até a ditadura comunista chinesa.


As ideias vencedoras são como a videira: podadas, retornam com frutas melhores. O interregno socialista podou o capitalismo. Algumas reações  ocorreram com Reagan e Thatcher, mas foram insuficientes para transformar o mundo. Uma nova revolução cultural está em curso: a retomada da onda capitalista. Por isto menos do que uma redescoberta intelectual, essa ressurgência decorre de uma razão simples e pura: é a única crença que, na prática, reduziu a pobreza, fortaleceu nações e  o respeito à dignidade humana.

As ideias certas não morrem —simplesmente hibernam para voltarem mais fortes.

São Paulo, 21 de dezembro de 2025

Jorge Wilson Simeira Jacob 


sábado, 10 de janeiro de 2026

 


Os efeitos corrosivos da impunidade


Quando a ausência de consequências corrói o direito e alimenta a força



A impunidade não se impõe de forma repentina. Ela corrói. Age lentamente, dissolvendo regras, enfraquecendo instituições e banalizando a transgressão até que o abuso deixe de causar espanto. Quando isso acontece, o conflito já não se resolve pelo direito, mas pela força.


Imagine uma luta de boxe. Dois contendores entram no ringue sob regras claras, aceitas por ambos. O combate é duro, o prêmio é alto, e o público incentiva a ferocidade. No entanto, quando um dos lutadores passa a violar sistematicamente as normas — e nem o juiz nem a plateia reagem — a luta deixa de ser esporte. A impunidade transforma a regra em ficção e a violência em método.


É absolutamente certo que, em uma disputa dessa natureza, o competidor disciplinado enfrenta um dilema. Ou aceita a desvantagem e perde para o infrator, ou cede à tentação de jogar segundo as regras — ou a ausência delas — impostas pelo adversário. Nenhuma das alternativas é moralmente satisfatória; ambas, porém, são politicamente compreensíveis.


Essa metáfora ajuda a compreender impasses recorrentes da política internacional contemporânea. Quando um Estado viola reiteradamente normas do comércio internacional, frauda eleições, censura a oposição, explora o comércio de drogas e mantém adversários políticos presos, enquanto a comunidade internacional se limita a protestos formais e decisões inócuas, o sistema passa a operar como um ringue sem juiz.


Convém esclarecer desde logo: reconhecer essa dinâmica não equivale a justificar intervenções arbitrárias nem a absolver erros históricos cometidos por grandes potências. Descrever o funcionamento do poder não é o mesmo que legitimá-lo. O ponto central é outro: a impunidade prolongada destrói a credibilidade das regras e prepara o terreno para respostas fora da legalidade.


Durante anos, os Estados Unidos mantiveram relações com a Venezuela apostando em mecanismos multilaterais, instâncias jurídicas e pressões diplomáticas. No mesmo período, expropriações sem indenização, repressão política e deterioração institucional tornaram-se práticas recorrentes, frequentemente relativizadas em nome de uma soberania formal que servia mais como escudo do que como princípio.


Quando normas são sistematicamente violadas sem consequências efetivas, cria-se um incentivo perverso: transgredir passa a compensar. Nesse cenário, a força não surge como virtude, mas como substituto do direito ausente. O abandono da postura do contendor disciplinado não decorre de superioridade moral, mas da percepção de que as regras deixaram de ser aplicadas de forma minimamente simétrica.


É nesse ponto que emerge uma seletividade moral difícil de ignorar. Setores da esquerda passaram a invocar, com razão abstrata, o princípio da soberania nacional, mas raramente demonstraram o mesmo rigor diante das violações promovidas pela União Soviética de Stálin, pela Rússia de Vladimir Putin, às ameaças da China de invadir Taiwan ou por regimes ideologicamente alinhados. O direito internacional perde autoridade quando sua defesa varia conforme a afinidade política.


A experiência recente, especialmente sob Donald Trump, apenas tornou explícita uma fragilidade anterior. A ordem internacional baseada em regras já estava corroída antes de ser confrontada de maneira aberta. O trumpismo não criou o problema; retirou o verniz diplomático que o disfarçava. A ruptura não foi a origem da crise, mas o seu sintoma.


Nada disso significa celebrar a chamada “lei da selva”, em que  os fortes fazem o que podem, e os fracos sofrem o que devem. Ao contrário. Trata-se de reconhecer que ela ressurge sempre que o direito falha como limite real ao abuso. Regimes que prometem redenção ideológica enquanto corroem instituições, manipulam eleições e saqueiam o Estado produzem, invariavelmente, repressão, pobreza e desesperança — e acabam exportando instabilidade para além de suas fronteiras.


Restam  perguntas clássicas: o que veio primeiro, a reação de força ou o abuso reiterado das regras? Até onde a tolerância com os abusos devem ir? A história sugere que ordens políticas não colapsam por excesso de legalidade, mas por tolerância excessiva à violação. Quando o juiz abandona o ringue, a luta deixa de ser regulada. E todos arcam com os preços corrosivos da impunidade. 


São Paulo, 06 de janeiro de 2026.

Jorge Wilson Simeira Jacob


sábado, 3 de janeiro de 2026

 O paradoxo da juventude: ter tudo e sentir o vazio 




Não apenas os remédios possuem efeitos colaterais. Na vida, tudo tem consequências — algumas causam mais mal do que bem. Apenas os que se recusam a encarar a realidade ignoram essa verdade elementar.


Uma dessas, a revolução tecnológica, ao colocar as comunicações em tempo real, abriu horizontes — não apenas físicos, mas também psicológicos. Se antes vivíamos confinados aos limites da nossa aldeia, enfrentando desafios proporcionais ao nosso entorno, hoje os horizontes parecem não ter fronteiras. Sabemos de tudo, de todos, e instantaneamente.


Essa ampliação do acesso à informação expandiu nossas possibilidades, mas, em contrapartida, multiplicou nossos desafios. Antes, nossos competidores eram os melhores da aldeia; hoje, são os melhores do mundo. O campo de comparação tornou-se global — e implacável.


As consequências, ou efeitos colaterais, são visíveis. O gráfico acima ilustra o crescimento consistente da depressão entre os jovens. Os dados confirmam o inconformismo de muitos pais, que não compreendem como, justamente agora, o sofrimento psíquico se intensifica.


Como entender — questionam eles — que jovens que nunca tiveram tanto acesso à informação, conforto, possibilidades e direitos convivam, paradoxalmente, com níveis tão elevados de vazio, angústia e depressão?


Diante disso, impõe-se a pergunta que incomoda: por que os jovens de ontem, com tão pouco, pareciam mais felizes, enquanto os de hoje, com quase tudo, padecem de tristeza?


Uma investigação em busca de resposta o ChatGPT oferece a seguinte reflexão.

No mundo antigo, o jovem nascia inserido em uma ordem. A vida lhe oferecia limites claros: a família, o ofício, a religião, a comunidade. Havia poucas escolhas, mas também poucas dúvidas. O sofrimento existia — e em grau intenso —, porém estava ancorado em uma narrativa compartilhada. Sofria-se para sustentar a casa, honrar um nome, sobreviver. A dor tinha rosto, causa e, muitas vezes, dignidade.


A juventude atual, ao contrário, nasce em um mundo que dissolveu as molduras. Tudo é possível, ao menos em tese. A promessa moderna é sedutora: seja o que quiser, vá aonde quiser, construa a si mesmo. Mas essa liberdade irrestrita cobra um preço alto. Quando tudo é escolha, todo fracasso parece culpa. Quando não há destino dado, cada vida precisa justificar a si mesma — e esse é um fardo que muitos não conseguem carregar.


Nietzsche já advertia que o homem não sucumbe ao sofrimento em si, mas à falta de sentido do sofrimento. Eis o núcleo da crise atual. O jovem moderno sofre, mas não sabe por quê; luta, mas não sabe por quem; corre, mas não sabe para onde. O passado oferecia menos conforto, porém mais orientação. O presente oferece mais meios, mas menos fins.


Some-se a isso a erosão da experiência do silêncio. O tédio, outrora fértil, foi banido. O recolhimento tornou-se raro. A consciência jovem é hoje atravessada por estímulos incessantes — telas, notificações, cobranças — que impedem a elaboração da dor. Sem tempo para digerir a própria angústia, ela se converte em ansiedade crônica ou depressão.


O paradoxo, portanto, não reside no fato de se ter tudo ou nada, mas na perda das estruturas que davam sentido ao pouco que se tinha. A felicidade nunca foi produto do conforto, mas do pertencimento. Nunca nasceu do excesso, mas da direção.


Talvez o desafio filosófico de nosso tempo seja este: reensinar o jovem a habitar limites, a reconhecer que nem toda dor é falha, que nem toda tristeza é patologia, e que a vida não se justifica pela acumulação, mas pela significação.


Sofrer por algo é menos destrutivo do que sofrer sem saber por quê.

E nenhuma abundância material é capaz de saciar uma alma que já não sabe para que vive.”


São Paulo, 13 de dezembro de 2025

Jorge Wilson Simeira Jacob  

sábado, 27 de dezembro de 2025

 


Espetáculo de absoluta amoralidade

Se quer conhecer um homem, dê-lhe poder. Poucas máximas resistem tão bem ao teste do tempo quanto esta. Embora raras sejam as verdades absolutas sobre o comportamento humano, o exercício do poder continua sendo um revelador implacável do caráter.


Desde os primórdios da civilização, o homem pouco mudou em sua estrutura psicológica. As transformações mais visíveis foram físicas: perdeu pelos, modificou a conformação do crânio, adaptou-se ao ambiente. Internamente, porém, permanece movido pelos mesmos impulsos fundamentais — ambição, medo, desejo de dominação.


Na escala das espécies, o ser humano se distingue como o mais perigoso dos predadores. Não apenas mata para sobreviver, como fazem os demais animais, mas também por prazer, ideologia ou conveniência. Nenhuma outra espécie se mostra tão criativa na crueldade.


A disputa pelo poder é, em essência, um jogo. Animais defendem territórios; homens defendem feudos políticos. A diferença é que, ao contrário dos irracionais, os humanos frequentemente desconhecem limites. É nas guerras e nas lutas políticas que se escancaram os piores instintos: traição, corrupção, violência e desprezo pela vida.


O que separa a civilização da barbárie é o escrúpulo — esse freio interno que submete a ação humana a critérios morais e éticos. O inescrupuloso age sem esse limite. Para ele, não importa a justiça do meio nem a dignidade do resultado. Vale o que favorece seus objetivos. Ideais dão lugar às conveniências.


A história oferece exemplos abundantes. Júlio César foi assassinado por Brutus, seu filho adotivo. O papa Alexandre VI cercou-se de assassinos e transformou a própria família em instrumento de poder. Em tempos modernos, impérios seguem invadindo vizinhos em nome de interesses estratégicos, sem constrangimento moral.


A política é o campo de prova definitivo do caráter. Para os inescrupulosos, a reação à derrota costuma revelar mais do que a vitória. O jogo político — o mais violento de todos — leva muitos a abdicar de qualquer valor para preservar o poder.


Diz-se, com razão, que no jogo e na bebida o homem mostra quem realmente é: no jogo, pela obsessão em vencer; na bebida, pela queda das inibições. Na política, ocorre o mesmo. Em disputas eleitorais brutais, os escrúpulos costumam ser descartados como obstáculos inconvenientes.


O cidadão comum, porém, frequentemente se ilude. Acredita no idealismo de líderes que já deram provas reiteradas de traição, irresponsabilidade e desvio ético. Narrativas vazias prosperam quando falta atenção aos fatos. Assim os políticos inescrupulosos vencem eleições.


Ninguém é menos confiável do que o inescrupuloso. A ausência de freios internos lhe concede liberdade absoluta — e nenhuma lei é suficiente para contê-lo. Nem mesmo os aliados estão a salvo: juramentos são feitos e desfeitos sem remorso, pois, entre iguais, a falta de escrúpulos é regra aceita do jogo.


Quem quiser entretenimento não precisa buscar ficção. Basta acompanhar a política nacional para assistir, em tempo real, a um espetáculo contínuo e emocionante de absoluta amoralidade.

São Paulo, 26 dezembro de 2025.

Jorge Wilson Simeira Jacob