O roubo intelectual do século
Os aeroportos pequenos, sem torre de controle, atendem à necessidade elementar dos pilotos de conhecer a direção do vento por meio de uma biruta instalada no teto do hangar.
Esse instrumento é sensível à mínima mudança de direção do vento. Não há nada de errado em ser errático, pois essa é precisamente a sua função. O que é aceitável em um aparelho é absolutamente inadequado em um político, de quem se espera firmeza de direção. Uma nação não pode manobrar com a leveza de um teco-teco.
A nação demanda tempo para ajustar-se às políticas governamentais. Em muitos casos, anos são necessários para uma acomodação harmônica da vida socioeconômica. Não apenas a mudança cultural exige tempo, como também a reestruturação das atividades econômicas. Por isso, valorizam-se governantes que administram com base em convicções, e não segundo a direção dos ventos.
Uma das convicções que tornaram o mundo mais próspero foi a adoção do livre comércio, amplamente incentivado pelos Estados Unidos ao longo do processo recente de globalização. Em contraste, a esquerda mundial, historicamente, defendeu o protecionismo, contrapondo-se aos mercados livres.
Por uma dessas ironias do destino, uma espécie de biruta americana ligada ao partido Republicano passou a adotar um feroz protecionismo, embora tradicionalmente defendesse o livre comércio. Os resultados são conhecidos: disrupção das cadeias de suprimentos, quebra de acordos comerciais, insegurança generalizada e aumento de custos para os consumidores americanos.
A ironia deixaria de ser apenas política para se tornar intelectual quando a esquerda internacional e nacional, em vez de criticar a mudança de direção, passou ela própria a girar conforme o vento. Subitamente, posicionou-se como defensora do livre comércio que antes demonizava. Em tom professoral, Luiz Inácio Lula da Silva discursou no Fórum Empresarial Brasil–Coreia do Sul, em Seul (23/02/2026), afirmando:
“Há uma tentativa de acabar com o multilateralismo, de voltar o que nós não queremos que volte, o protecionismo para dificultar a economia dos países a crescer. Não existe justificativa. Quanto mais livre o comércio, melhor será para a Coreia e melhor será para o Brasil. E melhor será para o mundo.”
Diante disso, pensadores como Raúl Prebisch e toda a tradição cepalina pareceriam rodopiar no túmulo, ao ouvir a defesa enfática da economia de mercado por quem historicamente a criticou.
Essa guinada terá consequências profundas: as enciclopédias terão que reescrever os verbetes que definem esquerda e direita. As ideias da direita, pejorativante criticadas pela esquerda, agora são elogiadas.
Os homens de convicções, que não giram como as birutas, que abominam as ideias intervencionistas, com este roubo inteclectual viverão o conflito de identificação intelectual.
Os homens de convicções não têm o treino dos oportunistas que mudam de opinião de acordo com o vento; que mudam o discurso de acordo com as conveniências.
Consumou-se, assim, o que se pode chamar de o roubo intelectual do século: a usurpação, por antigos críticos do mercado, da defesa das vantagens comparativas formuladas por David Ricardo, tradicionalmente caras ao pensamento liberal.
São Paulo, 23 de fevereiro de 2026.
Jorge Wilson Simeira Jacob
