A Redescoberta do Brasil
No ano de 1500 da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, o rei de Portugal escolheu o melhor almirante do reino para descobrir o Brasil. Pedro Álvares Cabral foi designado a comandar uma frota singrando o Atlântico na direção ao sudoeste seguindo as pegadas de Colombo.
A descoberta da América pela coroa espanhola ferira os brios portugueses. A rivalidade entre as duas monarquias exigia resposta à altura. Algum território que ampliasse fronteiras tornara-se imperativo para recuperar um prestígio ameaçado.
Em dia ensolarado, clima ameno e águas calmas, Pedro lançou ao mar suas naves. Como tudo estava previsto, a viagem correu tranquila, sem revoltas a bordo nem ansiedade quanto aos resultados. O escrivão Pero Vaz de Caminha mantinha os diários de bordo, minuciosa e pontualmente registrados.
No prazo previsto, o marinheiro no alto do mastro anunciou: terra à vista. A tripulação apressou-se para o desembarque, previsto para ser em um porto seguro. Um imprevisto, porém, exigiu rápida e competente decisão do comandante. Tinham ancorado em porto inseguro: ondas fortes sacudiam violentamente os navios; o baixo calado os mantinha longe da costa; e indígenas à espreita desaconselhavam qualquer aproximação.
Pero Vaz de Caminha, sem perda de tempo, atento às oportunidades — como convém aos servidores da coroa — escreveu ao rei. Na carta, obviamente adulatória, elogiou-lhe a visão estratégica e a coragem que ensejaram a descoberta de novas terras para honra e glória do reino: um pedaço de paraíso onde, plantando-se, tudo dá. Feitas as mesuras preparatórias, pediu que familiares seus fossem nomeados a cargos de governo.
Apesar dos obstáculos, houve o desembarque. As ondas e o baixo calado foram superados pela destreza dos marinheiros, e os indígenas, subornados com bugigangas e balangandãs. Todos ficaram satisfeitos: os locais com os presentes e os recém-chegados com a hospitalidade.
Pedro Álvares Cabral já antecipava, como prêmio pela missão exitosa, um título de nobreza na corte e um bom dote em ouro. Pero Vaz de Caminha acalentava ser agraciado, assim como seus familiares, com o melhor que os governos têm a oferecer: cargos públicos ricos em regalias e estabilidade.
Como prova da conquista, alguns “índios” foram enviados à corte, causando grande comoção no reino. A versão fantasiosa da descoberta por acaso foi mantida para evitar contestações espanholas: ventos desviaram a frota a caminho da Índia; os nativos foram chamados de índios; e o primeiro ato oficial na nova terra foi uma missa, garantindo o beneplácito do Vaticano — interessado em conquistar almas antes de colonizar corpos.
Em 1889, ano da graça do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Brasil foi redescoberto. A República foi proclamada substituindo a monarquia. Um imperador lúcido e patriota foi deposto e deportado para viver modestamente em Paris. Os republicanos também desembarcaram em porto inseguro, com ondas fortes, baixo calado e índios à espreita.
As consequências de uma abolição sem condições mínimas de sobrevivência lotaram de miséria os arredores da capital. Lutas políticas e rivalidades regionais deixaram o país à deriva. A democracia tornou-se, não a escolha dos melhores, mas um leilão populista de compra de eleitores.
Se Pero Vaz de Caminha, em nossos dias, tivesse acabado de desembarcar, talvez escrevesse ao rei:
“Aqui tudo há para plantar e colher, mas a vocação dos índios locais é colher sem plantar. As missas aqui reforçam a ideia de direitos sem responsabilidades. Os caciques só cuidam da próxima eleição que vencem oferecendo bugigangas e balangandãs. A lei e a ordem não é praticada por convicção, mas por conveniência.
E concluiria:
“Vossa Majestade — com o devido respeito — o único sentimento verdadeiramente preservado nesta terra, fora a luxúria, é a ambição por um emprego público rico em penduricalhos e estabilidade.”
São Paulo, 09 de janeiro de 2026.
Jorge Wilson Simeira Jacob
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