sábado, 22 de agosto de 2026

 A Gravidade dos Vínculos

Duas necessidades são indispensáveis à existência humana. A primeira é física: sem a gravidade, a vida na Terra seria impossível. Flutuaríamos como os astronautas em órbita, incapazes de manter o controle sobre nossos movimentos, nossos bens e, em última análise, sobre a própria vida. Tudo escaparia ao nosso domínio.


A segunda necessidade é psicológica. Também ela exige uma forma de gravidade: o vínculo. O ser humano não consegue viver sem sentir que pertence a algo maior do que si mesmo. Nossa ligação com os mais diversos grupos — religiosos, políticos, esportivos, familiares ou culturais — acompanha a humanidade desde os seus primórdios.


A força desses vínculos frequentemente se sobrepõe à nossa própria vontade. Renunciamos a conveniências e, muitas vezes, até a convicções pessoais para nos entregar aos ideais do grupo ao qual escolhemos pertencer. 


Quanto menor a autonomia intelectual de um indivíduo, maior tende a ser sua identificação com as ideias que abraça. O fanatismo representa o ponto máximo dessa entrega ao sentimento de pertencimento.


Ao longo da história, porém, a evolução do conhecimento e os avanços tecnológicos vêm transformando profundamente a natureza desses vínculos. A ciência ofereceu novas explicações para questões antes exclusivas da religião; a Revolução Industrial criou uma nova organização social; a imprensa democratizou o conhecimento; e, mais recentemente, a internet passou a substituir parte significativa do contato presencial pelas relações virtuais. 


Cada uma dessas mudanças exigiu do ser humano uma profunda adaptação.

Se antes essas transformações ocorriam ao longo de séculos ou décadas, hoje acontecem em ritmo vertiginoso. As pessoas se conhecem pela internet, e não mais nos tradicionais locais de convivência. O calor humano, que durante milênios fortaleceu nossos vínculos, vem sendo gradualmente substituído pela frieza das interações virtuais.


Como se essas mudanças já não fossem suficientemente profundas, surge agora um novo desafio: a inteligência artificial. Alguns dos principais especialistas e visionários da área, entre eles Elon Musk, preveem um futuro em que robôs substituirão os seres humanos não apenas nas tarefas repetitivas, mas também em atividades intelectuais e criativas, criando uma sociedade em que o trabalho humano deixará de ser essencial.


As previsões mais ousadas falam em uma produção abundante, realizada a custos ínfimos, tornando o dinheiro cada vez menos necessário e fazendo com que bens e serviços se tornem amplamente acessíveis. Se esse cenário vier a se concretizar, as relações humanas poderão sofrer uma transformação ainda mais profunda. 


Paralelamente, emerge outro risco silencioso: o esvaziamento das relações estáveis e o aumento da dependência institucional. Em um mundo de abundância e conexões instantâneas, cresce a tendência do “só ficar”, da substituição do compromisso pela experimentação contínua, da permanência pelo transitório. Relações tornam-se mais leves, porém também mais frágeis, menos enraizadas e mais facilmente descartáveis. O vínculo, antes construído no tempo e na convivência, passa a competir com a lógica da substituição imediata.

Quando deixarmos de depender uns dos outros para produzir, trabalhar ou sobreviver, o que acontecerá com os vínculos que sempre deram sentido à nossa existência?

Talvez esse seja o maior desafio da humanidade. Assim como o universo se tornaria caótico sem a gravidade, o ser humano poderá perder seu equilíbrio se os vínculos que o unem aos outros desaparecerem. A gravidade sustenta os corpos; os vínculos sustentam a alma.


São Paulo, 27 de julho de 2026.

domingo, 16 de agosto de 2026

 Absenteísmo racional

Os seres pensantes estão perplexos com o futuro da humanidade. O decréscimo populacional, inimaginável para Mao Tsé-Tung, que matou milhões para conter o crescimento populacional na China; a inteligência artificial que, segundo entrevista à revista The Economist do  Elon Musk, vai nos fazer parecer chimpanzés comendo bananas; haverá uma abundância de bens e serviços que poderá fazer o dinheiro desaparecer por inútil; terá  fim as desigualdades sociais e econômicas, que poderá produzir, pela tecnologia, a revolução pela igualdade que o socialismo não conseguiu; e a colonização de Marte, como último refúgio dos sobreviventes do planeta Terra.

Os únicos tranquilos diante dessas ameaças são os absenteístas: aqueles indiferentes, por ignorância ou por imediatismo. Uns não entendem as consequências socioeconômicas e políticas; outros não costumam preocupar-se, vivendo apenas o dia a dia.

Uma ruptura dessa dimensão talvez não tenha ocorrido desde o surgimento do homem na Terra. A The Economist, uma das mais intelectualizadas representantes da imprensa mundial, que há 150 anos se aprofunda nos grandes temas universais, provavelmente nunca terá gasto tanta tinta quanto agora com o porvir da humanidade.

Se no Gênesis, em uma noite, o Criador dobrou a humanidade com Eva, certamente a equivalente da The Economist daquele tempo gastaria a mesma quantidade de tinta. Dobrar a população seria o prenúncio do surgimento dos piores vícios humanos: guerras, inveja, ciúme, traição, corrupção.

O fato é que, existindo apenas os relatos bíblicos, eivados de narrativas não confiáveis e de fontes suspeitas, fica marcada a situação atual como uma das maiores ameaças já enfrentadas pela humanidade. Um desafio que pode ser colocado ao lado da ameaça bíblica do Apocalipse, que marcaria o fim do mundo.

Um fim do mundo não teria, por óbvio, a análise da inglesa The Economist. Ela estaria entre os tragados pela tragédia. Deveriam, portanto, seus redatores, que se destacam pela profundidade com que analisam os fatos, temer menos o desafio atual, pois, se a humanidade sobreviver, eles também sobreviverão. Da ameaça bíblica, porém, não escapariam.

A nós, que temos a pretensão de tentar adivinhar o futuro, resta reconhecer que somos herdeiros: não contribuímos para nada da atual disrupção mundial e pouco podemos fazer para alterá-la.

Talvez nos reste seguir o conselho do sábio rei Salomão e, por absenteísmo racional, aceitar a nossa impotência diante da realidade.

Olhar os lírios do campo.

E tentar ser feliz enquanto dá.

São Paulo, 8 de agosto de 2026.

sábado, 8 de agosto de 2026

 Paraíso Perdido

Um dos maiores desafios da humanidade talvez tenha nascido com o próprio homem: prever o futuro. Não fazemos isso apenas para satisfazer a curiosidade natural. Saber onde estão os perigos e as oportunidades sempre foi uma questão de conveniência e, sobretudo, de sobrevivência.

Na época das cavernas, sair para a selva significava enfrentar feras e inúmeros riscos físicos. Hoje, embora as ameaças sejam diferentes, elas se multiplicaram com o crescimento populacional e a complexidade da vida em sociedade. Os alimentos já não estão ao alcance das mãos, a violência urbana tornou-se uma realidade e a sobrevivência — a mais poderosa das motivações humanas — exige trabalho, planejamento e capacidade de antecipar os acontecimentos.

Ao longo da história, o homem respondeu a esses desafios pelo desenvolvimento do conhecimento. Criou a agricultura, domesticou animais, desenvolveu a meteorologia para prever o tempo, a medicina para prevenir doenças e inúmeras outras ciências que ampliaram sua capacidade de compreender e controlar a natureza. A ciência foi substituindo os pajés, os oráculos e as cartomantes por métodos baseados na observação, na experimentação e na razão.

Os resultados estão estampados na própria história da humanidade. A expectativa de vida praticamente dobrou em grande parte do mundo, a mortalidade infantil despencou e a qualidade de vida alcançou níveis inimagináveis para nossos antepassados.

A evolução do conhecimento lembra um antigo paradoxo das brincadeiras infantis.

Pergunta: “O que é que, quanto mais se tira, maior fica?”

Resposta: Um buraco.

Com o conhecimento acontece algo semelhante. Quanto mais aprendemos, maior se torna a consciência daquilo que ainda ignoramos. Cada descoberta abre caminho para novas perguntas.

Nem todos somos privilegiados com uma mente visionária como a de Elon Musk. Em entrevistas recentes, ele tem feito previsões ousadas sobre um futuro capaz de transformar profundamente a civilização. A autoridade de suas palavras decorre não apenas de sua imaginação, mas também de um histórico de realizações extraordinárias: redes de satélites que levam comunicação aos lugares mais remotos do planeta, foguetes reutilizáveis, veículos elétricos e avanços nas interfaces entre cérebro e computador.

Segundo Musk, a Inteligência Artificial poderá, em poucos anos, produzir uma abundância de bens e serviços jamais vista. Grande parte do trabalho hoje executado pelos homens será realizada por robôs, libertando as pessoas das tarefas repetitivas e ampliando enormemente a produtividade.

Se essas previsões vierem a se concretizar, estaremos recuperando, por meio da tecnologia, o Paraíso Perdido: um mundo de abundância, onde a escassez deixará de existir e a sobrevivência deixará de ser a maior preocupação humana. Não haverá mais ricos nem pobres, porque a prosperidade estará ao alcance de todos.

Em um mundo assim, perderia força um dos principais argumentos em favor do socialismo: a necessidade de redistribuir bens escassos. Se a escassez desaparecesse, também diminuiria o espaço para discursos políticos alimentados pelo conflito permanente entre ricos e pobres.

Talvez o maior desafio da humanidade deixasse então de ser produzir riqueza para aprender a conviver com a abundância.

E, desta vez, com uma vantagem sobre o relato bíblico: não será preciso sacrificar uma costela para que surja uma nova Eva.

surja uma nova Eva.


São Paulo, 28 de julho de 2026,


sexta-feira, 31 de julho de 2026

 Um Gigante Amarrado

Em Gulliver’s Travels, quando Gulliver naufraga e chega à terra de Lilliput, ele desperta deitado na praia com o corpo preso por inúmeros fios finíssimos feitos pelos liliputianos. Como são minúsculos em comparação a ele, utilizam centenas de amarras simultaneamente para imobilizá-lo enquanto dorme.

A cena tornou-se uma das imagens mais célebres da literatura: um gigante aparentemente poderoso dominado não pela força individual, mas pela ação coordenada de seres diminutos. Gulliver’s Travels utiliza essa imagem como sátira política e social — a demonstração de que burocracias, convenções e estruturas coletivas podem conter até alguém muito mais forte fisicamente.

A crítica tinha relação direta com a Inglaterra do século XVIII, cuja máquina estatal frequentemente parecia voltada para si mesma. No entanto, a metáfora permanece atual e encontra eco no Brasil: um gigante dotado de vastos recursos naturais, mas imobilizado por incontáveis amarras burocráticas.

Na competição mundial pelo desenvolvimento e pela redução da pobreza, o país avança lentamente há décadas. Daí a recorrente definição de “país rico, povo pobre”. As condições para o crescimento são continuamente limitadas por um emaranhado de leis, decretos, regulações e obrigações que mudam sem cessar, custam caro e frequentemente entregam pouco retorno social.

Os fios que prendem o gigante são muitos: a instabilidade institucional que afasta investimentos; o populismo que frequentemente substitui eficiência por conveniência política; a burocracia que dificulta inovar; um ambiente de negócios que, não raro, trata o empreendedor mais como suspeito do que como agente de desenvolvimento; e uma corrupção generalizada que destroi as instituições.

Some-se a isso a complexidade tributária e trabalhista, marcada por custos elevados e imprevisibilidade jurídica. Em muitos casos, o risco fiscal, trabalhista e regulatório tornou-se tão elevado que, se integralmente provisionado nos balanços, consumiria boa parte do capital das empresas. Existe um passivo invisível que raramente aparece nas estatísticas oficiais.

Enquanto Gulliver permanecer preso por milhares de fios burocráticos, nem as riquezas minerais, nem o petróleo, nem mesmo a extraordinária força do agronegócio serão suficientes para erguer plenamente o gigante. Sem enfrentar as amarras estruturais que limitam produtividade, investimento e geração de riqueza, o país continuará condenado a crescer abaixo de seu potencial — e a conviver com a pobreza em meio à abundância.

Ao fim, a desigualdade social converter-se-á no argumento permanente para justificar resultados que o próprio sistema ajuda a produzir.

São Paulo, 10 de maio de 2026.


sábado, 25 de julho de 2026

 Desta vez será diferente?



A imprensa tem destacado, com razão, a crescente polarização da opinião pública brasileira. Dois campos cristalizaram-se em torno de lideranças políticas: lulistas e bolsonaristas.

O aspecto mais preocupante desse fenômeno é que, frequentemente, as escolhas deixam de ser racionais para se tornarem emocionais. Em vez de comparar projetos de governo, propostas ou ideias, muitos eleitores orientam suas decisões pela simpatia ou antipatia que nutrem por um líder.

Toda decisão guiada predominantemente pela emoção tende a simplificar a realidade. Assim, críticas e apoios acabam concentrando-se em fatos isolados. Lula é rejeitado por muitos de seus adversários pelo estilo pessoal, pelas viagens internacionais ou por símbolos de ostentação. Bolsonaro, por sua vez, é condenado por declarações sobre a vacinação contra a Covid-19 ou por críticas ao sistema eleitoral. Ainda que tais episódios possam ser objeto de censura, nenhum deles, isoladamente, explica os problemas estruturais que conduzem o país ao lento processo de empobrecimento.

Uma sociedade que vota em pessoas, e não em ideias, princípios e programas de governo, corre o risco de colecionar sucessivas decepções ou, no extremo, abrir caminho para soluções autoritárias.

Entre os dois polos existe um grupo que enxerga um problema mais profundo: a convicção de que nenhum dos atuais protagonistas será capaz, por si só, de interromper a contínua perda do poder aquisitivo da população, cujo efeito mais visível é o progressivo enfraquecimento da classe média.

Se essa percepção parece excessivamente teórica, basta observar a experiência argentina. Depois de décadas de políticas populistas e sucessivos desequilíbrios fiscais, um dos países mais prósperos do século passado viu sua classe média perder renda, patrimônio e perspectivas. A conta do ajuste econômico recaiu justamente sobre aqueles que acreditavam estar protegidos.

A existência de uma classe média sólida depende de uma economia dinâmica, produtiva e em expansão. Quando a riqueza de um país diminui, ela é a primeira a sentir os efeitos do empobrecimento coletivo.

Mesmo entre os que compartilham esse diagnóstico, existem duas correntes de pensamento. A primeira considera que a estrutura política brasileira tornou praticamente impossível uma mudança de rumo. A segunda aposta no extraordinário potencial do país, acreditando que a abundância de recursos naturais e a capacidade produtiva serão suficientes para evitar um colapso semelhante ao argentino.

Nossa história econômica é marcada por ciclos de prosperidade: o pau-brasil, a cana-de-açúcar, o ouro, o café e, mais recentemente, a agroindústria. Cada um deles alimentou a esperança de redução da pobreza e fortalecimento da classe média.

Entretanto, como acontece com o indivíduo pródigo, o aumento da riqueza foi acompanhado por um crescimento ainda maior dos gastos improdutivos, da corrupção, dos investimentos malsucedidos e do custo da máquina pública.

Agora, novas oportunidades surgem diante do país: uma matriz energética privilegiada, reservas de minerais estratégicos e um agronegócio altamente competitivo.

A dúvida permanece a mesma que acompanha nossa história: seremos capazes de transformar essa riqueza em prosperidade duradoura ou repetiremos o velho hábito de desperdiçar a abundância?

Em outras palavras, desta vez será diferente?


São Paulo, 11 de junho de 2026.

Jorge Wilson Simeira Jacob


sexta-feira, 24 de julho de 2026

 No Mar da Nossa Vida

A nossa vontade é pequena
Diante dos tropeços da vida,
Como frágil veleiro a enfrentar
Ondas e ventos para navegar.

Nossa alma é tão frágil
Para tantas desditas suportar,
Como um marujo solitário
Diante das ondas   do mar.

Acima de nós, um céu infinito;
Embaixo, águas profundas.
À frente, apenas incertezas;
No passado, tantas tristezas.

De fracasso em fracasso,
Entre as ilusões e a realidade,
Chega o inevitável cansaço,
Vestindo a alma de humildade.

Sem mais esperança e alento,
Sem esperar por bom vento,

Trocando a sorte pela fatalidade,
Só resta à alma a eternidade.

São Paulo, 24 de julho de 2026.


sábado, 18 de julho de 2026

 O tarifaço e o jiu-jítsu

O pouco que sei sobre a arte marcial japonesa do jiu-jítsu é suficiente para compreender sua lógica. Em vez de responder à força com mais força, ela ensina a utilizar o impulso do adversário contra ele próprio. O golpe não é enfrentado frontalmente; é absorvido, redirecionado e transformado em vantagem.

Essa estratégia nasceu da necessidade. Os japoneses desenvolveram uma técnica que lhes permitisse enfrentar adversários fisicamente mais fortes, compensando a inferioridade de força com habilidade, velocidade e inteligência. O jiu-jítsu ensina que, diante de um oponente superior, a pior resposta é disputar o jogo que ele escolheu.

É exatamente essa a situação criada pela política comercial de Donald Trump.

Ao substituir a diplomacia pela pressão tarifária, Trump procura impor sua vontade pela demonstração de força. Em vez da negociação, utiliza tarifas como instrumento de coerção econômica. A lógica deixa de ser a do entendimento entre parceiros comerciais e passa a ser a da imposição.

A China, pelo tamanho de sua economia e capacidade de reação, possui condições de enfrentar esse desafio em pé de igualdade. A maioria dos demais países, porém, não dispõe da mesma musculatura. Restam-lhes duas alternativas: ceder às exigências americanas ou responder com inteligência, recusando-se a lutar a luta escolhida por Washington.

A Argentina optou por um caminho próprio. Alinhou-se politicamente aos Estados Unidos e obteve condições comerciais mais favoráveis em diversos setores. Pode-se discutir os riscos dessa estratégia, mas ela revela pragmatismo ao colocar os interesses econômicos nacionais acima das disputas ideológicas.

O Brasil parece seguir o caminho oposto. Ao transformar uma negociação comercial em confronto político, concentra suas energias em responder às provocações de Trump e em invocar a defesa da soberania nacional. Embora a soberania seja um valor inegociável, ela não elimina a necessidade de proteger os interesses econômicos do país. O objetivo central deveria ser preservar a competitividade das empresas brasileiras e ampliar seus mercados.

A estratégia do jiu-jítsu sugeriria outra resposta.

Se os Estados Unidos impõem uma tarifa elevada sobre um produto brasileiro, como o alumínio, não faz sentido tentar compensar essa perda reduzindo o preço para o mercado americano. A resposta inteligente seria reduzir a carga tributária incidente sobre o produto destinado aos demais mercados internacionais.

Com isso, o alumínio brasileiro chegaria mais barato à Europa, à Ásia, ao Oriente Médio, à África e aos países latino-americanos. O Brasil conquistaria novos clientes, reduziria sua dependência do mercado americano e manteria sua produção em pleno funcionamento.

Mas o efeito mais interessante seria outro.

Ao fornecer insumos mais baratos aos demais países, estaríamos reduzindo seus custos de produção e aumentando sua competitividade internacional. Empresas europeias, chinesas, indianas ou sul-coreanas passariam a competir em melhores condições com as empresas americanas, graças, em parte, ao menor custo dos insumos brasileiros.

Em outras palavras, a tarifa criada para proteger a indústria dos Estados Unidos acabaria fortalecendo seus concorrentes. O golpe desferido por Trump retornaria contra os próprios interesses americanos.

É exatamente essa a lógica do jiu-jítsu. Não se enfrenta um adversário mais forte tentando superá-lo na força. Aproveita-se o impulso do ataque para fazê-lo perder o equilíbrio. Em uma guerra comercial, talvez a inteligência estratégica produza resultados muito superiores ao simples confronto. Afinal, a melhor resposta ao boxe nem sempre é outro soco. Às vezes, basta um bom golpe de jiu-jítsu.


São Paulo, 18 de julho de 2026