O grande Nordeste
Consta que o Criador, ao distribuir as benesses entre as regiões do mundo, foi generoso nas alternativas. Não só diversificou as riquezas, como também as vocações.
Há regiões vocacionadas ao trabalho, à poupança e à vida austera, como o Japão e a Alemanha, onde o clima e a história contribuíram para a formação de uma cultura mais estoica. Outras, como a Itália e a Grécia, parecem ter favorecido a dolce vita, o hedonismo e a valorização dos prazeres da vida.
As diferenças não existem apenas entre países, mas também dentro deles. O alemão da Baviera, por exemplo, apresenta características culturais diferentes das de outras regiões da Alemanha; o italiano do Sul também guarda diferenças marcantes em relação ao do Norte.
O Brasil não foge a essa configuração. A diferença cultural entre o Nordeste e o Sul pode ser comparada, em alguns aspectos, à existente entre o hedonismo e o estoicismo. O Nordeste foi dotado de uma natureza propícia ao lazer: beleza natural, luminosidade, frutas saborosas e uma culinária rica.
O homem é um animal político por natureza, mas a vocação política tende a encontrar terreno mais fértil no lazer. O tempo livre é matéria-prima para o desenvolvimento do instinto político.
Evidentemente, os prêmios oferecidos pela política, muitas vezes superiores aos proporcionados pelo trabalho empresarial, constituem poderoso incentivo à dedicação. No Brasil, em especial, o peso da representação regional no governo acentuou as vantagens políticas do Nordeste.
O Brasil, hoje, começa a se transformar em um grande Nordeste na visão governamental. A região possui forte presença no Congresso, e a representação política do Norte e do Nordeste tem peso significativo nas decisões nacionais. Em muitos órgãos governamentais, também é perceptível a presença expressiva de pessoas oriundas dessas regiões.
Como ninguém é de ferro, para usar o dito popular, uma cultura mais voltada ao lazer e à vida imediata pode acabar influenciando a cultura do trabalho e da poupança, tradicionalmente mais associada ao Sul. Consequentemente, o Brasil poderá se tornar, para o bem e para o mal, uma projeção do Nordeste.
Nem mesmo uma natureza menos propícia ao lazer será suficiente para impedir o contágio cultural.
Conspiram contra a cultura sulista o crescimento demográfico mais intenso nas regiões menos desenvolvidas e, sobretudo, a fragilização das virtudes da Federação, provocada pela concentração crescente do poder em Brasília.
Os Founding Fathers americanos conciliaram divergências regionais para atrair os estados e criar uma federação. A fórmula consistia em um governo central mínimo, combinado com ampla autonomia dos estados. O Brasil, na prática, subverteu esse conceito ao concentrar progressivamente o poder em Brasília.
Se a Federação foi uma solução válida para viabilizar a coexistência de diferentes culturas e vocações regionais, seu abandono poderá, no futuro, alimentar movimentos de secessão.
Talvez o que esteja acontecendo não seja simplesmente a nordestinização do Brasil. Pode ser algo mais profundo: a substituição gradual de uma cultura de trabalho, poupança e planejamento por outra, mais inclinada ao consumo, ao lazer e à dependência do Estado.
Não será mais o Brasil que cria riqueza e elimina a pobreza, mas o Brasil de um povo feliz.
Se for assim, o grande Nordeste, caso sobreviva, não será apenas uma região. Será uma nova maneira de pensar o Brasil.
São Paulo, outubro de 2026.