Um Gigante Amarrado
Em Gulliver’s Travels, quando Gulliver naufraga e chega à terra de Lilliput, ele desperta deitado na praia com o corpo preso por inúmeros fios finíssimos feitos pelos liliputianos. Como são minúsculos em comparação a ele, utilizam centenas de amarras simultaneamente para imobilizá-lo enquanto dorme.
A cena tornou-se uma das imagens mais célebres da literatura: um gigante aparentemente poderoso dominado não pela força individual, mas pela ação coordenada de seres diminutos. Gulliver’s Travels utiliza essa imagem como sátira política e social — a demonstração de que burocracias, convenções e estruturas coletivas podem conter até alguém muito mais forte fisicamente.
A crítica tinha relação direta com a Inglaterra do século XVIII, cuja máquina estatal frequentemente parecia voltada para si mesma. No entanto, a metáfora permanece atual e encontra eco no Brasil: um gigante dotado de vastos recursos naturais, mas imobilizado por incontáveis amarras burocráticas.
Na competição mundial pelo desenvolvimento e pela redução da pobreza, o país avança lentamente há décadas. Daí a recorrente definição de “país rico, povo pobre”. As condições para o crescimento são continuamente limitadas por um emaranhado de leis, decretos, regulações e obrigações que mudam sem cessar, custam caro e frequentemente entregam pouco retorno social.
Os fios que prendem o gigante são muitos: a instabilidade institucional que afasta investimentos; o populismo que frequentemente substitui eficiência por conveniência política; a burocracia que dificulta inovar; um ambiente de negócios que, não raro, trata o empreendedor mais como suspeito do que como agente de desenvolvimento; e uma corrupção generalizada que destroi as instituições.
Some-se a isso a complexidade tributária e trabalhista, marcada por custos elevados e imprevisibilidade jurídica. Em muitos casos, o risco fiscal, trabalhista e regulatório tornou-se tão elevado que, se integralmente provisionado nos balanços, consumiria boa parte do capital das empresas. Existe um passivo invisível que raramente aparece nas estatísticas oficiais.
Enquanto Gulliver permanecer preso por milhares de fios burocráticos, nem as riquezas minerais, nem o petróleo, nem mesmo a extraordinária força do agronegócio serão suficientes para erguer plenamente o gigante. Sem enfrentar as amarras estruturais que limitam produtividade, investimento e geração de riqueza, o país continuará condenado a crescer abaixo de seu potencial — e a conviver com a pobreza em meio à abundância.
Ao fim, a desigualdade social converter-se-á no argumento permanente para justificar resultados que o próprio sistema ajuda a produzir.
São Paulo, 10 de maio de 2026.