Da Caridade à Servidão
Como o Estado paternalista enfraqueceu a responsabilidade individual e a solidariedade espontânea
Diz o aforismo que “o diabo não sabe mais por sabedoria,
mas por experiência: é velho”. A frase, provocativa, aponta
para uma verdade elementar: o tempo vivido acumula
experiências, ainda que a sensibilidade para absorvê-las
varie de pessoa para pessoa.
Uma vida longa atravessa transformações profundas — não
apenas físicas, mas mentais e culturais. O homem muda, e
muda também o mundo que o cerca: a natureza, a sociedade
e, sobretudo, a cultura. Envelhecer, como sugerem diversos
filósofos, assemelha-se a subir uma montanha: perde-se
vigor, mas ganha-se visão histórica.
Por isso, o idoso frequentemente é tratado como peça de
museu. A idade desperta curiosidade, especialmente quando
acompanhada de autonomia. Pergunta-se pelo “segredo”,
como se existisse uma fórmula oculta. Não surpreende,
assim, a profusão de livros, reportagens e estudos dedicados
ao chamado envelhecimento saudável.
A medicina atribui à genética um papel relevante na
longevidade, embora reconheça que seus efeitos podem ser
ampliados ou reduzidos pelas condições de vida. Higiene,
alimentação equilibrada, atividade física e estímulo
intelectual não apenas prolongam a existência, mas
qualificam a vida. A biologia ensina que a função preservao órgão: viver exige movimento. Como uma bicicleta, parar
é cair.
Evitar desafios cotidianos — físicos ou intelectuais —
cobra seu preço. Subir escadas, caminhar, ler, aprender algo
novo, enfrentar problemas: tudo isso sustenta a vitalidade.
O envelhecer é mais rápido se há desistência de lutar.
Mas o declínio humano não é apenas biológico. É
preocupante se for também cultural. O indivíduo pode
preservar o corpo, mas pode definhar como sujeito moral
se o ambiente em que vive o dispensa do esforço de agir,
escolher e responder.
O ser humano não vive isolado. Assim como o peixe
depende da água, nós dependemos da cultura em que
estamos inseridos. Cultura não é apenas ir à ópera ou a
museus. Como observa David Brooks, trata-se de um modo
de vida compartilhado: hábitos, rituais, histórias, valores,
percepções e desejos. É a atmosfera moral em que todos
respiramos.
Edmund Burke já advertia que os costumes são mais
importantes do que as leis. Estas nos tocam ocasionalmente;
aqueles nos moldam continuamente. São eles que refinam
ou degradam, elevam ou corrompem, quase sem que
percebamos.Na transição do século XX para o XXI, a cultura brasileira
sofreu uma inflexão decisiva com a expansão do Estado
paternalista. Parte da responsabilidade social, antes
sustentada pelos costumes e pelas relações comunitárias, foi
transferida ao poder público. A caridade, outrora prática
cultural viva — hospitais beneficentes, asilos, ajuda direta
aos necessitados — foi institucionalizada. A caridade foi
estatizada.
Houve ganhos materiais e ampliação de serviços. Mas o
custo foi alto: ao assumir a tutela do bem-estar dos
cidadãos, o Estado reduziu o espaço da responsabilidade
individual. O auxílio deixou de ser virtude; tornou-se
função administrativa.
No cume da montanha, após quase um
século de ascensão, a paisagem é clara.
Ao estatizar a caridade, o Estado
paternalista não apenas organizou a
ajuda: ele a esvaziou de sentido moral.
Onde antes havia virtude, surgiu
procedimento; onde havia
responsabilidade, instalou-se tutela. O
cidadão deixou de agir por dever e
passou a aguardar por direito.Não foi por sabedoria, mas por ter vivido
o suficiente para testemunhar essa
revolução silenciosa, que se percebe o
custo oculto do Estado protetor. Ao
prometer amparo permanente, ele
enfraqueceu a solidariedade
espontânea, corroeu a responsabilidade
individual e reduziu a liberdade a
conforto administrado. A servidão
moderna já não se impõe pela força —
ela se oferece como proteção .
São Paulo, 02 de fevereiro de 2026
Jorge Wilson Simeira Jacob