Desta vez será diferente?
A imprensa tem destacado, com razão, a crescente polarização da opinião pública brasileira. Dois campos cristalizaram-se em torno de lideranças políticas: lulistas e bolsonaristas.
O aspecto mais preocupante desse fenômeno é que, frequentemente, as escolhas deixam de ser racionais para se tornarem emocionais. Em vez de comparar projetos de governo, propostas ou ideias, muitos eleitores orientam suas decisões pela simpatia ou antipatia que nutrem por um líder.
Toda decisão guiada predominantemente pela emoção tende a simplificar a realidade. Assim, críticas e apoios acabam concentrando-se em fatos isolados. Lula é rejeitado por muitos de seus adversários pelo estilo pessoal, pelas viagens internacionais ou por símbolos de ostentação. Bolsonaro, por sua vez, é condenado por declarações sobre a vacinação contra a Covid-19 ou por críticas ao sistema eleitoral. Ainda que tais episódios possam ser objeto de censura, nenhum deles, isoladamente, explica os problemas estruturais que conduzem o país ao lento processo de empobrecimento.
Uma sociedade que vota em pessoas, e não em ideias, princípios e programas de governo, corre o risco de colecionar sucessivas decepções ou, no extremo, abrir caminho para soluções autoritárias.
Entre os dois polos existe um grupo que enxerga um problema mais profundo: a convicção de que nenhum dos atuais protagonistas será capaz, por si só, de interromper a contínua perda do poder aquisitivo da população, cujo efeito mais visível é o progressivo enfraquecimento da classe média.
Se essa percepção parece excessivamente teórica, basta observar a experiência argentina. Depois de décadas de políticas populistas e sucessivos desequilíbrios fiscais, um dos países mais prósperos do século passado viu sua classe média perder renda, patrimônio e perspectivas. A conta do ajuste econômico recaiu justamente sobre aqueles que acreditavam estar protegidos.
A existência de uma classe média sólida depende de uma economia dinâmica, produtiva e em expansão. Quando a riqueza de um país diminui, ela é a primeira a sentir os efeitos do empobrecimento coletivo.
Mesmo entre os que compartilham esse diagnóstico, existem duas correntes de pensamento. A primeira considera que a estrutura política brasileira tornou praticamente impossível uma mudança de rumo. A segunda aposta no extraordinário potencial do país, acreditando que a abundância de recursos naturais e a capacidade produtiva serão suficientes para evitar um colapso semelhante ao argentino.
Nossa história econômica é marcada por ciclos de prosperidade: o pau-brasil, a cana-de-açúcar, o ouro, o café e, mais recentemente, a agroindústria. Cada um deles alimentou a esperança de redução da pobreza e fortalecimento da classe média.
Entretanto, como acontece com o indivíduo pródigo, o aumento da riqueza foi acompanhado por um crescimento ainda maior dos gastos improdutivos, da corrupção, dos investimentos malsucedidos e do custo da máquina pública.
Agora, novas oportunidades surgem diante do país: uma matriz energética privilegiada, reservas de minerais estratégicos e um agronegócio altamente competitivo.
A dúvida permanece a mesma que acompanha nossa história: seremos capazes de transformar essa riqueza em prosperidade duradoura ou repetiremos o velho hábito de desperdiçar a abundância?
Em outras palavras, desta vez será diferente?
São Paulo, 11 de junho de 2026.
Jorge Wilson Simeira Jacob