A fotografia de uma nação
Não só na matemática o todo é a soma das partes. Quatro é o resultado óbvio da soma de quatro unidades.
A nação não é diferente. Ela representa a soma dos seus cidadãos. Assim, o governo é, em alguma medida, o retrato dessa soma.
Como toda fotografia, a imagem registra um momento.
Um grupo sentado e outro em pé resultarão em fotografias diferentes. A nação também pode mudar de posição: em determinados momentos, motivada por um fato ou por uma liderança, ela pode se levantar e ser fotografada em pé.
Estamos às vésperas de uma eleição. O resultado das urnas será a fotografia da nação naquele momento. Cada voto será uma unidade que contribuirá para a definição do governo que queremos.
As pesquisas de opinião identificam como três das principais prioridades dos brasileiros: a segurança, o combate à corrupção e o controle do gasto público. Subjacente a essas aspirações está o desejo de uma sociedade civilizada e próspera.
A qualidade de vida vem piorando, mas essa deterioração é mascarada por dois enganos: a capacidade de adaptação do nosso povo — em outros países, situações semelhantes talvez provocassem uma revolução — e a defasagem entre a má gestão e seus resultados.
O mundo reconhece a criatividade e a flexibilidade do brasileiro, expressas no conhecido jogo de cintura. Trata-se de um patrimônio positivo quando empregado para superar dificuldades, encontrar soluções e enfrentar adversidades. Entretanto, quando essa flexibilidade serve para nos conformar com desvios éticos e morais, deixa de ser uma virtude elogiável para se transformar em uma qualidade deplorável.
A cultura de uma nação é conservadora. As mudanças, quando acontecem, são lentas, pois a consciência coletiva é fruto de séculos de história. Ela se assemelha a água parada que se movimenta com uma pedra lançada . Se a pedra é pequena, provoca ondas que se movem lentamente; se é grande, as ondas alcançam maior amplitude e se propagam de maneira mais intensa.
Tomemos como exemplo a corrupção, a tal ponto institucionalizada em setores do governo. São pedras de diversos tamanhos provocando ondas que tomam conta do lago. Os resultados são nefastos: o efeito demonstração gera imitação, a prática se generaliza e suas consequências, na sua perversidade, só atingirão o máximo do mal no futuro. No momento em que se lança a pedra, não se percebe o alcance das ondas que ela provocará.
Serão essas ondas suficientemente grandes para provocar indignação ou vamos nos corromper também ? A resposta teremos na eleição para o próximo governo.
Se o governo é a soma das partes, ele será a fotografia dela. Se o eleitor vende o seu voto, ele participa de um ato de corrupção. Se vota em troca de vantagens pessoais, contribui para a corrupção do processo eleitoral. Com isso, prejudica aqueles que escolhem governos comprometidos com a administração dos interesses da nação.
Como imaginar que um candidato eleito por votos de corrompidos possa constituir um governo virtuoso? A nação é, em alguma medida, a soma das qualidades e dos vícios dos seus cidadãos.
A próxima eleição não será diferente. Será um retrato dos brasileiros.
São Paulo, setembro de 2026.