Carnaval como catarse coletiva
Os imperadores romanos desenvolveram a política de pão e circo para governar as massas. Fidel Castro, segundo relato crítico de cubanos, aboliu o pão, mas manteve o circo. A cada constatação de aumento da insatisfação, ele decretava “Días de Fiestas”, um feriado regado a música e bebida gratuita. Com isso, mantinha as massas submissas à sua ditadura.
O circo funcionava como uma válvula de escape para reduzir a pressão. O Brasil tem no Carnaval os seus “Días de Fiestas”. Se antes se limitavam a três dias, hoje ultrapassam uma semana. Seria esse aumento do período de “Días de Fiestas” a sinalização de maior insatisfação a exigir mais tempo de descompressão?
A história registra que a diversão social dissipa tensões, mas não elimina as causas. Um dia, a conta chega. Nesse dia, as reformas necessárias serão exigidas. Mas o amanhã será outro dia.
O Carnaval, como catarse coletiva, surgiu como uma despedida que antecede a Quaresma. Esta era, em sua origem, uma suspensão das restrições antes do ciclo de penitência cristã. Era o excesso antes do limite. Licença antes da norma. Contudo, o que era rito episódico tornou-se fenômeno permanente de evasão simbólica.
Enquanto a realidade cotidiana se deteriora — insegurança pública crescente, institucionalização da corrupção, estagnação econômica e frustração social difusa — a explosão festiva oferece um curto-circuito psicológico: a suspensão provisória da angústia social. Não se elimina o problema; neutraliza-se o seu impacto emocional.
O Carnaval, celebrado como “o maior espetáculo da Terra”, cumpre, assim, uma função que vai além da cultura e do turismo. Opera como fantasia social organizada: um território simbólico onde se pode, por alguns dias, ser outro — rei, celebridade, corpo idealizado, identidade reinventada. A máscara não oculta apenas o rosto; anestesia a realidade.
Exibem-se as carnes, a volúpia sexual transborda, a norma que reprime é ignorada, consome-se o prazer que a rotina nega, encena-se uma liberdade que, estruturalmente, permanece inacessível. A transgressão é permitida, desde que temporária.
Paradoxalmente, um país que protagoniza a maior catarse coletiva do mundo não figura entre as nações mais infelizes nos rankings internacionais de bem-estar. Esse dado não nega a existência de uma insatisfação estrutural, mas pode indicar um sofisticado mecanismo cultural de compensação simbólica: sofre-se muito, mas celebra-se intensamente.
Nesse contexto, o Carnaval deixa de ser apenas festa e passa a ser função social. Não como conspiração organizada, mas como dinâmica cultural espontânea: quanto maior a pressão da realidade, maior a necessidade de fuga coletiva.
A encenação do “faz de conta” não é ingenuidade; é estratégia psíquica. Faz-se de conta que se é ou o que se gostaria de ser; que o indesejado pode ser debochado; que o sonho pode ser realizado. A encenação alimenta as ilusões.
Terminada a festa, a realidade retorna intacta, mas amortecida na consciência coletiva como realidade indesejada. A catarse coletiva, em escala massificada, pacifica os ânimos.
Assim, o Carnaval não é somente celebração cultural. É, sobretudo, um sofisticado ritual de compensação social: uma explosão periódica de euforia que anestesia a sociedade diante da deterioração dos costumes, do populismo inconsequente, da pobreza persistente, da violência generalizada e da desesperança quanto ao futuro.,
Na quarta-feira, terminado o Carnaval, nos resta como cinzas a sensação de as nossas frustrações não serão corrigidas por melhor governo, mas compensadas por mais Carnaval.
São Paulo, 18 de fevereiro de 2026

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