sábado, 14 de fevereiro de 2026

Da Caridade à Servidão

Como o Estado paternalista enfraqueceu a responsabilidade individual e a solidariedade espontânea



Diz o aforismo que “o diabo não sabe mais por sabedoria,

mas por experiência: é velho”. A frase, provocativa, aponta

para uma verdade elementar: o tempo vivido acumula

experiências, ainda que a sensibilidade para absorvê-las

varie de pessoa para pessoa.

Uma vida longa atravessa transformações profundas — não

apenas físicas, mas mentais e culturais. O homem muda, e

muda também o mundo que o cerca: a natureza, a sociedade

e, sobretudo, a cultura. Envelhecer, como sugerem diversos

filósofos, assemelha-se a subir uma montanha: perde-se

vigor, mas ganha-se visão histórica.

Por isso, o idoso frequentemente é tratado como peça de

museu. A idade desperta curiosidade, especialmente quando

acompanhada de autonomia. Pergunta-se pelo “segredo”,

como se existisse uma fórmula oculta. Não surpreende,

assim, a profusão de livros, reportagens e estudos dedicados

ao chamado envelhecimento saudável.

A medicina atribui à genética um papel relevante na

longevidade, embora reconheça que seus efeitos podem ser

ampliados ou reduzidos pelas condições de vida. Higiene,

alimentação equilibrada, atividade física e estímulo

intelectual não apenas prolongam a existência, mas

qualificam a vida. A biologia ensina que a função preservao órgão: viver exige movimento. Como uma bicicleta, parar

é cair.

Evitar desafios cotidianos — físicos ou intelectuais —

cobra seu preço. Subir escadas, caminhar, ler, aprender algo

novo, enfrentar problemas: tudo isso sustenta a vitalidade.

O envelhecer é mais rápido se há desistência de lutar.

Mas o declínio humano não é apenas biológico. É

preocupante se for também cultural. O indivíduo pode

preservar o corpo, mas pode definhar como sujeito moral

se o ambiente em que vive o dispensa do esforço de agir,

escolher e responder.

O ser humano não vive isolado. Assim como o peixe

depende da água, nós dependemos da cultura em que

estamos inseridos. Cultura não é apenas ir à ópera ou a

museus. Como observa David Brooks, trata-se de um modo

de vida compartilhado: hábitos, rituais, histórias, valores,

percepções e desejos. É a atmosfera moral em que todos

respiramos.

Edmund Burke já advertia que os costumes são mais

importantes do que as leis. Estas nos tocam ocasionalmente;

aqueles nos moldam continuamente. São eles que refinam

ou degradam, elevam ou corrompem, quase sem que

percebamos.Na transição do século XX para o XXI, a cultura brasileira

sofreu uma inflexão decisiva com a expansão do Estado

paternalista. Parte da responsabilidade social, antes

sustentada pelos costumes e pelas relações comunitárias, foi

transferida ao poder público. A caridade, outrora prática

cultural viva — hospitais beneficentes, asilos, ajuda direta

aos necessitados — foi institucionalizada. A caridade foi

estatizada.

Houve ganhos materiais e ampliação de serviços. Mas o

custo foi alto: ao assumir a tutela do bem-estar dos

cidadãos, o Estado reduziu o espaço da responsabilidade

individual. O auxílio deixou de ser virtude; tornou-se

função administrativa.

No cume da montanha, após quase um

século de ascensão, a paisagem é clara.

Ao estatizar a caridade, o Estado

paternalista não apenas organizou a

ajuda: ele a esvaziou de sentido moral.

Onde antes havia virtude, surgiu

procedimento; onde havia

responsabilidade, instalou-se tutela. O

cidadão deixou de agir por dever e

passou a aguardar por direito.Não foi por sabedoria, mas por ter vivido

o suficiente para testemunhar essa

revolução silenciosa, que se percebe o

custo oculto do Estado protetor. Ao

prometer amparo permanente, ele

enfraqueceu a solidariedade

espontânea, corroeu a responsabilidade

individual e reduziu a liberdade a

conforto administrado. A servidão

moderna já não se impõe pela força —

ela se oferece como proteção .

São Paulo, 02 de fevereiro de 2026

Jorge Wilson Simeira Jacob


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