sábado, 7 de fevereiro de 2026


Por que elegemos os piores?

A diferença entre os homens e os animais é que os animais nunca escolhem os piores para governá-los.”

Atribuída a Winston Churchill


Há que se fazer justiça aos homens: a eleição de um, na selva, é um processo simples. A escolha é limitada a critérios físicos — força, resistência,aptidão — e esses sinais são imediatamente visíveis. Já entre os homens, o processo se complica pelapresença do componente psicológico, muito mais fácil de camuflar.


A frase em epígrafe é, ao que tudo indica, atribuída a

Churchill. Mas se ele não a formulou, faltou-lhe apenas oportunidade. A ideia é perfeitamente compatível com a sua visão crítica da política e com a verve irônica tão característica do humor inglês.


A genialidade de Churchill está, sobretudo, na sua

extraordinária capacidade de analisar a psicologia humana— uma condição que, infelizmente, falta à maioria dos eleitores. Em geral, deixamo-nos impressionar pelas aparências; julgamos discursos, poses e gestos, quando deveríamos examinar caráter, integridade e motivação.


Se tivéssemos a acuidade psicológica de um Churchill para

identificar os traços de personalidade dos candidatos,faríamos como os animais: não escolheríamos os piores para nos governar — como frequentemente temos feito.


É preciso reconhecer que o eleitor enfrenta uma dificuldade

real ao tentar diagnosticar o caráter dos candidatos. No

esforço pela conquista do voto, eles escondem suas

fraquezas com perícia. Seus discursos são sempre altruístas,

generosos, bem-intencionados. Na retórica, todos são

estadistas; na prática, poucos resistem ao teste da vida real.


Com frequência, quem sobrevive na selva política é o

indivíduo menos comprometido com a ética e a moral. Na

disputa eleitoral, candidatos com falhas de caráter dispõem

de um arsenal mais vasto: manipulação, dissimulação,

promessas impossíveis, ataques pessoais. Trata-se de uma

competição desigual entre integridade e malícia.


Nenhum ser humano é puro — nem física nem

psicologicamente. Somos combinações complexas de

virtudes e fraquezas, com características dominantes e

secundárias. Mas, neste texto, interessam-nos

especialmente os candidatos de má formação de caráter:

narcisistas, amorais, imorais — cada qual com sua própria

“dosagem” de falta de escrúpulos.


Como identificá-los?


1. Pela moral instrumental

Indivíduos inescrupulosos operam segundo uma moralidade

funcional:

• o certo é o que funciona;

• o errado é o que falha.

Não possuem um sistema ético interno; possuem um

cálculo de custo-benefício.

Podemos defini-los como:

• amorais, porque não reconhecem valor intrínseco nas

ações;

• egocêntricos, porque tudo é decidido em função de si

mesmos;

pragmatistas extremos, porque a eficácia substitui a

moral.


2. Pelo narcisismo

O narcisista acredita que merece privilégios e não deve

satisfações.

A opinião alheia só o preocupa quando ameaça sua imagem

— nunca por convicção moral.

3. Pela falta de escrúpulos no exercício do poder

Quando eleitos, esses indivíduos revelam-se rapidamente:

• decidem em função de interesses pessoais;

• tratam o Estado como extensão de seus próprios

negócios;

• não têm pudor em se beneficiar do cargo;

• atribuem sempre a terceiros a responsabilidade por

seus erros.

Em suas narrativas, aparecem invariavelmente como:

• vítimas injustiçadas,• heróis incompreendidos,

• ou gênios sabotados.

Nunca admitem responsabilidade; a culpa é sempre dos

outros.


4. Pelo limite da ciência e da psicologia

Ainda que os profissionais contem com teorias

psicológicas capazes de mapear falhas permanentes de

caráter, não é acessível às massas um método infalível para

distinguir impostores de estadistas antes da posse. Os

candidatos jamais expõem suas fraquezas.


5. Pelo único filtro eficaz: o tempo

A verdadeira defesa do sistema democrático é o tempo.

É no exercício do poder que o caráter se revela por

completo. E é nas eleições que o cidadão pode — e deve —

corrigir o erro, removendo do poder aqueles cujadeformação de caráter se tornou evidente. Só assim

deixaremos de ser governados pelos piores.


A tragédia acontece quando a  moral do eleitor é igual a dos piores candidatos.



São Paulo, 16 de novembro de 2025.

Jorge Wilson Simeira Jacob


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