sexta-feira, 24 de julho de 2026

 No Mar da Nossa Vida

A nossa vontade é pequena
Diante dos tropeços da vida,
Como frágil veleiro a enfrentar
Ondas e ventos para navegar.

Nossa alma é tão frágil
Para tantas desditas suportar,
Como um marujo solitário
Diante das ondas   do mar.

Acima de nós, um céu infinito;
Embaixo, águas profundas.
À frente, apenas incertezas;
No passado, tantas tristezas.

De fracasso em fracasso,
Entre as ilusões e a realidade,
Chega o inevitável cansaço,
Vestindo a alma de humildade.

Sem mais esperança e alento,
Sem esperar por bom vento,

Trocando a sorte pela fatalidade,
Só resta à alma a eternidade.

São Paulo, 24 de julho de 2026.


sábado, 18 de julho de 2026

 O tarifaço e o jiu-jítsu

O pouco que sei sobre a arte marcial japonesa do jiu-jítsu é suficiente para compreender sua lógica. Em vez de responder à força com mais força, ela ensina a utilizar o impulso do adversário contra ele próprio. O golpe não é enfrentado frontalmente; é absorvido, redirecionado e transformado em vantagem.

Essa estratégia nasceu da necessidade. Os japoneses desenvolveram uma técnica que lhes permitisse enfrentar adversários fisicamente mais fortes, compensando a inferioridade de força com habilidade, velocidade e inteligência. O jiu-jítsu ensina que, diante de um oponente superior, a pior resposta é disputar o jogo que ele escolheu.

É exatamente essa a situação criada pela política comercial de Donald Trump.

Ao substituir a diplomacia pela pressão tarifária, Trump procura impor sua vontade pela demonstração de força. Em vez da negociação, utiliza tarifas como instrumento de coerção econômica. A lógica deixa de ser a do entendimento entre parceiros comerciais e passa a ser a da imposição.

A China, pelo tamanho de sua economia e capacidade de reação, possui condições de enfrentar esse desafio em pé de igualdade. A maioria dos demais países, porém, não dispõe da mesma musculatura. Restam-lhes duas alternativas: ceder às exigências americanas ou responder com inteligência, recusando-se a lutar a luta escolhida por Washington.

A Argentina optou por um caminho próprio. Alinhou-se politicamente aos Estados Unidos e obteve condições comerciais mais favoráveis em diversos setores. Pode-se discutir os riscos dessa estratégia, mas ela revela pragmatismo ao colocar os interesses econômicos nacionais acima das disputas ideológicas.

O Brasil parece seguir o caminho oposto. Ao transformar uma negociação comercial em confronto político, concentra suas energias em responder às provocações de Trump e em invocar a defesa da soberania nacional. Embora a soberania seja um valor inegociável, ela não elimina a necessidade de proteger os interesses econômicos do país. O objetivo central deveria ser preservar a competitividade das empresas brasileiras e ampliar seus mercados.

A estratégia do jiu-jítsu sugeriria outra resposta.

Se os Estados Unidos impõem uma tarifa elevada sobre um produto brasileiro, como o alumínio, não faz sentido tentar compensar essa perda reduzindo o preço para o mercado americano. A resposta inteligente seria reduzir a carga tributária incidente sobre o produto destinado aos demais mercados internacionais.

Com isso, o alumínio brasileiro chegaria mais barato à Europa, à Ásia, ao Oriente Médio, à África e aos países latino-americanos. O Brasil conquistaria novos clientes, reduziria sua dependência do mercado americano e manteria sua produção em pleno funcionamento.

Mas o efeito mais interessante seria outro.

Ao fornecer insumos mais baratos aos demais países, estaríamos reduzindo seus custos de produção e aumentando sua competitividade internacional. Empresas europeias, chinesas, indianas ou sul-coreanas passariam a competir em melhores condições com as empresas americanas, graças, em parte, ao menor custo dos insumos brasileiros.

Em outras palavras, a tarifa criada para proteger a indústria dos Estados Unidos acabaria fortalecendo seus concorrentes. O golpe desferido por Trump retornaria contra os próprios interesses americanos.

É exatamente essa a lógica do jiu-jítsu. Não se enfrenta um adversário mais forte tentando superá-lo na força. Aproveita-se o impulso do ataque para fazê-lo perder o equilíbrio. Em uma guerra comercial, talvez a inteligência estratégica produza resultados muito superiores ao simples confronto. Afinal, a melhor resposta ao boxe nem sempre é outro soco. Às vezes, basta um bom golpe de jiu-jítsu.


São Paulo, 18 de julho de 2026

sábado, 11 de julho de 2026

 A Argentina em 2031

As nações, assim como os indivíduos, também carregam suas memórias, seus erros e suas oportunidades perdidas. Há países que passam décadas repetindo os mesmos equívocos, incapazes de perceber que o futuro será apenas a consequência das escolhas feitas no presente. Outros conseguem, em determinado momento de sua história, romper antigas crenças e iniciar uma nova trajetória.

Quem, ao alcançar certa idade, não olha para trás com alguma tristeza e lamenta erros cometidos ou oportunidades perdidas? Ah, se eu soubesse! O passado frequentemente nos oferece lições que só compreendemos quando já não podemos alterá-lo.

Mesmo assim, a maioria continua apenas observando a vida passar, para mais adiante repetir os mesmos arrependimentos. Outros, uma minoria, aprende com as experiências e desenvolve a capacidade de enxergar além do presente, tentando antecipar o futuro.

Algumas pessoas se tornaram notáveis justamente por essa capacidade de visão. Escritores de ficção científica, como Júlio Verne, imaginaram tecnologias e conquistas que pareciam impossíveis em sua época, como viagens espaciais, submarinos e formas de comunicação à distância. Aldous Huxley, por outro lado, projetou uma sociedade em que o controle humano poderia ocorrer não apenas pela força, mas também pelo condicionamento e pelo domínio da tecnologia.

Nada além da intuição e da capacidade criadora parece movê-los. É a inquietação de imaginar algo diferente que lhes permite vislumbrar possibilidades antes que elas se tornem realidade. É um exercício semelhante ao jogo de xadrez, no qual o jogador precisa antecipar os desdobramentos possíveis de cada movimento.

É clássica a imagem — verdadeira ou não — da maçã que teria caído sobre a cabeça de Newton e despertado sua reflexão sobre a gravidade. Muitas frutas caíram sobre muitas outras cabeças e nada produziram além de uma eventual calosidade. Aquela caiu sobre uma mente preparada pelo conhecimento, pela lucidez e pelo estado de alerta.

Uma mente com essa característica parece ser a de Javier Milei, presidente da Argentina. Sua visão econômica é resultado de um profundo estudo sobre as causas do desenvolvimento das nações e de uma convicção de que a liberdade econômica, a inovação e a atração de investimentos são fatores essenciais para a criação de riqueza.

Em recente entrevista em Londres, Milei e seu ministro da  Desregulamentação e Transformação do Estado defenderam perante a imprensa britânica uma política de incentivo à Inteligência Artificial, com menor intervenção estatal e maior liberdade para o desenvolvimento de novas empresas no setor. A proposta busca criar um ambiente favorável para que a Argentina se torne um polo de inovação tecnológica.

O capitalismo recebeu um grande impulso histórico com a criação das sociedades de responsabilidade limitada, que estimularam investimentos ao reduzir os riscos individuais e democratizar o acesso ao capital. A Inteligência Artificial pode representar uma transformação de dimensão semelhante. No passado, a Inglaterra se beneficiou das inovações que surgiram em seu ambiente institucional. Agora, a Argentina tenta posicionar-se para receber os frutos da nova revolução tecnológica.

Em meu recente artigo neste jornal, “O capital é covarde”, destaquei uma característica conhecida do comportamento dos investidores: o capital busca o lucro, mas antes teme o prejuízo. Reduzir riscos, oferecer segurança jurídica, limitar a burocracia e preservar a responsabilidade fiscal são medidas que estimulam investimentos e contribuem para o enriquecimento das nações.

O que o governo argentino procura fazer é tornar o país mais atraente para os investidores da Inteligência Artificial.

Em outra entrevista, ao tratar dos próximos pagamentos da dívida argentina, o ministro da Economia afirmou acreditar que, em 2031, o país poderá alcançar a classificação de grau de investimento. Se isso ocorrer, grandes fundos internacionais, atualmente impedidos por regras próprias de investir em países sem essa classificação, poderão direcionar recursos para a Argentina.

Naturalmente, o futuro não está escrito. As previsões podem se confirmar ou fracassar. Mas a história demonstra que os países que conseguem imaginar possibilidades e criar condições para realizá-las têm maiores chances de prosperar.

Se essa aposta der certo, os argentinos poderão olhar para trás não com tristeza pelos erros cometidos, mas com orgulho por terem aprendido a enxergar o futuro

São Paulo, 09 de julho de 2026.

Jorge Wilson Simeira Jacob

sábado, 4 de julho de 2026

 Cem anos de solidão

Os animais estão permanentemente ameaçados por agentes que atacam o seu organismo: vírus, bactérias, fungos e parasitas. A sobrevivência depende de um sistema imunológico capaz de reagir e defender o corpo. Quando ele falha, o risco de morte é inevitável.

Assim também é a democracia.

Ela sobrevive não por ser perfeita, mas porque os outros sistemas são piores. E não lhe faltam inimigos: a usurpação do poder, a corrupção, a criminalidade e a demagogia. Agravam esse quadro o abuso dos detentores do poder, o desperdício de recursos públicos em benefício próprio, a manipulação de políticas sociais com fins eleitorais e a leniência com o crime.

Se, na saúde, a sobrevivência depende do sistema imunológico, na democracia ela depende de suas instituições.

No passado, em diversas ocasiões, quando crises econômicas, políticas ou sociais ameaçaram a nação brasileira, esse “sistema de defesa” foi acionado. Ainda que de forma imperfeita, houve reação.

É de se lamentar que essas experiências não tenham sido suficientes para evitar a repetição dos mesmos erros.

Hoje, os sinais de deterioração são evidentes. O déficit público é crescente; empresas estatais e o sistema previdenciário acumulam prejuízos relevantes; a inflação é contida à custa de juros elevados; os benefícios sociais frequentemente ultrapassam sua função essencial e assumem contornos eleitorais; o sistema tributário tornou-se mais complexo; e reformas políticas e administrativas seguem fora da agenda.

O país passa a viver no curto prazo, como alguém que sobrevive ao dia de hoje sem condições de planejar o amanhã.

As expectativas de futuro se deterioram. Muitos jovens já não veem no Brasil um horizonte promissor. Emigrar torna-se uma alternativa cada vez mais presente. O país, antes associado ao potencial, passa a ser percebido pela insegurança.

A violência se incorporou ao cotidiano. O medo limita a liberdade: nas ruas, nas casas, na rotina. A insegurança deixou de ser exceção para se tornar regra.

Diante desse quadro, impõe-se uma pergunta: onde estão as instituições?

Nos três poderes, a percepção recorrente é de distanciamento em relação às demandas reais da sociedade. Falta senso de urgência diante da deterioração dos fundamentos que sustentam a vida pública: responsabilidade fiscal, segurança jurídica, previsibilidade e compromisso com o interesse coletivo.

Quando as instituições deixam de cumprir seu papel, instala-se a anomia — a ausência prática de regras efetivas. E, nesse ambiente, abrem-se dois caminhos conhecidos: a desordem ou a busca por soluções autoritárias.

Essa é a grande ameaça.

Nos indivíduos, a falha do sistema imunológico compromete a sobrevivência. Nas nações, a omissão das instituições compromete o futuro.

Quando isso ocorre, repete-se o destino de Macondo, descrito por Gabriel García Márquez em Cem Anos de Solidão: uma sucessão de eventos que se repetem ao longo do tempo, sem avanço real — apenas a ilusão de movimento.

Essa é a sina das sociedades em que o “sistema imunológico” deixa de funcionar.

São Paulo, 16 de junho de 2025.
Jorge Wilson Simeira Jacob