sábado, 5 de setembro de 2026

 O Leito das Ideias

Não se deve subestimar a força da natureza. As nuvens acabam em chuva; à noite sucede a lua, ao dia o sol. As águas dos rios tendem sempre a reencontrar o seu leito natural. Apenas uma ação contínua e persistente consegue desviá-las, criando um curso artificial.

Com a natureza humana ocorre fenômeno semelhante. Uma nação, que é a soma de milhões de indivíduos, desenvolve uma personalidade própria. Essa personalidade coletiva, que chamamos de cultura, também escava o seu leito e passa a orientar o curso das ideias, dos costumes e das aspirações.

A cultura de um povo não nasce por decreto. É moldada lentamente pela história. Crenças, hábitos e valores são sedimentados ao longo das gerações. Apenas acontecimentos extraordinários conseguem alterar esse processo. Guerras, calamidades e miséria deixam cicatrizes profundas; por outro lado, prosperidade, grandes conquistas e longos períodos de paz também transformam a maneira como uma sociedade enxerga a si mesma e ao mundo.

A Alemanha, por exemplo, desenvolveu profunda aversão ao descontrole fiscal após a experiência traumática da hiperinflação. A Espanha viu o trauma da Guerra Civil modificar o espírito belicoso que marcou parte de sua história. Na Argentina, o governo de Javier Milei sustenta que décadas de populismo somente serão definitivamente superadas quando houver uma mudança na cultura política da sociedade.

Milei costuma apontar o Chile como exemplo. Após a experiência do governo de Salvador Allende, sucedida por profundas reformas econômicas e administrativas, o país recuperou dinamismo e crescimento. Ainda assim, anos depois voltou a eleger governos de esquerda. A conclusão extraída por ele é simples: reformar o Estado não basta; sem uma transformação cultural, as ideias tendem a retornar ao seu curso anterior.

As ideias de um povo são como as águas de um rio: podem ser desviadas, mas conservam a tendência de reencontrar o antigo leito. Mudanças institucionais podem alterar temporariamente a direção da corrente. Somente uma transformação profunda dos valores compartilhados é capaz de produzir uma mudança duradoura.

É justamente essa constatação que alimenta a desesperança de muitos brasileiros inconformados com a decadência moral, política e econômica do país. A poucos meses das eleições, o ambiente predominante parece ser de indiferença. A urgência de retirar o Brasil da condição de baixo crescimento econômico e perda de prestígio internacional deveria mobilizar a sociedade com intensidade semelhante à despertada por um campeonato de futebol.

Mais uma taça não reduziria a pobreza, não elevaria a produtividade nem devolveria ao país o respeito perdido. Tampouco evitaria  que, após mais uma eliminação, se repita a frase de um comentarista estrangeiro: “O Brasil só é bom mesmo para fazer festa.”

Se essa percepção é justa ou injusta, pouco importa. O que realmente importa é compreender que nenhuma reforma será permanente enquanto a própria sociedade não desejar, de forma consciente e persistente, construir um  novo leito.

Esse novo leito exige uma transformação de valores. Enquanto a corrupção for tolerada, o imediatismo prevalecer sobre a responsabilidade, o interesse particular se sobrepuser ao bem comum e a política continuar sendo vista apenas como um jogo de conquista e preservação do poder, toda mudança será passageira. As instituições poderão ser reformadas, as leis aperfeiçoadas e os governos substituídos, mas as águas sempre encontrarão o antigo caminho.

São Paulo, 2 de agosto de 2026.