ELEIÇÕES E REJEIÇÕES
Como observou Karl Popper (1902–1994)*, filósofo austríaco-britânico, entendia que a principal finalidade da democracia não era escolher os melhores governantes, mas permitir que nos livrássemos dos piores. Não há como negar a força dessa ideia na defesa da democracia. Ela nos permite, de forma pacífica, livrarmo-nos dos indesejáveis — o que sempre pode acontecer. Nos regimes autoritários, isso é feito pela força, muitas vezes com derramamento de sangue inocente. Na democracia, a alternância no poder é feita pelo voto.
Na prática, porém, as eleições em um único turno deixavam um gosto amargo na boca dos eleitores. Raramente se podia votar no candidato de sua preferência. Subsistia uma insatisfação no eleitorado por não poder escolher o candidato identificado com suas ideias e ideais. Tanto que é lugar-comum, de frequência recorrente nas rodas de amigos, a concordância de que nunca votamos a favor, mas sempre contra alguém. Na verdade, não usamos o voto para eleger, mas para rejeitar um candidato.
Essa tinha sido a tônica das eleições até o advento delas em duas votações. Com isso, temos à escolha duas oportunidades: a de eleger e a de rejeitar.
Na primeira votação, pelo menos em teoria, vota-se para eleger o candidato que melhor retrata nossas aspirações — é um voto ideológico. É a eleição no sentido positivo, pois é a escolha daquele que representa a nossa vontade.
Um adepto da liberdade individual pode votar, na primeira votação, no candidato que valoriza o individualismo. Um adepto do socialismo pode escolher aquele que valoriza o coletivismo.
Na segunda votação, o voto é pragmático. É um voto negativo, dado a um candidato que não representa a vontade do votante, mas cuja vitória é preferível à do adversário.
Os dois turnos eleitorais dão oportunidade de atender às duas aspirações: o voto ideológico e o pragmático, ou útil.
Infelizmente, essas condições não estão claras nas mentes dos eleitores. Os analistas políticos não se detêm em analisar e orientar o eleitor. Os candidatos que lideram as pesquisas não têm interesse em esclarecer essa situação. A eles não convém o voto ideológico, pois, em busca desses eleitores, os candidatos teriam de ajustar seus compromissos para cooptar seus votos no segundo turno. Não por menos, preferem o voto útil.
Os políticos, quando muito, declaram que a segunda votação é “uma outra eleição”. Mas não explicam as diferenças. Não enfatizam que a primeira escolha é ideológica, nem alertam o eleitor de que não é “perdido” o voto em candidato sem chance eleitoral. Nenhum voto é perdido, pois o mesmo voto que elege pode também rejeitar.
O eleitor deve estar consciente das diferentes situações. Votar, no primeiro turno, em candidato que não comunga com suas ideias é dar a ele uma legitimidade que não conquistou nas urnas.
Quando um candidato obtém, no primeiro turno, 40% dos votos, esses votos são a medida de sua eleição, que seria distorcida se acrescida dos votos úteis. O candidato não tem o direito de se arvorar como tendo sido escolhido pelo número total de votos recebidos na segunda votação. Ele, o vencedor, não representa a vontade de todos os votos que recebeu no segundo turno. Representa apenas aqueles colhidos no primeiro turno.
Ao enfrentarmos as próximas eleições, devemos ter presente o modelo teórico para votar adequadamente. Se o candidato de nossa escolha está sem condições de vitória, nem por isso deve deixar de receber o voto daqueles que comungam com suas ideias.
Essa prática, se difundida, serviria como correção do fato de sempre votarmos no menos ruim.
Como as boas ideias e os bons candidatos podem despontar se são capados no nascedouro? Os que os apoiam devem mostrar sua força. Votando ideologicamente, estamos construindo o futuro e combatendo os inconvenientes do voto útil.
Coerente com essa análise, na primeira rodada, o voto deve ser ideológico, idealista. Não se deve aceitar a ideia do voto pragmático na primeira eleição. O voto útil, pragmático, é um recurso oferecido pela segunda votação — é o voto para ficar livre dos piores. Votar para evitar o pior não é eleger, mas rejeitar.
Na primeira votação, vota-se com o coração. Vota-se naquele cujas razões e propostas identificamos como ideais. Seja idealista.
Na segunda votação, vote com o fígado para eliminar as bílis. Seja pragmático.
São situações distintas, que exigem comportamentos adequados e correspondentes. Só assim poderemos alterar a triste realidade e construir uma democracia que enseje a escolha dos melhores.
*Karl Popper foi um filósofo austríaco-britânico, considerado um dos mais importantes filósofos da ciência do século XX. Sua filosofia política defendia a sociedade aberta e a importância de instituições que permitissem substituir governos sem violência ou derramamento de sangue.
São Paulo, 14 de setembro de 2012
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