sábado, 19 de setembro de 2026






 Gasto é vida?

A chamada Lei de Say, formulada pelo economista francês Jean-Baptiste Say, sustenta que a oferta cria sua própria demanda. Em termos simples: ao produzir bens e serviços, geram-se rendas — salários e lucros — que permitem a compra de outros bens. Assim, em tese, não haveria uma crise generalizada provocada pela falta de demanda.

Essa formulação clássica, no entanto, difere profundamente das políticas econômicas que hoje justificam o aumento contínuo do gasto público sob o argumento, explícito ou implícito, de que “gasto é vida”. Aqui, não se trata necessariamente de uma economia movida pela produção eficiente, mas da expansão artificial da demanda por meio do gasto público.

A confusão não é trivial. Enquanto a tradição clássica enfatiza a produção como fonte de riqueza, políticas contemporâneas frequentemente apostam no gasto como motor do crescimento, independentemente da qualidade desse gasto.

O problema não está apenas no ato de gastar, mas na eficácia daquilo que se gasta. Para que o investimento público faça sentido econômico, algumas condições mínimas são necessárias: deve haver poupança capaz de sustentá-lo; o risco deve ser compatível com o retorno esperado; e o retorno deve superar o custo do capital.

Fora dessas condições, o que se observa não é investimento, mas desperdício — ainda que travestido de estratégia de desenvolvimento.

A experiência brasileira recente é ilustrativa. Projetos anunciados como estratégicos acabaram se revelando exemplos de má alocação de recursos: os empreendimentos nucleares de Angra, a refinaria Abreu e Lima, entre outros, foram marcados por custos elevados, atrasos e retornos econômicos questionáveis. Em vez de impulsionar o crescimento na proporção esperada, contribuíram para ampliar o endividamento público e pressionar as contas fiscais.

O resultado está à vista. O gasto público cresceu significativamente nas últimas décadas, enquanto o desempenho do PIB per capita brasileiro permaneceu modesto quando comparado ao de outras economias emergentes. Não se trata apenas de teoria, mas de uma realidade que os indicadores econômicos ajudam a revelar.

Ainda assim, persiste no discurso político a defesa de mais gasto como solução universal. Não faltam líderes dispostos a expandir despesas, desde que o ônus recaia difusamente sobre a sociedade. Ajustes, quando necessários, tendem a ser sempre “para os outros”.

Há, portanto, um descompasso entre o incentivo político e a responsabilidade fiscal. Ganhar eleições exige habilidade; administrar recursos escassos exige competência — e as duas qualidades nem sempre coexistem.

Se gasto fosse sinônimo de prosperidade, bastaria gastar mais para crescer. A realidade, porém, é menos indulgente: contas públicas, como quaisquer outras, têm limites. E, cedo ou tarde, eles se impõem.

Vorcaro achava que gasto era vida. Deu no que deu.


São Paulo, 16 de abril de 2026.
Jorge Wilson Simeira Jacob




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