sábado, 11 de julho de 2026

 A Argentina em 2031

As nações, assim como os indivíduos, também carregam suas memórias, seus erros e suas oportunidades perdidas. Há países que passam décadas repetindo os mesmos equívocos, incapazes de perceber que o futuro será apenas a consequência das escolhas feitas no presente. Outros conseguem, em determinado momento de sua história, romper antigas crenças e iniciar uma nova trajetória.

Quem, ao alcançar certa idade, não olha para trás com alguma tristeza e lamenta erros cometidos ou oportunidades perdidas? Ah, se eu soubesse! O passado frequentemente nos oferece lições que só compreendemos quando já não podemos alterá-lo.

Mesmo assim, a maioria continua apenas observando a vida passar, para mais adiante repetir os mesmos arrependimentos. Outros, uma minoria, aprende com as experiências e desenvolve a capacidade de enxergar além do presente, tentando antecipar o futuro.

Algumas pessoas se tornaram notáveis justamente por essa capacidade de visão. Escritores de ficção científica, como Júlio Verne, imaginaram tecnologias e conquistas que pareciam impossíveis em sua época, como viagens espaciais, submarinos e formas de comunicação à distância. Aldous Huxley, por outro lado, projetou uma sociedade em que o controle humano poderia ocorrer não apenas pela força, mas também pelo condicionamento e pelo domínio da tecnologia.

Nada além da intuição e da capacidade criadora parece movê-los. É a inquietação de imaginar algo diferente que lhes permite vislumbrar possibilidades antes que elas se tornem realidade. É um exercício semelhante ao jogo de xadrez, no qual o jogador precisa antecipar os desdobramentos possíveis de cada movimento.

É clássica a imagem — verdadeira ou não — da maçã que teria caído sobre a cabeça de Newton e despertado sua reflexão sobre a gravidade. Muitas frutas caíram sobre muitas outras cabeças e nada produziram além de uma eventual calosidade. Aquela caiu sobre uma mente preparada pelo conhecimento, pela lucidez e pelo estado de alerta.

Uma mente com essa característica parece ser a de Javier Milei, presidente da Argentina. Sua visão econômica é resultado de um profundo estudo sobre as causas do desenvolvimento das nações e de uma convicção de que a liberdade econômica, a inovação e a atração de investimentos são fatores essenciais para a criação de riqueza.

Em recente entrevista em Londres, Milei e seu ministro da  Desregulamentação e Transformação do Estado defenderam perante a imprensa britânica uma política de incentivo à Inteligência Artificial, com menor intervenção estatal e maior liberdade para o desenvolvimento de novas empresas no setor. A proposta busca criar um ambiente favorável para que a Argentina se torne um polo de inovação tecnológica.

O capitalismo recebeu um grande impulso histórico com a criação das sociedades de responsabilidade limitada, que estimularam investimentos ao reduzir os riscos individuais e democratizar o acesso ao capital. A Inteligência Artificial pode representar uma transformação de dimensão semelhante. No passado, a Inglaterra se beneficiou das inovações que surgiram em seu ambiente institucional. Agora, a Argentina tenta posicionar-se para receber os frutos da nova revolução tecnológica.

Em meu recente artigo neste jornal, “O capital é covarde”, destaquei uma característica conhecida do comportamento dos investidores: o capital busca o lucro, mas antes teme o prejuízo. Reduzir riscos, oferecer segurança jurídica, limitar a burocracia e preservar a responsabilidade fiscal são medidas que estimulam investimentos e contribuem para o enriquecimento das nações.

O que o governo argentino procura fazer é tornar o país mais atraente para os investidores da Inteligência Artificial.

Em outra entrevista, ao tratar dos próximos pagamentos da dívida argentina, o ministro da Economia afirmou acreditar que, em 2031, o país poderá alcançar a classificação de grau de investimento. Se isso ocorrer, grandes fundos internacionais, atualmente impedidos por regras próprias de investir em países sem essa classificação, poderão direcionar recursos para a Argentina.

Naturalmente, o futuro não está escrito. As previsões podem se confirmar ou fracassar. Mas a história demonstra que os países que conseguem imaginar possibilidades e criar condições para realizá-las têm maiores chances de prosperar.

Se essa aposta der certo, os argentinos poderão olhar para trás não com tristeza pelos erros cometidos, mas com orgulho por terem aprendido a enxergar o futuro

São Paulo, 09 de julho de 2026.

Jorge Wilson Simeira Jacob

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