sábado, 7 de março de 2026

  O roubo intelectual do século


Os aeroportos pequenos, sem torre de controle, atendem à necessidade elementar dos pilotos de conhecer a direção do vento por meio de uma biruta instalada no teto do hangar.


Esse instrumento é sensível à mínima mudança de direção do vento. Não há nada de errado em ser errático, pois essa é precisamente a sua função. O que é aceitável em um aparelho é absolutamente inadequado em um político, de quem se espera firmeza de direção. Uma nação não pode manobrar com a leveza de um teco-teco.


A nação demanda tempo para ajustar-se às políticas governamentais. Em muitos casos, anos são necessários para uma acomodação harmônica da vida socioeconômica. Não apenas a mudança cultural exige tempo, como também a reestruturação das atividades econômicas. Por isso, valorizam-se governantes que administram com base em convicções, e não segundo a direção dos ventos.


Uma das convicções que tornaram o mundo mais próspero foi a adoção do livre comércio, amplamente incentivado pelos Estados Unidos ao longo do processo recente de globalização. Em contraste, a esquerda mundial, historicamente, defendeu o protecionismo, contrapondo-se aos mercados livres.


Por uma dessas ironias do destino, uma espécie de biruta americana ligada ao partido Republicano passou a adotar um feroz protecionismo, embora tradicionalmente defendesse o livre comércio. Os resultados são conhecidos: disrupção das cadeias de suprimentos, quebra de acordos comerciais, insegurança generalizada e aumento de custos para os consumidores americanos.


A ironia deixaria de ser apenas política para se tornar intelectual quando a esquerda internacional e nacional, em vez de criticar a mudança de direção, passou ela própria a girar conforme o vento. Subitamente, posicionou-se como defensora do livre comércio que antes demonizava. Em tom professoral, Luiz Inácio Lula da Silva discursou no Fórum Empresarial Brasil–Coreia do Sul, em Seul (23/02/2026), afirmando:


“Há uma tentativa de acabar com o multilateralismo, de voltar o que nós não queremos que volte, o protecionismo para dificultar a economia dos países a crescer. Não existe justificativa. Quanto mais livre o comércio, melhor será para a Coreia e melhor será para o Brasil. E melhor será para o mundo.”

Diante disso, pensadores como Raúl Prebisch e toda a tradição cepalina pareceriam rodopiar no túmulo, ao ouvir a defesa enfática da economia de mercado por quem historicamente a criticou.


Essa guinada terá consequências profundas: as enciclopédias terão que reescrever os verbetes que definem esquerda e direita. As ideias da direita, pejorativante criticadas pela esquerda, agora  são elogiadas.


Os homens de convicções, que não giram  como as  birutas, que abominam as ideias intervencionistas, com este roubo  inteclectual viverão o conflito de identificação intelectual.


Os homens de convicções não têm o treino dos oportunistas que mudam de opinião de acordo com o vento; que mudam o discurso de acordo com as conveniências.

Consumou-se, assim, o que se pode chamar de o roubo intelectual do século: a usurpação, por antigos críticos do mercado, da defesa das vantagens comparativas formuladas por David Ricardo, tradicionalmente caras ao pensamento liberal.

São Paulo, 23 de fevereiro de 2026.

Jorge Wilson Simeira Jacob 


Nenhum comentário:

Postar um comentário