sábado, 21 de março de 2026

 


A ortodoxia necessária

Faz parte da crença comum a ideia de que tudo na vida evolui, melhora e cresce. Não faltam exemplos concretos para sustentar essa convicção.


As mudanças são palpáveis. Em quase todos os campos do conhecimento houve aumento de qualidade e produtividade. Nos últimos duzentos anos, com a consolidação do capitalismo, o homem comum passou a desfrutar de condições de vida que fariam inveja ao Rei Sol.


Uma nova classe socioeconômica surgiu. A miséria, que durante séculos foi a condição da imensa maioria da população mundial, vem sendo reduzida de forma significativa. Basta lembrar o caso da China que, após as reformas promovidas por Deng Xiaoping e a adoção de práticas de economia de mercado, retirou centenas de milhões de pessoas da pobreza extrema.


Os avanços da medicina, para limitar os exemplos, não apenas curaram doenças que por séculos maltrataram suas vítimas, como também estenderam a expectativa de vida humana.


De tanto observar melhorias ao nosso redor, por que não ousar também a crença de que a própria aritmética pode evoluir? Por que permanecer prisioneiros da sua exatidão? Por que dois mais dois haveria de ser sempre quatro?


Não são os conservadores nem os ortodoxos que fazem o mundo avançar — dizem — mas aqueles que ousam pensar fora da caixa. Os gênios acertam alvos invisíveis aos homens comuns.


Entre as inovações pretendidas por esses espíritos ousados estaria a ideia de libertar a soma dos algarismos de uma tabela fixa. Em vez de dois mais dois ter de ser quatro, propõem que possa ser cinco, seis ou qualquer outro número conveniente.


Felizmente, tais heterodoxos não costumam calcular o concreto das pontes e dos edifícios. E quando algum deles violentou a ortodoxia aritmética, os resultados foram igualmente concretos: as construções não permaneceram de pé.


Outros inovadores, porém, têm mais sorte. Ousam subverter a lógica em campos como a economia e as ciências sociais. Como lidam com abstrações e variáveis vivas, mutáveis e difíceis de isolar, seus erros não são testados em laboratório. Os efeitos se diluem no tempo, mascarados por circunstâncias, discursos e justificativas morais.


Uma visão ortodoxa das relações econômicas leva à crença de que só se pode dispor daquilo que foi produzido; que só se pode investir o que foi previamente poupado; que só pode existir emprego onde exista empregador.


Já uma visão heterodoxa, dita moderna, acredita na alquimia de transformar vontade em renda, lei em produto e distribuição em justiça.


Enquanto a economia clássica, na pena de Adam Smith, via no estímulo ao lucro a satisfação do consumidor e o salário do trabalhador, certas correntes da economia moderna afirmam enxergar alvos invisíveis aos clássicos — e aspiram ao Nobel com propostas como a chamada Nova Matriz Econômica.


Resumidamente, trata-se da ideia de que gastar é vida: um conjunto de políticas baseado no aumento do gasto público e do crédito para estimular o crescimento, na redução de impostos setoriais, na expansão do crédito via bancos públicos e na manutenção artificial de juros baixos para incentivar consumo e investimento.


Os resultados foram aqueles previstos pelos economistas clássicos: inflação, perda do poder aquisitivo, desemprego e desequilíbrio das contas públicas. No campo político, culminaram no impedimento da presidente, após a progressiva desmoralização do governo.


Se engenheiros que ignoram a ortodoxia da matemática derrubam pontes e edifícios, engenheiros sociais descolados da realidade derrubam governos, renda e o futuro de um país.

A lógica como a aritmética tem leis próprias  que não se subordinam à vontade politica. 

São Paulo, 15 de dezembro de 2025

Jorge Wilson Simeira Jacob

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