Cair de pé
— A mais rara das virtudes públicas
Mesmo os metais mais resistentes cedem com o tempo. Nos humanos, esse processo é ainda mais evidente. Por mais vigoroso que seja o corpo ou privilegiada a mente, o tempo é implacável — cobra sempre o seu preço.
A verdadeira diferença não está em evitar a queda, mas em como se cai.
Não apenas a idade nos torna mais frágeis; também, aos olhos dos outros, perdemos o brilho da novidade. Essa perda, muitas vezes silenciosa, revela uma verdade desconfortável: o valor público de alguém raramente é permanente. Ele depende do olhar alheio — volátil, exigente, muitas vezes impiedoso.
Os comediantes aprendem isso cedo. A repetição de uma piada, ainda que tenha feito rir multidões, perde a graça. A vida está em constante movimento, como um rio: as águas são sempre outras. O que ontem encantava, hoje pode cansar.
O homem público — seja artista, seja político — vive, assim, duas existências: a de ser humano e a de personagem. Esta última, sustentada pelo reconhecimento, é a mais frágil. Morre quando o público se afasta.
Em Limelight (Luzes da Ribalta), Charlie Chaplin transforma essa realidade em arte. O personagem Calvero, um comediante em declínio, enfrenta não apenas o esquecimento, mas algo mais profundo: a perda de si mesmo. Para ele, ser artista não é uma profissão — é identidade. Quando o reconhecimento desaparece, resta o vazio. O passado, antes motivo de orgulho, converte-se em peso.
A decadência, nesse sentido, não é apenas externa — é existencial.
A mesma lógica se aplica à vida pública. Políticos encantam eleitores com promessas que oferecem sonhos e ilusões. Interesses materiais e ideais são apresentados sob novas formas, suficientes para vencer eleições. No entanto, como no humor, o discurso repetido — o “mais do mesmo” — inevitavelmente se desgasta.
Enquanto candidato, é fácil sustentar expectativas e alimentar esperanças. No exercício do poder, porém, a realidade impõe limites. Promessas não cumpridas esfriam ânimos, e o entusiasmo cede lugar à frustração.
O problema não está apenas no desgaste — inevitável —, mas na incapacidade de reconhecê-lo. Muitos insistem em fórmulas que já não funcionam, como comediantes que repetem piadas que já não fazem rir. Tornam-se anacrônicos sem perceber.
A história, no entanto, exige renovação. O mundo não cessa de mudar. E a sociedade, descrente do que não deu certo, busca ideias que reacendam a esperança. O eleitor, ao contrário do que se imagina, não vota olhando para o passado, mas para o futuro. A biografia pode servir de referência, mas não substitui a expectativa.
Quando o discurso já não mobiliza e a ação já não convence, a figura pública se assemelha a um artista com a maquiagem escorrendo pelo rosto: a mascara se desfaz diante de todos.
Há, contudo, uma diferença decisiva entre a queda e a grandeza. Alguns são simplesmente afastados pelo tempo. Outros compreendem o momento de sair. Charlie Chaplin pertence a este segundo grupo. Em vez de resistir inutilmente ao ocaso, transformou a própria despedida em obra. Fez do fim um gesto de criação.
Saber sair de cena é, talvez, a mais rara das virtudes públicas. Exige lucidez, desapego e senso de medida. Poucos a possuem. Só os melhores — os que sabem perder a proeminência sem sacrificar a dignidade.
São Paulo, 13 de abril de 2026.
Jorge Wilson Simeira Jacob
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