sábado, 24 de outubro de 2026

 As vítimas derrubam os muros

Os resultados das eleições ensejam inúmeras interpretações. Entre as que predominam estão as que analisam os resultados econômicos. Os efeitos sobre a qualidade de vida são fortes influenciadores do voto.

O desemprego e a queda do poder aquisitivo provocada pelo aumento dos preços batem diretamente no bolso do cidadão. Em seguida, vem a segurança física. Outros fatores, como a corrupção e a má administração da economia, nem sempre têm o mesmo impacto imediato sobre o eleitor.

Após a queda do Muro de Berlim, na prática uma declaração da falência das ideias socialistas, tivemos, do filósofo mexicano Octavio Paz, uma das melhores definições do episódio: “O comunismo não foi vencido pelos seus inimigos, foi derrubado por suas vítimas”.

Levado ao pé da letra, esse pensamento sugere que as derrotas políticas decorrem da insatisfação das vítimas com os governantes ou com suas ideias. As recentes eleições brasileiras podem ser interpretadas sob essa perspectiva. São as vítimas de duas décadas de populismo estatizante que se levantam pedindo mudanças.

Ao longo desses anos, ideias equivocadas, promessas não cumpridas e gastos públicos inconsequentes contribuíram para gerar insatisfação e alimentar a descrença na política econômica.

O crescimento do país precisa ser suficiente para elevar a renda real da população. Quando a economia cresce pouco, as possibilidades de melhorar as condições de vida ficam limitadas. E surge uma pergunta inevitável: quem paga a conta dos programas sociais?

Parte dessa conta recai sobre os contribuintes, por meio dos impostos. Outra parte pode ser financiada pelo endividamento público, cujos juros comprometem recursos que poderiam ser destinados a outras necessidades. Quando as despesas crescem sem que a economia produza riqueza suficiente para sustentá-las, o custo pode recair sobre toda a sociedade, inclusive sobre as gerações futuras.

O endividamento das famílias também revela dificuldades econômicas. Embora nem toda dívida signifique falta de renda, a inadimplência e o comprometimento excessivo dos rendimentos mostram que parcela da população enfrenta dificuldades para equilibrar suas contas.

Se, no começo, a sociedade aceitava pagar a conta por legítima solidariedade aos necessitados, essa disposição pode se enfraquecer quando não percebe resultados duradouros e passa a suspeitar que o sacrifício coletivo esteja sendo utilizado para fins eleitorais.

As vítimas, neste caso, aqueles que sentem o peso dos custos e a falta de perspectivas, podem derrubar, com seus votos, o nosso Muro de Berlim. O repúdio não é à solidariedade nem à necessária e justa ajuda aos desfavorecidos. É a uma política que não cria condições para a ascensão social. Em vez de abrir aos mais pobres o caminho para a classe média, acaba por alimentar o receio de que até aqueles que já conquistaram essa condição possam perdê-la.

A classe média é um dos sustentáculos da prosperidade e um dos alicerces de uma democracia liberal. Sua importância não está apenas no poder de consumo, mas também na capacidade de poupar, investir, empreender e conquistar autonomia. Uma sociedade que não oferece perspectivas de ascensão social compromete o próprio futuro.

O país precisa desenvolver-se. O crescimento econômico e a racionalização dos gastos do governo, acompanhados do enfrentamento da insegurança e da corrupção, dariam ao Brasil melhores condições para aliviar o sofrimento dos mais necessitados e reduzir o endividamento das famílias.

Um cidadão, por mais egoísta que seja, não pode viver tranquilo quando está cercado de insatisfação por todos os lados.

A solução é fazer o país crescer. Distribuição de renda sem crescimento é receita para fazer vítimas.

São Paulo, 11 de outubro de 2026.

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