quarta-feira, 7 de outubro de 2026

 A revolta dos humilhados

O uso dos programas sociais na compra de votos violentou a dignidade de quem os recebe.

O apoio aos menos favorecidos é legítimo e necessário. Mas uma ação justa, quando utilizada como instrumento de conquista eleitoral, perde sua pureza e ganha a mancha do suborno. A enxurrada de programas apresentados como benefício social, mas utilizados ostensivamente para conquistar votos, acabou atingindo justamente aqueles que pretendia beneficiar: os pobres.

Um observador do caráter humano sabe que, mesmo na absoluta penúria, permanece, no fundo da alma, o sentimento de dignidade. Pode faltar quase tudo a um homem, mas não deveria faltar-lhe o direito de sentir-se respeitado.

A verdadeira caridade é aquela que dá com a mão direita sem que a esquerda saiba. Não humilha, não cobra e, principalmente, não transforma a necessidade de quem recebe em dívida de gratidão.

Foi justamente esse respeito que faltou.

A leitura das urnas revelou algo mais profundo do que uma simples escolha eleitoral. Revelou o limite da tolerância de uma sociedade. A revolta não veio apenas dos que recebem os benefícios, mas também daqueles que se sentem obrigados a pagar a conta de uma política que transforma a pobreza em instrumento eleitoral.

A utilização de uma ação justa e necessária — amparar os mais necessitados — como mecanismo de conquista de votos ultrapassou os limites.

O eleitor não se deixou corromper.

O mar de lama não conseguiu afogar a dignidade de uma sociedade sabidamente cordial e generosa.

Mais uma vez, a história parece dar razão a Abraham Lincoln: “É possível enganar poucos por muito tempo, muitos por pouco tempo; mas é impossível enganar todos por muito tempo.”

A pobreza não pode ser transformada em profissão, nem a necessidade em instrumento de dominação política.

A verdadeira preocupação com os pobres não deveria ser a de mantê-los dependentes de benefícios, mas a de criar condições para que deixem de precisar deles. Tirar de uns para distribuir a outros pode aliviar a fome de hoje, mas não necessariamente constrói a prosperidade de amanhã.

A China é um exemplo extraordinário dessa transformação. Depois de décadas de pobreza sob o rígido modelo socialista, promoveu profundas mudanças econômicas, abriu espaço para a iniciativa privada, para o mercado e para os investimentos, e em poucas décadas tornou-se uma potência mundial.

Não foi a esmola que criou essa transformação. Foram as oportunidades.

A sociedade é solidária — e tem de ser — com os menos favorecidos. A solidariedade está na essência do ser humano.

Muito antes da multiplicação dos programas governamentais, ela já existia nos asilos para velhos, nos orfanatos para crianças e nas Santas Casas de Misericórdia. A sociedade amparava os despossuídos. A caridade era privada e tinha como fundamento o amor ao próximo.

Não pedia dos atendidos nada em troca.

Não exigia gratidão.

Não cobrava o voto.

E, sobretudo, não ofendia a dignidade de quem recebia.

A estatização da caridade, quando transformada em moeda eleitoral, produz uma inversão perversa: o benefício que deveria libertar passa a criar dependência; o auxílio que deveria amparar passa a cobrar fidelidade; e aquele que deveria ser tratado como cidadão passa a ser visto como eleitor.

É aí que a caridade deixa de ser caridade.

Quando a necessidade do homem se transforma em instrumento de poder, não se está apenas distribuindo benefícios. Está-se tentando comprar consciências.

Mas há um limite para tudo.

E quando esse limite é ultrapassado, até os humilhados se revoltam.

Foi o que aconteceu nas urnas.


São Paulo, outubro de 2026.


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