sábado, 31 de outubro de 2026

 



O samba do eleitor doido


Deixe que o governo cuida de nós. Não ocupe a cabeça com preocupações. A nossa sobrevivência é um direito adquirido pela Constituição. Basta votar no candidato comprometido com a pobreza e descansar em berço esplêndido.


Tenha fé na bondade divina e confiança nas leis. A sua parte é tão somente usufruir da natureza pródiga e do espírito cordial da nação. Ninguém foi criado por Deus para o sofrimento. Deus nos ama e só quer o nosso bem. Nem elegemos um governo para nos matar de trabalhar.

O Criador nos fez à sua semelhança em tudo, menos na  possibilidade de morrer na  cruz do trabalho. Ele nos assegura uma natureza pródiga: chuva, sol, terras férteis e clima temperado. O governo garante cerveja, picanha e três refeições diárias. O tempo para o lazer é um dos novos direitos fundamentais, ao lado da vida, da felicidade e do direito à propriedade alheia.

Uma caneta BIC e uma folha de papel são instrumentos suficientes para, havendo vontade política, assegurar a felicidade geral da nação.

Os conservadores perderam o passo. O mundo não é mais o mesmo. A tecnologia faz milagres. A abundância de bens já não depende tanto do trabalho braçal. A maldição divina aos descendentes de Adão e Eva, de ganhar o pão com o suor da testa, está desmoralizada. A leitura dos jornais mostra que, muitas vezes, os que fazem fortuna no Brasil não são os que mais estudam e trabalham, mas os que estão próximos do governo. Mais vale uma boa relação política do que o sangue, o suor e as lágrimas derramadas.

Enquanto um trabalhador ganha uma merreca mensal, os que não trabalham, mas determinam os ganhos de quem trabalha, ganham milhões. O trabalho honesto, a poupança, o investimento e a vida austera foram abolidos pela nova inteligência.

Nietzscheanos acreditam que, se Deus não existe, tudo é permitido. A ideia é compreensível: sem Ele, não haveria prêmio nem punição divinos. Como cada vez menos se acredita numa existência de outra vida, a consequência é o larga geral. Se a vida é única, a ordem é usufruí-la sem limites nem escrúpulos.


Não deixe para depois se o depois não existe!


Tudo está permitido. O eleitor doido aposta no milagre. Não acredita em consequências. A farra de hoje será perdoada amanhã. O presente pertence ao governo generoso ; o futuro fica nas mãos do Deus bondoso.


São Paulo, outubro de 2026.


Nenhum comentário:

Postar um comentário