domingo, 15 de outubro de 2023

 Não há mais cruel tirania do que aquela que se exerce à sombra das leis e com as cores da justiça.

Montesquieu 



Entre as crenças de Rousseau ( Contrato Social )  e Hobbes ( Leviatã )  está a distância do bem e do mal.  O primeiro acreditava que o homem nasce bom , mas degenera na vida social. Ao contrário de Hobbes que via a maldade como parte da natureza humana. A história dá razão a este de que  o homem é o lobo do homem. No reino animal também há eventos de maldade, mas só os humanos a institucionalizaram.  O homem, a par dos inúmeros atos pessoais, na sua história, escreveu capítulos negros. O ser humano é mau por natureza.


Um indivíduo ou um ato mau pode ser , olhado com benevolência, uma exceção, uma degeneração, motivada pela  impulsividade .  Entretanto a maldade organizada, institucionalizada, como foram a escravidão, a Santa Inquisição e o holocausto, sem esquecer das tiranias comunistas, não merecem perdão. Não há como não pintar com as piores cores o crime praticado contra muitos ao longo do tempo.


A escravidão é de todas as violências a que mais tempo durou e mais vítimas fez. Foi praticada desde a antiguidade pelos assírios, egípcios, hebreus e só oficialmente foi abolida em 2007, na Mauritânia. A Santa Inquisição, instituída pelo Papa Gregório IX, em 1231, para combater os hereges, fez vítimas durante quatro séculos. Assim como a escravidão  não foi obra de um homem, mas de uma instituição. No que se diferencia do holocausto que teve vida mais curta ( de 1933 a 1945 )  e liderada pelos nazistas. Ainda que esta não tenha ficado nada a dever pela crueldade. Fez tantas vítimas, seis milhões nos campos de concentração, mas muito menos do que  nos setenta anos  de Stálin, Pol Pot e Mao Tse Tung ao longo dos governos comunistas.


De todas esses sacrifícios humanos a que tem merecido menos divulgação,  proporcional á sua dimensão,  a que mais vítimas fez e por  mais tempo foi praticada — foi a escravidão. Uma falha amenizada pelo livro “ Escravidão” do escritor Laurentino Gomes ( 1* volume da trilogia , 479 páginas, Editora Globo , $31,09  ), que aborda desde o primeiro leilão de escravos em Portugal , em 8 de agosto de 1444  até a morte de Zumbi dos Palmares, em 20 de novembro de 1695. Uma leitura agradável. É um relato histórico com o sabor de  romance. Não só é rico sobre o trágico evento como entretém pelo texto leve e muito bem fundamentado. 


É uma leitura para entender boa parte da nossa história. O Padre Antônio Vieira dizia que: “ o Brasil tem seu corpo na América mas a alma na África. E tinha conhecimento de causa. Os jesuítas, irmandade à que pertencia, explorou em suas inúmeras fazendas, com a mesma crueldade dos colonizadores, o trabalho escravo. 




Somos hoje  a maior população negra no mundo, depois da Nigeria;  importamos 5 milhões de escravos africanos dos 12,5 vindos para a América no período de três séculos e meio; época houve que o número de negros escravizados superava a população branca ;  e fomos dos últimos a abolir a escravidão. O negro virou sinônimo de escravo no Brasil.


No processo escravizador, chocante foram  as perdas humanas, pelo maltrato, desde a captura na África até os leilões dos escravos. Mais da metade morria antes de serem vendidos. Os mais fracos eram lançados aos tubarões ainda vivos. A desumanidade ia a ponto de os marcar com ferro em brasa, como se faz com o gado.  Grande número morria de infecção no processo. A crueldade não tinha limites, como pode-se ler nessa rica história.


Nas palavras do autor: “ nenhum outro assunto é tão importante e definidor da nossa identidade nacional. Estudá-lo ajuda a explicar o que fomos no passado , o que somos hoje e também o que seremos daqui para a frente”.




São Paulo, 12 de setembro de 2023.

Jorge Wilson Simeira Jacob


domingo, 8 de outubro de 2023

 Bordeaux, a cidade do vinho.


Nos seus oitenta anos ele cultivava uma barba branca que terminava na altura do peito. Era seu motivo de orgulho por ser única na cidade. Ele sabia disso o que o levava a cofiar a linda barba continuamente.


Um dia, sentado no banco do jardim, aguardando a hora da missa das 10, onde a elite da cidadezinha exibia os trajes e joias… e ele, a sua barba, um menino se aproxima e olhando firme nos seus olhos pergunta: “ vovô, quando você dorme a barba fica dentro ou fora do cobertor?”Essa questão nunca tinha passado pela cabeça do ancião. 


Como acontece muitas vezes na vida, em vez de uma resposta , a pergunta nos traz uma dúvida. Nos cria um problema. Isto foi o que aconteceu - com a incerteza de onde colocar a barba, o velhinho nunca mais dormiu na vida. Passava as noites em claro tentando encontrar o melhor lugar para a sua venerável barba.


A exemplo do vovô da piada, em vez de uma barba, eu convivia tranquilamente com os meus vinhos. Harmonizava os brancos com peixes e pratos leves; tintos leves com massas e molhos de tomate; os tintos pesados com carne vermelha; e os brancos licorosos com as sobremesa. Tudo funcionava satisfatoriamente até o dia que visitei o Museu do vinho de Bordeaux.


Reafirmei lá que beber vinho mais do que um exercício da gastronomia tornou-se uma arte. Não faltam boas leituras de inúmeros autores credenciados. As vinícolas fazem degustação que sao precedidas da história da casa, das cepas e da produção. São verdadeiras aulas para  treinar na degustação de um vinho. Há todo um ritual que engloba todo o processo de escolha, serviço e degustação. De todo o processo o mais valorizado é a harmonização com os alimentos. 


Diante de um esquema tão sofisticado para quem quer levar a sério o que ditam os enólogos , o enófilo com frequência comete erros inadmissíveis aos olhos dos experts. Um muito comum é servir o Sauternes ( um vinho doce ) com sobremesa doce. Também é o referir-se a este vinho como sendo um vinho de sobremesa. Dizem eles: tome o Sauternes com Rockefort ou com lagosta e sirva Champagne com os doces.


Quem visita, em  Bordeaux,  o Museu do Vinho, a par de encantar-se com a magestade do edifício , aprende tudo sobre o vinho no mundo. O museu  conta a sua  historia milenar  - um dos primeiros alimentos a ser  conservado pelo homem. Em  vasto espaço, nos arredores da cidade, que margeia o Rio Garonne, a instituição se apresenta como uma exibição de luxo, criatividade e tecnologia. Nas exposições didáticas transmite teoria; nas interações , distingue os paladares e as sensações gustativas. É um programa de duas horas ou mais, que termina com o direito a degustar gratuitamente um dos vinhos em oferta.




Bordeaux ( bord’eau ) é a cidade do vinho. Ela tem neste produto e seus fornecedores a base da sua economia. É uma grande cidade - 813 mil habitantes. As suas grandes avenidas sao ladeadas por edifícios do século XVlll, todos na altura de quatro pavimentos. Os seus infindáveis bares e restaurantes com mesas na calçada fervilham de jovens até altas horas da noite. A cidade tem muitas universidades o que explica a sua alegre vida noturna.


A Catedral de Sto. Andre, em estilo gótico, é monumental e tem um órgão que toma toda a largura da igreja. O Grand Teatro,  construído pelo arquiteto Richelieu - homônimo do ministro de 

Luiz Xlll- destaca-se pela dimensão e beleza arquitetônica. 


Nesta temporada em Bordeaux para visitar as suas importantes vinícolas em vez de me trazer mais segurança, igual ao velhinho da barba, colocou-me como Sócrates.  Descobri que de vinho também : “só sei que nada sei”. O mundo do vinho é vasto demais para este modesto apreciador da bebida. 


Conclui, diante da sensação de impotência para dominar a arte de degustação do vinho, que doravante vou esquecer todas as regras e vou beber do meu jeito,   do jeito que gosto, vou deixar para os “snobs” degustar teoria . Vou esquecer tudo o que me ensinaram, vou queimar os meus livros e jogar fora os meus manuais. Só praticarei doravante o que manda o meu coração.


Afinal o vinho é como as mulheres, a gente gosta ou não gosta. Ninguém consegue mesmo as entender.



Bordeaux, 02 de outubro de 2023.

Jorge Wilson Simeira Jacob

domingo, 24 de setembro de 2023

 O defunto socialista.



Depois da tempestade vem a bonança! Diz o ditado. Na prática algumas vezes se sucede um naufrágio. A Argentina , diante de uma terrível tempestade, está tendo uma oportunidade de evitar o naufrágio. Após décadas de socialismo, que a transformou  numa  das mais ricas e desenvolvidas economias do mundo em um pária no concerto das nações,  um raio de sol surge no horizonte. Inesperadamente desponta como candidato preferido às próximas eleições Javier Millet com um programa de governo para  livrar o país do socialismo que o  desgraçou.


Milliet é um verdadeiro milagre: um jogador de futebol, cantor de Rock, economista  com uma cultura de fazer inveja. Ele é  dono de uma postura firme e um discurso muito bem fundamentado. Consegue traduzir conceitos abstratos em linguagem inteligível ao homem comum. Não lhe faltando coragem para se contrapor ao politicamente correto.  Milliet propõe, nada mais nada menos,  do que recuperar os estragos de décadas do peronismo que   levaram o país ao atual  caos.


 De país rico, hoje a Argentina não tem moeda e nem crédito de tão desmoralizada está . O que vai  exigir profundas mudanças estruturais. Somente um político com competência e determinação pode  salvar o país. E Milliet tem um programa que o apresenta como sendo o candidato adequado para a tarefa.


Miliet é um democrata liberal convicto. Tem consciência que o governo é um mal necessário: nada produz nem nada cria. É um destruidor das riquezas da nação. Portanto deve ser “mínimo”. E  não esse “máximo” que gerou a atual crise. Uma crise tão grave  que exige uma cirurgia profunda. Ele sabe disto e mostra-se disposto a implementar as ideias liberais, que geram riqueza e prosperidade. Milliet é sobretudo um entusiasta dos valores da liberdade. 


A Argentina não mais poderá ser salva com medidas paliativas. Exige uma profunda cirurgia. Terá que eliminar os ranços do socialismo. O que quer que não seja eliminado poderá ressurgir e alimentar as viúvas do regime abandonado. Serão milhares que mamaram nas tetas do governo a sabotar o novo governo. 



Em recente e imperdível entrevista ( anexa) 


https://twitter.com/tuckercarlson/status/1702442099814342725?s=24


Milliet exibe um domínio conceitual coerente e profundo. Sabe o que quer e sabe querer. Tem a receita para reverter a triste trajetória politica e econômica do pais. Ele tem o domínio da oratória - convence pela razão e emoção. É difícil não se deixar contagiar pelo seu discurso.


A liderança que alcançou nas pesquisas de voto, permite acreditar que de tanto serem enganados pelos demagogos socialistas, os argentinos estão dispostos a tentar a fórmula que só tem casos de sucesso a apresentar. Ao contrário da atual prática que colocou o país de pires na mão a pedir esmolas aos  vizinhos.


Não há como se desprezar os enormes desafios. Ele vai depender de uma forte posição na opinião pública para ter apoio no Congresso. Macri fracassou por não ter cortado na carne os males e contemporizado com establishment. O tempo corre contra. Há que mostrar resultados nos primeiros dias de governo, enquanto o “ defunto sociasta” ainda está quente para ser enterrado.



Se o governo Milliet implantar a sua proposta de reforma do governo poderá desencadear uma virada na América Latina por efeito demonstração. Seria a segunda queda do Muro de Berlin. Certamente será uma inspiração ao Brasil para que surja um líder político com coragem de enfrentar os malefícios do politicamente correto e  enterrar de vez o socialismo.  Se tudo der certo, se a bonança vier,  vamos poder com orgulho dizer que seremos à Argentina amanhã !



São Paulo, 20 de setembro de 2023.

Jorge Wilson Simeira Jacob


domingo, 3 de setembro de 2023

 A bola de cristal.



Só pode ter sido um gênio aquele que descobriu termos todos uma bola de cristal. É ela que nos explica fenômenos passados e  nos permite ver o futuro. Se entender o preterido é diabólico , prever o futuro é divino.


Muito mais do que temos consciência, usamos a nossa bola de cristal tanto para nossa vida pessoal como para ver o futuro do país. Por exemplo, os argentinos  conscientes, olhando a sua história veem o mal que o Perón e Evita,   com os seus descamisados , fizeram à então rica Argentina. 


Contrariando o que seria natural - a evolução -  a nação Argentina involuiu. Surpreendente é ter essa trajetória ter durado sete décadas. Com exceção do governo Macri, nas eleições livres todos os candidatos eram peronistas. Iam dos mais aos menos radicais. Nenhuma candidatura se arriscava a competir sem a chancela peronista. Atualmente, em regime de caos, parece que os argentinos parecem ter  caído na realidade e poderão  escolher um candidato não populista-socializante  para levantar a nação que está de joelhos. 


Quando, se isto acontecer, os setenta anos de decadência não  serão recuperados sem enormes sacrifícios. A medida fundamental  é a redução dos gastos do governo, diz  Javier Milei , o possível novo presidente. Consciente do excesso de intervencionismo, promete reduzir a oito os ministérios , acabar com o Banco Central e dolarizar a economia para debelar a inflação - que só será reduzida a níveis suportáveis se o governo equilibrar o orçamento. 


O dólar, sem contenção dos gastos, como já aconteceu , por si só não conterá a inflação. Não basta trocar o termômetro se a febre não for debelada. E esta é um fenômeno monetário gerado pelas despesas descontroladas do governo.


Já, os brasileiros conscientes, olhando a nossa bola de cristal, veem que o equilíbrio das contas públicas deu-nos estabilidade monetária, mas, sem redução dos gastos, trouxe a estagnação da economia, que não cresce per capita há quarenta anos. O incrível é a passividade da nação diante de resultado tão ruim.


Olhando para o futuro, o nosso horizonte é de desequilíbrio orçamentário com o aumento da dívida pública ( só os ingênuos acreditam na proposta de Haddad de zerar o déficit no próximo ano ). O que nos mostra a bola de cristal é ainda o  aumento da tributação que já se mostrou insuportável. Se a carga vai incidir sobre os mais ricos, o que é defensável, mas nem por isto deixa de esterilizar recursos para o país desenvolver-se.


No aspecto político , tudo indica que , a exemplo da Argentina, teremos muitos anos de populismo-socializante ( serão iguais aos setenta anos argentinos ?) . Há os que acreditam que o caos provocará uma reação positiva, mas são desestimulados pela miséria da África , Cuba, Venezuela…


Diz um ditado que os inteligentes aprendem com os próprios erros e só os sábios aprendem com os erros dos outros. Nestes vinte anos não aprendemos nem com os nossos erros e nem com os dos  nossos irmãos da América Latina. Nem usamos a inteligencia e menos ainda a sabedoria.



Em crise de desanimo, espremo a minha bola de cristal em busca de esperança. Pressionada, ela sentencia: “ O Brasil vai continuar a regredir lentamente. Como o processo será lento, a estagnação será seguida de dificuldades econômicas,  até esgotar a capacidade contributiva da nação, o populismo continuará no poder fazendo mais do mesmo do que lhes deu o poder - populismo-socializante com o enganador título de democracia social.


Imploro à minha bola de cristal por uma possibilidade de esperança. Ela ficou negra, sem brilho, tremeu e sentenciou : “ a situação é grave , as massas não tem consciência do que as espera. As elites menos ainda. Não veem que o sapo está sendo cozido em água  morna. Não haverá, prevê-se,  um fato a justificar uma ruptura, mas sim um esgarçamento lento do tecido social. As elites brasileiras estão dormindo de botinas em berço esplêndido. Só um milagre salvará o Brasil. Eles são raros, mas acontecem”.



São Paulo, 30 de agosto de 2023.

Jorge Wilson Simeira Jacob








domingo, 27 de agosto de 2023

 



Ao Irapuan da Costa Jr, o meu amigo do peito.



Procuro Um Amigo.



Procuro um amigo do peito,

Que, do meu singelo jeito, 

Não deve ser perfeito,

Só tenha suportável  defeito;

Que Seja simples  e natural,

Não goste de nada artificial;

Que tenha o ouvido aguçado

 E o coração todo ajustado

Para uma  solida empatia;

Que sofra na minha agonia

E sorria na minha alegria

E entenda o que não sei ser

E  veja o que não sei ver.


Um amigo que tenha o caminho,

A direção certa do  meu ninho,

A consciência da eternidade

E o gosto pela perpetuidade ,

Sem se perder na vulgaridade ,

Que seja dedicado e leal

Como no mundo não  existe igual.




O que procuro  é uma raridade,

Encontrar um amigo de verdade 

Neste mundo da superficialidade, 

De  desventura e adversidade,

 É como estar fora da realidade.


Não é um amigo para  um instante, 

Deve ser pra sempre e constante

Para vivermos  sempre lado a lado

E estar no meu coração grudado. 


Procuro ansioso um amigo

Com o  carinho do amor maternal

E a confiança do zelo paternal. 

Um amigo fiel para estar  comigo ,

Que não me abandone no meio da vida

E suportemos  juntos a dor se a morte for sofrida.



Onde quer que  o vá localizar

Farei de tudo para o encontrar,

Irei atrás com a toda força procurar

E quando desse sonho despertar

Darei a ele  a amizade que posso  ofertar.

Ser  amigo do peito é  o que tenho para dar.


Sao Paulo, 28 de Julho de 2023

Jorge Wilson Simeira Jacob




domingo, 20 de agosto de 2023

 O gênio da garrafa.



Somos uma nação continental e queremos continuar sendo. Custou- nos séculos para preservar a unidade nacional. Lutamos contra os franceses, holandeses e expulsamos os colonizadores. Os bandeirantes alargaram as nossas fronteiras. Tudo à custa de sangue. Foram séculos de sacrifícios. Não devemos permitir  que insatisfações regionais ponham em risco esse valioso patrimônio.


Nessa trajetória, o centro político e econômico do Brasil mudou de regiões. Salvador foi sede do governo de 1549/1763; Rio de Janeiro de 1763/1960; e Brasília desde 1960. Os diversos ciclos econômicos - extração do pau-brasil, cana de açúcar, do ouro e do café - induziram o estabelecimento do poder político. 


Brasília tornou-se a capital do Brasil a despeito de não ter nenhum poder econômico. Foi um ato político com vistas a interiorização do poder . A não ser o Rio de Janeiro, que foi esvaziado, nenhum estado ficou contrariado com a nova capital. Prevaleceu o desejo nacional de uma federação.


Brasília, economicamente falando, é um zero à esquerda : não produz nada, só leis.Porém é o poder central que distribui os recursos arrecadados. As proporções não seguem os critérios da distribuição per capita, mas o jogo político.Uns valem menos do que os outros,  dependendo da sua região. Os estados menos favorecidos detém uma desproporcional maioria na Câmara dos deputados - que tem poder sobre os critérios os gastos públicos. Um voto do  cidadão do sul elege menos representantes  do que do norte e nordeste. De um total de 513 deputados , São Paulo está limitada a 70 cadeiras em uma forte desproporção ao número dos seus habitantes. 


Essa desigualdade tem sido tolerada. Ainda que haja um sentimento crescente de insatisfação. A ponta desse ressentimento aflorou na última eleição em que praticamente o nordeste elegeu um presidente indesejado pelo Sul. E agora o governador de Minas Gerais levanta a voz para propor um Consórcio dos Governos Estaduais das Regiões Sul e Sudeste  para atuar politicamente em igualdade de condições com as forças políticas do nordeste, organizadas no Consórcio Nordeste, sob a presidência do governador da Paraíba. Se é legítimo uma parte organizar-se politicamente, também o é da outra!


A proposta de Zema é uma moeda de duas faces: há de um lado os que entendem que a iniciativa será uma resposta aos ressentidos e que como consequência do jogo aberto contribuirá para a unidade nacional; de outro lado há os que veem na iniciativa um estopim de discórdia. 


Estamos como o garoto que  abriu a garrafa mágica e liberou o gênio. Não há como prendê-lo, outra vez. O tema está na pauta. Não será fugindo dele que teremos melhoras na pacificação das ideias. A iniciativa do Governador Zema tem o mérito de ter trazido à tona  uma realidade. Diz ele com razão:”  o   sul deve se organizar para defender os seus pobres. Não há pobreza só no nordeste . Há muita no sul”. 

E eles merecem participar da distribuição do bolo.


Zema não criou um problema. Ele existia encoberto. Trazer à luz é encaminhar para uma solução. O nordeste não tem o direito à exclusividade de lutar por seus interesses. O que o faz bem tendo inclusive, uma contrapartida do Consórcio dos governos estaduais das Regiões Sul e Sudeste.  É do debate aberto que surgirão as respostas aos insatisfeitos. O mérito do governador foi colocar sob a luz solar um estado de ânimo que não contribui para o nosso desejo de ter a unidade nacional preservada. Ignorar o desafio é tentar tapar o sol com uma peneira.


São Paulo, 08 de agosto de 2023.

Jorge Wilson Simeira Jacob



sábado, 5 de agosto de 2023

 O Liberalismo —antigo e moderno.



Entre as tantas classificações do ser humano, uma é  a de sermos superficiais. Caminhamos pela vida com certa displicência. Se andamos por uma via, seja no campo das ideias ou no da vida prática, pouca atenção damos às nuances do ambiente. Só olhamos para os detalhes se algum fator nos impulsionar. Nada de errado. Não fosse assim não avançaríamos. Porém se, nas situações mais complexas, ignoramos a diversidade das situações podemos correr o risco de grandes erros. Seria como caminhar nas nuvens, sem olhar os buracos no chão.


Os intelectuais existem para nos livrar dessa superficialidade. Atentos às particularidades, comparando, analisando e propondo situações, eles são o nosso farol. São eles que desses perigos nos livram. Focados nos detalhes, sem perder a  visão panorâmica, nos equilibram entre a vida prática e a intelectual.  Este é  o papel que faz com mestria José Guilherme Melquior , no seu livro O  Liberalismo - Antigo e Moderno ( É Realizações Editora,  383 páginas, 59,89 ) . 


Entre tantos  alertas,  Melquior chama atenção para as seis formas de liberalismo, como também para as do socialismo. No liberalismo aponta para um erro comum de definição, quando muitos entendem o liberalismo como sendo tão só a economia de mercado, a livre iniciativa e a propriedade privada. A este credo ele dá o título de liberismo .  Ele  valoriza o liberismo por acreditar que: “  se não houver liberdade econômica as outras liberdades  - a civil e a política - desaparecem”. O liberalismo, entretanto,  tem uma abrangência muito maior, difere do conservador , pois este admite restrições à liberdade política em nome do tradicionalismo, do organicismo e do ceticismo político.


Crítico das sociedades  intervencionistas, Melquior entende que na América Latina, como regra, não existe a democracia liberal. Não aceitamos a disciplina do mercado. Somos muito burocratizados, mantemos inchadas máquinas públicas e apegados à reserva de mercado. Esta é uma prática mercantilista.


O texto abrange os trezentos anos da história do liberalismo. É uma enciclopédia de conhecimentos, que só uma mente privilegiada como a do autor poderia conceber. Ler esse livro é sair de uma visão superficial e entender realmente o liberalismo. O liberalismo é uma filosofia de vida, que tem como escopo a realização do ser humano.Cuida da sua dignidade.  Enquanto que o liberismo está focado no melhor desempenho econômico. 


O liberalismo atento às desigualdades as aceitam. Em regime de liberdade prevalecem os mais aptos. William G. Summer é citado : “ a despeito de toda a dureza, a lei da sobrevivência não era obra do homem, portanto, não pode ser ab-rogada pelo homem”.



O livro recebeu algumas críticas por dar pouco espaço às experiências liberais na América Latina. Há um bom capítulo sobre os liberais argentinos,  Sarmiento e Alberdi - que, enquando praticada,  a colocou entre as cinco nações mais ricas do mundo e , entregues ao populismo a jogaram de joelhos na pobreza. Caminho que estamos a seguir.


José Guilherme Melquior, reconhecidamente uma das mentes mais privilegiadas do Brasil, e certamente no mundo, faleceu precocemente aos 49 anos de idade. À ocasião da sua morte foi dito que: “Deus faz dessas coisas. Fábrica gênios e depois quebra o molde”. Era poliglota, diplomata, erudito e um estudioso. Surpreende no livro a capacidade de análise das diversas escolas do pensamento, colocando-as, lado a lado, e extraindo a sua essência. Difícil é ficar indiferente à distância que nos separa de um gigante das ideias como foi Melquior. Como conseguiu saber tanto, de política, economia e sociologia, se é que não soube tudo, em tão curta vida?


Na introdução do livro, Roberto de Oliveira Campos, disse: “ este é um livro liberal sobre o liberalismo, escrito por quem acredita que o liberalismo, se entendido apropriadamente, resiste a qualquer vilificação “. 


Neste mundo,  em que a velocidade das mudanças, em todos os campo, a superficialidade prevalece, em que os estatolocrátas tomaram conta, não se deve deixar de olhar mais a fundo, para saber definir o liberismo e o liberalismo. Isto  faz muita diferença. O liberismo   é um braço importante  do liberalismo. Certamente sem ele o liberalismo não sobreviveria.Mas o liberalismo é muito mais abrangente. É o  ideal de  uma sociedade de homens livres, em vez de autônomos ao mercê  do Estado. 


Enquanto o liberalismo está voltado para o bem do indivíduo, em oposto   ao socialismo que o está para a supremacia do Estado. Enfim, se você é adepto da economia de mercado é um liberista; se da  valorização do ser humano,  você é um liberal.



São Paulo, 04 de agosto de 2023.

Jorge Wilson Simeira Jacob