segunda-feira, 22 de novembro de 2021

 A semi-virgindade.


Um dos mais marcantes traços do caracter brasileiro é a tendência à contemporização. Não é incomum  ter  como resposta a uma pergunta o  clássico  mais ou menos. A assertividade anglo-saxônica , quando aqui praticada, não é bem vista. Não gostamos de ouvir um  não e menos ainda, dizer:  não sei. Contemporizamos tudo, ou postergando uma resposta ou com escapismos: vou pensar, quem sabe, depois a gente se fala… e por aí vai. Há, porém,  situações que são absolutas, não permitem o meio termo, a protelação. A virgindade é uma delas. Não há o mais ou menos. Ou é ou não é.  É inegável que essa nossa maleabilidade torna o convívio social mais harmonioso, suave, mas, não indo ao cerne do assunto, não se vai  à solução final. Evitamos bater de frente. A  verdade, porém, com essa nossa flexibilidade diante da  ordem estabelecida, esse nosso  jeitinho encontra espaço para não se levar a lei à sério. Por isto, as nossas leis são como as vacinas - umas pegam outras, não.


Com essas e outras, o resultado é haver uma confusão  generalizada na consciência coletiva com respeito à ordem estabelecida. Começando pela organização do Estado, a sociedade aceita com naturalidade o desrespeito de um dos poderes com relação aos outros. Se fosse desfile de escolas de samba, seríamos desclassificados por ter deixado o samba enredo atravessar.  Haja visto o atual comportamento dos nossos  poderes.  O judiciário atravessa o samba legislando, o legislativo faz-se de morto, o executivo ameaça não obedecer uma lei que o desagrade… e o conúbio entre os poderes constituídos é imoral.  Em vez de cumprir as leis, que é a sua função,  o judiciário, faz uma pretensa justiça, a título de corrigir desigualdades sociais ou atender às crenças pessoais. E o povo ainda reclama de não haver justiça, quando o de que carecemos é do cumprimento das leis. Se uma lei  não é adequada,  não  cabe ao judiciário desrespeitá-la, mas ao legislativo mudá-la. 


Nessa confusão organizacional, a tal ponto está chegando a interferência/desvirtuamento  do judiciário nos assuntos de governo, sob o olhar complacente do legislativo, que vozes esclarecidas como a do Gal. Paulo Chagas, um legítimo democrata-liberal, alertam a Nação para o risco de uma ditadura deste poder. Por falta de sorte, a sociedade não faz coro a este pedido de respeito às leis e aceitam o samba atravessado.  Mais ainda, uma  massa de bem intencionados aceita que,  em vez do rigor da lei, se faça justiça - como se esta fosse a função do judiciário. Este entendimento acomodatício  faz lembrar a famosa advertência de Rui Barbosa:  a pior das ditaduras é a do judiciário, pois deste não há a quem recorrer. 


Esse samba atravessado está nos levando à  semi-virgindade. Estamos  inventando a democracia relativa ou a semi-ditadura, como sistema no nosso governo. Fugimos da  democracia clássica, que está assentada na  divisão do governo  entre três poderes - executivo, legislativo e judiciário; do  check and balance que  foi a solução de Montesquieu para proteger as nações do perigo da concentração do poder.  Ele certamente leu Hobbes e apreendeu que o  Leviatã cresce na medida do seu poder.  O poder absoluto, com os faraós, imperadores, reis, que precedeu a democracia, deixou um enredo pouco edificante. Lição que os democratas não devem esquecer.


Rui Barbosa, entretanto, estava equivocado. Não levou em conta o papel das FFAA de defesa da Constituição. Cabe a elas, além de cuidar da nossa soberania, a ordem constitucional. Elas não podem permitir, usando a força, se for o caso, uma ditadura, seja de qual dos poderes for.  O desequilíbrio vigente entre os três poderes criou  um novo modelo de organização do Estado, a democracia relativa, semi-ditadura,  para sermos vistos pelo mundo como os inventores da semi-virgindade.


São Paulo, 221 de novembro de 2021.

Jorge Wilson Simeira Jacob 

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

 



Uma Obra Prima Da Fofoca.


São poucas as  coisas íntimas que compartilhamos. Do restante, passamos a vida falando de tudo, dos nossos sonhos, das nossas conquistas e das nossas frustrações. Somos uma sociedade oral. Sobretudo saboreamos com luxúria uma boa fofoca. Aliás, quanto mais alta a posição sócio-econômica das vítimas, quanto maior o desastre, mais interesse temos em ouvir e passar adiante uma fofoca.  Há casos que são patológicos. Há uma fofoqueira incansável, que não espera pelas novidades. Vai atrás . Circula por todos os cantos com as antenas ligadas. Caça uma maledicência com a volúpia de um caçador de leões. Uma fofoca para ela tem o mesmo valor  que as presas de um  elefante para um caçador. Esta fofoqueira  é tão focada no seu objetivo que, ao aproximar-se de alguém, mal cumprimenta. Vai logo perguntando: 

  • vc tem alguma novidade para me contar? Se não tem resposta positiva, vai caçar em outro sítio. Mas, se puder,   destila algum veneno, do tipo:
  • fiquei sabendo de um caso envolvendo gente importante . Quando a bomba estourar, ninguém vai acreditar! É daquelas  de fazer ondas no mar. Aguardem! O efeito será  imediato. Todos em coro perguntarão:

é o fulano?a fulana?  é traição ? é calote? A comoção é geral.


Pode parecer exagero, uma caricatura,  essa caracterização dos humanos, mas é um retrato do nosso comportamento social. Exclusivamente humano. Nem o papagaio, que fala, diz  mal da vida alheia.  Se alguém pensa ser exagero  o cultivo da intriga, da fofoca e da bisbilhotice, faça o seguinte teste. Aproxime-se de uma roda de conhecidos  nas pontas dos pés. Segure a respiração como se sem ar estivesse. Olhe de um lado para o outro, com olhar inteligente, como  detetive em busca da solução de um crime.  Quando a roda de conhecidos der  uma pausa na conversa, diga à meia voz no ouvido do mais próximo: 

- Tenho uma fofoca do balacubaco. Estou sobressaltada. Nunca imaginei um escândalo igual. Principalmente envolvendo gente cheia de pose e de falsa moralidade. Ainda não posso contar, mas um dia todo mundo vai saber. E tente sai de mansinho, se é que a curiosidade do grupo permitir.


Uma fofoca que deu grande Ibope foi a da ida dos Amoreiras a um cirurgião plástico,  o famoso Dr.Pitanga. Uma fofoqueira conhecida, que aguardava a vez de ser atendida, ficou intrigada, pensou:

 - O que o casal Amoreira, beirando os noventa anos, quer desse cirurgião. Ficou de ouvidos abertos e ouviu a seguinte entrevista, que depois esparramou para o mundo:


Dr. Pitanga - Bom dia! em que posso servi-los?


Amoreira - a minha mulher fez uma plástica com o Sr. há muitos anos. O rejuvenescimento mudou a vida dela para melhor. Ficou mais sociável e até teve uma forte melhora do libido. Nunca mais teve enxaqueca quando a procuro na cama. A sua cirurgia teve um efeito psicológico incrível. O Sr. sabe que o desempenho sexual depende não só da condição física, mas também da psicológica. A melhora estética ressuscitou a minha mulher. E é por isto que estamos aqui. Desejo fazer uma cirurgia plástica.


Dr. Pitanga - Sr. Amoreira, operei a sua esposa quando a idade dela permitia. Infelizmente, não vou poder operá-lo. Vejo a  idade na sua ficha, 85 anos. Seria muito arriscada uma cirurgia. Eu não o aconselho. Ademais, como está a sua glicemia? a pressão arterial? a próstata? o desempenho sexual? Estes fatores são importantes para a avaliação da capacidade do paciente submeter-se ao trauma de uma grande intervenção cirúrgica.


Amoreira - A minha saúde é perfeita. Não levanto à noite para urinar; a pressão é boa; não tenho diabetes; e sou ativo sexualmente. Compareço todos os dias. Ainda que sejam tentativas todas fracassadas, mas procuro manter a chama acesa. Acredito que a natureza só tem interesse em nós  enquanto damos sinais positivos para a preservação da espécie, por isto não desisto. E é por isto que estamos aqui. Não estou querendo tirar as rugas do rosto. Não. A minha mulher convenceu-me de que deveria fazer uma plástica no penis.


Dr. Pitanga - alongamento? Não !!! Esta não é a minha especialidade. Posso até indicar quem faça.


Amoreira - Não é isto, não. Eu quero um embelezamento: tirar rugas, dobras e pelancas. Espero com isto ter o mesmo efeito psicológico que teve a minha mulher. Se isto não acontecer, se o penis continuar não tendo outra função que seja a decorativa, que pelo  menos tenha uma bonita aparência, que seja uma obra prima. 


Na sala de espera do Dr. Pitanga, entre as fotos dos rostos das personalidades que operou, está em destaque o membro viril, operado, do Amoreira, com a dedicatória do feliz casal.



São Paulo, 04 de novembro de 2021

Jorge Wilson Simeira Jacob

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

 Brincando Com Fogo.


Como crianças descuidadas,  estamos brincando com fogo sem atentar para os possíveis riscos. A falta de consciência do perigo pode resultar em queimadoras graves. Assim também como brincar com o tamanho do governo pode causar estragos indesejáveis. Há no consciente coletivo a medida dos perigos de uma queimadura, mas não as há com respeito ao tamanho do governo. Não há consciência de que os males indesejáveis, desigualdade, miséria, estagnação da economia, têm como uma das causas o custo da máquina governamental e a burocracia decorrente. O  carrapato ficou maior do que a vaca e o fazendeiro não se deu conta. Nem a falta do leite nem a perda de peso do animal o sensibilizou. Como não  se sensibilizaram os cidadãos  com a inviabilização da economia. Não faltam os que, diante das perspectivas negativas, advoguem aumentos dos gastos governamentais em atividades não produtivas. O que temos de sobra são opiniões de que diante de uma população carente, deveríamos acelerar o nosso passo em direção a mais  socialismo. O imediatismo e a irracionalidade tomaram conta. As emoções estão sobrepostas à razão. Acreditam que a solução está na dose do socialismo praticado e não na  concepção em si. Mais ou menos como acreditar que é o  aumento de velocidade que vai salvar um avião em queda e não a mudança da sua direção.


Vamos aos fatos. Em 2021, segundo o Portal Da Transparência * ,  o orçamento da União foi de 4,325 trilhões de reais para um PIB de 7,4 trilhões - ou seja 58,5% por cento é o tamanho do carrapato. Como a arrecadação está acima do limite do suportável, o déficit está sendo bancado pelo aumento e pela desvalorização inflacionária da dívida pública. Só em 2021, a dívida do Tesouro  deverá crescer 800 bilhões,  16% sobre a de 2020, no valor estimado de  5,8 trilhões. O  PIB de 7,4 Trilhões já não consegue pagar nem os juros de uma  divida de quase o mesmo tamanho, e ainda  ameaça não poder nem pagar o principal, se permanecer a atual tendência de alta. A Selic, estima o mercado, deverá chegar aos dois dígitos em 2022, o que aumentará o custo de carregamento da dívida. Haja inflação para corroer o endividamento ou mais recessão para conter a inflação. Poderemos caminhar para o círculo vicioso do  cão a tentar morder o rabo. Sem se mencionar o risco maior da perda  do controle monetário ( dominância fiscal ), que se seguiria à piora dos ratings do risco Brasil.


O quadro torna-se preocupante, sob o aspecto principalmente social, com a atual perspectiva de  uma recessão, crescimento igual ou inferior ao crescimento demográfico,  e nenhum ação para redução dos gastos ( malversação do dinheiro público ), que continuam crescendo. Mas mais grave do que os números é a complacência  de uma sociedade hedonista, onde o  importante é estar bem, se possível levando vantagem, acreditando no milagre de que a solução dos problemas sociais, se transferida ao governo, não tem custo e nem limite. Responsabilidade individual é  para os anglo-saxônios que não a trocam  por uma aventura de irresponsabilidade social. Brincar com fogo é lúdico, mas suportar as queimaduras é sofrimento. 


Enquanto perdurar essa cultura, o espelho do Brasil é a Argentina, que está em decadência há setenta anos sem aprender nada. O populismo-socializante está aqui 

 há bem menos tempo, portanto há espaço para piorarmos  ainda mais… ou até que a vaca morra de inanição. Índia, África e parte da Ásia, a maioria dos países do mundo, têm estado, há milênios, economicamente inviáveis, os que estão viáveis são uma exceção São aqueles  em que o governo é o mínimo. Eles não brincam com fogo!


São Paulo, 03 de novembro de 2021.

Jorge Wilson Simeira Jacob


* https://www.portaltransparencia.gov.br/orcamento

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

 




Um Sonho Impossível.



Sonhar o sonho impossível

Combater o inimigo imbatível

Suportar uma dor insuportável

Ir aonde os corajosos não se atrevem ir


Corrigir o erro incorrigível

Ser muito melhor do que se é

Tentar com os braços exaustos

Alcançar a estrela inalcançável


Esta é minha busca, seguir aquela estrela

Não importa quão sem esperança

Não importa quão distante

Lutar pelo que é certo

Sem questionar ou repousar

………………………………..

O mundo será melhor por isto!

Elvis Presley



Não consigo ouvir esta canção sublime sem pensar nos grandes desafios das nossas vidas. Inspiro-me nela para os casos pessoais, profissionais e especialmente no do meu país. Afastando-me do pessoal, ela coloca- me diante do desafio da maioria dos  inconformados com a miséria de muitos de nossos concidadãos-irmãos. Inconformismo legítimo tendo em conta termos sido abençoados com as  melhores condições de território, clima, povo…para o desenvolvimento econômico. Só temos, como paralelo para comparação, o país mais poderoso do mundo - os Estados Unidos da América. Então o que tem feito o nosso  desejo legítimo de sermos uma nação próspera parecer um sonho impossível?


A nossa economia não cresce há duas décadas. A renda per capita é inferior à da decadente  Argentina. Os nossos assalariados disputam remunerações miseráveis. Temos a pior das desigualdades: salários, vantagens e regalias à nomenclatura e miséria à camada menos favorecida. O mérito, que deveria ser o critério de premiação, está desvirtuado. Não se premia  o  espírito empreendedor, talento inventivo, esforço físico, mas os  “amigos do rei”. Em consequência, nestas décadas, o que prosperou foi o tamanho do governo. Desde a proclamação da República ( 1889 )  o custo do governo subiu de 7% do PIB para estimados 50% ( incluindo déficit público e inflação) * . Destes  97% são desperdiçados com o custeio da máquina e uma migalha com gastos sociais. O resultado, sem ter investimentos,  é a atual estagnação da economia. A qualidade de vida da maioria não melhorou e a infraestrutura deixa a desejar.


Porém, a coisa poderia ser menos ruim. Um governo sem recursos para investir poderia ter como compensação investimentos da iniciativa privada, que tem sido a salvação da “ lavoura “ , mas esta está castrada pela burocracia, insegurança jurídica e instabilidade política. Chegamos, assim, a inviabilizar a economia mais propícia de ser viabilizada - a do Brasil. A tal ponto chegamos que os brasileiros atravessam o deserto do México para ser trabalhadores clandestinos nos Estados Unidos e outros  têm depositados US $400 bilhões  no exterior, que poderiam estar investidos aqui para dar emprego àqueles que emigram.


O Brasil se tornou, politicamente falando, um travesti. Nem é uma administração centralizada e nem é o  modelo de  federação, que copiamos dos americanos. Em uma federação  os estados têm autonomia e o governo central cuida das funções básicas, respeitando a independência dos estados. Mas, no nosso caso, fazemos um jogo duplo: a União duplica todas as funções existentes nos estados. Não só duplicam-se os custos como multiplica-se a burocracia estatizante. O ideal do modelo federativo, o princípio da subsidiariedade,  é a descentralização tendo em conta  o respeito às características regionais. Nem sempre o que é bom para um estado é bom para os  demais. O poder de decidir é mais eficaz quanto mais perto está do fato. E os fatos acontecem nos municípios, estados e só depois na União. Este modelo surgiu nos Estados Unidos , como diz  o próprio nome, por terem se formado da união de estados independentes , 13 no início, mas foi deformado aqui por termos  surgido de uma monarquia sobre um território único. No modelo travesti  o país do futuro está inviável!



Um sonho impossível seria voltarmos à ideia original republicana de  sermos realmente uma Federação. Neste sonho,  Brasília teria no máximo 6 ministérios, Defesa, Economia, Relações Exteriores,  Higiene e Saúde, Meio Ambiente e Casa Civiil, que coordenariam as ações de carácter nacional, mas respeitando a independência dos secretários estaduais de cada função. Brasília , em vez de 3,1 milhões de habitantes, teria a população de Washington  ( capital do mundo ) de 690 mil. Com a redução do patrimonialismo, da burocracia e da corrupção o governo seria o mínimo desejável. A arrecadação federal poderia ser reduzida tornando a economia competitiva - o que hoje não o é em termos internacionais. Esta deve ser  a  nossa busca : “ sonhar o sonho impossível… seguir aquela  estrela, não importa quão sem esperança, não importa quão distante, mas lutar pelo que é certo… O mundo será melhor por isto! “


São Paulo, 29 de outubro de 2021.

Jorge Wilson Simeira Jacob


* “Há um século, a renda per capita argentina era superior a quase todos os países europeus. Mas os gastos públicos, que nos anos 40 correspondiam a 10% do PIB, chegaram a 30% nos anos 70 e em 2015 atingiram 46%”

 . 

O Brasil copia o modelo que inviabilizou a Argentina.

Fonte: O Estado de São Paulo, A14, 17 de novembro de 2021.


quinta-feira, 21 de outubro de 2021

 A Cognição.


A cognição é a capacidade do cérebro perceber, raciocinar e armazenar as informações captadas pelos sentidos.

Dicionário Oxford Languages


Um dos maiores desafios da humanidade é a transmissão do conhecimento. A cognição é um processo lento, sujeito a interpretações e a enorme resistência. Uma parte da humanidade, uma elite, tem a compreensão dos fatos significativos da vida, outra,  os medianos, tem o entendimento, e uma grande massa vive alienada. A elite tem a clareza das causas mais profundas. Ela vai à raiz dos fatos, domina  os conceitos. Os outros entendem as causas primeiras, superficiais, mas não apreendem os conceitos básicos. Já a grande massa  é motivada pelas emoções, sobrevivendo na ignorância.

Desconhecem as razões por não terem sido educadas, mas  condicionadas. Agem intuitivamente por mimetismo ou reflexo. Estas são constatações e não discriminação, pois limitam-se a identificar as diversas reações frente às provocações cognitivas.


Por necessidade de  obter resultados, os responsáveis pelo ensino, pais, mestres, líderes, simplificam a transmissão do conhecimento. Não se ensina a pensar, a refletir e a  questionar. Em casa e nas escolas  ensina-se a obediência, a disciplina e a memorização. Em vez de estimular a compreensão,  limitam-se a fazer entender ou apelam para os sentimentos. É mais fácil fazer sentir o calor de uma chama do que que explicar os efeitos do calor. Demanda esforço, tempo e talento desenvolver o gosto pelo domínio dos conceitos para compreender o entendido. Frente a uma frase em grego, um néscio nada sente, os medianos entendem, mas é  a elite, que  ao dominar o idioma, apreende a mensagem e os seus desdobramentos.


Como desde o nascimento estamos todos em processo de aprendizado, somente avançam intelectualmente, sobressaindo da grande massa, os atentos às causas dos efeitos.  Newton, dizem, não se limitou a ver a maçã cair, viu a causa da queda e deduziu a lei da gravidade.  A ele e a muitos outros, a humanidade deve a sua  sobrevivência na face da terra, por não terem se  limitado a sentir a maçã na cabeça, a entender o fato, mas ao ter dominado a causa da queda.


A natureza foi pródiga com os humanos ao nos dotar, além da razão e do sistema nervoso, de cinco sentidos ( seis se considerarmos a intuição).  Se não tivéssemos estes recursos,  não teríamos sobrevivido como espécie. De todos os instrumentos de transmissão do conhecimento, sao as sensações os mais eficazes, principalmente as que nos causam gosto, desgosto, prazer, tristeza, euforia ou dor. As massas entendem mais por estas  emoções do que pela razão. Ainda que as emoções não levem à compreensão. Uma foto diz mais que mil palavras; um exemplo influencia do mais do que uma aula; e uma derrota ensina mais do que um treinamento. Está assim exemplificado um processo cognitivo.



Se a natureza nos propiciou elementos para a nossa sobrevivência, coube às sociedades criar   instrumentos para transmissão das nossas descobertas.  O uso da razão, incentivando a observação, análise e conclusão, é um recurso limitado a uma elite intelectual. A necessidade de motivar  as camadas não pensantes nos levaram a desenvolver uma arte de comunicação. Surge assim o teatro , a literatura, a pintura, o discurso político… A arte complementou a razão. Todos nós somos influenciados por algum tipo de arte. É maior a  probabilidade de uma ideia ser transmitida por um artista , um líder carismático, do que por um gênio intelectual. Este, ao tentar transmitir um conceito básico, uma teoria, não atinge o emocional … e se o homem comum não se emociona,  ele não se motiva. As grandes ideias necessitam de ser   traduzidas em forma que sensibilizem as massas - só assim caminha a humanidade. E é aproveitando disto que vivem  os demagogos e os demais artistas!


São Paulo, 20 de outubro de 2021.

Jorge Wilson Simeira Jacob




sexta-feira, 15 de outubro de 2021

 O Concorde


O consórcio Airbus lançou com grande alarido o Concorde. O primeiro avião  supersônico a voar.   O entusiasmo com as promessas de fazer o breakfast em Londres e almoçar em Nova York eram manchetes nos jornais. Finalmente superar a velocidade do som tornou-se viável. A realidade, porém, mostrou-se perversa. Ainda que viável tecnicamente, a inovação mostrou-se inviável comercialmente. O consumo  exigia estoque tal de combustível, que limitava a carga ( passageiros e bagagem ) e o tempo de voo. Mal dava para movimentar a carcaça . Uma década decorrida e o sonho do mais veloz que o som aterrizou para não mais voar.  


Restou dessa aventura a informação de ser possível voar-se superando a barreira do som, mas também que, ainda que tecnicamente viável, é inviável algo em que a produtividade está perto de negativa. O supersônico, como operação comercial, mostrou-se  inviável. A sua ressureição, se um dia acontecer,  dependerá da melhoria da equação: menor consumo por quilômetro/carga voada. É um desafio à produtividade.


O Brasil viveu um sonho semelhante, ser um êmulo da riqueza e poderio da América do Norte. Um sonho que fazia manchetes nos jornais. Tecnicamente, pensando em termos de território, população, clima…, tudo corroborava com esse sonho. Pudemos sonhar crescer em velocidade supersônica. O que aconteceu até duas décadas atrás. Mas, a nossa estrutura administrativa tornou-se altamente improdutiva. O potencial de riqueza  brasileiro, ainda que favorecido por Deus,  foi estragado pelo homem. Como o Concorde, no Brasil o   consumo de combustível é gasto só para impulsionar a máquina e assim mesmo para voos de galinha. Não sobra espaço para carga, passageiros e nem autonomia econômica de voo. O resultado é, economicamente e politicamente falando, ter se tornado uma operação inviável.


A sabedoria popular sabe que o primeiro passo para a solução de um problema é reconhecer a sua existência. Não serão os visionários/otimistas que apostam em suposta proteção divina e nem os que se satisfazem com pequenas conquistas, ainda que significativas,  que farão o Brasil realizar o seu potencial. Foram eles, que ignorando a produtividade, fizeram voar o Concorde e provocaram um rombo gigantesco nas contas da Airbus. São eles que nos farão perder tempo, satisfazendo-se com eventos que, ainda que positivos, não resolvem um problema estrutural. Uma maquiagem encobre as rugas, mas não as elimina. Ou o Brasil melhora a produtividade da sua administração ou terá o destino do Concorde.


Infelizmente, nem todos os problemas têm solução, e este será um deles,  se não se descobrir como desmontar uma máquina que consome todo o combustível consigo mesma. Onde quer que se olhe, a improdutividade é uma marca nacional, nos três poderes. Por isto, o Brasil está inviável…mesmo sendo muito viável.




São Paulo, 15 de outubro de 2021.


Jorge Wilson Simeira Jacob

domingo, 3 de outubro de 2021

 Educação e cultura.



Sem a mínima possibilidade de serem contestados, os defensores dos investimentos em educação podem defendê-la como um elemento importante para o desenvolvimento pessoal e nacional. Uma nação ou indivíduo sem boa educação  levará desvantagem diante de outros com melhor nível. Tanto a educação formal, acadêmica,  como a social adquirida na vivência, têm valores incontestáveis. O melhor investimento de um país ou de uma família é o destinado à educarão. Não só em termos de retorno, mas principalmente por ser o único patrimônio que, nos possíveis azares da vida, não se perde. Ninguém tira o que se sabe ! Nada é mais eloquente para mostrar a consciência do valor da educação no desenvolvimento do que o sacrifício pessoal de uma  multidão de estudantes, que trabalham de dia e estudam de noite. Este é um heroísmo que só se justifica pela importante contribuição dela para  forjar o futuro.


Entretanto, a educação por si só não é garantia de resultados. Basta olhar ao redor e ver exemplos de homens, em todas as profissões, com elevado nível educacional e  rica vivência, que não exibem sucesso econômico; e países, como o Brasil, que investiram em educação, mas  perderam a pujança. Nas últimas décadas, o país  passou a fazer companhia à Argentina, que é mais educada hoje, mas menos próspera do que antigamente. Ambos os países copiaram modelos educacionais  incompletos para satisfazer o   esnobismo  dos novos ricos, dos imigrantes pobres, de dar um  título de doutor para os filhos, em busca da ascensão social. Ao contrário da Alemanha, que a par dos cursos de excelência para uma elite, generalizou  cursos profissionalizantes para uma mão de obra com vocação ao trabalho. Esta deu ensejo a uma próspera  economia de pequenas empresas, melhorando a distribuição de renda e sendo o sustentáculo do poderio desenvolvimentista alemão. Na Alemanha, a erudição caminhou, passo a passo, com o  conhecimento prático. Nela, os seus usos e costumes privilegiam uma cultura que gera o progresso. No Brasil o ensino profissionalizante não está generalizado, limita-se ao Sesc,  Senai e ao treinamento nas empresas. 


Se a educação é importante para o desenvolvimento, a cultura é fundamental. Cultura no sentido de usos e costumes, de valores éticos e morais. Sem uma ordem de valores que privilegie o trabalho, a poupança e o investimento; sem  uma ética de respeito ao mérito; e sem o respeito à moralidade, nem o indivíduo e nem a  nação prosperam. A confiança nas leis e na ordem é elemento fundamental para o desenvolvimento de um país.


O Brasil era predominantemente uma economia agrícola até o fim da Segunda Guerra

 Mundial.  O café representava setenta por cento das nossas exportações . As nossas importações iam desde de trigo, arroz,  frutas argentinas a produtos básicos industrializados. A nossa agricultura e indústria era minimamente diversificadas. Durante a guerra havia racionamento de sal, açúcar, trigo… Após, o  governo Dutra deu uma abertura na economia, a que se seguiu um “porre” de importações, devido a um câmbio artificialmente baixo, mas deu início à industrialização. Com esta,  as cidades cresceram explosivamente, esvaziando os campos. O crescimento demográfico e a explosão da migração do campo para as cidade constituem-se em caso único no mundo. O Brasil fez a proeza de acolher nas zonas urbanas 158 milhões de habitantes* em poucos anos. Um fenômeno migratório inédito no mundo, cujo ônus foram as favelas e a  deterioração dos serviços públicos. Esta transição ocorreu sob a cultura de uma ética capitalista, onde imperou a meritocracia. O Brasil  prosperou!  Depois, na sequência, transitando para a ética do populismo-estatizante de inspiração  peronista, do reino da mediocracia, do assistencialismo social, o Brasil estagnou. Com o governo inchado, esterilizando algo como metade do PIB, agravou-se a qualidade de vida. Não foi, porém, um brasileiro menos educado o responsável pela perda do dinamismo da nossa economia, mas a cultura socialista. O Brasil melhorou com o cultivo da  meritocracia e está decadente com a cultura da mediocracia**. 



  • Segundo o Censo, em 1940 a população brasileira era de 40 milhões, sendo 31% nas cidades. Em 2020, estima-se um total de 212 milhões, sendo 41 milhões no campo e 170 milhões nas cidades. Entre 1940 e 2020 as cidades absorveram aproximadamente 158 milhões de habitantes. População maior do que a Rússia e o México em 2020.


    Ano                   população           urbana                           rural.                ( todos números arredondados )

    1940.                40 milhões.         12 milhões  ( 31% )        28 milhões 

    2020                213 milhões.       170 milhões ( 80%)         40 milhões 

    Acréscimos.    173 milhões.       158 milhões.                    12 milhoes


Fontes: Embrapa,  IBGE e Intercultural. O 


** Mediocracia , de medíocres. Governo dos medíocres. 


São Paulo, 02 de outubro de 2021. Milhões 

Jorge Wilson Simeira Jacob