sexta-feira, 16 de setembro de 2022

 




ELEIÇÕES E REJEIÇÕES.


Se não me falha a memória, Norberto Bobbio ( 1909 - 2004 )*, definiu  a “democracia  como um regime para nos livrar dos piores, não para escolher os melhores”. Não há como negar a força desta ideia na defesa da Democracia. Ela  nos permite de forma pacífica livrar-nos dos indesejáveis. O que sempre pode acontecer. O que nos regimes autoritários é feito pela força.  Muitas vezes com derramamento de sangue inocente. Na democracia a alternância no poder é feito pelo voto. 


Na prática, porém, as eleições em um único turno deixaram  um gosto amargo na boca dos eleitores. Raramente podia-se votar no candidato da sua preferência.  Subsistia uma insatisfação no eleitorado ao não  escolher o candidato identificado com as suas ideias e ideais. Tanto que é lugar comum e de frequência recorrente, nas rodas de amigos, a concordância de que nunca votamos a favor, mas sempre contra  alguém . Na verdade, não usamos o  voto para eleger, mas para rejeitar um candidato. 


Esta tinha  sido a tônica das eleições até o advento dela em duas votações. Com esta temos à escolha as duas oportunidades: a de eleger e a de rejeitar . Na primeira votação , pelo menos em teoria,   vota-se  para eleger o candidato que melhor retrata as nossas  aspirações - é um voto ideológico. É eleição  no sentido positivo, pois é a escolha daquele que representa a nossa vontade. Um adepto  da liberdade individual pode votar na primeira votação no candidato que valoriza o individualismo. Um adepto do  socialista pode escolher aquele  que valoriza o coletivismo. Na  segunda votação , o voto é pragmático. É um voto negativo dado a um candidato que não  representa a vontade do votante.


Os dois turnos eleitorais dão oportunidade de atender às duas aspirações: o voto ideológico e o pragmático ou útil. Infelizmente estas condições não estão claras nas mentes dos eleitores. Os analistas políticos não se detém a analisar e orientar o eleitor. Os candidatos que lideram as pesquisas não têm interesse em esclarecer essa situação. A eles não convém o voto ideológico. Pois, em busca destes eleitores, os candidatos têm que ajustar os seus compromissos para cooptar os seus votos no segundo turno. Não por menos  preferem o voto útil.


Os políticos quando muito declaram que a segunda votação é uma “ outra eleição “. Mas não explicam as diferenças. Não enfatizam ser a primeira escolha ideológica . Nem alertam  o eleitor de não ser “perdido” o voto em candidato sem chance eleitoral. Nenhum voto é perdido, pois o mesmo que elege pode rejeitar.


O eleitor deve estar consciente das diferentes situações. Votar no primeiro turno em candidato que não comunga com as suas ideias é dar a ele uma legitimidade que não conquistou nas urnas. Quando  um candidato no primeiro turno obteve 40% dos votos, estes são  a medida da sua eleição , que seria distorcida se acrescida de votos úteis. O candidato não tem o direito de se arvorar como tendo sido escolhido pelo número de votos da segunda votação.  Ele, o vencedor, não representa a vontade de todos os votos que recebeu no segundo turno. Só os colhidos no primeiro turno.



Ao enfrenarmos as próximas eleições devemos ter presente o modelo teórico para votar adequadamente. Se o candidato da escolha está sem condições de vitória, nem por isto  deve deixar de receber o voto dos que comungam com as suas ideias. Esta prática, se difundida, serviria como correção do fato de sempre votamos no menos ruim. 

 Como as boas ideias e os bons candidatos podem despontar se são capados no nascedouro?  Os que os apoiam devem mostrar a sua força.  Votando ideologicamente estamos construindo o futuro e combatendo os inconvenientes do voto útil.


Coerente com esta  análise, nas primeira rodada, o voto deve ser ideológico, idealista.   Não se deve aceitar  a ideia do voto pragmático  na primeira eleição. O voto útil ( pragmático ) é um recurso oferecido pela segunda votação - é o voto para ficar livre dos piores. Votar para evitar o pior, não é eleger, mas rejeitar.


Na primeira votação vota-se com o coração. Vota-se naquele que as suas razões identifiquem como o ideal. Seja idealista. Na segunda votação, vote com o fígado para eliminar as bílis. Seja pragmático. São situações distintas que exigem  um comportamento adequado e correspondente. Só assim poderemos alterar a triste realidade  para   ter uma  democracia que enseje a escolha dos melhores.






 Nota - 

* Norberto Bobbio foi um filósofo político, historiador do pensamento político, escritor e senador vitalício italiano. Conhecido por sua ampla capacidade de produzir escritos concisos, lógicos e, ainda assim, densos.


São Paulo, 14 de setembro de 2012 


sábado, 10 de setembro de 2022

 



DA SELVA À CIVILIZAÇÃO.


O homem no seu estado natural é identificado como um selvagem. Esta condição caracteriza-se, entre outras,  pela solução dos problemas com o uso da força. Os mais fortes impõem a sua vontade sobre os menos dotados . As relações são constantemente conflituosas. Seguidas de   brigas pessoais,  lutas grupais e até a guerra.


O objetivo da paz entre os homens trouxe a sua civilização. Os humanos evoluíram do regime de uso da força para o do direito. Um Contrato Social foi negociado e poderes foram constituídos para assegurar o Estado de Direito. O uso da força para solução dos conflitos foi outorgado com exclusividade ao governo constituído.


Os governos ganharam legitimidade, na democracia, com o voto universal. Ao votar o cidadão reconhecia no governo o poder de decidir  os direitos individuais e/ou grupais. A paz social é conseguida quando este direito é exercido com a aceitação e obediência dos potenciais conflitantes.


Toda uma estrutura formal desenvolveu-se para implantar e fazer prevalecer o estado de direito. A partir de uma Constituição, uma  divisão de tarefas  incumbe o Congresso de legislar, o judiciário de decidir as contendas e a polícia de garantir o direito, com o uso da força,  se for o caso. 


Se o selvagem tinha na força o seu instrumento de poder, o homem civilizado o tem no direito estabelecido. Com isto houve a transição do selvagem para o homem civilizado. Civilizado, portanto, é o indivíduo ou sociedade que vive debaixo do estado de direito, não de força.


Na prática nem todos somos igualmente civilizados. Há nuances entre os indivíduos e as sociedades. Somos  mais ou menos civilizados… dependendo do desenvolvimento e das conveniências . Nem todos os indivíduos o  são, como nem todas as nações. Há as mais civilizadas como a Escandinávia, os países anglo- saxônicos, os nipônicos … e os menos como países da Africa, do Oriente Médio,  Ásia e mesmo regiões dentro das próprias nações. A grande maioria situa-se  no meio termo. São relativamente civilizados. 


Para ajudar o leitor a aferir o   estágio de civilidade pessoal e do  Brasil desenvolvi um questionário de avaliação.  Se tiver interesse, responda as questões,  abaixo, para ter o nível de   classificação entre uma posição que vai do selvagem ao civilizado. Dê nota  de zero a cinco à frequência do seu comportamento na lista resumida, a seguir. Você ou o seu candidato:


01 - respeita os sinais de trânsito?

02 - joga lixo, bitucas de cigarros, nas ruas?

03 - é pontual nos seus compromissos?

04 - reconhece os seus erros, desculpando-se?

05 - vota e respeita os resultados de todas as eleições?

06 - da preferência de passagem por ordem de chegada?

07 - não procura tirar vantagens dos incautos?

08 - não sonega impostos?

09 - respeita os mais fracos - crianças, velhos e incapacitados?

10 - não se apossa de valores privados ou públicos ?


A soma das notas indicarão de zero a cinquenta o seu nível de selvageria ou civilidade. Se zero, você está vivendo na época da pedra lascada. Se cinquenta, você está no topo do marco civilizatório. Quanto mais perto do zero menos direito você tem de reclamar dos seus direitos. Os civilizados é que podem reclamar de você.


Faça o mesmo exercício para a sociedade e você terá o retrato do nível de civilidade da sua região ou país. Para conferir a veracidade do teste de civilidade, compare os resultados da somatória dos eleitores com os governos eleitos. Eles, se o teste foi fiel, os eleitos devem ter o nível de civilidade da média dos eleitores. 


 Não ter ilusões - o governo nunca será mais civilizado do que os seus eleitores. Nas próximas eleições escolha o candidato  mais civilizado: - se  você pretende viver em uma sociedade civilizada ,em que prevaleça o estado de direito; ou escolha um candidato sem escrúpulos e amoral, se a sua escolha é viver na selvageria, onde prevalece a trapaça, a mentira, o roubo…a lei do mais esperto.


O nosso voto é uma escolha da selva à civilização !


São Paulo, 18 de agosto de 2022.



sexta-feira, 2 de setembro de 2022

 DEUS - UM DELÍRIO.


Deus - Um Delírio.

Richard Dawkins

Cia. Das Letras

510 páginas 



A plena satisfação com  um bom texto acontece e perdura após o término da sua  leitura. É como um bom vinho cujo sabor permanece no paladar por muitas  horas após a degustação . “Retrogosto”  é como os enófilos  denominam essa sensação. Prazer semelhante a que se fixa  na mente após o término de um bom livro como Deus, Um Delírio. 


Uma leitura satisfaz quando a  redação é escorreita, clara, e elegantemente elaborada. Neste quesito Richard Dawkins nada  deixa a desejar. Escreve de modo primoroso. É um bom redator. Entretanto, a leitura completa-se se  o texto, além da forma, é  denso, rico de conceitos e informações . O que é o caso deste livro. A exposição ganharia beleza se fosse rica  em metáforas poéticas, o que não é o caso aqui.


No prefácio, já de saída, o autor mostra que sabe o que quer e como sabe querer. Tem posições  corajosamente assumidas. Sem  tergiversar assume não estar escrevendo para divertir, mas para tomar partido. Ele, ao defender com veemência o ateísmo  e atacar sem cerimônia as religiões, deixa claro estar  fazendo proselitismo. Escreve com o objetivo de converter a humanidade à sua crença. Tem a  convicção de  ser  Deus  um delírio  e explica por que. É tão  veemente em seus argumentos que sem falsa modéstia profetiza : - “ Se este livro funcionar do modo como espero, os leitores religiosos que o abrirem serão ateus quando terminarem”. 


Dawkins não é um neófito. Formado pela Universidade de Oxford, Inglaterra, professor  na Universidade da Califórnia em Berkeley, onde é titular da cátedra de Compreensão Pública da Ciência, palestrante requisitado e autor de diversos livros, entre eles:    Deus - Um Delírio,  é um best-seller  na Europa e Estados Unidos. 


Com esse Curriculum seria impertinente imaginar ser ele um ingênuo. Um ignorante das barreiras a vencer para a conversão de um religioso ao seu ateísmo. Mas não se intimida. Pretende: -  “levar os religiosos a pensar racionalmente a sua crença, trocando-a do orgulho ateu pelo amor à ciência” . Como também  ousa quando coloca como foco o combate à doutrinação infantil. Rebela-se ele: - “ Nunca me canso de chamar a atenção para a aceitação tácita , por parte da sociedade, da rotulação de crianças pequenas com as opiniões religiosas dos pais. Elas são pequenas demais para ter opinião. Não existe criança cristã: só filhos de pais cristãos”. Para ele o simples fato de dizermos “criança católica” ou “criança judia” é uma forma de abuso infantil comparado até ao abuso sexual…


A doutrinação desde a infância, assumida no texto, cria adultos reféns de tabus. Um deles, segundo o autor: - “ É a crença de que a fé é especialmente vulnerável às ofensas e que deve ser protegida por uma parede de respeito diferente daquele que os seres humanos devem ter uns com os outros”. Vai além. Se os ateístas saíssem do” armário “, superando o existente preconceito, a   sociedade ficaria surpresa com a quantidade e principalmente pela qualificação dos seus adeptos. Livrar-se dos tabus inculcados na infância exige uma mente esclarecida e uma postura corajosa.


A posição do autor é radical. Não transige com a dúvida dos agnósticos. Considera covardia não assumirem a inexistência de um Deus. Ainda que os considere identificados com os ateístas no objetivo  de  livrar a humanidade dos males causados pelas religiões e pela crítica severa aos crimes históricos do catolicismo.



Não considera  Dawkins ser a posição dos agnósticos, com respeito a Deus,  como uma postura de modéstia. Ao não poder provar a  inexistência de Deus,  eles preferem a dúvida ativa, um respeito aos que baseados na fé asseguram a Sua existência. Como proselitista ele não se permite deixar espaço para a dúvida. 


Desnecessário dizer a opção do autor  à teoria “evolucionista”  para   explicação da origem do mundo. O que faz todo o sentido. Se partimos do pressuposto de que, se existe algo, alguém criou. Se um Deus… quem criou este Deus?  e os outros deuses que se seguirão em uma regressão  infinita? 

 



Esta e outras justificativas à existência de Deus são cuidadosamente criticadas no texto ( convincentemente ), como  a  necessidade de explicar a nossa existência e  a de uma força superior para conter os vícios humanos. Ao que se contrapõe a história que mostra serem as maiores atrocidades da humanidade cometidas justamente pelas religiões em nome de Deus.


A desconsideração do Velho e do Novo testamento, se aceita com base nas análises de Dawkins, assim como a realidade dos  personagens Moisés, Jesus Cristo, e as fábulas dos milagres, abala os alicerces das religiões judaicas-cristãs. Um livro escrito por mais de um milhar de autores e ao longo de milênios não tem credibilidade. A Bíblia não é a palavra de Deus. Moisés não é o “profeta” e nem Jesus o “redentor”. Os milagres nada mais foram do que embustes a enganar ingênuos. Se Deus é onisciente, onipotente, não necessita de milagres e intermediários para salvar a sua criação. Estaria Deus, segundo Einstein “ jogando dados”? 


Quem não deve ler este livro?


Este não é um texto para os fanáticos  que se recusam a rever as suas verdades. Nem para os ignorantes que enfiam a cabeça na areia para “livrar-se”  das ameaças. Menos ainda para os que estão confortáveis com a ditadura  dos tabus, que lhe insuflaram na infância. 


Este é um livro para quem gosta de questionar com base na ciência e não na fé as suas verdades! Assim  fiz. Tirando desta leitura um  grande proveito.  Terminei de ler como um enófilo com o retrogosto intelectual.Degustei com prazer está leitura, que devo à feliz recomendação do Euler de França  Belém.


São Paulo, 01 de setembro de 2.022.

Jorge Wilson Simeira Jacob

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

 O VERME QUE SE ACREDITOU DIVINO.



A Terra  segue o seu curso de maneira metódica e previsível, indiferente aos nossos sentimentos. Ao dia segue-se a noite, a cada estação uma outra, os rios correm para o mar… Os humanos também têm a sua rotina, indiferente aos nossos desejos. À juventude segue-se a velhice, as alegrias alternam-se com as tristezas, as conquistas com as perdas… Assim, inexoravelmente caminha o nosso mundo.


Fisicamente evoluímos  da infância até a fase adulta e involuímos na velhice. Crescemos, amadurecemos e encolhemos. Mudamos a postura, a fisionomia e, para pior,  o vigor. Iniciamos  e terminamos a vida sendo carregados, se chegamos a uma idade avançada. Toda a pompa e grandeza não resistem ao tempo. Assim, inexoravelmente terminamos em cinzas.



Mentalmente também seguimos um curso. Temos etapas mentais a viver.  Também são  fases de evolução e involução. Ao menos duas delas são marcantes: a da onipotência e a da impotência. Na primeira delas, na ascensão , acreditamos tudo poder. O mundo, tudo e todos, está ao alcance do nosso querer. Não vemos limites à nossa ambição. Somos glutões, queremos provar de tudo; possessivos, ter tudo; dominadores, subjugar todos. As conquistas amorosas, queremos todas as desejáveis ; a vida social, todas as disponíveis; o trabalho, sem limites; as diversões todas as possíveis. Assim, inexoravelmente, como um semideus, vamos nos sentindo  onipotentes. 


A realidade, no entanto, nos impõe limites. O vigor da juventude não se sustenta com a idade; o tempo é insuficiente para se fazer de tudo; o emocional trava as nossas ações e os  êxitos têm sombras dos fracassos, que são limites às nossas ambições. Assim, inexoravelmente o semideus toma  consciência da sua impotência.  


 Ao  ímpeto e volúpia com que enfrentávamos as oportunidades da vida, a disposição de desafiar o que desse e viesse, a ânsia de explorar  todas as oportunidades, cedem vez à cautela, à prudência e ao respeito à sorte. As doenças e a queda da vitalidade tornam a ameaça da morte um fato presente. Assim, inexoravelmente as frustrações tornam-se nossas companheiras. 




Nada como uma longa vivência, se tivermos sensibilidade de apreender da experiência,  para estabelecer uma ordem de valores racional . Só o confronto com a realidade para quebrar a presunção. O corpo exaurido, o tempo escasso, as ilusões perdidas e os sonhos desfeitos nos dão a modéstia da nossa potência .De tanto repetir as emoções vêm a insensibilidade - tanto para o sucesso como para com o fracasso. As novidades exploradas são águas passadas. Não movem moinhos de ilusões. São sonhos que se mostraram passageiros. Nada mais do que  simples devaneios, que vão paulatinamente morrendo. Assim, inexoravelmente vamos compreendendo que somos meros frutos do acaso.


Ao contrário dos semideuses, os humanos descobrem que as conquistas realizadas, os fracassos enfrentados, não valem nada perto de um único amor, o da família e de uns poucos amigos. Tudo isto aprende-se melhor:  - se se tiver  subido ao pódio dos vencedores e dele caído; -  e, se  houver maturidade  adquirida para encarar com sabedoria os êxitos e as adversidades. Esta  vivência frutifica em humildade, ao descobrir que na vida tudo tem limites. Assim, inexoravelmente vamos nos tornando mais humanos!


Nesse teatro da vida, depois do ato final enfrentamos a realidade. Quando  as cortinas do palco caem; quando  os atores ficam a sós, é o momento de reflexão. É o momento da dúvida: - que papel representei ? Valeu a pena? Por que continuar se os apupos e os  aplausos terminaram? Por que não encerrar a carreira nesse momento? Assim, inexoravelmente chega a hora da verdade!


Não seria esta a hora do onisciente, do semideus, acertar   as contas com a  sua impotência de ser humano ? Não seria a hora de despojar-se de tudo que acumulou e que agora repudia? Não seria o momento de abandonar o palco cedendo a posição conquistada? Se  assim for,  inexoravelmente seria um fim melancólico de um verme que  se acreditou  divino.


São Paulo, 16 de agosto de 2022.




sexta-feira, 19 de agosto de 2022

 





INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL.



Título: Inteligência Artificial 

Editora Globo S/A

292 páginas - português 

Mercado Livre R$ 37,90

Estante Virtual R$ 15,00 ( usado )


Ninguém embarca em um meio de transporte, qualquer que seja o veículo,  sem informar-se do seu destino. No entanto, a humanidade   está  embarcada na própria vida sem esforçar-se por saber para  onde está  indo. Em momento delicado como esse, quando  estamos  vivenciando uma revolução tecnológica com as suas consequências, poucos estão atentos. Só uma elite de bem  informados dedica-se a tentar entender, dentro do possível, o que o futuro nos reserva. 


A Inteligência Artificial ( AI ) será um marco na história da humanidade. Uma revolução da importância da Revolução Industrial, que mudou o mundo. Depois dela tudo estará mudado. Um pouco do que espera as  próximas gerações pode ser apreendido no livro Inteligência Artificial .  Kai-Fu Lee, o autor, com a autoridade de criador da AI  , um dos principais executivos de inovação de empresas como Apple, Google e Microsoft, em narrativa agradável, historia  a evolução tecnológica, fazendo  futurologia bem fundamentada.


As AI são máquinas pensantes com a capacidade de realizar qualquer tarefa  intelectual que um ser humano pode fazer. Terá efeitos profundos na empregabilidade. Muitas funções serão substituídas por robôs e outras tantas simplesmente deixarão de existir.  Estima o autor que de 40 a 50% das tarefas hoje existentes poderão ser substituídas com vantagem por robôs. Não só as atividades corriqueiras, mas também as mais sofisticadas como,  por exemplo, os médicos. Com a AI os  pacientes serão atendidos por robôs, que tem uma capacidade de processar dados, quase infinita, cujos resultados serão diagnósticos e prescrições mais precisos. O acompanhamento será feito    por “ cuidadores compassivos”, que darão o toque  humano hoje tão carente em nossos hospitais. Ganharão os pacientes, perderão os médicos!




Os Estados Unidos lideram a corrida para o domínio dessa inovação, mas  em breve  a China os  igualará   no desenvolvimento e implantação da inteligência artificial . O avanço chinês traduz-se em dados surpreendentes. Diz a  Pricewaterhouse,  a AI acrescentará  15,7 trilhões  de dólares  ao PIB  global até 2030: dos quais a China ficará com 7 trilhões e os Estados Unidos com 3,7 trilhões. Dizem ironicamente os  empresários chineses, quando   questionados sobre  o atrazo da China em relação ao Vale do Silício, de ser de dezesseis  horas, que é a diferença do fuso horário entre a Califórnia e  Pequim.



A China está surpreendo até os bens informados. Para quem pensa na China como um lugar horrível de trabalhadores mal pagos irá se frustar. Essas fábricas existem, mas o ecossistema manufatureiro chinês passou por uma grande  atualização  tecnológica. Hoje a vantagem de fabricar na China não é mais a mão de obra barata… mas a flexibilidade incomparável das redes de suprimentos e os exércitos de engenheiros industriais  qualificados que podem criar protótipos de novos dispositivos e construí-los em grande escala.




As consequências dessa nova realidade, com a aplicação da AI as desigualdades entre as nações desenvolvidas e as outras serão ampliadas. As atividades de baixo valor agregado serão feitas por robôs com custo competitivo em relação à mão de obra sem qualificação. Muitos produtos fabricados em regiões de baixo custo da mão de obra poderão tornar econômico voltar a produzi-los nos  Estados Unidos e Europa. A verdade é que os  robôs trabalham o mesmo número de horas e com a mesma perfeição dos chineses, sem terem os ônus dos custos sociais e trabalhistas.


A quem é recomendável ler Inteligência Artificial?


Em se tratando de futuro, devem ler principalmente os estudantes, que estão por eleger uma profissão. Eles deveriam atualizar-se sobre a evolução da AI. Devem atentar não  só às oportunidades que virão como também às suas ameaças, pois os  empregos nesta área estão sendo disputados por jovens ávidos por  vencer. Conta o autor que, uma noite, após uma palestra em um campo universitário chinês sobre AI , foi surpreendido ao ver os  estudantes lendo  sob a luz dos postes. Como a luzes  dos dormitórios eram desligadas às  23 horas, eles usavam a iluminação pública para aprofundar o conhecimento sobre o tema.


Mas não só os que devem eleger uma profissão devem interessar-se pela AI. As consequências serão profundas e poderão ter sérios desdobramentos políticos, econômicos e sociais. O texto dá algumas sugestões, algumas indesejáveis , para responder a questões como: - O que fazer com a grande massa de desempregados? - Como manter a paz social em uma economia que aumenta as desigualdades entre as pessoas e os países? - Como evitar a desumanização do homem?


Uma questão que ficou sem resposta foi a levantada por Elon Musk, físico e fundador da Tesla, de “ ser temeroso do desenvolvimento da AI por ser o maior risco que enfrentamos como civilização. Seria, segundo ele, o equivalente a estar convocando o demônio “. Como instrumento AI  poderá ser a concretização da previsão do Big Brother orwelliano, pois   dará aos governos intervencionistas o poder de eliminar a liberdade individual. Nas mãos das empresas a inteligência artificial será usada para criar produtos e serviços, nas mãos do governo poderá ser um instrumento de dominação. Se isto acontecer, estaremos realmente “convocando o demônio”. 


Jorge Wilson Simeira Jacob














sábado, 13 de agosto de 2022

 ESBOÇO SOBRE A DESIGUALDADE.


Correndo o risco da imodéstia, escrevo este  esboço  sobre a desigualdade. Mini-esboço, na verdade,  tendo em conta  a consciência do tamanho do desafio. Nada anda mais politizada do que a  discussão sobre a desigualdade sócio-econômica entre os homens.  Seria uma temeridade pretender ir além de uma tentativa da análise de uma tese que mereceu a atenção de grandes nomes do mundo intelectual. Os quais, com seus estudos, não deram respostas plenas para atender ao desejo dos insatisfeitos. As  propostas  de Marx, Rousseau, Adam Smith…,  à respeito das desigualdades, não foram aceitas como verdades absolutas. Tanto que o assunto continua em pauta.


Continua a prevalecer nos dias correntes, justificadamente entre as pessoas  socialmente sensíveis, a preocupação com as desigualdades sócio-econômicas. Mexe  com  qualquer ser humano ver, de um lado, pessoas esbanjando em consumos conspícuos e, de outro, muitos sem o mínimo para a sobrevivência. Mais lamentável, ainda,  é saber que uma grande parte dos brasileiros “vendem” pelo pão de cada dia alguns   nacos da sua dignidade. 


Nada contra aqueles que ganham honestamente de  gastarem  o seu dinheiro da maneira que melhor os satisfaz. Se  o resultado foi fruto de trabalho, competência e poupança , eles são merecedores de crédito pela contribuição à sociedade. E tem todo o direito de usar o que lhes pertence. Entretanto não podemos ignorar aqueles que não tiveram  oportunidades por deficiências naturais ou por falha do modelo socioeconômico vigente. 


A discussão sobre a desigualdade , se olhada pelo viés  religioso, no que se refere às almas, completa-se com a afirmação de que somos todos  igualmente   filhos de Deus. Sob  este aspecto, o Sol nasce para todos, sem distinção. É uma questão de direito divino. Na realidade terrena, porém, a coisa é diferente. Na verdade somos absolutamente  desiguais. Somos diferentes na aparência física,  sexo, desiguais condições sócio-econômicas, faixa etária…  Uma lista  infindável.


Por uma questão de fato, os filhos de Deus seriam os privilegiados. Os “ desprivilegiados ”  teriam outra paternidade - a de Zebedeu, por exemplo. Se esta hipótese absurda, diga-se de passagem, pudesse tornar-se uma realidade, os filhos de Deus seriam uma minoria.  Com esta escolha estariam eliminando  de uma só vez duas crenças: a  divina promessa de uma igualdade de todos perante Deus; e a terrena isonomia de sermos todos iguais perante as leis, fazendo jus ao dito de que “alguns são mais iguais que os outros”.



 A realidade, pura e crua, é que  somos  absolutamente desiguais. Só há uma única condição em que nos igualamos, uma exceção:  somos todos consumidores. Desde a fecundação até o final da vida, direta ou indiretamente, somos consumidores compulsivos. Assim sendo, uma sociedade igualitária começaria a ter os consumidores como prioridade. Em todas as situações e circunstâncias, eles deveriam estar em primeiro lugar. O que não é bom para os consumidores, não deveria ser considerado bom para a sociedade.


No entanto, como os consumidores estão dispersos e desunidos, numa injusta inversão de valores, são privilegiados os fornecedores de serviços públicos e privados. Os governos vêm em primeiro lugar, e as empresas os secundam, na direta relação da sua força política. Em uma sociedade, que respeitasse os consumidores, não haveria tomadas elétricas exóticas, ruas esburacados, serviços públicos de má qualidade, cartórios, excesso de leis e regulamentos….



Só o mercado livre e competitivo, transfere o poder do fornecedor para os consumidor. Todas as tentativas de redução das desigualdades,  induzidas por políticas governamentais, só criaram miséria e tirania. As únicas medidas que reduziram as desigualdades foram aquelas que elegeram o consumidor com o rei do processo. Não são as empresas, nem menos ainda  o governo que devem ser o foco principal das nossas atenções. O respeito à igualdade começa e acaba no respeito absoluto à da maioria - a sua majestade, o consumidor.


O que não atende ao interesse dos consumidores, não faz parte do reino de Deus, mas do de Belzebu!



Jorge Wilson Simeira Jacob


sexta-feira, 5 de agosto de 2022

 A CESAR O QUE É DE CÉSAR.


Mesmo a imprensa, que deveria ser a guardiã do uso apropriado das palavras, não poucas vezes usa indiscriminadamente os verbetes Estado e Governo sem o rigor em  relação às suas funções. Mencionam o “ Estado “ quando deveriam estar falando do “ Governo “. Ou ao contrário. Não é por menos que a sociedade tropeça nos sentidos destas palavras. Vamos conceituar para clarear.  Na sua forma moderna, o Estado é constituído por um conjunto de instituições permanentes que organizam e controlam o funcionamento da sociedade. 


O Estado  é a nação politicamente organizada. É, portanto, constituído  das suas instituições e não das pessoas. O Estado, nas suas diversas formas,  é uma escolha da sociedade entre as diversas alternativas possíveis . Possibilidades que vão desde uma estrutura autocrática até ao modelo republicano. Cada uma delas define o seu modelo de governo. O Estado não é medido pelo seu tamanho, mas  pelas suas instituições. O Estado não deve ser nem grande nem pequeno, mas  adequado aos objetivos da nação. Todas as nações, desenvolvidas ou não, ricas ou pobres, politicamente organizadas não podem  prescindir  de se organizar como um Estado. Não há, pois, como corriqueiramente fala-se de que : “em certas circunstâncias é necessária a ação do Estado e nem de se propor um Estado Mínimo”.


Já o  Governo divide-se no  poder executivo, no legislativo e no judiciário. Ao executivo cabe  o papel de gerir os serviços públicos : a ordem, a saúde, a educação… , por exemplo,  e executar as leis. O legislativo  tem o poder de formular as leis e até alterar a Constituição. Já o poder judiciário, cuja mais alta instância é o Supremo Tribunal Federal,  cumpre o papel de supervisionar e julgar a aplicação das leis.

O governo ideal deve ser o menor possível para ser eficaz e não onerar os contribuintes. O governo ,como instrumento do Estado, constitui- se dos governantes e da sua burocracia. Ele  assemelha-se a uma cooperativa ou condomínio e os cidadão são equivalentes aos   cooperados  ou condôminos.  O governo  ou síndico ideal é o que se limita ao exercício da lei e da ordem, da soberania e  ao bom funcionamento das instituições.Não cabe a ele envolver-se em atividades paralelas às exercidas pelos cidadãos, cooperados e condôminos.O governo não deve exercer funções empresariais. Não é da sua vocação e nem deve estar nos seus objetivos. As atividades empresariais são incompatíveis com as estruturas governativas. A prática têm mostrado que as investidas dos governos no campo empresarial distorcem o funcionamento do mercado, corrompem os políticos, prestam mal serviço e oneram os contribuintes.


O síndico de um empreendimento ou de uma cooperativa estão sob vigilância dos condomínios ou dos cooperados, os custos e os investimentos são razoavelmente vigiados e  controlados. Isto não ocorre no governo. As dimensões e complexidade da coisa pública não são acessíveis ao entendimento dos cidadãos. Ficando, pois, mal fiscalizadas. Quando são  “supervisionadas” , são por    agentes indicados pelo próprio governo. Não sendo, portanto, isentos, mas parciais. 


Em assim sendo, vamos dar a Cesar o que é de Cesar - um governo enxuto e a Deus o que é de Deus - um Estado adequado às suas funções.


São Paulo, 11.04.22

Jorge Wilson Simeira Jacob