domingo, 30 de julho de 2023

 Os Homens Que Vendem A Alma.



Contada como piada, mas na verdade um retrato do caráter dos humanos, é a história do conquistador barato abordando uma possível vítima. Ele insistente diz “ Você é muito bonita! Gostaria de levá-la para uma noitada. Vamos marcar? Ao que ela indignada refuta: “Sou uma mulher casada, tenho princípios éticos e morais, sou uma pessoa de  convicções. Passe bem…”.


O conquistador não se deu por vencido e diz: “ Escuta a minha oferta. Eu lhe dou um casaco de peles e uma noite no Ritz” . Ela vira a cara com desprezo. Ele promete um automóvel. Nada. Aumenta a oferta  até prometer 1 milhão de dólares, pagos adiantados. Ela   balançou. E responde: “ Quando seria essa tal noitada?”


Foi surpreendida com a resposta: “ Nunca! Só queria saber o preço das suas conveniências para abrir mão das suas convicções. Agora sei: “você se vende por um milhão de dólares”.



Cabe  perguntar como sequência desta pilhéria : Todos temos um preço para as nossas convicções?


Thomás Morus não. Foi  decapitado por recusar-se a pagar esse preço. Lord Chanceler do Rei Henrique Viii - o barba azul - não abriu mãos do princípio da Igreja de ser o casamento  um sacramento sagrado, ao recusar intermediar com o Vaticano a dissolução do matrimônio do rei. Ficou na história o seu encontro na prisão da Torre de Londres, quando a sua filha suplicava que cedesse ao desejo real para não ser decapitado . Argumentava: “ se não for por você, o faça por nós, a sua família”.  Ele permaneceu irredutível: “ Minha filha, a grande maioria dos homens deixa-se levar pelas conveniências. Poucos, pela convicção. Eu quero ser um deles. E teve a cabeça decepada, mas não cedeu às conveniências. “Eu não vendo a minha alma!”


Aí estão dois casos, uma piada e um fato histórico , que fazem toda a diferença. Os homens de convicções são confiáveis. Pode-se prever as suas ações. Estão fundeados em bases sólidas , independentemente de estarem certos ou errados. Já os seres de conveniência não o são. Mudam de posição de acordo com o seu oportunismo. Se a nossa personagem  que inicia este ensaio, tivesse como convicção a infidelidade e não a fidelidade,  a sua decisão não seria incoerente. Seria natural. Mas as suas convicções eram relativas às oportunidades. Portanto, não há de haver razão para confiar num adepto das conveniências . Eles têm o seu preço para cada situação.


Na história da humanidade os homens de convicções fizeram a história, para o bem e para o mal. Os homens de conveniências só serviram para o mal. Como é natural somos governados pela maioria - os oportunistas, que agem de acordo com os seus interesses pura e exclusivamente. Raros são os líderes que se podem equiparar  a um Thomás Morus. A maioria pauta-se como a moça da piada. Vendem até a alma.


É raro entre nós, dando destaque a prática política,  heróis das convicções . Em recente entrevista a uma rádio gaúcha ,o Presidente Lula, entre outras das suas costumeiras escorregadelas, disse duas que desapontam.  Disse ele : “ A democracia é relativa “ e “ acredito na democracia por conseguir me eleger, senão não acreditaria”. Em outra ocasião relativizou a condenação por crime de roubo de um pão . Se tudo é relativo, nada é absoluto - tudo é permitido. Nada é crime, nada é pecado. 


Olhadas essas declarações , sob a  ótica psicanalítica, elas serão  classificadas como fortes sinais de um caráter moldado nas conveniências. As oportunidades determinam o curso das ações. Um pragmático vê o  bom no  que convém , independente de valores ético- morais. Um idealista,  no que está de acordo com as suas convicções. 


Como confiar em um homem que vende a alma?


São Paulo, 26 de julho de 2023.

Jorge Wilson Simeira Jacob




quinta-feira, 27 de julho de 2023

 



Da Solidão.



No mundo animal o urso destaca-se pelos hábitos de vida solitária. Ele vaga por meses no Polo sem companhia. Praticamente faz exceção no momento do acasalamento. Ao contrário do  leão que é fundamentalmente gregário, está sempre rodeado por fêmeas . No  geral, os animais vivem em manadas na vida selvagem.


Os humanos também mantêm a sua diversidade. Há os misantropos, como os ursos, que cultivam a solidão, são avessos ao convívio social,  e os gregários, como os leões, que não existem sem ele, necessitam dele como do ar. Entretanto, se  um animal selvagem consegue sobreviver sozinho, o mesmo não é possível entre os homens.


 Ao animal selvagem o desafio é somente físico —o  poder sobreviver à fome e às intempéries. A sobrevivência  é quase impossível ao ser humano na absoluta solidão. O homem, além da  luta pela sobrevivência , enfrenta o  desafio da estabilidade emocional.  A troca é um imperativo para a sobrevivência. Eu hoje coço  as suas costas e você, amanhã , coça as minhas. Somos fisicamente dependentes uns dos outros.


Diferentemente dos selvagens temos um outro desafio que é a nossa estabilidade emocional . Temos necessidade de uma vida social para a saúde mental. Por isto, temos  reações que são instrumentos do nosso ser que dão sinais da nossa dependência dos outros. Ao que traz o  sentimento de fazer parte da tribo, subordinando-nos  às modas e aos costumes.  Absorvemos os eflúvios sociais por   termos  necessidade de compartilhar nossos sentimentos. As dúvidas e angústias da coletividade nos contaminam. Ao mesmo tempo, necessitamos compartilhar as nossas. Deixar de fazê-lo é  colocar-se sob a ameaça da  depressão. Só os espíritos muito fortes têm a capacidade de manter o equilíbrio emocional na absoluta solidão. 



Na coluna Opinião do New York Street de 15 de julho de 2023, cujo titulo é “ se solidão é uma epidemia, como tratar isso?”  Afirma : “  gente solitária deve lembrar que eles não são necessariamente responsáveis por essa condição que os joga na sensação de solidão, eles podem dar passos para livra-los do mal”.


 Segundo as estatísticas, um em  cada quatro americanos acima de 18 anos sentem alguma forma de solidão. “Diferentemente da depressão ou ansiedade, a solidão não é uma desordem mental”, segundo The American Psychiatric Association. A solidão dói! É um sofrimento do qual nem sempre se é consciente. Pode ficar subliminar. Passar quase despercebido . O sucesso das médias sócias é uma comprovação da existência do problema. As pessoas têm necessidade do convívio social.


“A solidão nunca será curada, mas pode ser tratada” , diz no artigo a Dra. Julianne Holt-Lunstad , a Medicina tem importante papel na recuperação,  e uma   reforma é essencial para prevenir que futuras gerações sucumbam à solidão. Na vida diária o homem normal, o comum, constrói uma rede social como anteparo às suas quedas emocionais. Mesmo assim, não está isento do sentimento da solidão. 



Os males da solidão atacam mais os temperamentos tímidos, fechados, mas indistintamente os idosos. Não são raros os casos que à morte de um cônjuge idoso segue-se a do outro. Na solidão a dor é menos suportável. O risco aumenta na idade avançada. Na medida em que vamos envelhecendo, vamos perdendo os amigos e, pelas condições da idade, temos dificuldades de fazer novos. Perde, com isto, a vida social.



 A solidão é um mal que cresce com o aumento populacional. É um  mal do século,  como já foi dito. A multidão, em vez de dar o conforto do fazer parte, ao contrário alimenta a solidão. As relações perdem a profundidade. O ser humano se sente só na multidão. A massa não permite a relação individualizada. O ideal é o idoso não abrir mão da vida social. Sair de casa, cultivar os amigos, frequentar reuniões e dedicar-se a alguma causa filantrópica é uma boa receita para evitar os males da solidão. Também na mente, parar é morte. Há que manter-se ativo. Escrever é uma terapia ideal. Absorve a mente, faz pensar, preenche o tempo e proporciona como companhia os sujeitos do texto.

Praticar esporte é outra. É completa. A primeira fortalece a mente, o segundo, o físico. 




O Dr. Alberti, citado no artigo,  chama a solidão de uma “emoção cluster'”, na qual sentimentos que variam de “raiva, ressentimento e tristeza a ciúme, vergonha e autopiedade” podem tomar conta

Ao que o Dr.Caciopo, propõe que em  vez de investigar uma solução farmacêutica para a solidão,  o acrônimo GRACE, que significa "gratidão, reciprocidade, altruísmo, escolha e prazer ( enjoyment)". É bastante autoexplicativo: Seja grato pelo que você tem, peça e ofereça ajuda aos outros e tenha tempo para se divertir. Mas uma carta é mais controversa do que as outras.


“É uma escolha permanecer solitário ou não solitário,” Dr. Cacioppo diz. Colocando de outra maneira: a solidão não precisa ser um estado permanente. Com o apoio certo e muita determinação, o cérebro pode aprender a se conectar novamente.



São Paulo, 15 de julho de 2023.

Jorge Wilson Simeira Jacob


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quinta-feira, 13 de julho de 2023

 A Guerra Contra o Ocidente.


“ Nos últimos anos , ficou cada vez mais claro que há uma guerra em andamento contra o Ocidente. Ela não é como as guerras anteriores, em que exércitos se chocavam e os vencedores eram declarados. Trata- se de uma guerra cultural, e está sendo travada impiedosamente contra todas as raízes da tradição ocidental e contra tudo de bom produzido por ela”. 


A introdução acima de Douglas Murray ao seu recente livro A guerra contra o Ocidente ( 229 páginas, editora Avis Rara, Amazon $36,39 ) levanta uma preocupação que deveria incomodar o mundo dos conscientes . Com redação jornalística, muito bem documentada, Douglas aponta o problema com vistas a mostrar a sua surpresa com a indiferença dos intelectuais do Ocidente.


O autor é nada menos do que editor associado do The Spectator. Jornalista e autor de best-seller, ele atua em grandes jornais , como The Times, The Sun, The Wall Street Journal. Seus dois livros anteriores, The Madness of   Crowds e The Strange Death of Europe  são best sellers internacionais.


A Guerra Contra o Ocidente não é um texto alarmista, ponderado, é um chamamento à razão. Um brado de alerta contra a tendência masoquista em crescimento. O Ocidente, que foi o responsável a tirar, com a economia de mercado, bilhões de seres humanos da miséria, que criou a democracia, libertou os escravos - não só os que alguns dos seus escravizaram, mas também os escravizados pelos da sua raça, está sob ataque. O mundo está ignorando o  muito que deve ao Ocidente pelo seu desenvolvimento, principalmente por ter evoluído e  redimido dos seus pecados.


Os fatos, se melhor analisados, mostram que, apesar das críticas, é para o Ocidente que há correntes migratórias, Não há fluxo de pessoas em direção da China, Índia e África. Os monumentos de exploradores dos escravos e racistas são derrubados nos Estados Unidos e no Canadá, mas o enorme busto de Karl Marx, no cemitério de Highgate em Londres, permanece intacto. Exibindo na lápide  a citação de  Marx :” Tudo o que os filósofos fizeram foi interpretar o mundo de diversas maneiras, a questão é mudá-lo” . E o que as suas ideias fizeram foi provocar  a morte de milhões com a sua ideologia. O que conseguiu com as suas matanças na União Soviética, Cuba, Noruega, Camboja, China… por onde passou. Mas o seu monumento continua inatacável.


Entre a gratidão e o ressentimento, este tem prevalecido na história da humanidade. É uma emoção que atribui aos outros o que deve ser da sua responsabilidade, Douglas cita Nietzsche: “ Um dos perigos dos homens de ressentimento é que eles encontraram a sua forma definitiva de vingança, que é transformar as pessoas felizes em pessoas infelizes como eles - esfregar a sua miséria na cara dos felizes, para que se envergonhe de sua felicidade e talvez digam aos outros: é uma vergonha ser feliz! Existe muita miséria!  Também houve muito progresso! Não há gratidão pelo que o Ocidente fez pela humanidade, prevalece o ressentimento.


Segundo Douglas: as pessoas começaram a falar de “igualdade” , mas não pareciam falar em direitos iguais. Elas falavam de “antirracismo” , mas soavam profundamente racistas. Elas falavam de “justiça” , mas pareciam querer “ vingança”.


Este é um livro para quem gosta de repensar as suas verdades. É rico em exemplos e dados históricos. Pensa fundo. Vai ao âmago do problemas com admirável lucidez . Presta um serviço à humanidade com o  alerta para os exageros no retorno do pêndulo em que o maior responsável é o maniqueísmo que está permeando a cultura Ocidental.


Um livro a ser lido e pensado.

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São Paulo, 13 de julho de 2023.

Jorge Wilson Simeira Jacob



segunda-feira, 17 de abril de 2023

 


Um Retrocesso.


O Presidente Lula disse na China que todas as noites perde o sono pensando na razão das   pessoas insistirem em usar o dólar nas suas transações. Certamente ele não atentou à história econômica para poder ter tido tal dúvida. Se o tivesse feito, saberia que as  moedas, inclusive o dólar, existem basicamente  porque as pessoas confiam nelas. 


A humanidade existe há mais tempo

 do que as moedas . Nos primórdios as trocas eram informais . Os bens e serviços eram trocados sem levar-se em  conta o seu valor. O câmbio era dispensável por estarem disponíveis todos os bens desejados. A natureza era pródiga com os primeiros seres humanos. Tudo pela  abundância não tinha valor estipulado.



As primeiras trocas surgiram quando a economia começou a sofisticar-se. A especialização exigia o intercâmbio. Quem detinha algum bem ou serviço satisfazia as suas necessidades nas trocas. Foi na fase do escambo que certos bens tornaram-se  referência de valor, como o sal, as conchas, o boi…


Evidentemente, com o aumento da variedade de bens e serviços a serem trocados, o modelo exigia uma nova solução. Acresce o fato de que nem sempre as partes desejarem usufruir dos produtos de imediato. Assim surgiu a invenção da moeda para permitir não só a troca como também ser uma reserva de valor. 


As primeiras moedas foram cunhadas com metais escassos e tiveram ampla aceitação. Um passo a frente foi, com a criação dos bancos, que no inicio  prestavam o serviço de guarda e instrumento de remessa de valores entre cidades. 


Os bancos de simples depositários evoluíram para o aluguel do dinheiro. Inovando com a descoberta dos juros  para estimulo da poupança e do investimento.


A criação das moedas nem sempre foram monopólio dos governos. Época houve em que bancos emitem moeda. O poder de emissão  dava ampla flexibilidade ao emissor e terminavam por ser monopolizadas pelos governos. O  que limitou ao  cidadão a liberdade de escolha. 


A liberdade hoje existente, ainda que sujeitas a controles governamentais, dão opções de moedas dos muitos países. Não mais existe no mundo a moeda emitida por entidades privadas. Esta uma ideia defendida pelo economista Friedrich Hayek no seu livro A Desastização do Dinheiro.


Com o fim do Império Britânico e o apogeu americano, na  reunião de Bretton Woods a libra foi substituída pelo dólar , tendo como lastro o ouro.  Lastro que foi abandonado pelo governo Nixon em 1971. Ficando o dólar tão somente sendo aceito por sua conversibilidade universal. Uso difundida pelo acordo entre os Estados Unidos e a  Arabia Saudita para que o dólar fosse a moeda das transações do petróleo.


Mesmo após a perda do lastro em ouro, o  dólar se impõem no mundo por ter as três condições exigidas para ser um instrumento mundial de trocas: 

disponibilidade — moeda da maior economia do mundo;

 conversibilidade — universalmente aceita;

 e confiança — originada pela  segurança jurídica das leis americanas. 


Nenhuma outra moeda reune as três condições. O euro , criado para substituir o dólar, não logrou senão um lugar secundário nas transações. O renminbi  , outro candidato, ainda que possa ter as duas das primeiras condições, carece da terceira. A China é uma ditadura com pouca tradição de respeito aos mercados. Não inspira confiança. Portanto, o dólar terá vida longa como moeda internacional.


O poder de emissão  tem permitido aos Estados Unidos financiar os seus gigantescos déficits com emissões de títulos dos tesouros. É o produto americano mais desejado no mundo. 


O dólar não só tem enorme poder econômico como transformou-se em um instrumento de poder político. Os Estados Unidos controlam de forma direta ou indireta toda a movimentação financeira no mundo. O mantra “siga o dinheiro para identificar o crime” ,  criou  uma burocracia insuportável para as movimentações de recursos financeiros.


É relevante ter presente que ninguém é obrigado a aceitar o dólar. Existem muitas alternativas: euro, libra, iene, reais…. Por que o dólar, sem lastro ouro, domina o comércio internacional?

Por que as nações não negociam nas suas próprias moedas? Por que ter o dólar como moeda de troca? Simplesmente por ser mais simples e econômico ter uma terceira moeda para fazer o clearance. Assim como o dólar, ninguém é obrigado ao uso do inglês como idioma comercial.


Eliminar uma moeda universal para as transações internacionais  , adotando moedas locais - ideia do Lula - é retroceder ao escambo. Seria, se possível fosse, um regresso ao passado.



Sao Paulo, 20.04.2023

Jorge Wilson Simeira Jacob



sexta-feira, 10 de março de 2023

 UM ETERNO BELIGERANTE.



O Presidente Lula é bom de briga. Ele gosta delas . É um eterno beligerante. Bom de tática ele está sempre no ataque. Um dia o alvo é o presidente do Banco Central. Em outro a “ insensibilidade do mercado financeiro”  e agora chegou a vez dos dividendos da Petrobras. Nem sempre ele tem razão e sempre ignora os cânones da teoria econômica. Fala a linguagem que o homem comum entende. Ele investe naquilo que a sua sensibilidade diz ser a aspiração popular. Nunca vai contra a crença geral. Pouco importa a veracidade dos fatos. O que vale é navegar a favor da maré.


Os resultados comprovam a validade da tática praticada.Ele fica  bem na briga, pois consegue contra tantos casos  que lhe são contrários, ter um eleitorado cativo, fiel. A sua deficiência de dominar conceitos básicos passam despercebidas do grande público. Os seus erros gramaticais só doem nos ouvidos de uma minoria. A maioria usa do mesmo português sem os  “ esses, errres”  e com erros de concordância. Ele não dá a mínima importância para as suas limitações . Até se vangloria delas e  as usa em seu favor. Em tudo e por tudo,  ele é igual aos seus seguidores.


Lula, como um deles, conhece o seu eleitorado. Ignora olimpicamente a verdade, como quando reconheceu exagerar na Europa o número de crianças famintas nas ruas, que sabia ser mentira. A massa não dá o devido valor ao caráter dos políticos. Nem mesmo se a complexidade e profundidade dos problemas são ignorados nos seus discursos. A postura irritada e indignada de Lula é uma  constante. Investe  contra o seu governo como se  oposição fosse. Nunca joga na defesa. Ataca  os seus antes que outros o façam. Só tem um compromisso — a próxima eleição .


Entretanto, nem sempre  as bravatas de Lula estão erradas. Nos últimos episódios, ele  está certo ao  considerar um escândalo os dividendos da Petrobras. Os dividendos só são respeitáveis se o lucro da empresa é legítimo. O que não é o caso da Petrobras. O lucro de uma empresa que detém na prática um monopólio e tem o respaldo do governo é imoral. Não fosse o aval governamental e a capacidade de determinar os seus preços, a Petrobras não teria sobrevivido à Lava Jato. Estaria na vala das falidas…e os minoritários a ver navios.



A Petrobras é uma aberração. É um monopólio que o governo concede a acionistas privados nacionais e internacionais. É um privilégio para uma minoria. O seu lucro é imoral, pois não resulta de uma competição no mercado que lhe dê legitimidade. O lucro deve ser a medida do desempenho de uma empresa em relação aos seus concorrentes. O lucro deve ser  uma mais valia pela contribuição da operação dada à economia.


No subproduto da sua crítica,  Lula está errado quando ignora que os dividendos não são recursos que retornam à correnteza gerando consumo e investimentos. Mesmo que os dividendos fossem queimados, ainda assim estariam contribuindo para enriquecer o Tesouro, valorizando a moeda. Portanto, é menos mal os dividendos em mãos particulares do que aumentando as garras da Petrobras.A   contribuição da Petrobras, depois da privatização,   seria aplicar preços menores, o que sim dinamizaria a economia. Ainda que isto significasse o fim de algumas empresas que servem de fachada para mascarar existir concorrência nesse mercado, o que custa caro ao consumidor.


Se a Petrobras dá prejuízos ou dá   lucro não importa, deve ser privatizada. Nenhum monopólio é bom para nenhum país. A economia de mercado agradecerá com maior desenvolvimento econômico.Os investimentos do governo na Petrobras serão mais saudáveis à economia se aplicada na saúde pública.  E Lula não terá porque ser contra os dividendos, pois serão o resultado  de uma saudável planta  que frutificou. E poderá direcionar a sua beligerância contra as árvores do governo que não dão frutos. 


São Paulo, 03.03.2023.


sexta-feira, 3 de março de 2023

 UM TIRO NO PÉ 



Se há um   mal entendido entre o público em geral  é o referente à figura do dito mercado. Todos  entendem o seu sentido quando se refere a um local físico em que se reúnem os mercadores e os compradores de alimentos e objetos. É algo concreto.Fácil de ver e explicar. Já o mercado no sentido figurado, que se ocupa das relações econômicas e financeiras, o seu funcionamento tem algo de  mistério. Não é acessível aos neófitos que não entendem a existência de algo tão abstrato em que se processa a lei da oferta e da procura. 


Eles ignoram  que esse mercado é neutro. Nada têm a ver com as oscilações dos preços para mais ou menos. Por isto  deblateram a sua existência e nele pretendem intervir. Esse  mercado, comparativamente falando,  é como um imaginário campo de esportes  em que  equipes disputam  partidas. Ele não influência nos resultados, mas os jogadores sim.Assim é o mercado financeiro ou de capitais. Os seus resultados são a consequência da ação dos seus agentes - todos nós. Quando uma dona de casa vai à feira e faz compras ela aumenta a procura; quando um feirante oferece os seus produtos ele aumenta a oferta. O preço é a resultante desse equilíbrio.


 É, portanto,  a  ação de todos os indivíduos que determinam as variações das cotações dos produtos como também  das ações, das moedas e dos juros. Isto em um mercado livre. As distorções acontecem quando as autoridades intervém no processo.  Não há, pois, como jogar culpa no mercado pelos preços altos ou baixos, ofertas e escassez de produtos ou serviços. Esse mercado, portanto, não é causa mas efeito das  ações humanas. Nos somos esse mercado!


Para o bom  funcionamento do mercado o governo deve limitar-se a estabelecer regras que evitem desvirtuamentos e manipulação: cartelização, monopólio e  concorrência desleal. O mercado funciona melhor quanto menos interferência externa ocorrer. As suas imperfeições são passageiras. Elas corrigem-se com o tempo. O mercado, a exemplo da   justiça, “ tarda, mas não falha”. Cabe ao governo estimular a concorrência e socializar as informações para coibir os abusos dos “jogadores”.


O mercado não se limita a oferta e procura de cousas e bens, mas também da mão de obra. Ainda agora estamos vendo os efeitos da restrição à  imigração nos Estados Unidos da América, que está provocando escassez de mão de obra. Uma economia pujante, crescendo constantemente, com um baixo índice de natalidade, funcionaria melhor se houvesse uma política liberal para aceitação de imigrantes. Ao contrário do que vêm acontecendo. Assim como uma região com sobra de mão de obra, necessita a emigração para corrigir o seu desequilíbrio. Uma em falta deveria facilitar a imigração.


Há já alguns anos,  os Estados Unidos enfrentam escassez de mão de obra. A taxa de desemprego vem se mantendo como a mais baixa dos últimos cinquenta anos. E o crescimento de novos empregos mantém-se elevado. Em consequência os salários sobem e pressionam os preços. O governo teria duas alternativas: liberar a imigração ou elevar as taxas de juros para conter a demanda. A escolha tem sido a de esfriar a economia em vez de abrir o país aos imigrantes. A imigração não é considerada na luta contra a inflação. E sim o arrefecimento do crescimento da economia.


O desdobramento dessa escolha é o desequilíbrio na balança comercial. Ao não importar o trabalhador, a opção tem sido importar produtos fabricados no exterior que tem mão de obra mais barata. Não por menos crescem nas prateleiras das lojas dos Estados Unidos os produtos importados. O bloqueio à movimentação das pessoas entre os países  provoca um desequilíbrio nesse mercado. Além de conviver com 10 milhões de ilegais trabalhando no país.


A Alemanha, em situação de carência de mão de obra, adotou medida diametralmente oposto. Abriu as fronteiras para incorporar na força de trabalho 1 milhão de turcos. Com isto aliviou os custos da produção tornando a indústria alemã competitiva interna e externamente. E não onerou o consumidor local. A dicotomia é: ou o imigrante  ou o produto importado. Intervir nas livre movimento das pessoas e dos bens é dar um tiro no pé.


São Paulo, 28.02.2023


sábado, 25 de fevereiro de 2023

 O APOCALIPSE 


Desde que a humanidade  existe  o aumento demográfico tem sido uma constante. Não por menos  a organização da nossas vidas está baseada nesta premissa. Tudo ou quase tudo baseia-se na crença do aumento populacional. Como o mundo progrediu correlacionamos este fenômeno ao crescimento populacional.  Acostumamo-nos a  avaliar o progresso dando mais valor   ao  aspecto quantitativo ( maior população ) em vez de atentarmos para o  qualitativo ( marco civilizatório). Trocamos qualidade por quantidade.


Com o dinamismo da vida, muita cousa está em processo de mudança. A  tendência ao crescimento populacional começa a perder força. Nas camadas mais educadas, principalmente nos países mais civilizados, a curva demográfica está sofrendo grande queda. A liberdade sexual, os métodos anticoncepcionais, a libertação das mulheres, o custo de educação e saúde da prole estão influenciando o seu crescimento.


Alterações de política governamental começam a adaptar-se aos novos tempos. Consciente  de problemas à frente  a China, que sob o comunismo , limitava a família a um único filho, hoje estimula o aumento das famílias. São premiadas financeiramente  aquelas que tem três herdeiros. Há previsões de que, sem alterar as variáveis , no ano 2050 esse país terá a metade da atual população.


A Europa, com  um índice de natalidade que roda em torno de 1,1 a 1,3 filhos por casal, olha com esperança para os imigrantes. Os seus números são inferiores aos 2,1 necessários à manutenção da população existente. O  Brasil com um  número de 1,8, não só não se atenta ao problema como está se tornando um país de emigrantes jovens. Por miopia não temos  uma política de incentivo para atrair o  imigrante qualificado. 


Enquanto a população do mundo desenvolvido decresce a do  subdesenvolvido cresce. A Índia neste ano superou a China como o mais populoso país do mundo. E a  África mantém os níveis elevados históricos. Acentua-se , assim, o aumento do desequilíbrio populacional entre as áreas mais  e as menos civilizadas.


Esses dados preocupam quem olha além dos números frios e entrevê  os desdobramentos sobre a atual organização sócio-econômica. Os mais apressados podem até prever a chegada do apocalipse. Pois,  mantidas as tendências, o quadro futuro será de enorme desequilíbrio: aumento da proporção entre as classes inferiores e as superiores ;  a diminuição da proporção de jovens nas populações; e o aumento da população idosa.  Como toda a nossa estrutura sócio-econômica baseia-se em uma massa crescente de jovens para suportar os custos previdenciários, e estes crescendo exponencialmente, levarão à falência o sistema, mantidas as condições atuais. Não só o sistema previdenciário sofrerá , mas também a saúde pública e a necessidade de mão de obra.


  Quem vai cuidar e manter os velhos? 


Se antes o apocalipse , segundo as previsões de Malthus, estaria no superpovoamento, tornado insuficientes os recursos do planeta, o que poderia ser evitado se se seguisse, segundo ele,  as seguintes práticas:


  • As famílias devem ter poucos filhos, apenas os que conseguem sustentar;
  • Os casamentos devem acontecer quando os noivos estiverem mais velhos para terem menos filhos;
  • Não deve haver relações sexuais antes do casamento para não ocorrer o perigo de se ter filhos;
  • Não se pode ajudar os pobres para que estes não se reproduzam e gerem mais pessoas;
  • É necessário que a previdência social seja abolida nos períodos em que não houver guerras, pestes ou fome, para que a mortandade da população cresça.

Independente das ideias do malthusianismo, que foram superadas pela produtividade agrícola,  e pela redução natural das proles, que levadas ao extremo, ameaçaria o fim da humanidade, já corremos o risco de sermos  uma sociedade de mais avós do que de netos. Com  o agravante  do aumento da proporção das massas  mais atrasados sobre os civilizados. 


Esse Apocalipse , se  acontecer, poderá ser  o fim da humanidade como a conhecemos. Será o fim não por falta de produção, como temia Malthus, mas pela falta de gente.


São Paulo, 24.02.2023.