sexta-feira, 10 de março de 2023

 UM ETERNO BELIGERANTE.



O Presidente Lula é bom de briga. Ele gosta delas . É um eterno beligerante. Bom de tática ele está sempre no ataque. Um dia o alvo é o presidente do Banco Central. Em outro a “ insensibilidade do mercado financeiro”  e agora chegou a vez dos dividendos da Petrobras. Nem sempre ele tem razão e sempre ignora os cânones da teoria econômica. Fala a linguagem que o homem comum entende. Ele investe naquilo que a sua sensibilidade diz ser a aspiração popular. Nunca vai contra a crença geral. Pouco importa a veracidade dos fatos. O que vale é navegar a favor da maré.


Os resultados comprovam a validade da tática praticada.Ele fica  bem na briga, pois consegue contra tantos casos  que lhe são contrários, ter um eleitorado cativo, fiel. A sua deficiência de dominar conceitos básicos passam despercebidas do grande público. Os seus erros gramaticais só doem nos ouvidos de uma minoria. A maioria usa do mesmo português sem os  “ esses, errres”  e com erros de concordância. Ele não dá a mínima importância para as suas limitações . Até se vangloria delas e  as usa em seu favor. Em tudo e por tudo,  ele é igual aos seus seguidores.


Lula, como um deles, conhece o seu eleitorado. Ignora olimpicamente a verdade, como quando reconheceu exagerar na Europa o número de crianças famintas nas ruas, que sabia ser mentira. A massa não dá o devido valor ao caráter dos políticos. Nem mesmo se a complexidade e profundidade dos problemas são ignorados nos seus discursos. A postura irritada e indignada de Lula é uma  constante. Investe  contra o seu governo como se  oposição fosse. Nunca joga na defesa. Ataca  os seus antes que outros o façam. Só tem um compromisso — a próxima eleição .


Entretanto, nem sempre  as bravatas de Lula estão erradas. Nos últimos episódios, ele  está certo ao  considerar um escândalo os dividendos da Petrobras. Os dividendos só são respeitáveis se o lucro da empresa é legítimo. O que não é o caso da Petrobras. O lucro de uma empresa que detém na prática um monopólio e tem o respaldo do governo é imoral. Não fosse o aval governamental e a capacidade de determinar os seus preços, a Petrobras não teria sobrevivido à Lava Jato. Estaria na vala das falidas…e os minoritários a ver navios.



A Petrobras é uma aberração. É um monopólio que o governo concede a acionistas privados nacionais e internacionais. É um privilégio para uma minoria. O seu lucro é imoral, pois não resulta de uma competição no mercado que lhe dê legitimidade. O lucro deve ser a medida do desempenho de uma empresa em relação aos seus concorrentes. O lucro deve ser  uma mais valia pela contribuição da operação dada à economia.


No subproduto da sua crítica,  Lula está errado quando ignora que os dividendos não são recursos que retornam à correnteza gerando consumo e investimentos. Mesmo que os dividendos fossem queimados, ainda assim estariam contribuindo para enriquecer o Tesouro, valorizando a moeda. Portanto, é menos mal os dividendos em mãos particulares do que aumentando as garras da Petrobras.A   contribuição da Petrobras, depois da privatização,   seria aplicar preços menores, o que sim dinamizaria a economia. Ainda que isto significasse o fim de algumas empresas que servem de fachada para mascarar existir concorrência nesse mercado, o que custa caro ao consumidor.


Se a Petrobras dá prejuízos ou dá   lucro não importa, deve ser privatizada. Nenhum monopólio é bom para nenhum país. A economia de mercado agradecerá com maior desenvolvimento econômico.Os investimentos do governo na Petrobras serão mais saudáveis à economia se aplicada na saúde pública.  E Lula não terá porque ser contra os dividendos, pois serão o resultado  de uma saudável planta  que frutificou. E poderá direcionar a sua beligerância contra as árvores do governo que não dão frutos. 


São Paulo, 03.03.2023.


sexta-feira, 3 de março de 2023

 UM TIRO NO PÉ 



Se há um   mal entendido entre o público em geral  é o referente à figura do dito mercado. Todos  entendem o seu sentido quando se refere a um local físico em que se reúnem os mercadores e os compradores de alimentos e objetos. É algo concreto.Fácil de ver e explicar. Já o mercado no sentido figurado, que se ocupa das relações econômicas e financeiras, o seu funcionamento tem algo de  mistério. Não é acessível aos neófitos que não entendem a existência de algo tão abstrato em que se processa a lei da oferta e da procura. 


Eles ignoram  que esse mercado é neutro. Nada têm a ver com as oscilações dos preços para mais ou menos. Por isto  deblateram a sua existência e nele pretendem intervir. Esse  mercado, comparativamente falando,  é como um imaginário campo de esportes  em que  equipes disputam  partidas. Ele não influência nos resultados, mas os jogadores sim.Assim é o mercado financeiro ou de capitais. Os seus resultados são a consequência da ação dos seus agentes - todos nós. Quando uma dona de casa vai à feira e faz compras ela aumenta a procura; quando um feirante oferece os seus produtos ele aumenta a oferta. O preço é a resultante desse equilíbrio.


 É, portanto,  a  ação de todos os indivíduos que determinam as variações das cotações dos produtos como também  das ações, das moedas e dos juros. Isto em um mercado livre. As distorções acontecem quando as autoridades intervém no processo.  Não há, pois, como jogar culpa no mercado pelos preços altos ou baixos, ofertas e escassez de produtos ou serviços. Esse mercado, portanto, não é causa mas efeito das  ações humanas. Nos somos esse mercado!


Para o bom  funcionamento do mercado o governo deve limitar-se a estabelecer regras que evitem desvirtuamentos e manipulação: cartelização, monopólio e  concorrência desleal. O mercado funciona melhor quanto menos interferência externa ocorrer. As suas imperfeições são passageiras. Elas corrigem-se com o tempo. O mercado, a exemplo da   justiça, “ tarda, mas não falha”. Cabe ao governo estimular a concorrência e socializar as informações para coibir os abusos dos “jogadores”.


O mercado não se limita a oferta e procura de cousas e bens, mas também da mão de obra. Ainda agora estamos vendo os efeitos da restrição à  imigração nos Estados Unidos da América, que está provocando escassez de mão de obra. Uma economia pujante, crescendo constantemente, com um baixo índice de natalidade, funcionaria melhor se houvesse uma política liberal para aceitação de imigrantes. Ao contrário do que vêm acontecendo. Assim como uma região com sobra de mão de obra, necessita a emigração para corrigir o seu desequilíbrio. Uma em falta deveria facilitar a imigração.


Há já alguns anos,  os Estados Unidos enfrentam escassez de mão de obra. A taxa de desemprego vem se mantendo como a mais baixa dos últimos cinquenta anos. E o crescimento de novos empregos mantém-se elevado. Em consequência os salários sobem e pressionam os preços. O governo teria duas alternativas: liberar a imigração ou elevar as taxas de juros para conter a demanda. A escolha tem sido a de esfriar a economia em vez de abrir o país aos imigrantes. A imigração não é considerada na luta contra a inflação. E sim o arrefecimento do crescimento da economia.


O desdobramento dessa escolha é o desequilíbrio na balança comercial. Ao não importar o trabalhador, a opção tem sido importar produtos fabricados no exterior que tem mão de obra mais barata. Não por menos crescem nas prateleiras das lojas dos Estados Unidos os produtos importados. O bloqueio à movimentação das pessoas entre os países  provoca um desequilíbrio nesse mercado. Além de conviver com 10 milhões de ilegais trabalhando no país.


A Alemanha, em situação de carência de mão de obra, adotou medida diametralmente oposto. Abriu as fronteiras para incorporar na força de trabalho 1 milhão de turcos. Com isto aliviou os custos da produção tornando a indústria alemã competitiva interna e externamente. E não onerou o consumidor local. A dicotomia é: ou o imigrante  ou o produto importado. Intervir nas livre movimento das pessoas e dos bens é dar um tiro no pé.


São Paulo, 28.02.2023


sábado, 25 de fevereiro de 2023

 O APOCALIPSE 


Desde que a humanidade  existe  o aumento demográfico tem sido uma constante. Não por menos  a organização da nossas vidas está baseada nesta premissa. Tudo ou quase tudo baseia-se na crença do aumento populacional. Como o mundo progrediu correlacionamos este fenômeno ao crescimento populacional.  Acostumamo-nos a  avaliar o progresso dando mais valor   ao  aspecto quantitativo ( maior população ) em vez de atentarmos para o  qualitativo ( marco civilizatório). Trocamos qualidade por quantidade.


Com o dinamismo da vida, muita cousa está em processo de mudança. A  tendência ao crescimento populacional começa a perder força. Nas camadas mais educadas, principalmente nos países mais civilizados, a curva demográfica está sofrendo grande queda. A liberdade sexual, os métodos anticoncepcionais, a libertação das mulheres, o custo de educação e saúde da prole estão influenciando o seu crescimento.


Alterações de política governamental começam a adaptar-se aos novos tempos. Consciente  de problemas à frente  a China, que sob o comunismo , limitava a família a um único filho, hoje estimula o aumento das famílias. São premiadas financeiramente  aquelas que tem três herdeiros. Há previsões de que, sem alterar as variáveis , no ano 2050 esse país terá a metade da atual população.


A Europa, com  um índice de natalidade que roda em torno de 1,1 a 1,3 filhos por casal, olha com esperança para os imigrantes. Os seus números são inferiores aos 2,1 necessários à manutenção da população existente. O  Brasil com um  número de 1,8, não só não se atenta ao problema como está se tornando um país de emigrantes jovens. Por miopia não temos  uma política de incentivo para atrair o  imigrante qualificado. 


Enquanto a população do mundo desenvolvido decresce a do  subdesenvolvido cresce. A Índia neste ano superou a China como o mais populoso país do mundo. E a  África mantém os níveis elevados históricos. Acentua-se , assim, o aumento do desequilíbrio populacional entre as áreas mais  e as menos civilizadas.


Esses dados preocupam quem olha além dos números frios e entrevê  os desdobramentos sobre a atual organização sócio-econômica. Os mais apressados podem até prever a chegada do apocalipse. Pois,  mantidas as tendências, o quadro futuro será de enorme desequilíbrio: aumento da proporção entre as classes inferiores e as superiores ;  a diminuição da proporção de jovens nas populações; e o aumento da população idosa.  Como toda a nossa estrutura sócio-econômica baseia-se em uma massa crescente de jovens para suportar os custos previdenciários, e estes crescendo exponencialmente, levarão à falência o sistema, mantidas as condições atuais. Não só o sistema previdenciário sofrerá , mas também a saúde pública e a necessidade de mão de obra.


  Quem vai cuidar e manter os velhos? 


Se antes o apocalipse , segundo as previsões de Malthus, estaria no superpovoamento, tornado insuficientes os recursos do planeta, o que poderia ser evitado se se seguisse, segundo ele,  as seguintes práticas:


  • As famílias devem ter poucos filhos, apenas os que conseguem sustentar;
  • Os casamentos devem acontecer quando os noivos estiverem mais velhos para terem menos filhos;
  • Não deve haver relações sexuais antes do casamento para não ocorrer o perigo de se ter filhos;
  • Não se pode ajudar os pobres para que estes não se reproduzam e gerem mais pessoas;
  • É necessário que a previdência social seja abolida nos períodos em que não houver guerras, pestes ou fome, para que a mortandade da população cresça.

Independente das ideias do malthusianismo, que foram superadas pela produtividade agrícola,  e pela redução natural das proles, que levadas ao extremo, ameaçaria o fim da humanidade, já corremos o risco de sermos  uma sociedade de mais avós do que de netos. Com  o agravante  do aumento da proporção das massas  mais atrasados sobre os civilizados. 


Esse Apocalipse , se  acontecer, poderá ser  o fim da humanidade como a conhecemos. Será o fim não por falta de produção, como temia Malthus, mas pela falta de gente.


São Paulo, 24.02.2023.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

 A EDUCAÇÃO 



Todos nós temos, ao longo da vida, crises de  timidez. Ninguém passa ileso. Na puberdade,  principalmente , ela aflora . A insegurança está na sua causa. Podemos nos intimidar, esta é a origem do termo, frente á situações desconhecidas, como também naquelas em que estamos familiarizados,  mas sentimo-nos inseguros. Ainda que habituados, não estamos livres dela se  uma sensação de inferioridade nos inibe. O tímido usa do  silêncio ou da fuga, como defesa, para não expor o que acredita ser uma sua fraqueza.


Existem dois tipos principais de timidez, de acordo com a psicologia: a timidez crônica e a timidez situacional. Timidez crônica é caracterizada por ser um quadro constante, no qual a pessoa apresenta dificuldade em expressar suas emoções e opiniões em praticamente todos os aspectos da vida social e profissional.O único recurso para superar esta timidez é enfrenta-la. Fugir só reforça o sentimento. O que exige características de personalidade e inteligência capazes de se livrar das pressões externas.


A timidez situacional é a superada com a repetição da mesma situação. Só se manifesta em determinada circunstância , por isto classificada como situacional . Na medida em que o indivíduo supera o constrangimento, a timidez deixa de existir. 


A timidez tem a ver com a educação, que afeta mais ou menos as pessoas dependendo da suas características de personalidade. Há temperamentos mais ou menos sensíveis às críticas e restrições. São os pais  muito exigentes, críticos de todas as possíveis falhas dos filhos que os criam inseguros , tendendo à timidez.


Essa reação  apresentar-se-á sempre que o indivíduo — criança ou adulto —  é colocado em posições passíveis de críticas. Falar em público, estar em uma reunião com desconhecidos … entre outras formas de exposição, são fatores desencadeadores da timidez.


A puberdade é a fase em que mais sofre o tímido. Este limiar entre ser criança ou adulto,  com o acréscimo da autocrítica tornam o púbere mais frágil. A timidez cobra preço elevado, pois inibe as ações das suas vítimas. Ela pode prejudicar  as relações sociais, profissionais e amorosas… enfim a  vida.

Para o bem dos indivíduos, a  educação restritiva deve ser evitada. O que não é fácil , pois o desejo de pais bem intencionados  é criar um “ser perfeito”. E quanto mais querem corrigir os desvios dos filhos, principalmente alguma característica que não aprovam em si mesmos, mais críticos se tornam. Quanto mais projetam em si mesmos  “erros”  dos filhos; quanto mais procuram ver nos filhos/as  aquelas qualidades que gostariam de ter e não tem,  mais rigorosos são . 



A contrapartida a uma educação restritiva é a  licenciosidade. São os casos de  pais omissos que criam os filhos “soltos” — onde tudo é permitido e nada é censurado. O resultado sao indivíduos egocêntricos,  desrespeitosos, que comportam-se como  centro do mundo e “merecedores” de todas as atenções.


O processo de educação é como uma corrente: um elo puxa o outro. Segue de geração a geração. Os educados em um dos regimes — restritivo ou licencioso — tendem a reproduzir  os mesmos métodos nos seu processo educativo, Dificilmente  um filho de pais  autoritários deixará de ser um autoritário.  Como também nunca um indivíduo criado de pais liberais deixará de valorizar a liberdade. 


O ideal da formação do  ser humano é a busca da autonomia. Segundo Kant (1724-1804) :   “autonomia  é a capacidade da vontade humana de se autodeterminar segundo uma legislação moral por ela mesma estabelecida, livre de qualquer fator estranho ou exógeno com uma influência subjugante, tal como uma paixão ou uma inclinação afetiva incoercível, consciente da sua individualidade”.


A educação, de forma geral, é mais  restritiva no mundo em geral   em relação a dos países anglo-saxônios. A diferença fundamental está na crença na liberdade individual. O individualismo está na base dessas culturas. Se enunciar as duas correntes de comportamento pode ser fácil , podendo até ter as suas técnicas, a correta medida entre a liberdade e a licenciosidade  é uma arte. Difícil, portanto, estabelecer as dosagens. Seria como na pintura ou na musica, em que se  pode transmitir uma técnica, mas nunca a arte.


Felizmente, a natureza nos proveu da : - inteligência para superar as barreiras que nos incomodam; -  e do sentimento do amor, que compensa os nossos erros como educadores. Diz bem a sabedoria popular: - amor com amor se paga. 


A educação : o que é feito com amor com amor é avaliado.




São Paulo, 21 de novembro de 2022.

Jorge Wilson Simeira Jacob

domingo, 12 de fevereiro de 2023

 KIBUTZ


O fim do Império Otomano aconteceu com a sua derrota na Primeira Guerra Mundial. A partir daí a Grã-Bretanha administrou o Oriente Médio até o final da Segunda Guerra Mundial. Ao contrário dos otomanos, os britânicos facilitaram  a aquisição de terras por organizações sionistas internacionais, que desejavam estabelecer um Estado de Israel. O retorno à Terra Prometida e as perseguições aos judeus na Rússia Imperial, deram impulso à imigração.


O Holocausto, que tanto sensibilizou o mundo,  propiciou a criação do Estado de Israel : como ideal religioso — o retorno à Terra da Promissão — e como uma visão política — desejo de um lar seguro. A Grã-Bretanha, diante da pressão da comunidade judaica pela criação de um estado judaico na região, e sob o lema romano de “dividir para governar” , criou  três estados na região, entre eles  um território judeu.


Uma organização sionista internacional financiou a criação de núcleos judeus na então Palestina. Estes, influenciados pelo socialismo da URSS e pelo espírito religioso, organizaram-se em sociedades coletivistas — os Kibutzim  (em hebraico, estabelecimento coletivo, comunidade voluntária onde as pessoas vivem e trabalham sem competir entre si).


O kibutz surge como uma forma de coletividade comunitária israelita. Apesar de existirem empresas comunais em outros países, em nenhum outro as comunidades colectivas voluntárias desempenharam papel tão importante como o dos kibutzim em Israel, onde tiveram função essencial na criação do Estado judeu. Um  Kibutz era uma forma mais segura de viver no meio de um ambiente hostil.Uma razão pela qual os socialistas apoiaram muito Israel em suas primeiras duas décadas de existência é que os kibutzim representavam o socialismo em sua mais pura forma.




Os idealizadores dos Kibutzim , influenciados pela experiência das suas vidas nas terras de origem, onde eram tratados como escravos, elegeram o ideal socialista da igualdade. No princípio,  praticavam a lei do marxismo :  “de todos de acordo com as suas possibilidades e para todos , com as suas necessidades”.



A prática, porém, ao longo do tempo não sobreviveu à realidade. Os Kibutzim, como todas as organizações humanas, foram adaptando-se às características da natureza do homem. Não só as ambições dos mais capazes pedia diferentes participação nos resultados, como também os núcleos foram desenvolvendo vocações diferentes. De unidades fundamentalmente agrícolas, tornaram-se prósperos empreendimentos comerciais e industriais. 


Também o pouco estímulo ao uso econômico dos recursos, desde que a comida, a água e a energia elétrica eram gratuitas, ensejava desperdícios indesejáveis. Instituído a cobrança individual das contas , os kibutzniks precisavam  de fato de ter  dinheiro pessoal. O refeitório também foi uma das primeiras coisas a mudar. Quando a comida era "gratuita", as pessoas não tinham incentivo para pegar o montante apropriado. Cada refeitório de kibutz terminaria a noite com quantias enormes de comida a mais; geralmente essa comida era dada aos animais. Agora, 75 por cento dos refeitórios de kibutz são pagos conforme o consumo em lanchonetes a la carte. Foi a volta ao individualismo.



Fazendo de muitos deles  empreendimentos deficitários, que tinham que ser subsidiados pelo governo ou pelo sionismo internacional. O ímpeto inicial — heroico — do fervor religioso foi sendo abatido pelo individualismo. O socialismo só sobrevive em núcleos muito pequenos, como a família, mas assim mesmo se há uma união muito forte em torno de valores e princípios.


Os Kibutz não foram exceção. Passada a fase histórica do fervor religioso que durou algumas décadas, foram sendo abandonados. Foi mais uma ideia romântica fracassada da eliminação do individualismo em benefício do coletivismo. Destas experiências a mais duradoura foi da própria URSS, mas mantida debaixo de forte pressão policial, que sobreviveu pela força até que “as suas vítimas a derrubaram”.


Segundo a Wikipedia, “ em 1950, 65 mil pessoas, cerca de 5% da população nacional, viviam nessas comunidades, que permaneceram populares até a década de 1980, quando enfrentaram a pior inimiga do socialismo, que é a realidade!


Embora o primeiro sinal de problemas no paraíso tenha sido a revolta contra a criação coletiva de filhos, Joshua Muravchik, que documentou a ascensão e queda do kibutz, explica que havia outra força poderosa que os utópicos não levaram em consideração: o crescente desejo das mulheres por terem roupas próprias, em vez de usarem peças de propriedade coletiva. Como alertaram os pioneiros, isso abriu uma Caixa de Pandora de individualismo. Se você pode possuir trajes, por que não produtos de higiene pessoal, móveis ou até geladeiras? Confirmou-se o óbvio, ou seja, as pessoas fazem melhor uso do dinheiro quando ele é seu.


A sequência foi que os mais talentosos e esforçados começaram a sair do sistema, o que foi um golpe para o movimento. Os kibutzim começaram a empregar gerentes externos e a atribuir salários de acordo com os níveis de habilidade, algo contrário aos seus princípios socialistas. Em uma resposta reveladora à pergunta do ensaio “No socialismo, quem vai tirar o lixo?”, eles começaram a contratar mão de obra não qualificada. 


A partir daquele momento, a maioria dos kibutzim privatizou-se, dando a cada membro o direito a suas residências e uma participação individual em sua fábrica ou terreno. Apenas alguns ainda aderem aos ideais comunais tradicionais, geralmente os religiosos.


De fato, não apenas o kibutz quase desapareceu totalmente como foi concebido, mas toda a nação de Israel moveu-se significativamente na direção dos mercados livres”. 


Os Kibutz foi um laboratório de mais uma experiência coletivista fracassada!


São Paulo, 16 de novembro de 2022.

Jorge Wilson Simeira Jacob


segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

 A REFORMA POLÍTICA.



Dentre tantos vícios humanos, um que merece destaque, por seus efeitos deletérios , é a vaidade. Ela é a embocadura da arrogância. O vaidoso acreditando ser aquele que gostaria de ser, assume  posturas audaciosas,  arrogantes. Por ter ganho uma eleição, perde a noção de como a glória é efêmera. Perde a medida dos seus limites. E esta é , no geral , a causa da sua perdição. 


Nenhuma ação humana alimenta mais a vaidade do que o exercício da atividade política. Nos regimes autocráticos, monarquias, ditaduras e pseudo-democracias, é onde encontram-se os ninhos ideais para a satisfação da vaidade. Um poder dividido não atende a ganância de um autoritário. Ele sempre acredita poder ter mais.


Nas democracias plenas, seguindo o modelo genialmente arquitetado por Montesquieu, que dividiu o Estado entre três poderes, executivo, legislativo e judiciário, nenhum homem tem o direito de ter poder absoluto contra qualquer  cidadão. Mesmo o mais humilde deles. Ninguém pode exercer um cargo público sem limitações.


Se na teoria da democracia plena a divisão de poderes tem o sabido “check and balance”, que significa que o que um faz deve ser conferido e avaliado pelos outros poderes. E a Constituição é o parâmetro de todas as decisões. Ela representa a vontade do povo. Pelo menos esta é a ideia. Na prática, porém, nem sempre é assim que funciona.


Não por menos,  por ser o berço de Montesquieu, a França separa o Estado do Governo —  sistema semi-presidencialista. O presidente representa o estado e um primeiro ministro, o governo. A câmara dos deputados são eleitos diretamente pelo eleitorado e os senadores, em segundo turno, escolhidos por todos os eleitos na última eleição— um número de 165.000 eleitores. Dando assim um perfil mais  conservador ao senado. O judiciário também segue um processo seletivo de escolha.


No Brasil, temos um presidencialismo , mas não pleno, mas ainda assim dando muito poder ao  executivo. Eleito por voto popular direto, que estimula o governo baseado na popularidade carismática do presidente. Enfraquecendo o “check  and balance” existente no sistema americano e francês.


Depois de alguns anos de nossa prática de uma democracia parcial, algumas situações fazem pensar.  Chama atenção a instabilidade política em que vivemos. O impeachment virou moeda corrente. A conclusão, como vamos apontar, são as nossas instituições que exacerbam a vaidade dos políticos , principalmente na presidência, levando-os à arrogância de serem merecedores de mais poder. Evidentemente o populismo é o instrumento dessa arrogância .



Também merece atenção  as tentativas dos presidentes  apoiarem -se na opinião pública para subjugar os outros poderes. Ou o judiciário “ legislar e punir  em vez de só julgar”.  Ou o legislativo criar um grupo alinhado — Centrão —  para “ negociar” as leis…ou um impeachment.


O equilíbrio de forças é deveras muito difícil. No presidencialismo  o presidente tem muito poder e alta exposição. Uma tentação para os bajuladores o influenciarem a um viés totalitário. Na prática,  no poder esquecem , por acreditar no carisma pessoal, poder chegar ao poder absoluto aliciando as massas. E tome populismo nas campanhas eleiçoreiras e mesmo durante o governo.


Atendo à história recente do Brasil, vemos que várias  tentativas foram feitas e todas tiveram o mesmo desfecho — o fracasso. É essa coerência que indica a necessidade de uma verdadeira reforma política como fez De Gaulle na França. 


Lembremos:

  - Jânio Quadros surfava nos píncaros da popularidade. As suas ações moralistas, até ridículas, como a proibição do Bikini, as brigas de galo e posturas de policial do trânsito, tinham grande popularidade. Fazia pouco caso do “establishment”. As forças ocultas , alegou, o impediam de governar. Renunciou  para, a exemplo de De Gaulle, voltar com plenos poderes. A arrogância custou-lhe o cargo.


 - João Goulard, um êmulo em incompetência à Dilma Rousseff, apostou no apoio dos Sindicatos, ignorou o “establishment “ e foi deposto. Teve os  parceiros errados. O erro custou-lhe o cargo.


 - Fernando Collor dava mostras de onipotência. Nem com o irmão dividiu o butim da corrupção. Apelou para a opinião pública. Ficou isolado. O final foi o impeachment 


Em nossos dias chega a vez do Jair Bolsonaro. Eleito principalmente com a promessa de moralização dos costumes; na  liberalização da economia para dinamizar o desenvolvimento e reduzir a corrupção. Prometia o fim do” toma cá, dá lá” , baseando o apoio político em diversas bancadas, a evangélica, a da bala, a agrícola… O que o libertaria do Centrão. Só no meio termo do seu mandato, quando não conseguia ter aprovados os seus projetos no legislativo, rendeu-se ao Centrão.


 Mas, individualista, fechou-se na família, não conseguiu agregar apoio no establishment: 

 - Os militares não se engajaram na defesa do seu governo;

 - Os conservadores e os liberais consideravam-se traídos pelas promessas não cumpridas.

 -  A imprensa, os artistas, a quem    criticava pelas verbas generosas das estatais e da mamata da Lei Rouanet fincaram estacas de oposição contribuindo para o seu estilo pouco afeito à conciliação. De discurso grosseiro, morreu como peixe — mais pela boca e  menos pelo fez.


A arrogância de Bolsonaro custou-lhe a reeleição e aos eleitores liberais-conservadores o vazio de uma liderança. Este é um mal  legado do seu  governo: deixar a oposição sem um líder.


O presidente Lulla, experiente na arte das eleições, montou uma equipe de governo com um único critério —  cooptar o apoio do establishment político , pois sem ele o Brasil está ingovernável. Mas deste  nível de equipe nada de bom pode se esperar.


Será um estadista Lulla, se usando a sua habilidade como manipular das pessoas, e  o momentâneo crédito de inicio de governo,   colocar como  prioridade a Reforma Política para limitar  a arrogância dos poderosos e tornar o Brasil governável.Se isto não acontecer, na dá para ser otimista com o futuro do Brasil.


Sao Paulo, 26 de janeiro de 2023.

Jorge Wilson Simeira Jacob


sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

 A MINHA FORMAÇÃO.


O tempo é a mãe da verdade. Nada como o tempo para depurar os fatos. Um livro pode ganhar notoriedade momentânea mesmo tendo pouco valor, mas só os clássicos superam o tempo. Por isto, ainda que não ignore a importância de  textos novos, escolho também para minhas leituras alguns  dos clássicos. A Minha Formação de Joaquim Nabuco, que está sempre na lista dos recomendados nas escolas, é um  desses. Vale a pena ser lido. Venceu o tempo por seus méritos.




Joaquim Nabuco foi um político nos anos finais da monarquia, que notabilizou-se na luta pelo fim da escravidão no país. De família de políticos destacados, Nabuco era um grande orador e homem de letras. Autor do A Minha Formação, Um Estadista no Império e Das Pensees Detachées entre outros. Por trinta anos empenhou-se ao lado de outros liberais pelo abolicionismo. De visão perspicaz, tendo vivido certo tempo no exterior, faz uma análise comparativa das características do povo inglês, francês, americano e nós.


Chama a atenção no texto descobrir como a cultura de um povo pouco altera-se na sua essência ao passar de quase dois séculos. Os povos, inclusive nós, já éramos culturalmente o que somos depois de tantos anos. Entre os submetidos à sua análise, ainda que reconheça valores nos franceses, nos americanos, destaca os ingleses. Ele amava Londres!


Disse Nabuco: - “ só há… um um grande país livre no mundo. A Suíça é um país livre, mas é pequeno; os Estados Unidos é livre, mas há nele, sem falar na sua justiça,  a lei de Lynch, que lhe está no sangue… A França é um grande país e livre, mas sem espírito de liberdade arraigado, sempre sujeito às crises das revoluções e da glória. Surpreende na Inglaterra o governo da Câmara dos Comuns, a sua suscetibilidade às oscilações do sentimento público. Sobretudo a autoridade dos juízes. Só há um país do mundo onde os juízes são mais fortes do que os poderosos: é a Inglaterra”.


A par da liberdade, Nabuco dá atenção à tradição, como base do temperamento nacional. “ O inglês compreende e penetra a grandeza do sistema que se perpetua mais do que as revoluções, ao contrário do latino, que pode viver e ser  feliz em solo político oscilante, sujeito a terremotos contínuos… O progresso é  governado por algumas regras elementares: conservar do existente tudo o que não seja obstáculo invencível ao melhoramento indispensável; outra que o melhoramento justifique o sacrifício da tradição; outra regra é respeitar o inútil que tenha o cunho de uma época; outra deixar ao tempo a incumbência de experimentar o novo…dessas regras resulta o dever de demolir com o mesmo amor e cuidado o que outras épocas edificaram”.


Nabuco herdou o seu liberalismo do pai, Senador Nabuco.As ideias da liberdade individual desde cedo colocaram o seu talento de escritor, orador e político na luta pela libertação dos escravos. Nabuco não media esforços e assumia os riscos  em defesa do abolicionismo . Foi ter com o Papa Leão Xlll para pedir uma encíclica que orientasse os padres em defesa dos escravos, pois o clero mostrava-se indiferente à sorte dos escravos. Mostrou ao Papa que os libertos seriam acréscimos  ao seu rebanho. Encíclica que, prometida, só foi publicada depois do 13 de Maio, depois da Lei Áurea. 


Dois episódios das vidas dos escravos marcaram Nabuco. Quando menino, sentado na varanda da casa da fazenda onde foi criado, um jovem escravo, nos seus dezoito anos, lança-se aos seus pés implorando para que fosse comprado, pois no engenho vizinho era muito maltratado…e não aguentava mais. Outro foi o caso de um escravo que suicidou-se quando soube ter Nabuco não ter sido reeleito.


O 13 de maio, um movimento dos liberais,  foi um golpe fatal na Monarquia, em 15 de novembro. Mesmo assim , segundo Nabuco, a princesa imperial dirige-se ao abolicionista Rebouças no vapor Alagoas, que os levava para o exílio, dizendo: “ se houvesse ainda escravos no Brasil, nós voltaríamos para libertá-los”. Desnecessário alertar ao fato de ser Nabuco um admirador de Dom Pedro ll, a quem descreve como um estadista e homem virtuoso.


Nabuco viveu intensamente como  intelectual e político. Conviveu com inúmeros nomes históricos do Brasil e do mundo. Foi um expoente no seu tempo. Amante da liberdade, que não queria só para si, mas para todos. Morreu como embaixador brasileiro em Washington, em 1910, aos sessenta anos de idade. Seu corpo foi transportado para o Brasil a bordo do cruzador americano, o North Carolina, destacado para essa missão, e comboiado pelo encouraçado brasileiro Minas Gerais para receber na pátria os funerais que a pátria reserva aos seus filhos ilustres.


O livro A Minha Formação de Joaquim Nabuco é um clássico —  por isto sobreviveu aos tempos.


São Paulo, 11 de janeiro de 2023.

Jorge Wilson Simeira Jacob