sábado, 27 de junho de 2026

 Uma história que se repete


Em 1876, o então imperador do Brasil esteve em visita de estado no Líbano. Interessado em atrair imigrantes para substituir o trabalho escravo, convidou os libaneses a virem para o Brasil.


A figura majestosa do imperador, a imagem de grande estadista e a sua eloquência caíram em ouvidos, até então, ávidos de esperança.


Os libaneses, sob o jugo do Império Otomano, não tinham expectativas de uma vida melhor. O clima de opressão restringia a liberdade política e religiosa. Majoritariamente cristãos maronitas, sofriam com imposições muçulmanas — principalmente o recrutamento de jovens a partir dos 14 anos, destinados às guerras do império.


Na família Deud, eram cinco jovens adolescentes, na idade prestes ao serviço militar. Católicos maronitas, sem outra perspectiva que não o exército, arrumaram as malas e seguiram o chamado de D. Pedro II.


Desembarcaram em Santos, depois de dois meses navegando, onde foram recebidos por um compatriota que os esperava. Segundo contam, era uma manhã ensolarada, clima ameno e uma brisa que lhes dava as boas-vindas, acariciando-lhes o rosto. Estavam felizes — como felizes são os que respiram o ar puro da liberdade e dão asas aos sonhos de uma vida melhor. A esperança é o melhor estímulo ao sonho de felicidade. O entusiasmo durou pouco.


O anfitrião os recebeu com palavras tristes: “vocês chegaram na hora errada. O Brasil acabou. As empresas estão falindo e a miséria é crescente”. O choque foi ainda maior quando as autoridades os mandaram encarcerar até ser esclarecida a dualidade de se declararem libaneses e portarem passaportes turcos. Após uma noite na prisão, esclarecida a validade dos documentos, foram liberados. Ainda sob o impacto da dura recepção, voltar não era alternativa. Só haveria um vapor depois de alguns meses.


Foram em frente, sem alternativa, embrenhando-se no interior de Minas Gerais, que diziam ser economicamente próspero.


Meu avô Deud Jacob registrou os filhos com o seu prenome — Jacob — por falha de entendimento do cartório, que não entendeu ser, na origem dele, a inversão do nome pelo sobrenome.


Uma inversão que o incomodava: perder a pátria, o Líbano que amava; portar passaporte turco, que tinha como inimigo; e ainda perder o sobrenome Deud, que gostaria de transmitir aos seus descendentes.


Passados exatamente 150 anos do convite de D. Pedro aos libaneses, um encontro se repete. Um outro Orleans e Bragança — o deputado federal Luiz Philippe de Orleans e Bragança, descendente ilustre do imperador — é convidado a palestrar sobre a conjuntura nacional para um pequeno grupo.


A história se repete, não como farsa. Um orador eloquente, com domínio do jogo político e solidez conceitual, convida o público a meditar no desafio que ameaça o futuro do Brasil — em que é imperativa uma reforma institucional para nos livrar da insignificância em que estamos submetidos.


A consciência do desafio não o assusta. A lucidez o faz ver caminhos; e a perspicácia política detecta oportunidades. Ele aposta no cansaço da população com as políticas dos populistas, que já não convencem.


Os pescadores observam o comportamento dos pássaros para antever a tempestade. O deputado Luiz Philippe olha a revoada dos políticos — que estão abandonando as bandeiras da esquerda e do centro no Brasil e no mundo — como prenúncio de que será possível a reforma institucional desejada. Ele vê oportunidade onde outros só enxergam as ameaças.


Meus avós, felizmente, atenderam ao chamado de um Orleans e Bragança, e somos gratos a ele. Agora, é a nossa vez de ouvir outro Orleans e Bragança e seguir acreditando que o futuro está ao nosso alcance, basta não se entregar ao desalento e manter a chama da esperança acesa.


Um chamado igual ao de 150 anos atrás, que não pede a troca do nosso nome e nem do nosso passaporte. O futuro está aqui. O Brasil não acabou!Uma história que se repete



São Paulo,24 de junho de 2026.

Jorge Wilson Simeira Jacob

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