sábado, 6 de junho de 2026

 A segurança como ideal supremo


Se não nasceu com o ser humano, quase. O medo é um sentimento profundamente arraigado à natureza humana. Ao longo da história, foi um dos instrumentos mais usados para disciplinar pessoas e sociedades. Por sua eficácia, é transmitido entre gerações. Não apenas as crianças são condicionadas pelo medo; também os adultos vivem sob sua influência.

Mas o medo não é apenas negativo. Ele impede que as pessoas corram riscos desnecessários à sobrevivência. Na vida selvagem, o homem temia as feras, as doenças, os fenômenos da natureza e, sobretudo, os outros homens. Com o avanço da civilização, organizada para oferecer proteção aos mais fracos, o uso legítimo da força tornou-se monopólio do Estado, que deveria exercê-lo para assegurar a paz social.

A passagem da vida selvagem para a civilização é marcada, acima de tudo, pela criação de instrumentos destinados a oferecer segurança. A tranquilidade física e psicológica do cidadão depende dessa sensação de proteção. Não apenas da integridade física, mas também do respeito às leis, à propriedade, ao direito de ir e vir e à liberdade de conduzir a própria vida, desde que não se prejudiquem terceiros.

Países jovens ou institucionalmente frágeis, em geral, não oferecem plenamente essa segurança. As leis são frequentemente desrespeitadas; a propriedade pode ser ameaçada tanto pela criminalidade quanto por formas de tributação percebidas como excessivas e imprevisíveis; e a violência física torna-se uma ameaça presente nas ruas e, por vezes, até dentro de casa.

Por que, então, as pessoas aceitam viver sob ameaça constante à sua segurança?

As razões são variadas. Vão do fator inercial — o “deixar como está para ver como fica” — às limitações econômicas, aos vínculos familiares e culturais. Mas talvez o principal elemento de permanência seja a esperança de dias melhores.

Enquanto o Brasil transmitia a imagem de um país em desenvolvimento e a promessa de um futuro mais próspero, atraía imigrantes e alimentava expectativas positivas. Hoje, para muitos, a percepção é inversa: cresce o desejo de emigrar, especialmente entre os jovens, que buscam no exterior oportunidades e maior previsibilidade de vida.

A segurança, em seu sentido mais amplo, acaba por se sobrepor a muitas das qualidades do Brasil. Viver aqui significa, frequentemente, pagar o preço da insegurança sem a garantia de uma recompensa futura — a esperança de um país onde o medo esteja restrito apenas aos riscos inevitáveis da existência, e não aos fracassos da civilidade.

Quando as instituições deixam de oferecer previsibilidade, o medo deixa de ser apenas uma emoção individual e passa a organizar a vida social e a segurança torna-se o ideal supremo.


São Paulo, 31 de maio de 2026.

Jorge Wilson Simeira Jacob


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