Devaneios Econômicos
Por que o Brasil insiste em repetir seus erros?
Não apenas os indivíduos que ignoram a história estão condenados a repetir os seus erros. As nações também. O Brasil oferece um exemplo recorrente dessa amnésia coletiva sempre que ressurge a crença de que o gasto público, por si só, é capaz de produzir prosperidade e que cabe ao Estado assumir o papel de principal motor do crescimento econômico.
A leitura de O Encilhamento, de Alfredo d’Escragnolle Taunay, ajuda a compreender essa ilusão. O romance tem como pano de fundo a crise financeira dos primeiros anos da República, quando o ministro da Fazenda Rui Barbosa estimulou a expansão do crédito e a emissão de moeda com o objetivo de acelerar a industrialização do país.
O resultado foi exatamente o contrário do pretendido: especulação desenfreada, inflação, empresas fictícias, colapso da Bolsa do Rio de Janeiro e profunda instabilidade econômica e política. O episódio tornou-se um dos exemplos clássicos dos riscos de tentar substituir riqueza real por expansão artificial da moeda.
Intelectuais como Pandiá Calógeras analisaram aquele período como uma sucessão de devaneios econômicos pagos a alto custo pela sociedade. A lição parecia inequívoca: desenvolvimento depende de produtividade, investimento e segurança institucional, não da simples multiplicação do dinheiro ou do aumento indiscriminado dos gastos públicos.
Décadas depois, o país voltou a apostar na mesma lógica. O desenvolvimentismo do governo Juscelino Kubitschek promoveu grandes obras e ampliou a participação do Estado na economia. Brasília tornou-se o símbolo dessa visão: uma realização monumental, mas financiada com desequilíbrios fiscais e inflação crescente, cujos efeitos se estenderam pelos anos seguintes.
A deterioração das contas públicas, somada a um ambiente político cada vez mais radicalizado, contribuiu para a instabilidade que culminaria na ruptura institucional de 1964. Embora muitos fatores tenham concorrido para esse desfecho, é difícil ignorar o papel desempenhado pelo descontrole econômico.
Passadas tantas décadas, o debate permanece surpreendentemente atual. Continua forte a convicção de que mais gastos públicos, mais impostos e maior intervenção estatal seriam capazes de produzir crescimento sustentável, apesar das repetidas evidências em contrário.
O Estado tem funções essenciais e insubstituíveis: a soberania nacional; a segurança jurídica, econômica e física; infraestrutura e estabilidade monetária. O que a história brasileira recomenda é prudência diante da tentação de imaginar que prosperidade possa ser criada por decreto ou financiada indefinidamente pelo endividamento e pela emissão de moeda.
A história não condena os governos à irrelevância; condena apenas a reincidência nos mesmos equívocos. Quando o voluntarismo político substitui a responsabilidade fiscal e a eficiência econômica, os resultados costumam ser previsíveis: inflação, perda de confiança, baixo crescimento e empobrecimento da sociedade.
Os devaneios mudam de nome, de partido e de época. Os seus custos, porém, continuam sendo pagos pelos mesmos contribuintes.
São Paulo, 19 de janeiro de 2026.
Jorge Wilson Simeira Jacob
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