sexta-feira, 26 de março de 2021

  Ordem sem progresso.



A capacidade de síntese é um dos mais significativos sinais da inteligência humana. As mentes limitadas e pobres de conhecimento são naturalmente confusas, o que as leva à prolixidade. Elas têm dificuldade de expressão por não terem domínio do assunto e talento para simplificar. A dificuldade também é influenciada pela falta da sensibilidade  de provocar ideias, que racionalmente ordenadas levam à síntese. Um exemplo clássico é Issac Newton, sensível ao mundo que o cercava e com boa base científica, explicou a ordem do Universo em uma síntese - a Lei Da Gravidade. Porém, deve-se considerar que Newton, por mais genial que tenha sido, como todos os outros gênios da humanidade, tinha a sua sensibilidade e conhecimento limitados à sua área de interesse. Da mesma forma que Beethoven não desenvolveria as Leis de Newton, este não comporia a Nona Sinfonia daquele.


Este preâmbulo, é um nariz de cera*  a  estimular a análise das nossas divergências  com relação aos diversos aspectos da vida, como a religião, a política, a economia, o coronavírus ... . Estas discussões são intermináveis, não conclusivas e  não levam ao  acordo  as partes,  por não existir no grupo a mesma sensibilidade e conhecimento. Por exemplo, pensando no futuro do Brasil, os positivistas, sintetizam na crença de que  ordem é progresso. Por isto , vão sempre pedir mais governo, mais uma lei, mais uma punição, cujo resultado tem sido perverso: - quanto mais tem aumentado o poder do governo, menos tem sido  o crescimento econômico e a qualidade de vida.  Os  liberais, que atribuem a causa do  desenvolvimento à ação humana e não à ação governamental, sintetizam na ideia do máximo respeito  à liberdade individual. Quanto mais livre for o ser humano para empreender, maior o espaço para a inovação e o incentivo ao trabalho. O governo tem o poder de distribuir as riquezas, mas nada cria...a não ser leis! Portanto, deve ser o mínimo.


Entretanto, nem toda síntese é correta. Ptolomeu explicava à sua maneira a ordem universal. Estava errado! Marx sintetizava como a causa de todos os males a luta de classes. Estava errado! Laura Karpuska,** em maravilhoso artigo publicado no Estadão, sintetiza como causa básica do desenvolvimento a qualidade das instituições, baseada na teoria que deu o Nobel de Economia a Douglas North, em 1993 . Segundo ela,  a qualidade institucional, que respeita a liberdade é fundamental ao desenvolvimento. Ela está certa! Ordem com má qualidade das instituições, como temos no Brasil, é retrocesso, ordem não garante o progresso. Por isto temos ordem sem progresso!


  • O jargão 'nariz de cera' é daqueles assuntos controversos no jornalismo . O termo foi criado para determinar o texto (geralmente impressões pessoais) usado no início das matérias ...
  • ** Laura Karpuska, artigo Liberdade, Estadão, 26. 03. 21, pág. b6, Economia
  • *** De acordo com Douglass North, em seu livro Instituições, Mudança Institucional e Performance Econômica (1990), a causa da pobreza de uma nação, tanto relativa quanto absoluta, está no fato de essa ser vítima de uma estrutura institucional que não promova o crescimento.


 O Admirável Mundo Novo.



Minh’alma carrega triste saudade

Do respeito à individualidade,

De não ter a vida devassada,

O recato e  a intimidade roubada.


Sente falta imensa  da privacidade,

De ser dono da própria  intimidade, 

De viver sem a alheia  intromissão.

Do sabor de sentir-se só na multidão.



Solidão, solidão por  que me deixou,

Se a cultivei com tanto calor e  respeito,

Guardando-a carinhosamente no  peito?

Solidão, por que vc me abandonou?



Só vc permitia  que eu fosse eu mesmo,

Vivesse, andasse e pensasse a esmo,

Vivenciando história  a não ser contada

Jogando  o  jogo  do tudo ou nada.


Volte solidão! Volte a ser parte da nossa vida

Minh’alma tem saudades da liberdade perdida.

Ela hoje  treme de medo desta nova realidade,

Que abusa e desrespeita a nossa privacidade.



Jorge Wilson Simeira Jacob

São Paulo, 16 de março de 2021.














 Ordem sem progresso.



A capacidade de síntese é um dos mais significativos sinais da inteligência humana. As mentes limitadas e pobres de conhecimento são naturalmente confusas, o que as leva à prolixidade. Elas têm dificuldade de expressão por não terem domínio do assunto e talento para simplificar. A dificuldade também é influenciada pela falta da sensibilidade  de provocar ideias, que racionalmente ordenadas levam à síntese. Um exemplo clássico é Issac Newton, sensível ao mundo que o cercava e com boa base científica, explicou a ordem do Universo em uma síntese - a Lei Da Gravidade. Porém, deve-se considerar que Newton, por mais genial que tenha sido, como todos os outros gênios da humanidade, tinha a sua sensibilidade e conhecimento limitados à sua área de interesse. Da mesma forma que Beethoven não desenvolveria as Leis de Newton, este não comporia a Nona Sinfonia daquele.


Este preâmbulo, é um nariz de cera*  a  estimular a análise das nossas divergências  com relação aos diversos aspectos da vida, como a religião, a política, a economia, o coronavírus ... . Estas discussões são intermináveis, não conclusivas e  não levam ao  acordo  as partes,  por não existir no grupo a mesma sensibilidade e conhecimento. Por exemplo, pensando no futuro do Brasil, os positivistas, sintetizam na crença de que  ordem é progresso. Por isto , vão sempre pedir mais governo, mais uma lei, mais uma punição, cujo resultado tem sido perverso: - quanto mais tem aumentado o poder do governo, menos tem sido  o crescimento econômico e a qualidade de vida.  Os  liberais, que atribuem a causa do  desenvolvimento à ação humana e não à ação governamental, sintetizam na ideia do máximo respeito  à liberdade individual. Quanto mais livre for o ser humano para empreender, maior o espaço para a inovação e o incentivo ao trabalho. O governo tem o poder de distribuir as riquezas, mas nada cria...a não ser leis! Portanto, deve ser o mínimo.


Entretanto, nem toda síntese é correta. Ptolomeu explicava à sua maneira a ordem universal. Estava errado! Marx sintetizava como a causa de todos os males a luta de classes. Estava errado! Laura Karpuska,** em maravilhoso artigo publicado no Estadão, sintetiza como causa básica do desenvolvimento a qualidade das instituições, baseada na teoria que deu o Nobel de Economia a Douglas North, em 1993 . Segundo ela,  a qualidade institucional, que respeita a liberdade é fundamental ao desenvolvimento. Ela está certa! Ordem com má qualidade das instituições, como temos no Brasil, é retrocesso, ordem não garante o progresso. Por isto temos ordem sem progresso!


  • O jargão 'nariz de cera' é daqueles assuntos controversos no jornalismo . O termo foi criado para determinar o texto (geralmente impressões pessoais) usado no início das matérias ...
  • ** Laura Karpuska, artigo Liberdade, Estadão, 26. 03. 21, pág. b6, Economia
  • *** De acordo com Douglass North, em seu livro Instituições, Mudança Institucional e Performance Econômica (1990), a causa da pobreza de uma nação, tanto relativa quanto absoluta, está no fato de essa ser vítima de uma estrutura institucional que não promova o crescimento.


São Paulo, 26 de março de 2021.

Jorge Wilson Simeira Jacob

sexta-feira, 12 de março de 2021

 Um bel giorno cambierà


À neta Silvia 


Vedrai, vedrai

Vedrai che cambierà

Forse non sarà domani

Ma un bel giorno cambierà

Canção de Luigi Tenco



Em tempos de coronavírus:


O sol deixou d’ iluminar,

A lua se nega a brilhar .

Cinzento está o céu 

E as ruas vazias, ao léu.

Os amigos desaparecidos, 

Os contatos reduzidos,

Os  corações encolhidos.

Os  sonhos murcharam, 

Os empregos sumiram

E as mentes se turvaram.

O futuro foi  assassinado:

Trabalhar virou pecado,

Tudo está triste, acabado,

O prazer de viver foi castrado



Ficou a melancolia:


Da liberdade de ir e vir,

De ter muito do que rir.

Da descoberta do amor,

E dos  humanos o  calor.

Da busca da felicidade,

Do cultivo da amizade,

Do burburinho da cidade,

Do ser parte da comunidade,

Da fé na humanidade.



Restou a esperança:


Verá, verá,

Verá, que um dia mudará,

Talvez não será amanhã, 

Mas um belo dia mudará :


O sol voltará a iluminar,

A lua a brilhar, 

O céu será azulado,

Sem nuvens, estrelado, 

O trabalho estimulado,

As ruas movimentadas, 

As amizades renovadas,

Os sonhos renascerão, 

Os empregos voltarão,

Os amores florescerão,

A auto-estima  elevada, 

A felicidade encontrada.



Afinal

Os dias sombrios serão  lembranças,

Pobres e pálidas recordações,

De quem  não perdeu as esperanças,

Não deixou morrer a fé nos corações.


S.P. 12. 03. 2021.


Jorge Wilson Simeira Jacob






quinta-feira, 4 de março de 2021

 



Santo de casa...


Não é comum os santos de casa serem valorizados. Há que ser muito bom. Como é o caso do Dr. Jacy de Souza Mendonça - professor de Filosofia do Direito entre outros inúmeros  títulos.  Os seus livros são leituras úteis e prazeirosas para quem gosta de uma boa narrativa, mas exige conteúdo. Havia lido e apreciado o Homem e o Estado e ontem li Imortais  do Pensamento - Grandes Filósofos do Ocidente. Livro que quando foi-me presenteado pelo autor, subestimei. Erro grosseiro. A ideia é interessante e  executada com competência. Uma resenha de grandes pensadores com a essência das suas ideias e a sua importância no mundo.  É uma leitura obrigatória e agradável. Desconhecia alguns dos retratados, com a leitura tive uma visão histórica da evolução do pensamento e apreendi  detalhes que me haviam escapado. 


Como sempre acontece com os livros  que nos encantam, terminei a leitura  lamentando a lista das resenhas não ser mais ampla. Fiquei com gosto de quero mais na boca. O que fez sentir  a  falta de Herbert Spencer, de Schopenhauer e outros mais, mas tendo como consolação a  excelência do todo.


Leiam este santo caseiro. Vale a pena! Vale como uma mini enciclopédia para ser consultada. 


São Paulo, 04 de março de 2021.

Jorge Wilson Simeira Jacob

sábado, 27 de fevereiro de 2021

 O Grande Mistério.


Um compêndio de reflexões, como pretende ser este livro, não estaria completo se não abordasse a origem do Universo. Um desafio que tem como barreira a propensão humana de fugir das abstrações que não nos são inteligíveis. Como as crianças, diante de uma cena de horror, fechamos os olhos pretendendo fugir da realidade. E a  este mistério, a origem do Universo, enfrentamos de olhos fechados, pois é uma  realidade que  ultrapassa o nosso nível de compreensão. Não há uma narrativa com exemplos práticos, acessíveis mesmo às mentes privilegiadas. Só temos acesso a abstrações. No enfrentamento deste desafio duas correntes de pensamento - a religião e a ciência - tentam explicar o inexplicável - o mistério da existência do Universo.


As religiões, de forma sintética, atribuem à uma força superior, fetichismo, panteísmo, monoteísmo, a criação do mundo. As manifestações da natureza, raios, trovões, epidemias...eram entendidas como  mensagens divinas. A ignorância ensejava a proliferação de falsos profetas, os quais angariavam seguidores operando  supostos milagres: Abrahão, Moisés falavam com Deus; Jesus era filho do Criador; Maomé o seu profeta.  Os livros tidos como sagrados, O Velho e o Novo  Testamento, o Alcorão, foram  obras escritas por milhares de seguidores, que acrescentaram  ou mudaram  capítulos de acordo com as circunstâncias e as conveniências. A conjugação da ignorância com a lei do menor esforço protege as religiões dos questionamentos racionais. O conforto de ter uma resposta à grande questão acomoda as mentes, simplificando  tudo na Fé. 


A evolução da Ciência, no período denominado o Iluminismo, dá início ao questionamento da Fé e início da era da Razão. A Terra deixa de ser o centro do Universo, os profetas não conseguem mais enganar os crédulos, os fenômenos da natureza têm explicações científicas, os milagres não mais ocorrem e as instituições humanas, as igrejas, perdem a aura de pureza e santidade. A interpretação da  Bíblia deixou de ser monopólio dos iluminados.  Não há mais espaço para o Crê Ou Morre do Islamismo e da Inquisição. Mas os avanços da ciência não responderam ao grande mistério, a Origem do Universo.  O darwinismo esclarece a evolução e sobrevivência dos mais aptos, mas silencia sobre o seu ponto inicial. O elo perdido não esta entre o homem e  o macaco, mas entre este e o seu antecessor. Se não há nem fé e nem razão para acreditar-se em um Criador, como tudo começou?


Este é o grande mistério!


A resposta religiosa  do Criador é  inaceitável com base na Razão. A Bíblia ou o Alcorão exigem muita fé para serem explicações aceitáveis. Não sobrevivem a um mínimo de ceticismo. São narrativas de contos de Mil e Uma Noites. O tempo, o espaço e a matéria  do Universo, com a sua complexidade sem limites, não permitem acreditar que um Deus todo poderoso teria interesse num micróbio chamado ser humano. As nossas limitações intelectuais e fragilidade psicológica não nos permitem viver sem uma explicação, ainda que absurda. Ficamos, então, entre o criacionismo e a geração espontânea. Como contraponto à resposta finita* da religião coloca-se a  infinita da ciência.  Stephen Hawking**  afirma ser o início  o Big Bang, pois antes dele nada existia. Antes dele não existia o tempo, portanto não se explica um deus, a menos que  deus seja um outro nome para a natureza. 


Se a Religião e a Ciência podem conciliar-se , a base da conciliação deve ser o mais profundo, amplo e acertado fato entre todos - o de que o poder manifesto do Universo é completamente incognoscível para nós - concluiu Spencer*** no texto Ideias Fundamentais Da Religião.


* Segundo Spencer: a causa é finita se existe algo exterior a ela, por exemplo Deus. É    infinita  ao não ter a resposta final.  Se Deus não existe, quem criou o espaço, o tempo e a matéria?

**Stephen Hawking, físico, citado no livro Breves Respostas Para Grandes Questões.

***Herbert Spencer, filósofo, extraído do livro Primeiros Princípios.



Jorge Wilson Simeira Jacob

São Paulo, 26 de fevereiro de 2021






quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

 A involução da espécie. 



No início dos tempos, a Terra foi povoada com uma infindável variedade de animais, cuja atividade  limitava-se  à sobrevivência - alimentação, proteção e sexo. Geração após geração espécies foram sendo dizimadas . Só sobreviveram as mais fortes ou as que se adaptaram aos inúmeros desafios da selva bruta. Entre os bem sucedidos destacou-se um tipo de símio, justamente um dos  mais fracos entre todos os habitantes.   Este conseguiu a proeza da sua sobrevivência , não por suas virtudes, mas por  ter  incorporado as características viciosas  dos outros. Surge então uma variante animal  que se  diferencia dos outros pelo uso da razão - o ser humano. Este torna-se uma síntese de todos os vícios de todas as especieis. Tomou a  vaidade do pavão, a empáfia do leão, a dissimulação do camaleão, a  covardia da hiena, o mimetismo do papagaio, a astúcia da raposa...além das próprias safadezas de macaco, que conservou. Com esta somatória  de vícios dominou todo  o reino animal.



 Os outros animais  não mais os viam como parte da vida selvagem. Entendiam que não guardavam , como eles, as  características naturais da sua própria espécie, pois  os humanos  agiam  de acordo com as circunstâncias e as  conveniências, eram imprevisíveis. Ora são dóceis, generosos, até honestos, ora  cruéis , invejosos, falsos, dominadores - sobretudo dissimulados. Enquanto os selvagem só caçam  para saciar a fome,  o humano o faz por prazer, por maldade e espírito de dominação. Principalmente diferenciam-se dos selvagens por serem os únicos animais predadores da própria espécie.


Os humanos , após se assenhorarem  do reino animal, não satisfeitos  na sua ganância dominadora, avançam para a dominação da sua própria espécie. Com astúcia formam Nações e organizam politicamente o Estado para viver às custas dos seus pares. A luta pela sobrevivência muda de patamar, sai da  esfera selvagem e passa para a civilizada. Os dominadores, agora chamados políticos, usam de todos os vícios adquiridos das feras:   enganam  os inocentes, exploram as fraquezas, trapaceiam os seus pares, mentem continuamente e prometem mundos e fundos, que sabem não irão cumprir. E como parte da luta pela sobrevivência, os vencedores, com honrosas excepções ,serão os que mais vícios tiverem e que com maior empenho os praticarem. As suas conquistas serão duradouras enquanto os ingênuos   não se derem conta de ser vítimas de uma involução que ameaça a própria espécie.



São Paulo, 28 de janeiro de 2021.