sábado, 20 de junho de 2026

 O capital é covarde


Até a Revolução Industrial, a maior parte das atividades produtivas exigia relativamente pouco capital. Ferramentas simples, pequenas oficinas e um estoque reduzido de matérias-primas eram suficientes para sustentar a produção. A agricultura demandava recursos mais expressivos, sobretudo para a aquisição de escravos, enquanto a terra era frequentemente obtida por ocupação ou concessão governamental.


Os grandes empreendimentos de navegação eram, em sua maioria, financiados pelos Estados, interessados na expansão de seus domínios. Apenas algumas iniciativas eram privadas. Um marco decisivo do capitalismo ocorreu quando empresários holandeses organizaram as Companhias das Índias, reunindo capitais de diversos investidores para explorar o comércio internacional e compartilhar riscos e lucros.


Com o avanço tecnológico, porém, os projetos tornaram-se cada vez mais caros e complexos. Nenhum investidor sensato estava disposto a comprometer todo o seu patrimônio em uma única aventura empresarial. Afinal, uma empresa está sujeita a mudanças de mercado, crises econômicas, inovações concorrentes e inúmeros outros fatores capazes de transformar uma boa ideia em um fracasso financeiro.


A necessidade de atrair investimentos levou ao surgimento das sociedades de responsabilidade limitada e, posteriormente, das sociedades anônimas. Com elas, o risco do investidor passou a restringir-se ao valor aplicado no empreendimento, preservando seu patrimônio pessoal.


Essa inovação jurídica foi tão importante para o desenvolvimento econômico quanto muitas invenções tecnológicas. 


Ao limitar as perdas potenciais de cada investidor, tornou-se possível reunir milhares de pequenos capitais para financiar empreendimentos que nenhum indivíduo assumiria sozinho.


Os países anglo-saxões compreenderam cedo que assumir riscos é condição indispensável ao progresso. Por isso, não transformaram o fracasso empresarial em condenação moral. Nos Estados Unidos, uma falência costuma ser vista como parte natural do processo empreendedor, e não como prova de incompetência ou desonestidade.


Um exemplo frequentemente citado é o de Donald Trump, que recorreu diversas vezes aos mecanismos legais de recuperação e reorganização empresarial sem que isso inviabilizasse seus negócios futuros ou sua carreira política. Seus insucessos não impediram a continuidade de novos empreendimentos nem sua eleição, por duas vezes, para a presidência dos Estados Unidos.


Paradoxalmente, muitos dos países que mais necessitam de investimentos privados convivem com um ambiente jurídico instável. Em determinadas situações, a desconsideração da personalidade jurídica acaba por esvaziar o princípio da limitação do risco. 


Administradores de empresas em dificuldades são obrigados a tomar decisões ousadas para tentar salvá-las: vendem ativos, renegociam dívidas, substituem fornecedores, contraem novos empréstimos e alteram estratégias. Se a recuperação for bem-sucedida, tais medidas são vistas como demonstração de competência. Se fracassar, as mesmas decisões podem passar a ser interpretadas, retrospectivamente, como indícios de fraude ou gestão temerária, expondo o patrimônio pessoal dos sócios e administradores.


Essa lógica cria um incentivo perverso. Quanto maior a possibilidade de responsabilização pessoal pelo simples insucesso, menor será a disposição dos empreendedores para assumir riscos, investir em projetos inovadores ou tentar recuperar empresas em crise. 


O resultado é previsível: investidores tornam-se mais cautelosos, empreendedores evitam projetos inovadores e a economia perde dinamismo.


Inovar é, por definição, correr riscos. O sucesso depende de inúmeros fatores, muitos deles imprevisíveis. As grandes histórias empresariais que chegam ao conhecimento público ocultam milhares de tentativas fracassadas que, embora invisíveis, também fazem parte do processo de criação e desenvolvimento.


O progresso depende do capital. Mas o capital é covarde: busca o lucro, porém teme ainda mais o prejuízo. Somente ambientes que oferecem segurança jurídica, respeito aos contratos e tolerância ao risco conseguem convencer investidores a financiar novas ideias.


Onde o fracasso é tratado como crime ou vergonha, a inovação perde espaço, o empreendedorismo se retrai e a prosperidade torna-se muito mais difícil de alcançar.


São Paulo, 16 de junho de 2026.

Jorge Wilson Simeira Jacob



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