sábado, 17 de janeiro de 2026

 Ideias certas não morrem


Entre as fragilidades humanas destaca-se a nossa vulnerabilidade diante de movimentos envolventes. Eles se apresentam como ondas: as do mar, dos ciclones… e das modas. Independentemente de sua qualidade — favorável ou desfavorável — espalham-se como pragas. Basta observar as tatuagens: uma moda de mau gosto que poupa poucos e heroicos resistentes.


As ondas manifestam-se ao longo da história não apenas como movimentos físicos ou de costumes, mas sobretudo como fenômenos culturais. Estes talvez sejam os mais penetrantes e duradouros. A virgindade feminina, por exemplo, transformou-se em tabu aceito até mesmo pelas vítimas — as próprias mulheres. As ideologias, por sua vez, tomaram conta de milhões, que sofreram com o comunismo, o nazismo, o fascismo.


Passado o tempo — e ponha-se tempo em algumas ondas — a consciência do absurdo surpreende até as vítimas. Com o predomínio de uma visão crítica, a reação costuma ser a perplexidade: como um povo civilizado, culto e politicamente engajado pôde permitir as loucuras de Hitler?


A resposta encontra-se na onda cultural. São ideias disseminadas com eloquência, revestidas de lógica aparente e coerência interna, propagadas por líderes carismáticos que atraem as massas. O homem comum raramente pensa por si mesmo; consome o prato pronto. Sair de uma onda cultural é quase um milagre. É mais natural ceder à moda da tatuagem do que resistir à regressão simbólica aos tempos primitivos.


As ideias que mais profundamente penetram na psique humana são aquelas que atendem às nossas conveniências. São as que respondem aos nossos anseios, medos e esperanças. O medo da morte alimenta as religiões que dão sentido à vida; a inveja e a insegurança num mundo competitivo alimentam o socialismo, que substitui a figura paterna; o esnobismo (do italiano sensa nobilità) concede um status social pretendido que eleva a autoestima . Assim se formam crenças que perduram até que uma força maior se imponha.


A força das ideias desencadeadas por lideranças carismáticas molda o mundo. Cristo, com sua pregação em favor dos pobres, da caridade e da fraternidade, atravessa dois mil anos — mesmo tendo seus ideais sido frequentemente abandonados por seus seguidores. Sua mensagem sobreviveu aos escândalos dos Bórgias, à Inquisição e até à institucionalização da pedofilia. Uma crença cujo prestação de contas se realiza após a morte tem longa vida: ninguém retorna para desmenti-la.


Já as crenças cujos resultados podem ser comprovados no plano terreno, como o socialismo ou o populismo peronista, não sobreviveram a um século sem desgaste. Nada indica que ressuscitarão como as tatuagens,   uma onda passageira  estas limitada à aparência e à autoestima. O socialismo, ao contrário, matando  nas prisões e pela fome acabou  desmoralizado, sobrevivendo só dos seus beneficiados.


Os resultados demoram, mas se impõem. O capitalismo, desenvolvido na Holanda no século XVIII, impulsionou a revolução cultural do Iluminismo, criou a classe média e tornou poderosas nações como Inglaterra e Estados Unidos. Por suprema ironia, enriquece hoje até a ditadura comunista chinesa.


As ideias vencedoras são como a videira: podadas, retornam com frutas melhores. O interregno socialista podou o capitalismo. Algumas reações  ocorreram com Reagan e Thatcher, mas foram insuficientes para transformar o mundo. Uma nova revolução cultural está em curso: a retomada da onda capitalista. Por isto menos do que uma redescoberta intelectual, essa ressurgência decorre de uma razão simples e pura: é a única crença que, na prática, reduziu a pobreza, fortaleceu nações e  o respeito à dignidade humana.

As ideias certas não morrem —simplesmente hibernam para voltarem mais fortes.

São Paulo, 21 de dezembro de 2025

Jorge Wilson Simeira Jacob 


Nenhum comentário:

Postar um comentário