sábado, 3 de janeiro de 2026

 O paradoxo da juventude: ter tudo e sentir o vazio 




Não apenas os remédios possuem efeitos colaterais. Na vida, tudo tem consequências — algumas causam mais mal do que bem. Apenas os que se recusam a encarar a realidade ignoram essa verdade elementar.


Uma dessas, a revolução tecnológica, ao colocar as comunicações em tempo real, abriu horizontes — não apenas físicos, mas também psicológicos. Se antes vivíamos confinados aos limites da nossa aldeia, enfrentando desafios proporcionais ao nosso entorno, hoje os horizontes parecem não ter fronteiras. Sabemos de tudo, de todos, e instantaneamente.


Essa ampliação do acesso à informação expandiu nossas possibilidades, mas, em contrapartida, multiplicou nossos desafios. Antes, nossos competidores eram os melhores da aldeia; hoje, são os melhores do mundo. O campo de comparação tornou-se global — e implacável.


As consequências, ou efeitos colaterais, são visíveis. O gráfico acima ilustra o crescimento consistente da depressão entre os jovens. Os dados confirmam o inconformismo de muitos pais, que não compreendem como, justamente agora, o sofrimento psíquico se intensifica.


Como entender — questionam eles — que jovens que nunca tiveram tanto acesso à informação, conforto, possibilidades e direitos convivam, paradoxalmente, com níveis tão elevados de vazio, angústia e depressão?


Diante disso, impõe-se a pergunta que incomoda: por que os jovens de ontem, com tão pouco, pareciam mais felizes, enquanto os de hoje, com quase tudo, padecem de tristeza?


Uma investigação em busca de resposta o ChatGPT oferece a seguinte reflexão.

No mundo antigo, o jovem nascia inserido em uma ordem. A vida lhe oferecia limites claros: a família, o ofício, a religião, a comunidade. Havia poucas escolhas, mas também poucas dúvidas. O sofrimento existia — e em grau intenso —, porém estava ancorado em uma narrativa compartilhada. Sofria-se para sustentar a casa, honrar um nome, sobreviver. A dor tinha rosto, causa e, muitas vezes, dignidade.


A juventude atual, ao contrário, nasce em um mundo que dissolveu as molduras. Tudo é possível, ao menos em tese. A promessa moderna é sedutora: seja o que quiser, vá aonde quiser, construa a si mesmo. Mas essa liberdade irrestrita cobra um preço alto. Quando tudo é escolha, todo fracasso parece culpa. Quando não há destino dado, cada vida precisa justificar a si mesma — e esse é um fardo que muitos não conseguem carregar.


Nietzsche já advertia que o homem não sucumbe ao sofrimento em si, mas à falta de sentido do sofrimento. Eis o núcleo da crise atual. O jovem moderno sofre, mas não sabe por quê; luta, mas não sabe por quem; corre, mas não sabe para onde. O passado oferecia menos conforto, porém mais orientação. O presente oferece mais meios, mas menos fins.


Some-se a isso a erosão da experiência do silêncio. O tédio, outrora fértil, foi banido. O recolhimento tornou-se raro. A consciência jovem é hoje atravessada por estímulos incessantes — telas, notificações, cobranças — que impedem a elaboração da dor. Sem tempo para digerir a própria angústia, ela se converte em ansiedade crônica ou depressão.


O paradoxo, portanto, não reside no fato de se ter tudo ou nada, mas na perda das estruturas que davam sentido ao pouco que se tinha. A felicidade nunca foi produto do conforto, mas do pertencimento. Nunca nasceu do excesso, mas da direção.


Talvez o desafio filosófico de nosso tempo seja este: reensinar o jovem a habitar limites, a reconhecer que nem toda dor é falha, que nem toda tristeza é patologia, e que a vida não se justifica pela acumulação, mas pela significação.


Sofrer por algo é menos destrutivo do que sofrer sem saber por quê.

E nenhuma abundância material é capaz de saciar uma alma que já não sabe para que vive.”


São Paulo, 13 de dezembro de 2025

Jorge Wilson Simeira Jacob