Quando o gato vira tigre
Em um antigo desenho animado, um caçador na selva africana avistou o rabo de uma caça que acreditava ser um gato Angorá. Curioso, aproximou-se cautelosamente para não afugentar o bichano. Foi bem-sucedido: o animal não fugiu. O caçador agarrou o rabo e puxou com violência. Para sua surpresa, atrás da árvore, em vez do gato, surgiu um feroz tigre. De caçador, passou a ser a caça.
Essa experiência do incauto caçador, embora em outro contexto, reflete situações que enfrentamos em nossas vivências. Um exemplo atual é a relação entre Trump e a China. O ex-presidente, ao desafiar o país asiático, acreditava lidar com um “gatinho”, mas descobriu um tigre. Embora não tenha se tornado a própria caça, o resultado foi igualmente inesperado.
Segundo o cientista político Henry Farrell, da Universidade Johns Hopkins, citado pelo Estadão em 19/10/2025:
“Os Estados Unidos agora precisam encarar o fato de que têm um adversário que pode ameaçar partes substanciais da economia americana. A China descobriu como seguir o exemplo dos EUA e, em certo sentido, jogar esse jogo melhor do que os EUA.”
Às ameaças de Trump, a China não se intimidou. O governo americano arquitetou, desde 2018, um bloqueio a todos os componentes necessários ao desenvolvimento de inteligência artificial chinês. A China, entretanto, reagiu, desenvolvendo alternativas que contornam a dependência dos chips americanos. Em contrapartida, impôs restrições estratégicas à exportação de “terras raras”, nas quais detém quase monopólio mundial. Como a indústria global depende desses insumos, a posição americana ficou inferior à chinesa.
Mais uma vez, o caçador se enganou pela aparente inferioridade da presa. Ao puxar o rabo do “gato”, descobriu que provocava um tigre. O melhor negociador é aquele que não subestima a outra parte; o pior é o que, como Trump, acredita que a força bruta basta. Sua arma limitada ao uso da força demonstrou-se insuficiente frente a um adversário estratégico e resiliente.
Quando a força falha, como na atual guerra comercial com a China, o gato realmente se transforma em tigre.
São Paulo, 18 de outubro de 2025
Jorge Wilson Simeira Jacob
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