sábado, 27 de dezembro de 2025

 


Espetáculo de absoluta amoralidade

Se quer conhecer um homem, dê-lhe poder. Poucas máximas resistem tão bem ao teste do tempo quanto esta. Embora raras sejam as verdades absolutas sobre o comportamento humano, o exercício do poder continua sendo um revelador implacável do caráter.


Desde os primórdios da civilização, o homem pouco mudou em sua estrutura psicológica. As transformações mais visíveis foram físicas: perdeu pelos, modificou a conformação do crânio, adaptou-se ao ambiente. Internamente, porém, permanece movido pelos mesmos impulsos fundamentais — ambição, medo, desejo de dominação.


Na escala das espécies, o ser humano se distingue como o mais perigoso dos predadores. Não apenas mata para sobreviver, como fazem os demais animais, mas também por prazer, ideologia ou conveniência. Nenhuma outra espécie se mostra tão criativa na crueldade.


A disputa pelo poder é, em essência, um jogo. Animais defendem territórios; homens defendem feudos políticos. A diferença é que, ao contrário dos irracionais, os humanos frequentemente desconhecem limites. É nas guerras e nas lutas políticas que se escancaram os piores instintos: traição, corrupção, violência e desprezo pela vida.


O que separa a civilização da barbárie é o escrúpulo — esse freio interno que submete a ação humana a critérios morais e éticos. O inescrupuloso age sem esse limite. Para ele, não importa a justiça do meio nem a dignidade do resultado. Vale o que favorece seus objetivos. Ideais dão lugar às conveniências.


A história oferece exemplos abundantes. Júlio César foi assassinado por Brutus, seu filho adotivo. O papa Alexandre VI cercou-se de assassinos e transformou a própria família em instrumento de poder. Em tempos modernos, impérios seguem invadindo vizinhos em nome de interesses estratégicos, sem constrangimento moral.


A política é o campo de prova definitivo do caráter. Para os inescrupulosos, a reação à derrota costuma revelar mais do que a vitória. O jogo político — o mais violento de todos — leva muitos a abdicar de qualquer valor para preservar o poder.


Diz-se, com razão, que no jogo e na bebida o homem mostra quem realmente é: no jogo, pela obsessão em vencer; na bebida, pela queda das inibições. Na política, ocorre o mesmo. Em disputas eleitorais brutais, os escrúpulos costumam ser descartados como obstáculos inconvenientes.


O cidadão comum, porém, frequentemente se ilude. Acredita no idealismo de líderes que já deram provas reiteradas de traição, irresponsabilidade e desvio ético. Narrativas vazias prosperam quando falta atenção aos fatos. Assim os políticos inescrupulosos vencem eleições.


Ninguém é menos confiável do que o inescrupuloso. A ausência de freios internos lhe concede liberdade absoluta — e nenhuma lei é suficiente para contê-lo. Nem mesmo os aliados estão a salvo: juramentos são feitos e desfeitos sem remorso, pois, entre iguais, a falta de escrúpulos é regra aceita do jogo.


Quem quiser entretenimento não precisa buscar ficção. Basta acompanhar a política nacional para assistir, em tempo real, a um espetáculo contínuo e emocionante de absoluta amoralidade.

São Paulo, 26 dezembro de 2025.

Jorge Wilson Simeira Jacob 


sábado, 20 de dezembro de 2025


Boas-vindas ao Ano Novo



As despedidas sempre carregam um sopro de melancolia. Quando alguém querido parte, sentimos na alma o peso da ausência anunciada — uma vontade secreta de que o tempo pare, como se isso pudesse nos poupar do porvir.


Nossas despedidas não se limitam às pessoas e coisas: despedimo-nos também do tempo que passa — esse tempo que nos leva algumas graças da juventude e, em troca, nos oferece a lucidez amadurecida da experiência.


O que vivemos, quando luminoso, deixa em nós o desejo íntimo de repetição; quando sombrio, reacende silenciosamente a esperança de um amanhã mais leve.


Assim chegamos ao fim de mais um ano — esse rio que correu entre águas serenas e contracorrentes. O último dia ergue-se como um portal simbólico: de um lado, o que desejamos esquecer; de outro, aquilo que ousamos sonhar.


A natureza — para uns — ou Deus — para outros — plantou em nós o instinto da sobrevivência. E a esperança é a seiva que nos mantém eretos diante do imprevisível.


Sem ela, a existência seria insuportável. Os irracionais vivem do instante; nós, porém, precisamos de memória e de horizonte, pois só assim o viver se converte em sentido.


Viver é travar batalhas contínuas numa guerra cuja lógica raramente se revela. Somos feitos de vitórias que nos animam e quedas que nos disciplinam. E, após cada queda, algo em nós insiste em se reerguer — essa centelha obstinada que chamamos esperança.


O Natal, com seu brilho antigo, convida-nos a libertar o melhor de nossos afetos: a ternura, a caridade, a fraternidade — formas puras do amor ao próximo.


E, no limiar de um novo ano, desejo a todos uma esperança que se renove, e que seus sonhos mais altos encontrem caminho para acontecer.


Agradeço, com gratidão serena, a generosidade dos meus leitores — por perdoarem meus equívocos e confiarem na honestidade das minhas impressões: jamais perfeitas, sempre sinceras. E ao  Jornal Opção a honra de, por seis anos,  com absoluta liberdade, fazer parte dos seus formadores de opinião. 


Que a felicidade, discreta ou radiante, habite cada um de vocês em todos os dias que virão a partir do novo ano.

Com toda a força das nossas esperanças,  damos as boas vindas ao Ano Novo!


São Paulo, 12 de dezembro de 2025.

Jorge Wilson Simeira Jacob


sábado, 13 de dezembro de 2025

 O inferno em vida!

Não está na Bíblia, mas se estivesse, ninguém duvidaria.

Trata-se de uma narrativa irônica da criação do mundo.


Conta-se que, ao distribuir equitativamente os bens entre as regiões da Terra, Deus — sempre justo — decidiu permitir o contraditório. E, para isso, ninguém melhor do que Satanás.


Convocado, o diabo aceitou na hora, impondo apenas uma regra: para cada dádiva generosa oferecida pelo Criador, ele apresentaria uma contraproposta destrutiva. Venceria o jogo aquele que conseguisse propor algo impossível de ser superado pelo adversário.


Deus começou:

— Darei aos países árabes o petróleo.

Satanás rebateu:

— Então eu lhes dou o deserto.


Deus seguiu:

— Aos ingleses darei civilidade.

O capeta sorriu:

— E eu compenso com a pior culinária do mundo.


E assim o duelo prosseguiu por horas.


Cansado, Deus resolveu encerrar com um xeque-mate:

— Ao Brasil eu darei o mais rico subsolo, um território vasto, fértil e acessível; um clima ameno, livre de furacões, terremotos e tsunamis. E, acima de tudo, um povo cordial, alegre e sociável.


Satanás se inflamou:

— Como pode um Deus justo dar tanto a um só país? Por que aos outros faltam água, sobram revoluções, calamidades — e ao Brasil, nada disso?


O Criador caiu na gargalhada. Estava certo de que o diabo não teria uma maldade capaz de  superar tamanha generosidade. Sentiu-se triunfante: só um Deus verdadeiramente brasileiro pensaria assim.


Mas Satanás não se intimidou.

— Agora, sim, meu xeque-mate: darei ao Brasil o pior que pode acontecer a um povo.


E mostrou ao Criador o quadro dos políticos que propunha para governar o país.


O riso divino cessou.

— Assim não. Nunca imaginei proposta tão cruel. Você venceu. Tudo o que eu dei aos brasileiros é pouco diante dessa infelicidade!  Isso, sim, é o inferno em vida!


E assim Satanás foi consagrado o patrono dos nossos políticos.

São Paulo, 08 de dezembro de 2025.

Jorge Wilson Simeira Jacob



sábado, 6 de dezembro de 2025

  



O andar de cima

Como se tivesse descoberto a pólvora, o governo anuncia, eufórico, o fim das desigualdades econômicas. Segundo a narrativa oficial, é um absurdo que trabalhadores paguem mais impostos do que os ricos. A solução “genial” seria taxar o andar de cima — termo pejorativo para designar os mais abastados — em benefício do andar de baixo, os pobres.


Ninguém dotado de um mínimo senso de justiça pode defender uma desigualdade tributária caso ela correspondesse à realidade. O problema é que essa comparação restringe-se apenas ao imposto sobre salários e dividendos. Não considera a carga de outras contribuições que incidem mais pesadamente sobre os que possuem patrimônio.


Do mesmo modo, ninguém com um mínimo de solidariedade consegue permanecer indiferente ao enorme contingente de brasileiros vivendo na pobreza. Além de entristecer, essa miséria cria um ambiente inseguro: é difícil manter a convivência pacífica quando se está cercado de pessoas carentes.


A fome dói — e a fome de um filho revolta. É essa revolta que torna tantos desamparados presa fácil de populistas que prosperam politicamente na existência da pobreza. Como não pretendem, nem têm competência para eliminar a miséria, desviam o foco da discussão: atribuem todos os males à desigualdade e semeiam o ressentimento. Inveja, afinal, é colheita certa de votos.


Nos países ricos, onde a desigualdade também existe, as classes menos favorecidas possuem condições de vida decentes. Em vez de invejar o rico, enxergam nele um modelo a ser alcançado. Assim, a sociedade inteira se mobiliza num mutirão silencioso para enriquecer — e o resultado coletivo é o aumento da riqueza nacional.


A ideia de taxar fortemente a riqueza não é nova. Foi tentada em vários países ( França, Dinamarca, Holanda ) e, sem exceção, todas as experiências fracassaram. Acabaram revogadas após a fuga de investidores e capitais. Mesmo assim, não faltam políticos “brilhantes” para redescobrir a pólvora.


No último dia 30 de novembro, os suíços rejeitaram de forma esmagadora — 78% dos votos — uma proposta de imposto sobre a riqueza, apresentada pelos social-democratas. Os críticos alertavam que a medida poderia provocar a saída de pessoas ricas, reduzindo a arrecadação. O próprio governo recomendou sua rejeição, lembrando que o país vive da estabilidade e da previsibilidade que oferece a quem investe e aloja seu patrimônio ali.


Frédéric Rochat, sócio do banco privado Lombard Odier, resumiu o resultado: prevaleceu o bom senso. Os suíços sabem que, mesmo sendo uma das nações mais prósperas do mundo, não podem abrir mão das fortunas que ajudam a sustentar seu padrão de vida. 


A lição é evidente: o dinheiro vai para onde é respeitado. E a história mostra que, onde se decide sobretaxar as fortunas, os andares de cima invariavelmente ficam vazios. Em um edificio só com andares de baixo a desigualdade fica menor, mas aumenta a pobreza.

São Paulo, 02 de dezembro de 2025

Jorge Wilson Simeira Jacob


sábado, 29 de novembro de 2025

 A política como teatro do absurdo


Qual o sentido da vida?


Nenhum.


O Teatro do Absurdo é uma expressão cunhada em 1961 pelo crítico húngaro radicado na Inglaterra, Martin Esslin (1918–2002), para reunir autores que, embora distintos em forma e estilo, partilhavam uma mesma inquietação: revelar, de maneira inesperada, a falta de sentido da experiência humana. Essas obras, frequentemente inspiradas no existencialismo, expõem um mundo em que a comunicação falha, o propósito evapora e o homem se confronta com o vazio.


Entre seus expoentes está Samuel Beckett, cuja famosa peça Esperando Godot apresenta um personagem que jamais aparece. Godot é o símbolo das expectativas humanas — aquelas figuras, promessas e esperanças que nunca se concretizam.


O impacto do Teatro do Absurdo reside na fidelidade com que espelha a nossa própria trajetória. A vida, afinal, não passa de uma encenação contínua. Quando crianças, brincamos de heróis ou vilões; inventamos mundos, medos e façanhas. Nada muda quando chegamos à vida adulta — apenas sofisticamos o jogo. Criamos empresas, disputamos posições, acumulamos ganhos e perdas, distribuímos prêmios e castigos. Mudam os objetos da fantasia, não a sua essência.


Se na vida privada é assim, na pública ainda mais. Os políticos representam papéis de estadistas, patriotas abnegados e defensores da moralidade — personagens cuidadosamente construídos para o palco da opinião pública.

A diferença é que o ator profissional declara-se ator; o político, não.


Ambos emocionam plateias crédulas, mas ao menos, no teatro, todos sabem que é ficção. Já na política, a ilusão veste o disfarce da realidade — e, por isso, engana mais inocentes que qualquer peça dramática.


Interrompa a fantasia de uma criança e ela reage com tristeza: vive a história com corpo e alma e não quer que lhe digam que tudo é um faz de conta.

Interrompa a fantasia de um adulto sobre seu político de estimação e a reação será pior: não apenas tristeza, mas revolta. Em vez de agradecer o alerta, revolta-se contra quem tenta despertá-lo. Apega-se ainda mais ao personagem que o ilude.


É da natureza humana cultivar as ilusões. Gostamos de alimentar os sonhos que nos enganam.


São esses iludidos os que continuam esperando seu Godot político — figura imaginária que nunca chega, mas cuja ausência alimenta uma esperança eterna.

E assim a política se converte no teatro do absurdo em escala nacional, uma brincadeira de adultos que teimam em levar a fantasia até as últimas consequências.


Qual é o sentido da política?

Talvez o mesmo sentido da vida no teatro do absurdo: manter a ilusão em cena pelo maior tempo possível.

São Paulo, 22 de novembro de 2025.

Jorge Wilson Simeira Jacob 








sábado, 22 de novembro de 2025

 Patriotismo não é licença para censura.

O recente episódio do ministro alemão comparando pejorativamente Belem do Pará com a Alemanha causou um alvoroço, um mal estar nacional. 


Ninguém pode obrigar um estranho a ter  sentimentos de aprovação ao nosso rincão e nem à nossa cultura. Isto seria uma violência à natureza humana. 


Como também não podemos  impedir, ainda que com uma censura informal, que as opiniões contrárias às nossas sejam vocalizadas. Mesmo sendo inoportunas como foram.


Certamente o ministro alemão foi indelicado com os seus anfitriões, poderia por diplomacia ter reservado a sua critica a seus círculos íntimos.


A reação das autoridades brasileiras, com o mesmo direito à liberdade de expressão, perderam uma oportunidade de reagir diplomaticamente, ao invés de passar o recibo de uma grosseria com outra.


A indignação não contribui para defender a imagem de uma nação que se apresenta como civilizada. Ao contrário a fuga da racionalidade põe a descoberto um primitivo bairrismo.


O bairrismo  — esse apego forte, às vezes irracional, ao lugar onde nascemos ou vivemos — é um fenômeno profundamente humano. Fazemos do  lugar onde nascemos um espelho de quem somos


O ser humano precisa de um ponto de referência para construir sua identidade. O bairro, a cidade ou a terra natal oferecem, na cultura comum, memórias afetivas um sentimento de “nós”, que reforça a noção de pertencimento.

 Criticar o lugar que amamos soa como crítica pessoal, uma ofensa. É um ataque  que usualmente é  rebatido com a emoção, pois é visto como uma  ameaça ao lugar que nos deu segurança ao longo da vida.

O  bairrismo é, em parte, essa antiga lógica tribal projetada sobre espaços modernos. O local vira símbolo de um paraíso emocional — que queremos proteger.


A devoção aos valores de um bairro, cidade ou região raramente nasce de um juízo racional sobre se são bons ou ruins.

Na verdade, nasce de:


  • hábito
  • tradição
  • desejo de pertencimento
  • medo da dissolução da própria identidade

A pessoa sente que, se criticar os valores do lugar, estará perdendo parte de si mesma.

Por isso o sentimento pode ser tão forte quanto fé religiosa: ele toca na essência simbólica do indivíduo.

O infeliz comentário do ministro alemão, em vez de ser aceito como uma opinião entre tantas, é visto como ofensa pessoal. 

Se aceita com racionalidade, o ministro provocaria uma análise crítica e as mazelas, que sempre existem, mereceriam correções para serem melhor avaliadas em outras oportunidades. Com emoção, reforça um falso patriotismo.

São Paulo,22 de novembro de 2025.

Jorge Wilson Simeira Jacob