sábado, 5 de abril de 2025

 


The party’s over


Caim matando Abel deu início ao uso da violência para conquista de poder e riqueza. Desde então, o uso da força bruta tem sido um instrumento do mais forte para subjugar os mais fracos. As guerras, que têm sido travadas incessantemente entre as nações, é uma sequência do abandono da diplomacia e a adoção  da força pelas nações para atingir os seus objetivos.


Uma mudança radical, na disputa pelo poder, aconteceu por influência da publicação do livro do professor universitário, Joseph Nye, da qual o mundo adotou a expressão  Soft power . O termo foi usado pela primeira vez no final dos anos 1980. Ele desenvolveu o conceito em seu livro de 2004, Soft Power: The Means to Success in World Politics (em português, "Soft Power: Os meios para o sucesso na política mundial").


Soft power é a capacidade de um país influenciar as decisões e comportamentos de outros atores internacionais não por coerção ou pagamento, mas através da atração e persuasão, utilizando recursos culturais, valores ideológicos, políticas externas e a projeção de uma imagem positiva. Segundo Nye: “ Se você conseguir atrair os outros, de modo que queiram o que você quer, vai ter que gastar muito menos em cenouras e porretes."


O Vaticano não tem poder militar, mas usando e abusando do Soft power, tem a sua voz ouvida e muitas vezes acatada.Não só a igreja católica colhe  resultados desta política como, influenciada por ela, o mundo beneficiou-se dela na   Guerra Fria entre URSS e USA. O resultado palpável foi a  Pax Americana, que está sendo ameaçada pelo governo  Trump com a volta ao Hard power, o antigo Big Stick.







Os maus resultados da retomada do Hardware power  não estão ainda visíveis. Ainda  já estão  surgindo alguns  sinais: uma guerra comercial de final imprevisível; um desencadeamento de um boicote ás empresas e produtos americanos; a perda de aliados incondicionais como Grã Bretanha, Canadá, Dinamarca,  Europa e a perda pelos Estados Unidos de um  goodwill acumulado em muitos anos. Sem falar no desarranjo no mercado americano da cadeia produtiva e distributiva.


Os Estados Unidos estão regredindo ao isolacionismo dos tempos do Presidente  Wilson. Os americanos só adquiriram a hegemonia mundial depois de terem se envolvido na Segunda Guerra Mundial substituindo a Grã Bretanha como responsável pela ordem mundial.


Como todas as moedas têm dois lados, também a mudança política do Trump terá alguns  bons resultados  como: despertar a Europa para assumir a responsabilidade pela sua defesa; a imperiosidade da redução dos déficits públicos, que ameaçam as economias mundiais, inclusive a americana; a racionalização do Welfare State que alimentou a nociva agenda Woke com os desvirtuamento do DEI ( descriminação, equidade e inclusão)


Trump, na conhecida expressão em inglês, é um disruptor. Um agente que revoluciona os princípios institucionais. O projeto Doge, sob Elon Musk, outro disruptor, se bem sucedido, pode livrar o mundo de uma grande ameaça: a falência da economia americana com o seu insustentável déficit público de  1 trilhão de dólares e uma dívida pública de 36 trilhões de dólares.


Pouco se fala da catástrofe mundial, a continuar o alto custo da máquina governamental dos Estados Unidos. A perda da confiança na economia americana, que já está acontecendo com: a fuga do dólar como moeda de reserva dos países, que estão trocando os títulos do tesouro americano por ouro ou moedas digitais; no rebaixamento pelas agências de rating  de triple  AA A para doble AA; no fim do acordo do Petrodólar com a Arábia Saudita…


Como consequência, a  ação disruptiva de Trump forçará as economias mundiais a acordar para a realidade. O atual sistema do Deep Government  chegou ao fim. O Hard power exigirá uma volta ao governo enxuto, racionalização do Wellfare State  e a adequação à realidade das pretensões da agenda Woke. 


Assim como as pessoa sérias, os países vão ter de reaprender de que só o trabalho árduo, a poupança e o investimento geram  recursos para pagar as contas.  A hora da verdade está apresentando a sua. O tempo de malabarismos financeiros acabou.  E o Hard power ( Big Stick ) de Trump a fará de maneira bruta e cruel, pois este é o seu método e  o tesouro americano exige ajustes, está esgotado.


The Party’s over. A festa acabou.


São Paulo, 24 de março de 2025.

Jorge Wilson Simeira Jacob



















sábado, 29 de março de 2025

 O Milagre Argentino


Como ser humano, com suficiente autocrítica, tenho consciência das minhas imperfeições. Algumas delas consigo amenizar outras não tanto. Entre as  imperfeições  só uma virtude sobreviveu: a ausência do sentimento de inveja.


Ao notar uma virtude ou qualidade em alguém a minha reação nunca foi de inveja, mas de admiração. Aquilo que não consigo ter ou fazer,  por limitações mentais ou físicas, provoca em mim respeito por quem consegue. Sou um entusiasta do sucesso alheio. Sei que as suas contribuições fazem o mundo melhor.


Nunca fui tentado a  disputas de  aparência pessoal, de  inteligências superiores, de cultura enciclopédica, e, menos ainda, da posse  bens materiais. Os  símbolos de status — carros de luxo, recantos de milionários,  objetos de grife — vejo  como as penas de um pavão. Embeleza, mas só engalana o próprio.




Sempre, mesmo quando era  pobre e agora pertencendo à classe media, nunca senti-me diminuído  na minha alta estima ao saber  o que outros têm a mais. Acima de tudo fui inoculado com a vacina que estimula o  respeito ao mérito alheio. Nunca quis nada que não fosse fruto do meu esforço.


Ademais, tenho como ideia de que ser rico não é a posse de muito, mas a satisfação com o que se tem. Esta predisposição é a razão da minha felicidade.


Em leitura que influenciou o meu desprendimento  está o livro do economista e sociólogo americano, Thorstein Veblen ( 1857/1929 ), um  clássico da economia social — A Teoria da Classe Ociosa. A sua tese do consumo conspícuo é uma crítica ao consumismo e à ostentação. Veblen fez uma análise da relação entre a classe social e o comportamento humano, que fez deste uma referencia.



Na minha longa existência, como todos,  tive que fazer escolhas. Uma delas foi optar entre duas alternativas: Ter ou Ser. Escolhi aquela mais compatível com as minhas crenças e natureza. 


Constatei na minha vivencia que os que escolhem Ter como objetivo de vida,  por mais que tenham, nunca se satisfazem. A ambição, quando se instala em um indivíduo, não conhece limites. 


Ao contrario, os que têm como desejo Ser, se conseguem o próprio respeito, não sofrem de frustrações. Cada um é um ser  especial e único. Dai a causa da  ausência de inveja.


A minha decantada ausência da inveja,  este meu ultimo bastião de virtude acaba de cair. Fui vencido, estou  tomado deste sentimento. Em vez de evoluir, estou como ser humano involuindo. E o pior é que estou gostando de ser invejoso.


A causa da minha queda no pecado da inveja é a Argentina. Se antes o nosso sentimento com relação aos argentinos era de inconformismo com a degradação econômica daquela que esteve entre as  mais ricas nações do mundo, daquela que surgia em nossa mente como uma possibilidade que  ameaçaria o  nosso futuro, hoje, é de inveja e admiração. 


Tenho inveja do futuro que espera aquele país com o abandono das equivocadas politicas dos peronistas. Não por menos fala-se no Milagre Argentino depois dos resultados   da gestão competente do presidente Javier Millei, neste um ano e pouco.


Com razão,  Millei recusa a adjetivação dos seus excelentes resultados — considerados impossíveis— como um milagre. Diz ele: “ não é milagre, mas simplesmente seguir as boas medidas que ja provaram dar certo”.


Realmente, milagre é efeito sem causa. No caso do atual governo argentino a causa das causas é a sua devoção à liberdade. Em clima de liberdade a sociedade faz milagres. Esta é a causa do sucesso de Millei.


Não só pelo que realizou neste ano de governo, mas como inspirador à nível internacional do respeito aos direitos fundamentais do cidadão,  o seu declarado amor à liberdade e a  meta fazer da Argentina o pais mais livre do mundo, é de fazer inveja até para alguém , como eu,  que nunca invejou ninguém.


Sao Paulo, 15 de marco de 2025

Jorge Wilson Simeira Jacob







sábado, 22 de março de 2025

 Votando com os pés.


Há situações que não deixam margem para dúvidas: preto e branco, calor tórrido e frio extremo, nudez total e traje à rigor e assim vai. As que deixam dúvidas são as intermediárias. Referindo-se  às cores temos  uma  diversidade de tons; à temperatura e aos trajes temos também inúmeras variações…


Na definição política temos as situações bem definidas, ainda que tenham nuances, como: comunismo e capitalismo. Como também temos nuances mais ou menos fortes destas correntes de pensamento. Como no caso do Brasil, que é meio socialista.


O comunismo refere-se à supressão total e absoluta da propriedade. Tudo pertence ao Estado e todos delegam a ele a  liberdade individual e inexistência do livre arbítrio. O Estado ( burocracia) é quem decide da  felicidade dos cidadãos. No capitalismo, a propriedade, a liberdade e a escolha da felicidade dependem do próprio arbítrio pessoal. Estes são considerados “direitos fundamentais “.


Na democracia liberal, que é o extremo oposto do comunismo, os governantes são escolhidos pelo votos em eleições livres e honestas, que não admitem nuanças — são  ou não são. Nos regimes comunistas, o cidadão não escolhe os governantes. É submisso  à vontade do partido único ( nomenklatura - a turma que mama nas tetas do governo ) ou, se puder, emigra, que é votar com os pés. Caso dos cubanos, venezuelanos, no presente, e das vítimas da URSS, antes da queda do muro de Berlin, que sinalizou a falência do sistema comunista e a morte do marxismo.


O contraste entre a qualidade da preferência das pessoas fica evidenciada  na corrente migratória. Milhões fazem filas, enfrentam barreiras mil para viver nos Estados Unidos fugindo de Cuba, Venezuela e outros países socialistas. Em contrapartida ninguém faz fila para ir morar nos “paraísos socialistas”. Os de  lá, como não podem exercer os seus direitos fundamentais , votam com os pés. Triste é analisar as estatísticas e encontrar o Brasil, que acreditava-se seria o país do futuro, que deveria estar atraindo imigrantes, estar aumentando o voto com os pés. 


O número de brasileiros no exterior saltou de 1,9 milhão em 2012 para 4,2 milhões hoje. E o fenômeno tende a prosseguir: em 2018, 70 milhões afirmaram que deixariam o país se pudessem. De cada três brasileiros um perdeu a fé no país.


A quantidade de brasileiros que moram em países da Europa cresceu 29% entre 2020 e 2023 (dados mais recentes do Itamaraty), passando de 1,3 milhão para 1,6 milhão. Portugal, que tem sido o principal destino, viu sua comunidade brasileira praticamente dobrar… Crise econômica, instabilidade política e violência são os principais motivos para deixar o Brasil.


Um indivíduo só abandona o seu país, abre mão da sua cultura, em caso de absoluta desesperança, da perda da fé em dias melhores. O sofrimento do emigrante não dá para ser descrito com palavras: as perdas do convívio familiar, dos amigos, dos hábitos do dia a dia e, muito importante, a sua cultura comum. 


Um imigrante nunca tem o mesmo tratamento que recebe um local: as barreiras do idioma, o desconhecimento da história, as diferenças dos cacoetes sociais, os usos e costumes, são barreiras que apenam o imigrante.


A emigração é um investimento na segunda geração. A primeira pagará com heroísmo a ousadia de votar com os pés. Vejo isto na experiência de um  filho, formado em universidade americana, casado com uma cidadã americana, naturalizado como cidadão americano, que tem como idioma em casa e nos negócios o inglês, ainda que integrado na sociedade e exitoso nos negócios, testemunha que em muitas reuniões com os locais muitas vezes sente-se deslocado por não ter as histórias de infância dos atuais amigos e as diferenças culturais — sente-se um peixe fora d’água.


Conhecer a realidade de um emigrante é tomar consciência de não ser uma solução fácil abandonar a terra onde nascemos e vivemos boa parte da nossa vida. As alternativas são como a escolha entre o branco e o preto. Não há nuances. É a escolha de um sacrifício.


Ainda, por mais desesperançado que seja o nosso atual estado de desencanto com o Brasil, serve de alento olhar a Argentina, que destruída pelo peronismo, começa a refutar o socialismo populista e está  implantando um regime em que prevalecem os direitos fundamentais da democracia liberal. Os argentinos expatriados, recuperada a esperança, devem votar com os pés, no sentido inverso,  voltando para casa.


Oxalá chegará a vez dos nossos expatriados!


São Paulo, 15 de março de 2025.

Jorge Wilson Simeira Jacob






sábado, 15 de março de 2025

 Donald Trump, um troglodita.


Nunca o poderio dos americanos ficou tão evidente como neste início de governo do Presidente Trump. Todos sabiam ser os Estados Unidos a nação mais poderosa do mundo, mas não na dimensão agora demonstrada. Trump matou a cobra e mostrou o pau. Ele está colocando o mundo de joelhos aos seus pés. Nenhum país foi poupado, principalmente os seus aliados.


Mesmo que concordando com as razões levantadas por Trump como: sustentar a defesa da Europa sem uma adequada contrapartida dos europeus, que economizam na defesa para gastar no welfare state; como nas práticas mercantilistas, que se aproveitam da prática de livre comércio dos Estados Unidos; como na absurda Agenda Woke, que troca o mérito pela esmola; e principalmente pelos desperdícios e corrupção existente no Deep State, que Elon Musk quer racionalizar ( DOGE), não dá para ter empatia com ele.


O que o qualifica como um troglodita não são os fins, mas  os meios adotados para atingir os seus objetivos. Com Trump a diplomacia foi jogada na lata do lixo, como na lei da selva, onde dominavam os trogloditas em  que predominava  a força bruta.


A base da sua ação equivale a mesma tática usada pelos nazistas na invasão da França, na Segunda Guerra Mundial, que ficou denominada como a blitzkrieg. Esta estratégia que tem na sua essência chocar e surpreender,  tentando fazer o máximo em muitas frentes tão rapidamente para confundir e esmagar qualquer oposição pelo volume e velocidade e para tornar impossível aos inimigos reunir-se em resistência.


Hitler dopou com drogas as tropas na invasão da França para  ficassem excitadas e não parassem para descanso. Os franceses, surpreendidos e assustados pela violência e velocidade, não tiveram outra saída senão a rendição. 


Trump, em poucos dias, com uma instabilidade e desrespeito a qualquer nível de civilidade, ataca surpreendentemente os seus históricos aliados: Canadá, México, Dinamarca e Panamá. Além de ameaçar a China e muitos outros. Ao romper com a Pax Americana, Trump está isolando os Estados Unidos do mundo.


Quem não conserva os amigos, amplia o arco de potenciais inimigos. Estas são as sementes que Trump está semeando. Ninguém, nem os Estados Unidos, é tão poderoso que não pode precisar de alguém em algum tempo; assim como ninguém é tão insignificante que não pode ser útil em alguma circunstância.


No arsenal de armas de Trump está o uso do dólar e as tarifas sobre as importações. Tudo tão imprevisível, que o mundo foi pego de surpresa. As reações virão em termos econômicos e políticos. Com certeza, doravante, talvez não na mesma violência e velocidade do ataque, as nações, ao perder a confiança nos Estados Unidos, vão procurar não depender do dólar e nem das exportações para o mercado americano. A consequência é que o porto seguro  será não colocar todos ovos na cesta deles.


A Pax Americana corre perigo. A geopolítica foi colocada de ponta cabeça. Na crise de 1929, o craque, ao contrário do que muitos acreditam, foi motivada justamente pelo aumento das tarifas sobre importação, aumento das taxas de juros pelo Tesouro americano e inação do governo nas corridas aos depósitos dos bancos.


Será que o Trump, quebrando as cadeias globalizadas com barreiras tributárias estaria repetindo um erro do passado? Certamente  estará comprando inflação, que castigará o consumidor;  instabilidade, que dificulta a gestão empresarial;  e inibirá os investimentos.  Só o tempo dirá. A história registra que o mercantilismo, que é a ideia inspiradora do Trump, nunca deu bons resultados. 


O trogloditivismo do Trump nos remete, além de um mercantilismo superado, ao abandono do softpower, que substitui o hardpower dos tempos do Teodoro Roosevelt. Esta política — Big Stick Diplomacy — era baseada na teoria do uso da força . Existe um custo de longo prazo do risco conhecido do Beggar-thy-neighbor" — uma expressão que se refere a políticas que um país adota para beneficiar a sua economia, mas que prejudicam a economia de outros países. Uma política de trocas do tipo que aprofundou a Grande Depressão de 1929.


Trump está comportando-se como agente do caos, que usa da força extrema para tirar vantagens das outras nações. Abandonando o         soft-power, que deu ao mundo a Pax Americana, desde 1945,  e ao mundo uma admiração pelos americanos, poderá ter como resultado não  o esperado e nem desejado. 


Por oportuno, sugiro a releitura, neste jornal,  do  meu artigo, A Natureza Não Dá Saltos, de 25.01.25, que trata da tese da perversidade das mudanças sociais forçadas, que terminam mal  quando a ação do homem interfere na sua trajetória. Geralmente os resultados não correspondem às suas boas intenções. 


São Paulo, 06 de março de 2025.

Jorge Wilson Simeira Jacob