quarta-feira, 29 de outubro de 2025

 




Amor à ordem ou medo do caos?

A sociedade humana, vale a pena lembrar, nem sempre foi subordinada a um governo. A história, a antropologia e a arqueologia explicam, em linhas gerais, como a humanidade passou da vida selvagem para uma convivência civilizada.


A instituição do governo passou a ser desejada quando os excedentes de produção, que, gerando riqueza, fizeram surgir a propriedade privada e os grandes aglomerados humanos. Até então, os grupos reunidos por etnias desconheciam a propriedade privada e as classes sociais. As lideranças eram temporárias, sem Estado e sem leis escritas.


Com a revolução agrícola e a domesticação de animais, e com maior produção e fixação à terra, surgem os estoques e, portanto, a acumulação de capital. A população explode, porque mais comida significa mais gente.


As sementes da “civilização”.


Podemos destacar três correntes de pensamento que definem a condição de vida civilizada:


  1. Para Hobbes ( século XVII ) o estado de natureza é um estado de guerra de todos contra todos, onde vigora a lei do mais forte. O ser humano, movido por desejo e rivalidade, acaba produzindo violência contínua. Para escapar desse caos, os homens cedem sua liberdade e criam um soberano forte (o Estado), que imponha ordem.
  2. Para John Locke (século XVII), o governo é um guardião da propriedade e dos direitos naturais. Todo indivíduo tem direito natural à vida, à liberdade e à propriedade, mas, sem leis e sem juiz comum, esses direitos podem ser violados. O governo nasce do consentimento dos governados para proteger a propriedade, arbitrar conflitos e garantir justiça imparcial.
  3. Para Jean-Jacques Rousseau (século XVIII), o governo surge para corrigir desigualdades criadas pela civilização. Os conflitos surgem com a propriedade privada, que gera desigualdade, ciúme e conflito. A sociedade cria o governo para reorganizar a convivência em bases justas, buscando a vontade geral e o bem comum.


Conclusão geral


Embora discordem nas causas, os três concordam que o governo nasce porque a vida em sociedade gera conflitos que o indivíduo sozinho não consegue resolver. Assim, a transição do “selvagem” para o “civilizado” é movida por uma necessidade objetiva: garantir convivência estável, protegida e cooperativa.


Portanto, aceita a condição básica da legitimidade de um governo, ela depende da convivência pacífica entre os cidadãos, com a garantia dos direitos fundamentais: a vida, a liberdade e a propriedade privada.


Quando uma sociedade, como a brasileira, não tem no governo a garantia à vida — pois enfrenta o maior índice de crimes fatais do mundo —; da liberdade — pois a vida foi sufocada por uma burocracia que confisca a livre iniciativa —; e da propriedade privada — sujeita a uma proverbial insegurança jurídica, com confiscos, invasões e desapropriações —, está na hora de questionar a legitimidade do governo.


Governo, para que te quero?


Se não temos as condições de uma sociedade civilizada, se regredimos às da vida selvagem, com o narcotráfico infiltrado nas entranhas do país — uma verdadeira anarquia —, o governo não se justifica.


Nenhuma sociedade se submeteu a um governo por amor à ordem, mas por medo do caos. E é por causa do atual caos que o governo que temos não se justifica.


São Paulo, 29 de outubro de 2025

Jorge Wilson Simeira Jacob


terça-feira, 21 de outubro de 2025

 


 Uma troca: hiperinflação ou  hipertributacao? 

Um leitor e amigo, Roberto Konder Bornhausen — ex-presidente do Unibanco e da Febraban — enviou uma ponderação relevante sobre artigo anterior, observando que a inflação, antes do Plano Real, funcionava como um “imposto indireto” que não aparecia nas estatísticas de arrecadação. Sua observação não só procede, como reforça o diagnóstico central: o Plano Real não reduziu o tamanho do Estado brasileiro, que  lembra não ter sido o objetivo do Plano. Apenas pretendia  a forma de financiá-lo.


Antes de 1994, o governo compunha suas contas com duas fontes principais: (1) impostos diretos e (2) imposto inflacionário, obtido pela desvalorização contínua da moeda. O Plano Real eliminou o segundo mecanismo — mérito histórico inquestionável — mas compensou essa perda ampliando a carga tributária direta. O gasto público permaneceu estruturalmente intacto.


A lição elementar de Milton Friedman ajuda a iluminar esse ponto: “o governo não custa o que arrecada, mas o que gasta.” O Brasil, ao estabilizar preços, não estabilizou o Estado. Continuamos a financiar o mesmo custo, só que agora por meios mais explícitos e economicamente mais onerosos para o setor produtivo.


O resultado é conhecido. A carga tributária brasileira avançou para patamares próximos de 33% do PIB, enquanto o gasto público manteve trajetória ascendente. A consequência macroeconômica foi a compressão crônica do investimento e da produtividade. O país estabilizou a moeda, mas não conseguiu crescer.


Os dados do FMI ilustram o retrocesso. Em 1980, a renda per capita brasileira era de cerca de US$ 2.400 correntes (US$ 10.600 em PPC). Em 2024, alcança aproximadamente US$ 10.400 correntes, porém apenas US$ 16.200 em PPC. Em termos nominais houve avanço; em poder de compra — o indicador relevante para medir bem-estar — trata-se de um crescimento pífio para mais de quatro décadas. Nesse período, o cidadão brasileiro se afastou dos países desenvolvidos, em vez de se aproximar deles.

Os efeitos veem se acentuando, pois desde  2013 a tendência está piorando, como mostra o estudo  do FMI, citado no meu artigo Brasil Rico, Brasileiro Pobre: “ Naquele ano, o PIB per capita em PPC era de US$ 19.169; em 2024, chegou a apenas US$ 19.594 — quase estagnação em mais de uma década, período em que outros países cresceram, abriram mercados e atraíram capital”.



A comparação internacional reforça o contraste. Países que enfrentaram crises fiscais por meio da redução do gasto e reforma do Estado — como Canadá nos anos 1990 ou Suécia após 1993 — retomaram o crescimento. A Argentina atual tenta trilhar caminho semelhante: primeiro equilibrar o orçamento, depois reconstruir a expectativa de crescimento. Ainda é cedo para conclusões, e o exemplo deve ser citado com cautela, mas o contraste filosófico é nítido: equilibrar cortando gastos, e não elevando tributos.


O Plano Real merece respeito histórico pelo que entregou: estabilidade monetária. Mas não merece um Nobel de Economia. Ao estabilizar o instrumento (a moeda) sem reformar a causa estrutural (o Estado), produziu paz nominal e estagnação real. A vitória foi parcial — e o preço, alto.


O Brasil pagou a hiperinflação. Hoje paga a hipertributação.

São Paulo, 19 de outubro de 2025.

Jorge Wilson Simeira Jacob

terça-feira, 14 de outubro de 2025

 


A Volta ao Paraíso na Terra


A física nos ensina que o mundo gira, roda e, inevitavelmente, volta ao mesmo lugar. A história está repleta de casos em que, mesmo após longos períodos de evolução, as situações terminam como começaram.


Quem lê a Bíblia sabe que o mundo começou no Éden, com Adão e Eva como os primeiros humanos a viver nesse paraíso. Desde então o ser humano está girando, rodando antes de voltar ao ponto de partida.

A vida de Adão e Eva era de fartura e lazer. Tudo lhes estava disponível gratuitamente. Não precisavam suar a testa nem se preocupar com trabalho. Era o mundo do “free lunch”, hoje tão cobiçado.


A única limitação imposta pelo Criador era não comer a fruta da árvore do bem e do mal — tentação que, infelizmente, sucumbiram diante da serpente.


O pecado original marcou o fim do paraíso na Terra. Expulsos sob a ira do Criador, receberam a maldição de ganhar o pão nosso de cada dia com o suor da testa.


Desde então, o free lunch deixou de existir. Se alguém usufrui de um bem, outro está pagando por ele, muitas vezes sem saber.


O Criador, porém, subestimou a inteligência humana. As condições de vida — trabalho árduo, fome, doenças , insegurança e tantas outras consequências da maldição divina — despertaram nos humanos a nostalgia do paraíso.


O free lunch tornou-se uma obsessão, e políticos, sempre atentos à popularidade, usam e abusam dessa moderna descoberta que foi o “Estado de bem-estar social”.


O Estado, confrontando  a vontade do Criador, promete reduzir as injustiças e devolver uma vida próxima à paradisíaca. Suar a testa, pagar pelos bens desejados, abster-se do fruto proibido — tudo isso começa a deixar de fazer parte de nossa cultura.


Os políticos descartam os valores do passado e, por isso, são recompensados nas urnas. Cada benefício concedido gera votos; cada eleição precede uma enxurrada de privilégios para os eleitores. E assim caminha a humanidade para completar  o ciclo e retornar aos valores iniciais do paraíso.


O dia desse retorno está próximo. O free lunch só cresce: o trabalho presencial e o home office caminham para quatro dias por semana; transporte grátis, vale-refeição, farmácia popular, assistência médica pelo SUS, aposentadoria, justiça gratuita, preservativos, absorventes, Bolsa Família… tudo converge para a dominância do bem estar social.


Como o mundo gira e roda, voltando sempre ao mesmo ponto, tudo indica que a humanidade também retornará ao ponto inicial: o paraíso na Terra.


Certamente o Criador observará surpreso a engenhosidade de nossos políticos, que  nos livram da Sua maldição. Não mais teremos que suar a testa para ganhar o pão que o diabo amassou. E, acima de todas as conquistas do free lunch, seremos premiados com a liberação total e irrestrita do consumo do fruto da árvore do bem e do mal.

No retorno ao paraíso, a maçã será a melhor parte do free lunch.


São Paulo, 10 de outubro de 2025

Jorge Wilson Simeira Jacob


quarta-feira, 8 de outubro de 2025

 





Histórico das Hiperinflações no mundo


É da natureza: todos os corpos e sistemas têm seus inimigos. O ferro é corroído pela  ferrugem, os animais sofrem doenças, e o dinheiro enfrenta a inflação.


Na história recente, em vários países, o dinheiro foi desvalorizado a níveis extremos. A inflação, como uma verdadeira “doença social”, corrói toda a estrutura de uma nação: política, econômica e socialmente.


Lenin já dizia que, para enfraquecer um inimigo, bastava aviltar sua moeda. Muitos governos seguiram esse caminho, promovendo gastanças incontroláveis e orçamentos deficitários.


O combate à inflação dividiu escolas de pensamento. Duas se destacam: a ortodoxa e a heterodoxa.


  • Heterodoxos: atribuíam a inflação à ganância dos agentes econômicos, aos aumentos arbitrários de preços e à inércia inflacionária — o hábito de reajustar hoje porque ontem já se reajustou.
  • Ortodoxos: defendiam que a raiz do problema estava nos déficits governamentais e na emissão excessiva de moeda, embora sem ignorar choques ocasionais de oferta.



Milton Friedman, com sua clareza única, pôs o ovo em pé: “a inflação é sempre e em qualquer lugar um fenômeno monetário”. Sua metáfora era simples e precisa — corte a emissão de moeda e a inflação desaparece. É como fechar as comportas: a inundação cessa.


Essas ideias foram testadas no Brasil. Todos os  experimentos heterodoxos fracassaram retumbantemente: congelamento de preços, trocas de moeda, confisco de depósitos bancários e artifícios de indexação. Tudo isso apenas desmoralizou governos e arruinou famílias e empresas.


A hiperinflação brasileira só foi vencida com o Plano Real. O êxito veio da combinação entre a URV, que quebrou a inércia inflacionária, e o ajuste fiscal, que reduziu a necessidade de emissão monetária. O aumento de impostos ( ver dados no rodapé ) —  equivalente a cerca de 5% do PIB — foi o pilar para equilibrar as contas públicas. Não houve mágica: houve disciplina fiscal, a URV foi um coadjuvante da causa principal - a troca da emissão de moeda por aumento da arrecadação.


Na Argentina, sob o comando do presidente Javier Milei, o enfrentamento da hiperinflação seguiu um caminho distinto. Optou-se por um ajuste ortodoxo radical: busca de superávit primário com corte de gastos, disciplina monetária, redução de impostos e respeito a contratos. Em poucos meses, a inflação caiu drasticamente.

 Diferentemente do Brasil de 1994, Milei evitou calotes, congelamentos ou confiscos, preservando direitos e estimulando a competitividade. Diferente do Plano Real, Milei deixou a inércia inflacionária morrer de anemia. 


Ao eliminar a emissão descontrolada, a causa primária do desajuste monetário, também se destrói a causa secundária: a inércia inflacionária. Por isso, a experiência argentina pode deixar a economia estruturalmente mais competitiva do que a brasileira, que herdou do Plano Real uma carga tributária sufocante e decréscimo da renda per capita.


A lição permanece clara: Milton Friedman tinha razão. A inflação é, antes de tudo, um fenômeno monetário. As demais explicações são apenas manifestações secundárias.


O Plano Real foi eficaz, mas não genial: venceu a inflação porque cortou a emissão via ajuste fiscal pesado. Sem o fim a emissão de moeda, a URV , por si só, seria outro fracasso heterodoxo. 

O Plano Milei, se consolidado, pode mostrar que a culpa da inflação é dos gastos do governo e a vítima, a sociedade.

São Paulo, 01 de outubro de 2025.

Jorge Wilson Simeira Jacob



Nota de rodapé  

 Este gráfico mostra a evolução da carga tributária brasileira (% do PIB) de 1990 a 1996. Dá para ver claramente o salto em 1994–1995, quando o Plano Real entrou em vigor: de cerca de 25% para quase 30% do PIB, o que corresponde a um aumento de aproximadamente 5 pontos percentuais do PIB em poucos anos.



domingo, 5 de outubro de 2025

 


Brasil rico, brasileiro pobre



O recente estudo do FMI (Fundo Monetário Internacional) é abrangente e esclarecedor. Mostra, com números, o empobrecimento dos brasileiros e as causas desse resultado.

Pela importância dessa análise, transcrevo o texto em sua íntegra. Meu desejo é que meus compatriotas compreendam as ameaças que rondam o nosso futuro.


Os fatos relatados desmontam narrativas que vêm iludindo eleitores. Revelam que, ao repetir os erros de países vítimas do populismo — como Argentina, Venezuela e Cuba —, estamos condenados a colher os mesmos resultados.


Leiam e reflitam!

Conheça o estudo do FMI que mostra o empobrecimento do brasileiro.





O empobrecimento brasileiro



O empobrecimento já não é previsão pessimista, mas fato comprovado por dados internacionais. Segundo o FMI, o Brasil caiu do 48º para o 87º lugar no ranking global de PIB per capita em paridade de poder de compra (PPC) entre 1980 e 2024. Essa queda aproxima o país da metade mais pobre do mundo e evidencia o fracasso de um modelo econômico guiado pelo imediatismo e pelo populismo fiscal.


Em termos absolutos, o PIB per capita até cresceu — de US$ 13,7 mil em 1980 para US$ 19,6 mil em 2024. Mas o desempenho relativo mostra que crescemos menos que nossos pares, enquanto o custo de vida avançou acima da média global. Resultado: perda de posição internacional e economia cada vez menos competitiva.





Projeções até 2030



O FMI prevê deterioração contínua. Caso nada mude, o Brasil poderá cair para o 89º lugar em 2030. A combinação de baixo crescimento, investimentos fracos, produtividade estagnada e inflação persistente empurra o país para a estagnação, enquanto outras economias emergentes avançam.


Desde 2013, pouco evoluímos. Naquele ano, o PIB per capita em PPC era de US$ 19.169; em 2024, chegou a apenas US$ 19.594 — quase estagnação em mais de uma década, período em que outros países cresceram, abriram mercados e atraíram capital.





As causas estruturais



O empobrecimento decorre de escolhas políticas e econômicas equivocadas. O gasto público excessivo e mal alocado não gera crescimento, mas inflação e carga tributária maior. Isso reduz o poder de compra das famílias e inibe a expansão das empresas.


Somam-se a isso a baixa qualidade da educação, o mercado de trabalho informal e o ambiente regulatório instável, que afastam investimentos de longo prazo. A produtividade segue parada, e a poupança interna — essencial para financiar o crescimento — permanece em níveis críticos.





Protecionismo, burocracia e ineficiência



O isolamento comercial agrava o problema. Em vez de se integrar às cadeias globais, o país ergue barreiras e sustenta setores ineficientes com subsídios. A economia torna-se menos dinâmica e inovadora. O uso político de estatais, os gastos fora do teto e o crédito direcionado ampliam as distorções.


As reformas estruturais — tributária, administrativa e educacional — continuam travadas. No lugar delas, surgem paliativos que favorecem grupos próximos ao poder e aumentam os custos de produção.





Um Brasil que escolheu empobrecer



Mais grave é que esse quadro parece tolerado pelos Três Poderes. O Executivo aposta em programas populistas; o Legislativo prioriza emendas; o Judiciário mantém aumentos e benefícios fiscais.


Enquanto isso, a população sente no bolso: o dinheiro compra menos, os serviços públicos pioraram e a mobilidade social encolhe. A degradação é lenta, mas constante.


A queda no ranking do FMI não é apenas estatística — é reflexo das escolhas de um país que resistiu às reformas, desperdiçou recursos e ignorou boas práticas de gestão econômica.




São Paulo, 22 de julho de 2025

Jorge Wilson Simeira Jacob